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Arte

L'Enfer et les sept péchés capitaux
 
 
A litografia intitulada L'Enfer et les sept péchés capitaux foi produzida no século XIX e nos mostra como alguns vestígios do passado podem ser encontrados em um contexto diverso ao de sua origem. As iniciais presentes no topo da litografia indicam cada pecado capital, que emolduram o relógio da eternidade. O diabo, localizado na parte central, ganha destaque nesta representação do inferno.
 
L'Enfer et les sept péchés capitaux
Século XIX

Artista não-identificado
Litografia colorizada
The Bridgeman Art Library –
Inglaterra
Origem da imagem:
www.
bridgeman.co.uk

em 17/04/2006.
 

Ao observarmos atentamente o vértice inferior da gravura encontramos a representação de um demônio, com corpo de dragão e cinco cabeças, possuindo um grupo de homens e mulheres. Os membros desordenados, cabeças tombadas e descontrole do corpo insinuando contorções e convulsões são expressões do que Laura de Mello e Souza chamou de um vocabulário corporal demoníaco. Estas características singulares da representação de possessões demoníacas estão presentes ao longo do tempo em obras de diversos artistas e identificam-se diretamente com uma crise epilética. Pode-se dizer que este vocabulário corporal associativo entre possessão e convulsão representa um desejo de ordenação da sociedade, seja ela regida pelos preceitos cristãos – como a sociedade medieval ocidental - ou pelos preceitos da racionalidade – como a sociedade do século XIX. Vale dizer que a ligação entre convulsão e possessão não pressupõe a idéia de que os homens acreditavam que a epilepsia era na verdade possessão, mas sim uma conseqüência direta dela. Creio que a doença, já identificada desde Hipócrates, foi relacionada ao demoníaco nas representações produzidas pela sociedade medieval tanto pela dramaticidade contida na expressão da convulsão quanto para suprir a necessidade desta ordenação. O caminho percorrido na tentativa de ordenamento e controle dos seus será a exclusão dos epiléticos. Entretanto, a maneira pela qual cada sociedade escolherá para atingir a este objetivo será diferente. No século XIX a sua exclusão se dará através do confinamento junto com aqueles considerados alienados, em construções que obedecem a um padrão minuciosamente estudado de acordo com os estudos científicos que eram os mais atuais. Este movimento de ordenação que toma caráter diferente ao longo do tempo não exclui a observação de Michel Foucault de que os valores e imagens aderidos a um doente e produzidos pela sociedade se mantêm mais ao longo do tempo do que a própria doença. Pelo contrário, a existência de uma litografia do século XIX que retrata a possessão demoníaca de acordo com um padrão estético identificado a convulsões reforça a persistência da imagem de uma epilepsia-possessão, ainda que em representações alegóricas. É o retrato do descontrole do corpo do doente, associado ao demoníaco, que reafirma o desconcerto da medicina perante a doença.

Texto de Mariana Lapagesse de Moura
Abril de 2006

 

Uma História Social da Epilepsia
no Pensamento Médico Brasileiro

História - PUC-Rio