Resenha publicada na revista
História, Ciências, Saúde – Manguinhos
Rio de Janeiro: FIOCRUZ, v. 11, n. 2, 2004. p. 441- 444
A história da saúde e da doença no Brasil desenvolveu-se nas
últimas décadas como uma das realidades mais promissoras no
âmbito específico da História das Ciências e na perspectiva
mais ampla constituída pela historiografia brasileira, que
representa hoje um campo de pesquisas históricas de perfil
interdisciplinar conformado por Programas de Pós Graduação
consolidados e produtivos; por grupos de pesquisa de grande
competência; por pesquisadores reconhecidos nacional e
internacionalmente e por jovens pesquisadores interessados
nesse microcosmo da história e da cultura. Livros e
periódicos especializados reafirmam a riqueza da produção
desses grupos e pesquisadores individuais, enquanto um
número representativo de teses e dissertações na área das
ciências sociais em geral e da história em particular
apontam para a vitalidade dessa área de especialização.
O livro da professora do Departamento de História da UFMG
Betânia Gonçalves Figueiredo intitulado A arte de curar.
Cirurgiões, médicos, boticários e curandeiros no século XIX
em Minas Gerais inscreve-se nessa linhagem de estudos
inovadores que vincula a história da saúde e da doença ao
complexo universo da história da cultura e da sociedade,
distinguindo-se assim de uma produção sem dúvida valiosa,
mas definida por uma perspectiva intra-disciplinar, e que,
até a década de 1970, parecia dar prioridade ao que era
visto como a
evolução de cada campo científico específico, às
conquistas de instituições e de cientistas
brasileiros, ou a temas científicos bem precisos e nos
quais a perspectiva histórica residia, sobretudo, na
temporalidade cronológica pretérita que delimitava as
questões tratadas.
A arte de curar inova ao explorar o universo plural e
aparentemente contraditório dos agentes sociais envolvidos
naquilo que a autora denomina de “ofícios a serviço da
cura” (p. 139) na Província das Minas Gerais do século
XIX, distante e distinta dos centros de formação acadêmica
dos médicos que se diplomavam nas Escolas Médicas do Rio de
Janeiro e da Bahia.
Não são poucas as surpresas que aguardam os leitores.
A primeira delas está reservada àqueles mais atentos à
natureza do texto, originalmente uma tese de doutorado em
Sociologia defendida na USP em 1998 e orientada pela
professora Maria Célia Paoli, que é também a responsável
pelo Prefácio do livro. Para esses leitores, a
primeira e grata surpresa é a extensão e a densidade da
pesquisa empírica, que privilegiou a produção
memorialística, analisou um número impressionante de jornais
mineiros e soube, simultaneamente, garimpar preciosidades ao
analisar com competência as águas nem sempre cristalinas da
massa documental pesquisada e burilar com sensibilidade o
resultado do trabalho paciente de pesquisa, traduzindo-o em
um texto orgânico e bem escrito. O aproveitamento
feito do livro de memórias de Alice Dayrell Caldeira Brant,
que assina como Helena Morley o livro Minha vida de
menina. Cadernos de uma menina provinciana nos fins do
século XIXI, é um bom exemplo da sensibilidade e da
competência da autora, e esse exemplo pontual poderia
multiplicar-se se aplicado à leitura cuidadosa dos anúncios
de farmácias e serviços médicos nos jornais, à atenção aos
detalhes dos relatos de viajantes e das memórias de médicos,
e, de uma maneira geral, a todo o trabalho com a
documentação primária.
Nesses tempos em que os Programas de Pós
Graduação sofrem um processo de taylorização e
passaram a assemelhar-se a linhas de montagem de teses e
dissertações, a pressão do calendário das agências de
fomento não poucas vezes atropela o tempo necessário para a
maturação intelectual de uma tese de doutoramento, e, o que
é igualmente grave, vem dificultando o prazer da conquista e
do exercício da autonomia científica por parte dos
doutorandos, que passa a ser substituído pela angústia do
cumprimento dos prazos de titulação definidos por uma
burocracia nem sempre capaz de lidar com as diferenças de
áreas, de escopo de pesquisa ou mesmo de situações de
Programas e de pesquisadores.
Não é pouco
surpreendente, nesse contexto, um livro originado de uma
tese de doutorado e que traduza em um texto certamente
escrito com prazer – e, portanto, passível de ser lido nessa
mesma clave – a partir de uma pesquisa empírica muito ampla
e significativa. Somente os leitores muito atentos
saberão encontrar indícios da aceleração a que são
submetidos os doutorandos em pequenos detalhes, tais como
algumas repetições desnecessárias (p. 81, 155, 162, 176 ou
208, por exemplo) ou a referência truncada no item II da
bibliografia, destinado aos Dicionários, ao Dicionário
da Língua Portuguesa, de Antonio de Morais e Silva,
cuja segunda edição foi publicada em Lisboa em 1813,
essencial
para os estudiosos do século XIX. O dever
de ofício dos resenhistas supõe que se assinale essa pequena
falha, de fácil solução em uma futura reedição, e é quase
certo que nesse segundo item da Bibliografia estariam
originalmente incluídas outras obras de referência
consultadas pela autora, que no entanto não aparecem no
livro.
Uma segunda surpresa é o painel extremamente
rico composto pelas práticas de cura nas Gerais do século
XIX que o livro deixa perceber; a infinidade de
“procedimentos, técnicas e cuidados que buscavam o
restabelecimento do corpo doente” (p.23) que aponta; o
mosaico de doenças, remédios, espaços de cura, práticas
curativas e tabus relativos à saúde que desenha e o desfile
de personagens variados cuja atuação ligava-se diretamente
aos ofícios de curar e que o texto de Betânia Gonçalves
Figueiredo permite identificar.
Ao longo de todo o livro, e especialmente nos
capítulo 3 e 4, Betânia põe em cena uma multidão de
barbeiros, parteiras, curandeiros, cirurgiões, dentistas,
práticos, médicos, boticários, farmacêuticos, rezadoras, sem
esquecer de assinalar, a cada passo, as hierarquias
existentes entre essas categorias sócio- profissionais da
cura e mesmo no interior de cada uma delas. Ao mesmo
tempo, o livro aprofunda a relação desses homens e mulheres
cujo ofício é o alívio dos males do corpo com a sociedade
como um todo e com suas práticas de sociabilidade e de
exercício do poder, e introduz o leitor no universo de
medos, dores, perplexidades, crenças e desconfianças que
pavimentam o que o capítulo 1 do trabalho denomina de “os
percursos da cura no século XIX em Minas Gerais” (p. 39).
Em cada fragmento desse surpreendente
mosaico, a tese central vai se desenhando, para aparecer com
clareza no desenho final que o leitor perceberá ao chegar ao
final do livro. Não se trata apenas de assinalar que “o
discurso médico no século XIX não é homogêneo, assim como
sua prática também não”
(p. 24). Trata-se de rever as práticas
e procedimentos de cura no século XIX em Minas para
identificar, por um lado, o conflito entre a medicina
moderna e científica e as formas tradicionais, eminentemente
práticas e muitas vezes mágicas do exercício popular da
cura, mas também, por outro lado, para surpreender as
relações, superposições e interpenetrações entre a medicina
acadêmica e as práticas de cura construídas e
transmitidas pelo saber do povo.
A argumentação utilizada ao longo dos quatro capítulos é
consistente, e justamente por isso a história de Hermes
Augusto de Paula, o médico de Montes Claros cujo livro de
memórias ajudou a autora a confrontar e relacionar “a
medicina dos médicos e a outra medicina”, anunciada logo
no início do livro (p. 31) e narrada no final do quarto
capítulo (p. 224) é eloqüente e escapa ao episódico,
ganhando foros de fábula emblemática da tese defendida por
Betânia. O médico, depois do fracasso de dois colegas
seus, enfrentava procedimentos complicados para extrair uma
bala que se alojara em local de difícil acesso no rosto de
um fazendeiro local, manejando, com uma das mãos, os
instrumentos cirúrgicos e as radiografias conforme os
ensinamentos científicos que aprendera na Academia,
enquanto, com a outra mão, apelava para os serviços da alma
do negro Joaquim Nagô, prometendo-lhe uma Ave-Maria se este
o ajudasse. O fato é que a pinça da ciência extraiu
com sucesso o projétil do rosto do fazendeiro em minutos, o
que não impediu o médico de reconhecer a ajuda da alma do
outro mundo que convocara para assisti-lo, e a quem
recompensou rezando contrito não uma, mas três Ave-Marias.
Os episódios que confirmam a interpenetração entre o
universo da ciência médica e o da outra medicina se
multiplicam, e permitem ao leitor a percepção progressiva do
alcance do trabalho, que se desdobra e cresce a partir de
uma hipótese, esboçada já na introdução do livro, na qual a
autora afirma considerar que “o século XIX no Brasil
[pode] ser estudado como um século fundante, pedra inaugural
com um vetor em direção a um modelo de civilização”
(p. 30). Essa intuição inicial é aprofundada
através do diálogo teórico discreto, mas efetivo, com seus
principais interlocutores, representados por autores como
Norbert Elias, cuja leitura fornece a chave para a
compreensão da complexidade dos processos civilizatórios;
Michel De Certeau, de quem toma de empréstimo a noção de “pluralidade
incoerente (e por vezes contraditória) de determinações
relacionais” (p. 27) e Nestor Garcia Canclini –
que não aparece, no entanto, citado na bibliografia do
trabalho - , com quem aprendeu a importância de “explorar
esse universo do mundo cultural composto por variações e
hibridações” ( p 237).
A interlocução teórica confrontada com o universo oferecido
pela pesquisa empírica conduz a uma terceira e definitiva
surpresa: como todo historiador, Betânia Gonçalves
Figueiredo se debruça sobre o passado para refletir sobre as
questões do presente, e seu trabalho minucioso sobre as
profissões da cura no século XIX mineiro tem como horizonte
de sentido a indagação sobre o processo complexo, híbrido,
contraditório e ambíguo e sempre incompleto que caracteriza
a construção do moderno na sociedade brasileira.
O peso de sua argumentação certamente ajuda a pensar o
moderno como questão no campo científico brasileiro, ainda
que os exemplos contemporâneos aduzidos na conclusão e
representados pela experiência da Casa do Chá na cidade
mineira de Ouro Branco e da Farmácia Verde mantida pela
prefeitura de Ipatinga impliquem em um salto lógico que não
chega a acrescentar nada à tese defendida e pareça
afastar-se um pouco do rigor do raciocínio histórico que
permeia todo o trabalho, mas isso é apenas um detalhe e em
nada prejudica o valor do trabalho.
O problema maior, como tantas vezes ocorre com as
publicações veiculadas por pequenas editoras, é encontrar o
livro... A editora Vício de Leitura,
responsável por sua publicação, deve encontrar dificuldades
para furar o cerco das grandes editoras e de sua relação com
as livrarias e garantir assim a divulgação do trabalho de
Betânia. Desse problema, no entanto, nem a autora nem
a editora podem ser responsabilizadas.
O que é certo é que a busca pelo livro e sua leitura valem a
pena. A arte de curar de Betânia Gonçalves de
Figueiredo garantirá a seus leitores, além de horas de
leitura instigante e prazerosa, a grata experiência do
contato direto com um ótimo exemplo da produção de qualidade
originada nos Programas de Pós-Graduação brasileiros, a
descoberta do complexo mundo das artes e ofícios da cura nas
Gerais do século XIX e, por acréscimo, uma ocasião para a
reflexão sobre o intrincado processo de construção do
moderno no Brasil.
Referências bibliográficas:
Canclini, Nestor Garcia. Culturas
híbridas Estratégias para entrar e sair da
modernidade. São Paulo: EDUSP. 1997.
De Certeau, Michel. A Invenção do
Cotidiano. Petrópolis: Vozes. 1994.
Elias, Norbert. O processo
civilizador. Uma História de costumes. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar. 1990.
Morais e Silva, Antonio de. Dicionário da
Lingua Portuguesa, recopilado dos vocabulários impressos até
agora, segunda edição novamente emendada e muito
acrescentada. (2ª ed.) Lisboa: s.e. 1813.
Morley, Helena. Minha vida de
menina. Cadernos de uma menina provinciana nos fins do
século XIXI.
(17ª ed.) Rio de Janeiro: José Olympio.
1994.