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Ao observarmos atentamente o vértice
inferior da gravura encontramos a representação de
um demônio, com corpo de dragão e cinco cabeças,
possuindo um grupo de homens e mulheres. Os membros
desordenados, cabeças tombadas e descontrole do
corpo insinuando contorções e convulsões são
expressões do que Laura de Mello e Souza chamou de
um vocabulário corporal demoníaco. Estas
características singulares da representação de
possessões demoníacas estão presentes ao longo do
tempo em obras de diversos artistas e identificam-se
diretamente com uma crise epilética. Pode-se dizer
que este vocabulário corporal associativo entre
possessão e convulsão representa um desejo de
ordenação da sociedade, seja ela regida pelos
preceitos cristãos – como a sociedade medieval
ocidental - ou pelos preceitos da racionalidade –
como a sociedade do século XIX. Vale dizer que a
ligação entre convulsão e possessão não pressupõe a
idéia de que os homens acreditavam que a epilepsia
era na verdade possessão, mas sim uma conseqüência
direta dela. Creio que a doença, já identificada
desde Hipócrates, foi relacionada ao demoníaco nas
representações produzidas pela sociedade medieval
tanto pela dramaticidade contida na expressão da
convulsão quanto para suprir a necessidade desta
ordenação. O caminho percorrido na tentativa de
ordenamento e controle dos seus será a exclusão dos
epiléticos. Entretanto, a maneira pela qual cada
sociedade escolherá para atingir a este objetivo
será diferente. No século XIX a sua exclusão se dará
através do confinamento junto com aqueles
considerados alienados, em construções que obedecem
a um padrão minuciosamente estudado de acordo com os
estudos científicos que eram os mais atuais. Este
movimento de ordenação que toma caráter diferente ao
longo do tempo não exclui a observação de Michel
Foucault de que os valores e imagens aderidos a um
doente e produzidos pela sociedade se mantêm mais ao
longo do tempo do que a própria doença. Pelo
contrário, a existência de uma litografia do século
XIX que retrata a possessão demoníaca de acordo com
um padrão estético identificado a convulsões reforça
a persistência da imagem de uma epilepsia-possessão,
ainda que em representações alegóricas. É o retrato
do descontrole do corpo do doente, associado ao
demoníaco, que reafirma o desconcerto da medicina
perante a doença.
Texto de Mariana Lapagesse de
Moura
Abril de 2006
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