Em um dos painéis de azulejos do
Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, Portugal, vê-se
uma cena de cura milagrosa de um homem acometido por
uma crise de epilepsia.

Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra,
apesar de ter representado muito para a vida
religiosa de Portugal no passado, hoje é, sobretudo,
Patrimônio Nacional que remete à afirmação do poder
do rei Afonso Henriques. É ocupado majoritariamente
pela Câmara Municipal e é um dos principais pontos
turísticos da cidade de Coimbra, panteão nacional
por ali estarem enterrados os dois primeiros reis de
Portugal, Afonso Henriques e Sancho I.
A sua fundação se deu em finais do século XI e
início do XII, em um momento de busca de retorno às
raízes evangélicas. Seus fundadores, entre eles D.
Telo e São Teotônio, são as grandes figuras do
momento fundacional.
O mosteiro destacou-se ao longo do tempo no plano da
cultura: de lá saíram grandes nomes da ciência e das
artes, foi centro de destaque de muitos arquitetos e
artistas da escola Coimbrã. Lá estudou Fernando
Martins de Bulhões, o futuro
Santo António de Lisboa, ou de Pádua. Outro
papel que o mosteiro assumiu foi o de defesa. Foi
construído como uma fortaleza em tempos de incursões
árabes e resistiu a algumas delas com sucesso.
Inicialmente uma construção em estilo românico, no
século XVI a Igreja do mosteiro passou por diversas
reformas, e inclusive ganhou uma nova fachada, que
aparece na fotografia abaixo com cor e estilo
diferentes da construção em pedra num tom mais
escuro. A reforma foi feita por Diogo Boitaca e sua
equipe.

A nave principal
da Igreja é parcialmente revestida de azulejos que
datam do século XVIII e que representam, do lado
esquerdo de quem olha para o altar, passagens da
Bíblia e, do direito, episódios da vida de Santo
Agostinho. No lado esquerdo, próximo à porta de
entrada, podemos ver um painel em azulejo que
provavelmente representa a passagem cujo título é “A
verdadeira Cruz de Cristo opera uma cura
miraculosa”. Essa passagem é indicada como uma das
que aparecem nos painéis de azulejos de acordo com o
livro Santa Cruz de Coimbra – Arte e História,
escrito pelo Padre Dr. José Bento Vieira.
O painel destacado aqui parece representar a cura
milagrosa de uma crise. Nele um homem com vestes
reais aparece rezando em frente a um altar com uma
cruz, cercado por crianças e outras pessoas que
acompanham a oração.

Do outro lado da
cruz, vários homens se aglomeram, com as mãos e os
olhos em postura de oração. No canto da imagem,
estão dois homens, para quem os outros voltam as
costas e a quem não prestam atenção. Um deles está
caído no chão, com os pés e mãos em posição
descontrolada e tensa. O rosto desse homem está
desfigurado, ao contrário de todos os outros
representados no painel, que têm expressões
tranquilas. Seus cabelos são os únicos desgrenhados.

O outro homem, que
o acompanha, o segura, apoiando-o para evitar uma
queda. A posição da sua mão direita e a de seu pé
esquerdo mostram que ele faz força para auxiliar o
homem em crise. Ainda outro elemento da figura é
importante: sobre os dois homens é possível ver
cinco diabos, que parecem sair de trás deles.

Essa imagem
apresenta fortíssimos indícios de que o homem caído
é vítima de uma crise de epilepsia. Pela posição das
mãos e dos pés, pelo rosto contorcido, pelo apoio
que o outro lhe presta e pela relação com a
demonização, constantemente representada no
imaginário da época com relação a essa síndrome,
acreditamos que a imagem desse painel de azulejos
represente uma pessoa com crise de epilepsia.
(Ver: MOURA, Mariana Lapagesse.
Danação
dos homens, Salvação da sociedade: epilepsia
e exclusão social no Brasil da segunda metade do
século XIX. Orientadora: Profª Margarida de Souza
Neves. Departamento de História. Junho de 2007)
A construção e o
desenvolvimento do Mosteiro da Santa Cruz de Coimbra
estão ligadas a São Teotônio, e muitas passagens de
sua vida estão representadas em outras partes do
Mosteiro. Há registros da fama desse homem como
exorcista poderoso. Diz a tradição que tinha o poder
de afastar o demônio do corpo das pessoas. Muitas
vezes era feita uma relação entre a epilepsia e a
possessão demoníaca, de tal forma que a doença era
confundida com a possessão.
No painel de azulejos do Mosteiro de Santa Cruz de
Coimbra, a crise de epilepsia é representada com os
mesmos elementos tantas vezes identificados em
outras representações iconográficas e, deles, não
estão ausentes os traços fortes do estigma.
Aline dell’Orto Carvalho
Fotos de Aline dell’Orto Carvalho e Phelipe Augusto
do Amaral
Fevereiro de 2009