CAPÍTULOS DE CAPISTRANO

Ilmar Rohloff de Mattos

TRANSOCEANISMO

Os navios estavam quase prontos para partir, no momento em que o inverno começava a chegar ao fim.

Fidalgos e plebeus, mercadores e religiosos, funcionários e soldados, navegadores famosos e marinheiros cujos nomes quase ninguém conhecia, degredados e grumetes - parecia que todos os cristãos do Reino de Portugal estavam nos navios que logo seguiriam pelo grande, silencioso e amedrontador Mar Oceano.

Ou quase todos. Porque alguns permaneciam em terra firme, cuidando dos preparativos das expedições. Eram ferreiros, carpinteiros, carapinas e inúmeros outros artesãos que, nos estaleiros navais e nas pequenas oficinas, construíam ou reparavam as embarcações; eram os joaquins, nunos, pedros e manuéis que se ocupavam do abastecimento dos navios, estocando água e vinho, biscoitos e carne salgada; eram cartógrafos, construtores de instrumentos náuticos e navegadores que estudavam cartas e mapas, traçando os roteiros a serem seguidos, nas idas e nos retornos; eram os simões, antônios, sanchos e martins cuja tarefa consistia em recrutar na arraia miúda que circulava pelas ruas os braços necessários para os árduos trabalhos de preparação ou para a própria viagem. O ritmo agitado de suas vidas contagiava a vida de Lisboa, a mais importante das cidades do Reino e uma das maiores da Cristandade.

Somente ele parecia não se deixar contagiar por toda aquela faina, como se pretendesse reafirmar o juízo que a seu respeito fora emitido por ocasião do conselho dado a seu pai para que o retirasse por algum tempo do seminário, de modo que o pudesse "emendar de sua preguiça e vadiação" - estava lá documentado no livro de matrículas. A distância que guardava de tudo aquilo poderia também resultar do fato dele não pertencer a qualquer das duas sociedades completas, com sua hierarquia, sua legislação e seus tribunais, que constituíam o Reino no momento em que labutava na transição da idade média para a idade moderna. Mas não era exatamente assim. Em verdade, aquela distância - calculada e medida - decorria, antes de tudo, do labor que elegera, o qual o tornava em princípio um observador isento, quase desconhecido, ao ter início mais um capítulo daquela longa e emocionante aventura. Era apenas João Ninguém.

Ninguém duvidava: a viagem seria longa e dura!

As autoridades e a tripulação viajavam nos castelos da proa e da popa; os demais ajeitavam-se como podiam no convés ou nas cobertas. Junto com os viajantes seguiam seus hábitos e costumes, suas crenças e maneiras de ser, porque ninguém pode deixá-los em casa quando viaja. A religião acompanhava-os no dia-à-dia: confessavam-se antes do inicio da viagem, rezavam ao nascer do dia e à noite, e um capelão celebrava missa aos sábados, domingos, dias santos e de festa. Os alimentos eram insuficientes e quase sempre estragavam. As condições de higiene eram precárias e muitos adoeciam. A escassez de frutas, verduras e legumes frescos provocava o escorbuto. A monotonia marcava a viagem, porque além das tarefas rotineiras só havia uns poucos divertimentos, como a pesca do tubarão, e algumas comemorações, como a da passagem da linha do Equador. Somente uma coisa parecia compensar a dureza da aventura das navegações: a novidade.

Do sitio Columinjuba para Fortaleza; o retorno para o sítio e de lá para o Recife; uma nova volta para Columinjuba e o regresso para Fortaleza; a ida para a Corte - viagens que não se assemelhavam àquela outra na dureza, e sim na novidade. Porque valia a pena deixar o sítio onde crescera entre o alambique para destilar aguardente, o engenho para o açúcar e rapadura e a bolandeira para o preparo da farinha, e mergulhar em cheio na aventura das letras e dos livros. Poder agora devorá-los noites adentro, sozinho na rede, sem medo de reprimendas e castigos. A bordo do "Guará", seguindo para a Corte numa espécie de peregrinação obrigatória para todos aqueles que ambicionavam ser súditos-cidadãos no Império do Brasil, rememorava talvez o aprendizado das primeiras letras com o mestre-escola, em cartilha feita à mão pelo mestre e a escrita realizada com pena de pato e tintura vegetal, ainda em Ladeira Grande; as aulas de gramática, aritmética, religião e latim, em Fortaleza; a leitura do trecho de "Cultura e opulência do Brasil, por suas drogas e minas", de autoria de um certo Antonil, no Íris clássico de Antonio Feliciano de Castilho; a conferência sobre "A literatura brasileira", feita na Escola Popular, ainda em Fortaleza; o ambiente intelectual do Recife, a Faculdade de Direito, Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tobias Barreto, Rocha Lima, Tomás Pompeu e muitos outros, o movimento condoreiro, as leituras de Bucide, Stuart Mill, Spencer e Taine; a publicação dos "Perfis juvenis" no jornal Maranguapense... Sabia já que o Brasil não era longe dali, e que para descobri-lo tornava-se necessário não tanto dele sair, ir para o exterior, para repensá-lo à distância, como preconizariam os modernistas mais tarde, e sim desbravar o seu interior, revelar sua natureza mais íntima, por meio de muitas viagens, reais ou imaginárias, de modo muito semelhante ao proceder dos românticos. Viagens duras, mas plenas de novidades; viagens que se constituíam em repositório de um conjunto de elementos que suscitavam a um só tempo admiração e temor: viagens maravilhosas! Viagens a serem realizadas por alguém que queria ser João Capistrano de Abreu.

Lição havia muito aprendida: a aventura pede ser louca; o aventureiro, não.

A 8 de março de 1500 notava-se grande alvoroço no Tejo. Era domingo. Estava a zarpar uma armada, a maior até então saída de portos portugueses, com destino à Índia.

El-rei quisera revestir o ato de toda solenidade, e o povo associava-se unânime ao pensamento do seu soberano. A armada partia sob o signo da paz, mas levava todos os elementos para não recuar ante a guerra.

O número de navios, a quantidade de homens envolvidos, o vulto dos capitais arregimentados e dos recursos técnicos mobilizados, além da presença de navegadores experimentados, como Bartolomeu Dias, Sancho de Tovar, Nicolau Coelho Pero Escolar e Gaspar de Lemos, destacavam sobejamente o papel decisivo desempenhado pelo Estado centralizado, indício para alguns da modernidade do Reino. Atestavam também o empenho pelo sucesso positivo do empreendimento, o qual deveria se traduzir na conclusão de acordos que possibilitariam quer o monopólio do comércio oriental quer a ampla difusão da religião cristã naquela parte do mundo conhecido. Por meio daquela expedição completar-se-ia talvez um ciclo de conquistas marítimas inaugurado havia pouco mais de oito décadas, e que logo se traduziria no "Império português" - um colar de feitorias litorâneas, simples entrepostos costeiros para a permuta com as tribos e remos indígenas, os quais, antes de serem a expressão da notável escassez do Reino em número de habitantes e em recursos para empreender uma política ultramarina semelhante a que seria realizada pelos espanhóis no Novo Mundo, revelava, de modo quase espontâneo e natural, a permanência da tendência predominante desde a remota antigüidade entre os povos colonizadores, característica que, de resto, servia para revelar também o conservantismo intrínseco à sociedade lusa. Um acontecimento não casual - o achamento de terras a oeste, no litoral oriental da América do Sul - asseguraria o monopólio da Rota do Cabo, assim como potencialmente criava as condições para a cristianização dos pagãos que a habitavam.

"Interessa-nos apenas Pedr'Álvares", disse em certa ocasião, ao falar d'Os Descobridores. Não fazia senão corroborar tese que defendera havia vinte e três anos:

"Todos os esforços até hoje feitos para recuar o descobrimento do Brasil para antes de 1500 não têm resistido à critica./ A tradição francesa da viagem de Cousin, que fixa o descobrimento do Brasil no ano de 1488, não está comprovada e tropeça em dificuldades insuperáveis./ A viagem de João Ramalho em 1490 ou é uma invenção de frei Gaspar da Madre de Deus, ou não passa de uma mistificação em que ele caiu. / A interpretação da viagem de Hojeda em 1499, que Varnhagen da baseando-se nas cartas de Vespúcio, tem contra si o testemunho de Hojeda, de Juan de la Cosa, dos companheiros de Pinzon, do próprio Pinzon, e todos os resultados apurados no estudo dos textos e na crítica dos fatos./ E, portanto, com os documentos de que dispomos, incontestável que o descobrimento do Brasil foi em 1500./ E foram os espanhóis que o descobriram, porque Cabral viu terra mais de meado de abril, Pinzon viu-a em fevereiro, e Lepe, quando Cabral ainda nem percebera sinais de terra, já dobrara o cabo de Santo Agostinho para o sul e tornava para o norte./ Esta é a solução cronológica./ A solução sociológica é diferente; nada devemos aos espanhóis, nada influíram sobre nossa vida primitiva; prendem-se muito menos à nossa história do que os franceses./ Sociologicamente falando, os descobridores do Brasil foram os portugueses./ Neles inicia-se a nossa história; por eles se continua por séculos; e a eles se devem principalmente os esforços que produziram uma nação moderna e civilizada em território antes povoado por broncas tribos nômadas".

Tinha exatamente trinta anos ao concluir sua primeira grande viagem. O Descobrimento abria-lhe um imenso continente. Tornava-se Capistrano de Abreu.

DESCOBRIR

Anotou Pero Vaz de Caminha:

"...E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor com os quais ele se apartou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem".

Capistrano de Abreu narra em Capítulos de História Colonial:

"Reuniram-se a bordo da capitânea os comandantes dos outros navios, e o capitão-mor perguntou se conviria mandar a el-rei a nova do achamento da terra pelo navio de mantimentos, para S.A a mandar descobrir. Concordaram que sim".

As viagens são diferentes, mas os relatos se aproximam de tal modo que os viajantes quase se confundem. Estaria Capistrano de Abreu negando a distância calculada e medida recomendada e guardada ciosamente por João Ninguém? Certamente, não! Se Capistrano confia poder contar o que efetivamente aconteceu durante a expedição de Cabral é porque sobre ela existem documentos; e porque, desde que Aires do Casal a publicou em 1817, a carta de Pero Vaz de Caminha tem sido considerada a base de toda a história do descobrimento de Pedr'Alvares. Assim, ao contrário do que imediatamente pode-se supor, a proximidade dos relatos é prova, antes de mais nada, da objetividade daquele que historia, que recorre ao testemunho abalizado de quem pode ver o que efetivamente ocorreu, até porque o questionamento por alguns poucos a respeito da autenticidade da Carta não deixa de se constituir em dúvidas aéreas.

Não obstante, por que preservar um aparente jogo de palavras, por meio da reprodução literal de "a nova do achamento da terra" e "a mandar descobrir", a respeito de um acontecimento que cada vez mais tende a ser representado como fundador?

Conforme nos foi ensinado, o sentido de "descobrir" elabora-se, em Portugal, durante a primeira metade do século XV e está já constituído por volta de 1460, pari passu à expansão atlântica. Relaciona-se fortemente à percepção do espaço, com o traçado das rotas que nele penetram; à percepção dos povos e civilizações, e da experiência das formas de encontro e intercâmbio; à arte de navegar sem terra à vista, e ao instrumento principal dessa navegação através do desconhecido - a caravela. Relaciona-se, por complementaridade, à categoria do oculto, do escondido, do que andava subtraído à vista humana; e, assim propiciando, o pensamento e a ação de des-ocultar, de tornar manifesto o que se encontrava escondido, de abrir a via de acesso a um mundo anteriormente ignorado, quer pelo escrito quer pela memória Conforme nos foi ensinado também, o termo "descobrir" - terras e mares - difunde-se a partir de 1472, e "descobrimento" alguns anos depois, o emprego de ambos estando quase sempre referido às atividades marítimas. Desde então, pequenas gradações de sentido distinguem "achar" de "descobrir", este termo denotando freqüentemente uma exploração sistemática, enquanto aquele remete preferencialmente a determinada realidade cuja existência se ignorava, a um primeiro encontro. Ambos, por sua vez, distinguem-se marcadamente de "conquista" e "conquistador", termos geralmente associados aos sucessos das navegações nas Índias, de utilização menos corrente, ao contrário do que sucedia em Castela' onde, por seu turno, eram pouco freqüentes os empregos de "descobrir" e "descobrimento". Seja lá como for, "achar" e "descobrir", "descobrimento" e "achamento" estão associados à novidade, a novos espaços e à sua tradução geométrica, à possibilidade de saber operar com eles. Todavia, as chaves do "descobrir" são saber onde se pretende chegar; estabelecer marcos na via susceptível de conduzir ao destino almejado; daí conseguir traçar a rota que reconduzirá ao ponto de partida; e, finalmente, saber regressar ao mesmo destino e chegar são e salvo. O regresso, assim, como a concretização do descobrir.

"Por irmos na nossa viagem" - por não poder, naquela oportunidade, traçar a rota que conduziria ao ponto de partida, de lá regressar ao mesmo destino, chegando são e salvo, e ainda por referir-se a um primeiro encontro - Caminha não vacila em caracterizar o feito de Cabral como um "achamento", esperando que El-Rei, por meio de uma nova expedição, cuidasse de "a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber". Capistrano reforça o significado daquele acontecimento, enfatizando "a vantagem da situação geográfica da nova terra para as navegações da Índia, o modo de aproveitá-la trazendo sementes do Reino, o problema do indígena, sua incorporação pelo cristianismo, aí [na Carta de Caminha] ficam definidos com toda a precisão".

Contudo, se num primeiro momento aos novos territórios americanos pertencentes ao Rei de Portugal parecia estar reservado um destino semelhante aos dos demais espalhados pelo mundo, meros entrepostos fortificados como que dispostos em linha em direção às Índias longínquas, razão mesma da contestação que o domínio luso sofreria por parte de outras potências, as quais não se cansavam de justificar suas pretensões por meio da alegação de que o ato de descobrir não consiste no perceber-se uma coisa com os olhos e sim no apoderar-se dessa coisa efetivamente, Capistrano desde sempre assim não compreende aquele evento.

Não custa repetir:

"Sociologicamente falando, os descobridores do Brasil foram os portugueses./ Neles inicia-se a nossa história; por eles se continua por séculos; a eles se devem principalmente os esforços que produziram uma nação moderna e civilizada em território antes povoado e percorrido por broncas tribos nômadas".

Para ele, o Descobrimento distingue-se de um "achamento" por ser o acontecimento inaugural que possibilita que se imprima um sentido e uma singularidade à constituição de uma "nação moderna e civilizada". Um discurso que permanece tendo no regresso a concretização essencial do ato de descobrir, mas desloca sua referência da dimensão espacial para a temporal, e assim não só remete permanentemente aquele acontecimento a uma origem cristã e ibérica. Mas a muito mais do que isso: localiza-o como marco inicial de um tempo homogêneo que deve necessariamente ser preenchido, até o momento de uma plena constituição. E, ao fazê-lo, não apenas revela ser ele também o exercício de um regresso, o qual, se funda e refunda esperanças e expectativas, também acaba por condenar cada um dos brasileiros, nos mais diferentes espaços e tempos da nacionalidade, a um eterno recomeçar, uma vez que aquela constituição insiste em não se concretizar:

"Como Sísifo, os brasileiros parecem estar condenados a uma tarefa recorrente: a busca de sua própria identidade./ Pelos tempos afora, sucessivas gerações associam tal empreitada a repetição daquele que, desde sempre, é apresentado como o momento inicial de nossa constituição: o descobrimento do Brasil. E se a busca de uma identidade nacional não cessa de se renovar, ela está sempre associada a novos descobrimentos. Conhecer o Brasil é obra de e para descobridores"

FLOR DO TEMPO

Pode ter sido um mero acaso; mas nos resta a possibilidade de duvidar. Porque alguém que gostava de chamar "Abril" a um dos filhos, rememorando assim a cada momento tanto o mês de nascimento do mesmo quanto o de sua chegada ao Rio de Janeiro; que parecia encontrar um prazer especial em datar sua correspondência recorrendo a efemérides diversas - "domingo da Pascoela", "segunda-feira gorda", "Ano Bom", "equinócio, 1927", "dia das mentiras", "cinque Maggio", "véspera de 5. João"; e que insistia em localizar com rigorosa precisão os eventos que narrava - "oito meses antes chegara Vasco da Gama, dois anos, um mês e um dia depois da partida, trazendo..."; somente esse alguém que procurava desfrutar de grande intimidade com um tempo que não cessava de fluir, esforçando-se por trazê-lo colado ao seu cotidiano, poderia ter escolhido o primeiro dia de trabalho de um novo ano para dar inicio à obra havia muito acalentada e sempre adiada: escrever a história do Brasil, uma história modesta, a grandes traços e largas malhas.

É bem verdade que o antigo desafio voltara a se lhe apresentar exatamente no finalzinho de 1905, sob a forma de uma proposta do Centro Industrial do Brasil para redigir uns breves traços da história do Brasil, em cerca de cento e vinte páginas, que deveriam constituir a parte introdutória de um volume dedicado às riquezas e indústrias do Brasil. Daí talvez parecer lógico e natural dar inicio à empreitada o quanto antes, por ser curto o prazo disponível. Mas por que não imaginar que a escolha do dia 2 de janeiro de 1906 significava, antes de tudo, a opção pela plena inscrição em um ciclo, um completo ciclo anual, de morte e ressurreição, as energias e esperanças sendo refeitas por ocasião de seu inicio, e devendo se concretizar no trabalho sempre desejado?

Ele acreditava poder traçar aquele esboço histórico e geográfico do Brasil em cinco meses, de modo que já no inicio da primavera pudesse estar impressa a obra coletiva. Mas em novembro não a tinha concluído, não obstante o esforço e empenho; então, julgava-se um galé! Pouco após a passagem do ano, dizia que adoeceria se não se livrasse de semelhante amofinação. E quando a criatura parecia triunfar, o criador renasce anunciando que acabara de pingar o último ponto de seu esboço: 7 de janeiro de 1907. Completava-se o ciclo, de modo quase perfeito. Embora pudesse parecer coisa do acaso, era o suficiente para reafirmar a intimidade de Capistrano de Abreu com o tempo, assim como o seu permanente exercício para dirigi-lo.

As trezentas páginas dos "Breves traços da História do Brasil" detinham-se no último ano do século XVIII, razão por que eram intituladas "Noções de História do Brasil até 1800" no índice de O Brasil. Suas riquezas naturais. Suas indústrias. Publicadas em separata no mesmo ano de 1907, receberiam o título de Capítulos de história colonial. Sob a forma de um ramalhete, acabariam por consagrar definitivamente o seu criador.

Mas nem sempre o autor entenderia assim: não dera conta de toda a encomenda; avaliava que a parte realizada estava repleta de lacunas, assemelhando-se menos a um edifício e muito mais a uma tapera. Parecia lamentar-se por ter acreditado muito na extensão da vida e na brevidade da arte; fora punido. Confortava-lhe a certeza de ter feito germinar uma flor: a História do Brasil.

Tinha cinqüenta e três anos de idade; estava viúvo e separado dos filhos.

ESPAÇOS DE LEITURA

Morava, então, no número 2 da rua Almirante Tamandaré, numa pensão dirigida pela a viúva de um antigo professor de educação física do Colégio de Pedro II. Ali redigira os Capítulos; dali se deslocava para o "centro" da Capital Federal, cujas ruas já não eram estreitas, sem calçamento e sem iluminação; a água e os esgotos já não ficavam à iniciativa particular; já não se enterravam os cadáveres nas igrejas, e da higiene pública já não se incumbiam apenas as águas das chuvas, os raios do sol e os diligentes urubus; o passeio público e o aqueduto do Rio já não constituíam exceções como monumentos da cidade que começava a ser conhecida como "maravilhosa".

Á primeira vista, porém, somente pareciam Ihe interessar três construções: a Biblioteca Nacional, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil e o Colégio de Pedro II. Ali podia tanto ler quanto criar as condições para que Outros pudessem ler. E ele nunca duvidara que no ato de ler residia a condição essencial para cada novo descobrimento. Os Capítulos eram o resultado de leituras, de muitas leituras, sua razão consistindo na possibilidade de os brasileiros descobrirem sua terra, por meio da leitura de sua História. Assim, não era desproposital dirigir-se a cada novo dia até o centro", transitando da cidade colonial para a cidade modernizada. Um deslocamento que possibilitava medir a cada passo quanto distavam aquelas instituições de sua morada, servindo-se de réguas graduadas pelos objetivos a que sempre se propusera e pelas experiências vividas.

Se os objetivos praticamente não se alteram no decorrer da vida, antes são refinados, de tal forma que a resolução, ainda jovem no Ceará, quando arredado de todo o comércio intelectual, de escrever a história do Brasil acabaria por se concretizar, em larga medida, por meio dos Capítulos, e o seu refinamento consistiu na proposição de redigir uma história sertaneja, pois somente ela desataria o nó de nossa história; as experiências vividas, por sua vez, põem em evidência um fluxo permanente, que serve ao menos para que não nos esqueçamos que Capistrano nem sempre teve 53 anos de idade, razão por que as avaliações realizadas estiveram sempre em aberto, propiciando uma espécie de acumulação de saberes que impunha a volta ao ponto de partida e o regresso ao marco de chegada, o mesmo acontecendo com os diálogos travados com os interlocutores que elegia, assim como com as estratégias e roteiros imaginados e trilhados para cada novo descobrimento.

Localizada desde 1858 em um edifício neoclássico de três andares, nas vizinhanças da Lapa, de frente para o Passeio Público, na mesma rua que já abrigara a Impressão Régia e abrigaria a Academia Brasileira de Letras a partir de 1897, a Biblioteca Nacional ganharia novo impulso sob a direção de Ramiz Galvão, entre 1870 e 1882. A publicação do primeiro número de seus Anais em 1876, do catálogo de sua primeira exposição, a Camoniana, quatro anos depois, e do Catalogo da Exposição de História do Brasil no ano seguinte expressavam sua transformação em dinâmico centro de pesquisa.

Capistrano ingressaria na Biblioteca Nacional como oficial em 1879, por meio de concurso de provas de iconografia, história, literatura, filosofia, geografia, bibliografia, paleografia, inglês, francês e latim. Nela adquiriu o trato com documentos conhecidos ou inéditos, pode ler velhos e insuspeitados manuscritos, consultar preciosos e esquecidos códices; ali pode avaliar os originais da História do Brasil de Frei Vicente do Salvador, doado à instituição pelo velho alfarrabista João Martins. E mesmo quando de seus quadros não mais fazia parte continuava a entrar pelo prédio como em casa própria, tão logo anoitecia; apanhava os textos de que necessitava, e ficava a lê-los durante horas a fio, tomando notas que, distraidamente, quase sempre esquecia, mas que eram guardadas por algum funcionário zeloso. E lia, lia muito, para poder escrever; porque - como já foi dito por Gabriel Garcia Márquez - um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever. E a prática de Capistrano reafirmava a cada instante que aprender a escrever é aprender a ler - porque o ato de escrever para o historiador deveria ter seu ponto de partida na leitura critica dos documentos que descobria no intervalo de uma vida.

Lia muito, sempre

"... acabara de ler Buckle no original, relia mais uma vez Taine, tinha acabado a viagem de Agassiz...", recorda em carta a João Lúcio de Azevedo, a 9 de março de 1917; no Rio de Janeiro aprendera "alemão o bastante para lê-lo na rede, sem estar me levantando a cada instante para recorrer ao dicionário e através de Wappeus, Peschel e Ratzel compreender que a geografia é tão bela ciência como difícil", comenta com o mesmo interlocutor; "tenho estado lendo coisas diversas, um livro de Wundt sobre psicologia, necessário para se entender sua grande obra sobre a psicologia dos povos, de que já tenho dois volumes; um livro de Breysíg sobre a história da civilização dos tempos modernos, em que espero aprender alguma coisa aplicável à história do Brasil. uma história universal de Helmott, que começa pelas Américas e vai seguindo a ordem geográfica até no quarto volume chegar à Europa, e acabar no último volume, 8o., com o Oceano Atlântico; tenho aqui só o 1o e o 7o que termina a Idade Média. Tenho lido também Carlyle", informa a Mário de Alencar, em correspondência datada de 1 de agosto de 1901; e parece complementar a informação, seis dias depois: "estou lendo economia política de Schmoller, que é um livro monumental. Quando me lembro que por certas criticas fideindignas, como hoje reconheço, passei tantos anos sem fazer conhecimento com um espírito superior e luminoso, com cuja privança podia ter adiantado anos, fico triste". E, sem querer indicar que completara um labor em si mesmo inesgotável, informa mais adiante, a 28 do mesmo mês: "limitei as horas de história geral e economia política, e estou todo na história do Brasil".

Fora a leitura critica e sistemática de documentos e textos historiográficos - que enumera de maneira original, escrupulosa e metódica, sob a rubrica "fontes" e "auxiliares", na abertura de cada capítulo- que lhe permitira redigir e defender a tese de concurso à cadeira de História do Brasil do Colégio de Pedro II, em 1883, intitulada "Descobrimento do Brasil. Seu desenvolvimento no século XVI". O sucesso positivo da empreitada anima o novo lente, que em carta a Antônio Macedo Soares, naquele mesmo ano, externa uma idéia ousada:

"Estou tratando da fundação de uma sociedade histórica, menos pomposa e menos protegida que o Instituto Histórico, porém quero ver se mais efetiva. Há de intitular-se Clube Taques, em honra de Taques Pais Leme, e deve ocupar-se quase que exclusivamente das bandeiras e bandeirantes, caminhos antigos, meios de transporte e história econômica do Brasil. O meu plano é começar pelo século XVI, tomando os impressos e manuscritos conhecidos e utilizáveis, e incumbindo cada sócio de examinar um ou mais."

As experiências vividas explicam certamente a mudança de opinião, fazendo prevalecer o Capistrano solitário e taciturno. Em autobiografia traçada às vésperas de completar quarenta e oito anos, confessava-se avesso a qualquer sociedade, por já achar demais a humana; justificava assim sua recusa em fazer parte da Academia Brasileira de Letras, à qual pertenciam inúmeros letrados de sua geração. Chegava a afirmar ainda que pretendia demitir-se do Instituto Histórico, o mesmo instituto do qual se tornara membro em 1887, realizando talvez aspiração revelada oito anos antes, ao confessar - de modo até certo ponto irônico - pretender posição mais elevada do que a de simples lente do Colégio de Pedro II. Ironia que logo cederia lugar à reprovação aberta no artigo "Uma grande idéia", publicado na Gazeta de Notícias a 17 de abril de 1880, a propósito da intenção do Ministro da Agricultura de organizar uma comissão para escrever a história física e política do Brasil: não se iludisse aquela autoridade; parte das dificuldades para constituir a comissão seria superada se se precavesse contra o Instituto. Em outra oportunidade, falando da importância do conhecimento das viagens e dos viajantes para a compreensão de nossa história, sublinharia parecer incrível, embora exato, quase não haver no Instituto quem saiba fazer esta coisa tão simples - editar um livro, residindo a prova no fato de que nem mesmo as coisas mais comezinhas, como determinar a época em que foi escrito e assim circunscrever o período em que se deve procurar o autor quando o livro é anônimo, nem mesmo a isto se julgavam obrigados os seus sócios.

O certo é que seriam sempre ambíguas suas relações com a instituição que contara com o apoio do Imperador, até porque inevitavelmente mediatizadas pela sombra da figura de Francisco Adolfo de Varnhagen. Do Instituto destacaria sempre o zelo proveniente de seus fundadores na coleta e organização dos documentos interessantes à história pátria, grande parte dos quais transcritos nas páginas de sua Revista Trimensal; daqueles fundadores, que ainda entendiam a História como uma ramo filológico das Belas Letras, guardaria distancia prudente por identificar na distinção extrema entre literatura e história - ou seja, entre ficção e verdade- a condição para fazer da História a genealogia científica do Estado-nação; da velha instituição recolheria a lição a respeito da importância da difusão do conhecimento da História do Brasil por meio do ensino público, até mesmo porque julgava ter chegado a hora, naquele ano de 1890, de quebrar os quadros de ferro de Varnhagen que, introduzidos por Joaquim Manuel de Macedo no Colégio de Pedro II, permaneciam a base do ensino.

O ensino da história pátria o levaria àquela que era vista como a instituição modelar de ensino no Império do Brasil, em 1882. O concurso para a cátedra de Geografia e História do Brasil não apenas deixaria perceber como o Imperador, presente à sessão, aborrecia-se com o horizonte limitado de dois dos examinadores; serviria, antes de mais nada, para reafirmar os princípios sobre os quais um candidato destemido, porque seguro de seu valor e convicto a respeito de seus argumentos, julgava dever assentar o ensino da história como condição para o verdadeiro descobrimento do Brasil: a crítica das obras historiográficas e a critica documental, de fundo erudito. Porque ensinar não deveria se resumir a informar a respeito dos fatos, entremeando exemplos que tornavam o passado um guia para o presente; e tampouco, no caso de nossa constituição, juntar-se aos eventos litorâneos, ou no mínimo privilegiá-los. Para ele, ensinar significava, acima de tudo, dotar cada um dos discípulos de uma capacidade de tipo venatório, porque o segredo de nós mesmos encontrava-se em sinais grafados no grande livro de nossa formação como Nação desde o Descobrimento. A tese de concurso anunciava, assim, a íntima associação entre ensino e pesquisa; e não deixava de sublinhar, por meio de procedimento rigoroso de método, a critica severa feita dois anos antes ao compêndio didático de um dos examinadores, que insistia em datar determinado acontecimento tomando como referência o manual do autor de A moreninha, porque Macedo não era fonte, e provar conhecimento de Macedo não era provar conhecimento de fonte!

O ensino da história pátria o afastaria do colégio, agora denominado Ginásio Nacional, em 1899. A extinção da cadeira de História do Brasil, na ocasião anexada ao ensino da História Universal, encontraria a oposição daquele que, de acordo com alguns, já era considerado a maior glória do magistério oficial brasileiro. O lente João Capistrano de Abreu passaria para a classe dos extintos, por ter se recusado a aceitar o aproveitamento como professor da nova cadeira. Entre amargo e irônico, diria ter sido dispensado de alunos ignorantes e desatentos; provavelmente mais amargo do que irônico, na observação feita quase duas décadas depois.

O MUNDO COBERTO DE DOCUMENTOS

As experiências vividas tornavam diversas as distâncias entre sua morada ocasional e as diferentes instituições; a permanência dos objetivos parecia transformá-la numa só, vizinha de sua residência, com ela muitas vezes se confundindo.

O mundo parecia coberto de documentos para aquele cearense que aos vinte e dois anos chegara ao Rio de Janeiro; se não o mundo, ao menos a Corte imperial.

Uma vez na Corte, muito rapidamente uma teia de relações pessoais permitiu-lhe o ingresso na vida literária. Indo morar com o futuro Visconde de Jaguaribe, tornou-se mais próximo dos cearenses Alencar Araripe e José de Alencar: este apresentou-o a Joaquim Serra; que o apresentou a Machado de Assis; que o apresentou... As ocupações e empregos iam surgindo na imprensa periódica; o exercício da critica literária e a elaboração de ensaios históricos projetavam-no no círculo que lentamente se ampliava da cidade letrada; a redação de necrológios filiava-o a uma tradição; e a correspondência com interlocutores em outros pontos do país e no exterior, ao mesmo tempo que anunciava projetos e registrava frustrações, revelava a pretensão quase obsessiva de cobrir inteiramente de documentos a Capital Federal.

Poder-se-ia ter já uma história das sesmarias - "uma história que ainda não encontrou quem a narrasse: a do emprazamento lento do território; do avanço da civilização e do refluxo da barbaria; da substituição do povo brasileiro às hordas brasílicas nômades"-, se os portugueses fossem gente que curasse de documentos, se os brasileiros não tivessem herdado este descuido de seus avós.

Por essa e outras razões, parecia repetir a cada instante, quase monocordiamente, para si mesmo, para os contemporâneos e para as gerações futuras de brasileiros: os documentos estão no mundo, só é preciso aprender a lê-los.

Porque se ler era a condição para escrever, tornava-se necessário, em primeiro lugar, aprender a ler os documentos, como requisito para adentrar aquele grande e desconhecido continente que um Descobrimento revelara. E tal implicava em instrumentos precisos, que a ciência oferecia e a prática burilava o emprego: a metodologia histórica alemã, Ranke à frente; a doutrina antropogeográfica de Ratzel; a psicologia de Wundt; economia política de Schmoller; os estudos jurídicos de Puchta, Liszt e Kohler; e ainda os próprios textos de Spencer, embora à época da redação dos Capítulos o pleno domínio da língua alemã - e, como decorrência, embora não obrigatória, da literatura de origem alemã, da qual seria também um infatigável tradutor para a língua portuguesa- lhe permitisse um certo distanciamento da sociologia comtiana e de Buckle. Aprender a ler como um exercício de erudição, levado a cabo diuturnamente por alguém que sempre fora autodidata, mas recordava com uma ponta de orgulho ter ajudado a fazer alguns bacharéis, durante o período de permanência no Colégio de Pedro II.

Assim instrumentalizado, ele iniciaria um extenso e profícuo trabalho com aqueles que, declarada ou anonimamente, haviam legado testemunhos sobre a formação do Brasil, porque o melhor meio de estudar a história pátria, ou antes o único, e tomar os testemunhos contemporâneos autênticos e deles extrair a narrativa dos acontecimentos. Uma longa conversa jamais interrompida; sempre retomada em sucessivas anotações, achegas e edições. Porque se era necessário ter a atração do desconhecido, como Varnhagen a tivera, tal não era uma condição suficiente, em sua opinião. Aos sessenta e cinco anos, numa idade em que as opiniões e juízos tendem a se tornar mais generosos, ele comentaria de modo ácido com João Lúcio de Azevedo que Varnhagen lia tão mal os documentos, deixando escapar o substancial para apegar-se ao acessório, atribuindo a culpa de tal proceder tanto ao Instituto que o incentivara a escrever a história, quando o sorocabano tinha em mente a redação de uma geografia do Brasil, quanto ao fato do autor da História Geral do Brasil nunca ter se lavado inteiramente do pecado original, seu espírito formado em outras disciplinas.

Ler para reunir e confrontar criticamente testemunhos que permitiriam estabelecer a "verdade dos fatos" com a mais absoluta precisão, de modo exato e rigoroso, objetiva e realisticamente; uma verdade que não mais se identificava com a ética e opunha-se ao erro, como na época clássica.

O econômico e muitas vezes seco texto dos Capítulos não se mostrava inibido sempre que se tornava imperativo demonstrar a íntima relação entre testemunho (documento), fato e verdade: "sobre ela [a nau Bretoa] existem documentos"; "faltam documentos para escrever a história das bandeiras, aliás sempre a mesma"; se tais ordens foram cumpridas e nos arquivos de além-mar existirem relatórios das correções, nem um documento poderá nos ajudar tanto no estudo e conhecimento da vida sertaneja ; um contemporâneo, suspeito por ser jesuíta e não ter presenciado os sucessos, da interessante descrição destas novidades; também sua cronologia não parece rigorosamente exata".

Empenhado em conseguir uma visão realista do passado, em alcançar a verdadeira natureza da sociedade por meio do conhecimento histórico, Capistrano transmuta-se no trato com os documentos: em juiz' ouvindo - ou melhor, lendo! - os testemunhos, confrontando-os entre si e, afinal, decidindo de modo imparcial por um ou alguns deles; em detetive, avaliando quais são os depoimentos e dados confiáveis, em função antes de mais nada do caráter lógico do que era exposto; e em espectador - não raro, muito mais em expectador - que passa a "ver" - isto é, conhecer - o que aconteceu porque privilegia entre os relatos aquele que emana de uma testemunha ocular.

E com toda a certeza não existiram testemunhas mais atentas, olhos mais vivos e sagazes do que os dos cronistas - ainda que, muitas vezes, pudessem estar a serviço do Rei e não fossem senão os olhos dos colonizadores. Testemunhas cuja confiabilidade dependia também de uma identificação, o anonimato e o pseudônimo não combinando com o estabelecimento de fatos.

O juiz, o detetive e o espectador atribuiriam a Ambrósio Fernandes Brandão os Diálogos das Grandezas do Brasil; confiantemente, afirmariam que André João Antonil era o anagrama do nome do autor de Cultura e opulência do Brasil, por suas drogas e minas, João Antônio Andreoni, que deveria ser lido João Ant. Andreoni L., sendo o L. a representação de luquense, referente a Luca, sua cidade natal. O espectador, o detetive e o juiz sabiam não residir na autoria não identificada a razão da interdição imposta á obra do benemérito jesuíta, como sabiam também que a alegação de estar divulgando nela o Brasil aos estrangeiros não era senão o pretexto para uma violência. Mas somente o historiador sabia ser outra a verdade: o livro ensinava o segredo do Brasil aos brasileiros! Quase duzentos anos depois, a descoberta de uma autoria constituía-se em requisito fundamental para alguém permanentemente empenhado em fazer com que os brasileiros descobrissem as origens da opulência e cultura de sua terra; permitia ainda ao historiador reconstituir com os fios da memória os laços entre o menino que se encantara com as páginas do Íris clássico e a Nação adulta, com suas múltiplas expectativas

Confrontado com a História do Brasil de Frei Vicente do Salvador, cuja redação parece ter sido concluída em 1627, Capistrano deixaria evidente, na "Introdução" publicada no último mês de 1888, como o exercício da critica documental imbricava-se com o exercício da narrativa, a leitura do documento sendo também a leitura de uma forma de narrar que possibilitava, por meio de um jogo de semelhanças e diferenças, a aprendizagem da escrita da história que se pretende contar. Porque da história do Frei - homem douto, conhecedor da literatura latina, versado na pairística, leitor dos bons clássicos portugueses, amante de obras históricas, de narrativas de viagens, de poesias, mas pouco inclinado à leitura de papéis amarelecidos pelo tempo - emerge o Brasil qual era na realidade: aparece o Branco, aparece o Índio, aparece o Negro; brasileiro vai deixando de ser o nome de uma profissão; a consciência de que a prosperidade estaria sobretudo no sertão; e muito mais uma expressão histórica e social do que uma expressão geográfica. Redigida em estilo simples e familiar, a primeira obra denominada "História do Brasil" apresentava-se e era apresentada como uma coleção de documentos, antes reduzidos do que redigidos, mais Histórias do Brasil do que História do Brasil menos uma flor que um ramalhete. E onde muitos identificavam uma deficiência, Capistrano enxergava uma vantagem, porque do tom do estilo dependiam as coisas que se podiam incluir nele. O modo de narrar do Frei permitia a Capistrano exercitar o seu próprio modo de narrar: o Brasil
"qual era" no século XVII como um conjunto de histórias tão vivas e populares quanto desconexas, porque na obra do franciscano cabia tudo, uma vez que a história se lhe antolhava de chinelos; o Brasil "qual era" no século XVII como uma primeira síntese no movimento de nossa constituição, um capítulo (ter-lhe-ia ocorrido já a denominação classificatória?) de uma trajetória que Capistrano pode descobrir porque carregava a intenção de esboçá-la, uma vez que a atribuição de um sentido à narrativa derivava de a história antolhar-se de coturno.

Por certo, o que o estilo daquela primeira História do Brasil expressa, em termos mais amplos, é também uma determinada forma de sentir, a forma mentis de toda uma sociedade que só aparentemente se despojou dos padrões velhos, conforme foi observado bem acima, não obstante o Frei escrevesse já na terceira década do século XVII Para Capistrano, porém, aquele estilo se constituía em mais uma oportunidade para argumentar que não bastavam os fatos, expostos sob uma forma que se assemelhava às contas de um rosário, paciente e mecanicamente debulhadas. Porque os fatos, uma vez apurados, resta pela sua comparação descobrir os fatos gerais, isto é, as leis e tendências que dirigem a nossa existência de quatro séculos. Ou dizendo de outra maneira: os fatos singulares devem compor um enredo; somente neste localizados encontram a razão para terem acontecido.

Documentos; fatos; leis e tendências. Mas não era o bastante.

Todo aquele que quisesse chegar a uma verdade viva, palpitante e fértil, precisaria acompanhar a crítica dos documentos de duas ordens de investigações que os esclarecem: o exame da história dos outros países americanos e o estudo dos sertões. Precisaria olhar mais do alto.

GÁVEA

As restrições que fazia a Varnhagen não se limitavam ao modo como o sorocabano lia a documentação.

Se censurava a um parceiro querido por não fornecer de modo claro, correto e preciso a indicação dos documentos que publicava, insistia em lembrar-lhe que

"tu não és Varnhagen. Por que motivo, portanto, te insurges contra uma obrigação a que se sujeitam todos os historiadores, principalmente desde que com os estudos arquivais, com a criação da critica histórica, com a critica de fontes criada por Leopoldo von Ranke na Alemanha, foi renovada a fisionomia da história?".

Se avaliava a obra maior do principal historiador do Império do Brasil, salientava que:

"a História Geral é um dos livros mais ariscos e mais fugidios que conhecemos. Pode-se lê-lo quantas vezes se quiser, confrontá-lo, meditá-lo: há sempre no livro um quê, que escapa, que resiste, que não se acha quando se procura, mas que é preciso procurar para achar. Há ali detalhes sobejos que ao mesmo tempo são deficientes, porque lhes faltam os concomitantes, que, únicos, poderiam mostrá-los à verdadeira luz. (...) Sob as mãos de Varnhagen, a História do Brasil uniformiza-se e esplandece; os relevos arrasam-se, os característicos misturam-se e as cores desbotam. Vê-se uma extensão, mas plana, sempre igual, que lembra as páginas de um livro que o brochador descuidoso repete. E, todavia, mesmo as pessoas que conhecem a história pátria infinitamente menos que Varnhagen, percebem que as épocas se sucedem, mas não se parecem, e muitas vezes não se continuam".

E, após evidenciar a dificuldade do autor para distinguir os períodos de nossa formação - defeito fundamental de seu livro -, ajuizava:

"A obra de Varnhagen, por exemplo, tem incontestavelmente muito de crônica, mas abunda em páginas que revelam muita perspicácia, contém observações e vistas que escapariam a qualquer inteligência ordinária, possui, sem contestação, também o caráter de história".

Não se conclua, porém, que tais restrições significassem desapreço pela obra daquele que por quase todos era considerado o fundador da historiografia brasileira. Pela vida afora, o sorocabano seguiria sendo o principal dos interlocutores do cearense, que de cima de seus ombros transformados em gávea buscava descobrir e desbravar um novo e ignoto continente - ou, como costumava e gostava de dizer, um pedaço d'água que medido a olho não dava idéia das braçadas necessárias para atravessá-lo a nado.

Desde o "Necrológio" publicado no Jornal do Comércio de 16 a 20 de dezembro de 1878, Capistrano não deixaria de registrar aquela contribuição monumental, retirando das lacunas, imprecisões e omissões identificadas, a par das restrições teóricas, o ânimo e energia para o seu fazer historiográfico.

Relacionamento estreito, de tal modo que a elaboração dos Capítulos em sua versão original e nas sucessivas reedições planejadas estaria sempre intimamente relacionada às vicissitudes das reedições comentadas da História Geral do Brasil, nas quais Capistrano se empenhava: fora assim por ocasião da redação, os cinco meses inicialmente previstos se escoando, em larga medida, devido ao trabalho de preparação da terceira edição da História, cujo primeiro volume se perderia com o incêndio do estabelecimento gráfico; seria assim por ocasião de uma planejada segunda edição, não efetivada porque deveria terminar a reedição de Varnhagen, em momento no qual já se queixava de sentir minguada a capacidade para trabalhar e escrever tornava-se cada vez mais difícil e mais penoso.

A partir de Varnhagen é possível traçar os caminhos a serem percorridos no imenso sertão:

"há a história das sesmarias, em que ninguém se atreveu ainda a tocar. Há a história das municipalidades, que Lisboa foi o primeiro a entrever. Há a história dos bandeirantes, que jaz esparsa pelos livros e pelos arquivos. Há a história dos Jesuítas, em que apenas pouco mais se conhece do que o período narrado por Simão de Vasconcelos, isto é, quase nada. Há a história das minas.../ E se tais monografias parecerem muito completas, não faltam mais fáceis e igualmente importantes. Por que ainda não foi escrita a história da Casa da Torre, que começa com Tomé de Sousa e atravessa por todo o tempo colonial? Por que não se escreveu ainda a história das estradas? Por que..."

Varnhagen era o contraponto que ensejava-lhe a cata documental:

"Já possuo muita coisa desconhecida a Varnhagen: as cartas jesuíticas, mais edificantes que instrutivas, que ele não teve tempo de decifrar nos originais; a justificação de Mem de Sá, o processo de Bolés, os documentos de Diogo Botelho, as Atas da Câmara de São Paulo, antes minhoca do que peixe",

lembrava em carta a João Lúcio de Azevedo, em 1917

É ainda a partir de Varnhagen que se torna possível identificar os períodos que preenchem o tempo homogêneo que escoa linear e progressivamente desde o Descobrimento, levando necessariamente á constituição da Nação brasileira; um tempo controlado por aquele que o preenche como condição para controlar as vidas daqueles que a ele estão referidos:

"A história do Brasil, de 1500 a 1614, oferece uma feição que lhe é própria. Ai se tratou principalmente de ocupar o litoral, não só porque os indígenas proibiam a internação, como porque os franceses, com seus ataques continuados, exigem a presença dos colonos junto ao mar. No período que vai de 1614 a 1700, o litoral está todo povoado, exceto uma nesga ao Sul e os terrenos ao Norte do Amazonas, então, como ainda hoje, disputados pelos franceses. Começa agora a internação, mas pelos nos. (...)No período de 1700 a 1750 dominam as minas.(...) Todo o interior é explorado e povoado. A agricultura é abandonada. Os escravos são importados em grandes quantidades. A anarquia toma proporções inéditas. Rompem, para não mais se extinguir, as rivalidades de raça. (...) O período que vai de 1750 a 1808 é o da consolidação do sistema colonial. As municipalidades são anuladas. A indústria que tendia a desenvolver-se por si, é arrancada violentamente. Todas as capitanias são resgatadas dos donatários. As minas declinam. Os Jesuítas são expulsos teatralmente. A capital é transferida para o Rio de janeiro, e as lutas contra os espanhóis tornam-se endêmicas. O Rio Negro é elevado a capitania, como uma guarda avançada. O Madeira é empregado de preferência ao Rio da Prata para a comunicação com Mato Grosso. As rivalidades entre colonos e os reinóis se acusam e dão em resultado a idéia de independência. O período seguinte que começa em 1808, é o da decomposição do sistema colonial. Deu-lhe o golpe inicial D. João VI, quando declarou abertos os portos do Brasil a todas as nações do mundo. (...) Desde 1850 começou um período novo, a que se poderá chamar centralizador, imperialista ou industrial. E o período que atravessamos (...) em que há muita coisa que ainda durará longo tempo e que só o historiador do futuro poderá dizer".

É também a partir de Varnhagen que, em larga medida que ele percorre o seu "plano de pesquisas", que não por acaso começa pelo Descobrimento do Brasil; segue pelo século XVI -"estou vendo se para o ano poderei sanar tais defeitos [os da segunda parte da tese de concurso para o Pedro II], e desde já estou tomando notas para A Sociedade Brasileira no Século XVI, que espero em 1884 dar à luz". escreve a Macedo Soares em 1883 -; adentra o XVII - "ainda gosto muito dele [o século XVI], mas agora o que me seduz mais é o século XVII, principalmente depois da guerra holandesa. Vejo nele tantas questões e sobretudo tanta obscuridade. Na obra de Varnhagen, tirado o que diz respeito às guerras espanholas e holandesas, quase nada há para representar este século. Preencher estas lacunas é, portanto, meu interesse principal. Para o Estado do Maranhão, o problema não é difícil; mas para o resto, sem crônicas e apenas com documentos oficiais, parece-me tarefa árdua"-; para, chegado ao século XVIII, desbravar plenamente o Sertão.

Não duvidava. Somente quando todos estes trabalhos estivessem realizados; muitos outros se lhes tivessem reunidos; e quando um espírito superior insuflasse a vida e o movimento na massa informe. Varnhagen desceria do seu pedestal.

"Mas até então ele será o mestre, o guia e o senhor".

O mestre, guia e senhor dedicara sua História Geral do Brasil a Sua Majestade Imperial, o Senhor D. Pedro I{ protetor das Letras e do Instituto Histórico por compreender o valor do estudo da história para o esplendor da nação, a instrução dos súditos e o bom governo do pais, augurando que a mesma contribuísse para a honra da Monarquia no conjunto das nações civilizadas. Capistrano não partilhava este sentimento aristocrático, e provavelmente jamais imaginou dedicar os Capítulos a qualquer autoridade governamental, muito embora as razões imediatas de sua existência emanassem do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, na pessoa de Lauro Müller, por intermédio do Centro Industrial do Brasil, dirigido por Vieira Souto, engenheiro e professor da Escola Politécnica.

Sensível às criticas do geógrafo francês d'Avezac, que sustentava dever uma história geral do Brasil começar pela descrição do meio e dos indígenas, Varnhagen deslocaria na segunda edição de seu livro as secções VII, VIII, IX e X, referentes respectivamente à "Descrição geral do Brasil", "Dos índios do Brasil em geral", "Língua, usos, armas e indústria dos tupis" e "Idéias religiosas e organização social dos tupis. sua procedência", para o começo do livro, o capítulo inicial da primeira edição passando a constituir agora a secção V. Não obstante, o sentido por ele outorgado à 'origem do descobrimento da América Central" seria preservado, reafirmando tanto uma filiação quanto o motor de toda a constituição colonial. A transcrição é longa, mas permite perceber com nitidez o papel reservado ao comércio - ou, no essencial, à "tese do suave comércio", como gosta de referir Albert Hirschman, louvando-se em clássicos como Montesquieu que em O espírito das leis já sublinhava ser "quase uma regra geral que, onde quer que haja costumes suaves, existia comércio; e, onde quer que haja comércio, existam costumes suaves

Sigamos com aquele que permanece no alto de seu pedestal:

"Os interesses do comércio, mais que a curiosidade natural ao homem e que a sede das conquistas, têm sido em geral a causa da facilidade do trato e comunicação dos indivíduos da espécie humana entre si. Foi ao da especiaria do Oriente que originalmente se deveu o grande acontecimento que denominamos Descobrimento do Novo Continente./ Quando a Grécia, herdeira da antiga civilização fenícia, babilônica e egípcia, era o foco da ilustração da parte ocidental e central do chamado Antigo Continente, e levava o seu comércio e semeava as suas colônias desde as costas do Bósforo até os portos do Atlântico, ansiava ela por ver-se diretamente em contacto com a Ásia meridional e oriental, até que, com o poder das armas, lhe satisfez, em parte, essa ansiedade o grande Alexandre".

Os Capítulos iniciam-se pelos "Antecedentes indígenas". Todavia, Capistrano parece fazê-lo não tanto porque se rendesse aos argumentos de d'Azevac, assim como embora não fosse inteiramente avesso à "tese do suave comércio", bastando lembrar as inúmeras oportunidades em que faz referência à economia naturista, apresentando-a como uma organização inferior (falando dos primeiros ocupadores do sertão, aqueles sertanejos que atravessaram a idade do couro, diria que "muito tempo viveu esta gente entregue a si mesmo, sem figura de ordem nem de organização" -p.223), dela não se serviria nem para estabelecer uma filiação nem para identificar as razões de um movimento. A questão que o inquietava era a do povoamento de um território, ao longo de três séculos. Uma história que ao se realizar por meio da ocupação de um território implicava em caminhos; uma história do Brasil que, por existir desde sempre - isto é, desde a reunião num mesmo território de três contingentes diversos (apenas um exemplo: "a história do Brasil no século XV" elaborou-se em trechos exíguos de Itamaracá, Pernambuco, Bahia, Santo Amaro e São Vicente" -p.98) -, elabora (sublinho porque não é outro o verbo utilizado por Capistrano) sínteses sucessivas e progressivas ou superiores que deverão culminar no Estado-nação brasileiro, para além de três séculos depois.

Mas não nos apressemos, porque nesta longa caminhada a história enquanto experiência da colonização confunde-se a cada passo com a história enquanto narrativa capistraneana, de tal forma esta subsunindo aquela que o relato dos caminhos de uma constituição deve não apenas estar atento para não enveredar por trilhas secundárias como deve reconhecer os limites de sua pretensão por ter em consideração o alcance e o valor dos instrumentos de que dispõe para se orientar. Para o primeiro risco a cautela se apresenta sob a forma do recurso a palavras e expressões que traduzem possibilidades e probabilidades: "os exploradores, segundo parece" -p. 76; "talvez alguns dos navios restantes..." -p. 76; "morreram às mãos dos índios, sabe-se vagamente" -p. 86; "diz-se até, porém não deve ser exato" -p. 100. Para o último, a linguística constituía o instrumento mais precioso, "ao abrir uma nova época para nossa etnografia selvagem", ao permitir a 'leitura' daqueles documentos vivos, os grupos indígenas não pertencentes à língua geral, complementando a obra dos jesuítas -"os fundadores da lingüística americana" -p.278.

 

TERRITÓRIOS

Um povoamento pressupõe um território. E Capistrano por este caminha, entrecruzando a cada passo as dimensões espacial e temporal como condição para a compreensão de como se constituíram os grupos humanos de um país - a própria Nação.

"Dos outros países americanos nos separam a diferença de meio e de raças, de sorte que nunca poderá ser completa a identidade; mas com todos eles possuímos um grande e profundo ponto de contato. No Brasil como no México, no Canadá como no Paraguai, o problema inicial é o mesmo: radicar uma civilização transplantada", diria em artigo na Gazeta de Notícias, a 9 de novembro de 1881.

Todavia, este território já não deveria ser compreendido como o fora por aqueles responsáveis pela construção do Estado imperial, Varnhagen entre eles: um continente que continha um conteúdo essencialmente rúptil como decorrência da existência da escravidão, a nação sendo identificada à população livre - ou, de modo ainda mais excludente e hierarquizante, à "boa sociedade", sempre branca, livre e proprietária de escravos Em Capistrano a noção de território estará referida, de imediato, a dois elementos de fundo histórico, por estar também e inevitavelmente associada a um percurso que parecia em vias de se completar, o território passando a conter um povo civilizado. De uma parte, considerava-se um território potencialmente agredido, em função da fragilidade orgânica do Estado-nação brasileiro em um mundo marcado pela expansão imperialista e pelo acirramento do nacionalismo. O temor partilhado por muitos dos componentes da cidade letrada, como Euclides da Cunha, José Veríssimo e Manuel Bonfim, parecia encontrar um paliativo na busca da solidariedade sul-americana e na cautela, se não repúdio às propostas pan-americanistas; e uma primeira linha de defesa na fixação dos limites do território, a partir da resolução das questões de fronteiras com base em sólidos argumentos históricos relativos à sua ocupação. Os estreitos contactos de Capistrano com uma plêiade de diplomatas, sua presença no grupo que gravitava ao redor do Barão do Rio Branco e do Ministério das Relações Exteriores, encontra aqui sua explicação, embora não exclusiva, sobretudo se nos lembrarmos que muitos daqueles componentes do corpo diplomático também dedicavam-se ao fazer historiográfico, como um Oliveira Lima, um Joaquim Nabuco e o próprio Barão, o que provocava um intenso intercâmbio de idéias e sobretudo de... documentos. Correspondência profícua entre os mesmos, revelando questões, dúvidas, aspirações, sentimentos e opiniões, as quais muitas vezes ao se referirem a alguém ou algo determinado deixavam entrever a imagem utópica que se possuía deste novo povo civilizado, como é possível talvez notar da opinião que o cearense emite a propósito da nomeação de Joaquim Nabuco para a legação nos Estados Unidos, em carta dirigida a João Lúcio de Azevedo, a 11 de fevereiro de 1920:

"Quando soube de sua nomeação para os E.Unidos, disse um pernambucano como ele: é branco, é instruído. é bonito; é a pessoa mais própria para dar uma idéia falsa do Brasil: não podia ser melhor a nomeação".

De outra parte, era impossível não levar em consideração a emancipação dos escravos, a conseqüente dissolução dos "três mundos" que compunham a sociedade imperial e a transformação do elemento negro em questão. Não é desproposital repetir que os componentes da elite brasileira profundamente europeizada, e ainda mais aqueles letrados que na Capital Federal vangloriavam-se de ser "mosqueteiros intelectuais", eram todos abolicionistas, todos liberais democratas e praticamente todos republicanos.; como também não é desproposital lembrar que, participes todos da chamada "Ilustração brasileira", e assim cônscios do atraso em relação à Europa e aos Estados Unidos mas crentes nas possibilidades de progresso a partir da ciência, da técnica e da adesão a padrões culturais europeus, apresentavam, e certamente não poderia ser de outro modo, profundas diferenças entre si, as clivagens intelectuais assumindo por vezes a marca de rixas pessoais. Embora sempre muito diferente e singular, Capistrano de tudo participava, em tudo era envolvido. Em um tempo de polêmicas, no qual o elemento negro se apresentava como "questão", ele não se furtaria às mesmas, resgatando e sublinhando a cada passo a importância do elemento nativo - e, quase como decorrência, da literatura indianista de Alencar. Polemizaria com Sílvio Romero nas páginas da Gazeta de Notícias, em artigos sob o título "História pátria", publicados em 9, 10 e 13 de março de 1880; traçaria o perfil de José de Alencar em diferentes artigos no mesmo periódico, nos anos de 1877, 1879 e 1882; não se conformaria em face dos arautos do cosmopolitismo, como Joaquim Nabuco, que elegiam Alencar emblema de um indianismo anacrônico.

O elemento nativo o refere à noção de território por um terceiro caminho, não estritamente de fundo histórico, ao menos nos termos que o consideramos até há pouco. Por meio da "porta" aberta pelo conceito de povos naturais, ele se relaciona com as teorias deterministas mesológicas e, em particular, com o pensamento de Ratzel, Apresentando a civilização como o único critério absoluto diferenciador entre as sociedades - dizendo melhor, entre os povos naturais e os "povos civilizados"-, o autor de Antropogeografia, publicada em 1885. sublinhava que a denominação "povo natural" não indica um povo que viva na relação mais Intima possível com a natureza, mas antes um povo que vive sob o império desta, ao passo que o "povo civilizado" se distingue pelo desfrute mais perspicaz das condições naturais, de tal forma que o progresso estabelece uma relação mais estreita entre o povo e o território. Assim, a diferença entre ambos os tipos de povos deve ser buscada não no grau, mas no tipo de ligação que existe entre o homem e a natureza, a civilização sendo independente da natureza não no sentido da completa libertação, mas no sentido de uma ligação mais diversificada, mais ampla e menos imperiosa.

É este o sentido do primeiro dos Capítulos -"Antecedentes indígenas". Após a descrição da localização e situação do território, dos principais acidentes do relevo, da hidrografia, do clima e da flora, lê-se:

"Entre estes animais nem um pareceu próprio ao indígena para colaborar na evolução social, dando leite, fornecendo vestimenta ou auxiliando o transporte; apenas domesticou um ou outro. os mumbabas da língua geral, - em maioria aves, principalmente papagaios; só para recreio. De caça e principalmente de pesca era composta sua alimentação animal. Possuía agricultura incipiente, de mandioca, de milho, de varias frutas. Como eram-lhe desconhecidos os metais, o fogo, produzido pelo atrito, fazia todos os ofícios do ferro. A plantação e colheita, a cozinha, a louça, as bebidas fermentadas competiam as mulheres; encarregavam-se os homens das derrubadas, das pescarias. das caçadas e da guerra" - pp.52 4

A passagem é suave, quase imperceptível, Capistrano transitando da descrição da fauna para a dos grupos nativos - as hordas brasílicas, e não os brasileiros - de um modo tão natural que ao leitor não resta senão concluir a respeito da relação imperiosa entre natureza e povo. "Antecedentes indígenas": a síntese sob a forma de um território:

"A mesma ausência de cooperação, a mesma incapacidade de ação incorporada e inteligente, limitada apenas pela divisão do trabalho e suas conseqüências, parece terem os indígenas legado aos seus sucessores"- p.57.

É sobre este território que reagirão os "Fatores exóticos", contidos no segundo dos Capítulos: o português e o negro. Mais aquele do que este; em parte porque do tráfico negreiro intercontinental ininterrupto durante mais de três séculos resultava uma socialização incompleta, agravada "depois da supressão do trafico em 1850 [porque] o café provocou deslocações consideráveis na distribuição interna, o mesmo efeito produziu a abolição" -p. 65; em parte porque as explicações deterministas de fundo racial não faziam senão sublinhar o papel do elemento branco em sua expansão sobre o globo, a difusão da civilização se apresentando como um processo de expansão dos povos civilizadores; e em parte sobretudo porque o português e o negro diferiam essencialmente entre si, expressando a diferença mesma entre "povos civilizados" e "povos naturais", uma diferença fundamental na consideração daquela exogenia caso se considerasse, segundo ainda o mesmo Ratzel, que as influências que a natureza exerce sobre o homem migram com ele, e os povos que sofreram essas influências as carregam consigo a grandes distancias.

Considerada na perspectiva do tempo, a reação dos "fatores exóticos" sobre os "antecedentes indígenas" esboçava um caráter expressado na síntese onde assume relevo o contraste marcante entre os parágrafos inicial e final:

"O negro trouxe uma nota alegre ao lado do português taciturno e do índio sorumbático. As suas danças lascivas, toleradas a principio, tornaram-se instituição nacional; suas feitiçarias e crenças propagaram-se fora das senzalas. As mulatas encontraram apreciadores de seus desgarres e foram verdadeiras rainhas. O Brasil é inferno dos negros, purgatório dos brancos, paraíso dos mulatos, resumiu em 1711 o benemérito Antonil" - p. 66

Mas muito mais do que isso, caso atentemos para o fato de que os dois capítulos iniciais não fazem senão pôr em evidencia dois dos três elementos responsáveis pelo povoamento do Brasil. E o faziam de tal modo que o papel principal ficava reservado para "Os descobridores", o terceiro dos Capítulos.

Observe-se que, à primeira vista Capistrano aproximava-se das proposições de Martius, a respeito de Como se deve escrever a historia do Brasil, ao tomar em consideração o papel desempenhado pelas "três raças" para a formação do "homem brasileiro". Conforme era ali exposto,

"jamais nos será permitido duvidar que a vontade da providência predestinou ao Brasil esta mescla. O sangue português em um poderoso rio deverá absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica. Em a classe baixa tem lugar esta mescIa e como em todos os países se formam as classes superiores dos elementos das inferiores, e por meio delas se vivificam e fortalecem, assim se prepara atualmente ria ultima classe da população brasileira essa mescla de raças, que daí a séculos influirá poderosamente sobre as classes elevadas, e lhes comunicará aquela atividade histórica para a qual o Império do Brasil é chamado".

Caso deixemos de lado a "mescla" ali sublinhada, as concepções de Capistrano muito se distanciavam das de Martius, a razão principal da distancia residindo na noção de território. Na verdade, vinte e poucos anos depois, ele reafirmava os pressupostos e conclusões contidos em "História pátria", expostos sob a forma de uma metáfora química, muito embora provavelmente ainda não tivesse tido contacto com os ensinamentos de Ratzel:

"...por isso direi que os Brasis foram decompostos pela ação dos Portugueses. A decomposição dos Brasis seria muito mais pronta e completa, se as tendências de que eram representantes não tivessem encontrado um auxiliar indireto nos Africanos. Com efeito, os Africanos deviam ser também decompostos pela ação dos Europeus, e isso, trazendo uma difusão de forças no agente português diminuía o trabalho que ele poderia produzir".

CAMINHOS

Um povoamento que se processa por capítulos - não os do livro, mas os da experiência colonizadora, porque aquela nada mais é do que o documento desta, que assim se torna legível aos que pretendem e devem descobrir o Brasil.

São onze os capítulos: I - Antecedentes indígenas; II - Fatores exóticos; III - Os descobridores; IV - Primeiros conflitos; V - Capitanias hereditárias; VI - Capitanias da Coroa; VII - Franceses e espanhóis; VIII - Guerras flamengas; IX - O sertão; X - Formação dos limites; XI - Três séculos depois.

Deixemos de lado os dois primeiros, que nos apresentam os elementos participantes da emocionante aventura de um povoamento, ao mesmo tempo que por ela serão constituídos. Consideremos, de imediato, os capítulos de III a XI, tomando como referência suas sínteses.

Lemos no capítulo III:

"Pau-brasil, papagaios, escravos, mestiços condensam a obra das primeiras décadas. (...) Estes primeiros colonos que ficaram no Brasil, degradados, desertores, náufragos, subordinam-se a dois tipos extremos: uns sucumbiram ao meio, ao ponto de furar lábios e orelhas, matar os prisioneiros segundo os ritos, e cevar-se em sua carne; outros insurtiram-se contra ele e impuseram sua vontade, como o bacharel de Cananéía, que se obrigou a fornecer quatrocentos escravos a Diogo Garcia, companheiro de Solís, um dos descobridores do Prata. Tipo intermédio apresenta-nos Diogo Alvares, o Caramuru, que habitou na Bahia de 1510 a 1557, data de seu falecimento" - pp. 80/1.

E no XI:

"Cinco grupos emográficos, ligados pela comunidade ativa da língua e passiva da religião, moldados pelas condições ambientes de cinco regiões diversas, tendo pelas riquezas naturais da terra um entusiasmo estrepitoso, sentindo pelo português aversão ou desprezo, não se prezando, porém, uns aos outros de modo particular - eis em suma ao que se reduziu a obra de três séculos" - pp. 337/8.

Se na primeira das sínteses quem se destaca é o Caramuni - tipo intermédio que nem sucumbe aos imperativos da natureza nem ao mesmo se impõe, de modo artificial, numa espécie de divórcio do meio, antes pelo contrario, de sua união multiplice e ampla derivam, sem duvida, os fatores que contribuem para a colonização da Bahia de Todos os Santos; da ultima emerge o sentimento nativista, por meio tanto do entusiasmo pelas riquezas da terra quanto da aversão ou desprezo pelo colonizadores, sentimento que não sendo ainda capaz soldar positivamente os membros da comunidade impede a plena constituição da nação, sendo dela apenas urna primeira manifestação. Mas não é isso que tanto nos interessa, agora.

No seu acontecer, os capítulos do povoamento se apresentam ao leitor, no fundo e no essencial, como a passagem do inferior para o superior, do desorganizado para o organizado, sempre por meio de sínteses parciais e necessariamente provisórias, representadas pelos capítulos intermediários. Passagem quer no tempo quer no espaço, deixando ao leitor a escolha de qual dos caminhos a seguir inicialmente, desde que se comprometa a ambos trilhar e se disponha a decompor/recompor cada um dos capítulos, por meio de um jogo instigante.

Caminhar no tempo.

Começando pela identificação da

"natural desafeição pela terra, fácil de compreender se nos transportarmos às condições dos primeiros colonos, abafados pela mata virgem, picados por insetos, envenenados por ofídios, expostos as feras, ameaçados pelos índios, indefesos contra os piratas. (...) Desafeição igual pela terra nutriam entre si os diversos componentes da população. Examinando superficialmente o povo, discriminaram-se logo três raças irredutíveis, oriunda cada qual de continente diverso cuja aproximação nada favorecia. Tão pouco próprios a despertar simpatia e benevolência, antolhavam-se os mestiços, mesclados em proporção instável quanto a receita da pele e dosagem do sangue. (...) A desafeição entre as três raças e respectivos mestiços lavrava dentro de cada raça. O negro ladino e crioulo olhava com desprezo o parceiro boçal, alheio á língua do senhores O índio catequizado, reduzido e vestido, e o índio selvagem ainda livre e nu, mesmo quando pertencentes á mesma tribo, deviam sentir-se profundamente separados. O português vindo da terra, o reinol, julgava-se muito superior ao português nascido nestas paragens alongadas e bárbaras; o português nascido no Brasil, o mazombo, sentia e reconhecia sua inferioridade. Em suma, dominavam forças dissolventes, centrifugas, no organismo social; apenas se percebiam as diferenças; não havia consciência de unidade, mas de multiplicidade" - pp. 138/40.

Passando pelo episódio das "Guerras flamengas", que permitiria uma primeira superação daquele sentimento transoceânico, porque

"reinóis e mazombos, negros boçais e negros ladinos, mamelucos, mulatos, caboclos, caribocas, todas as denominações, enfim, sentiram-se mais próximos uns de outros, apesar de todas as diferenças flagrantes e irredutíveis, do que do invasor holandês" -p. 140.

E também pelo povoamento d' "O Sertão", ao cabo do qual

"o segredo do Brasil" - revelado por Antonil e censurado pela metrópole - "transpirou sob outras formas, em adumbrações significativas. Surdiu em ditirambos, exaltando a riqueza sem par do país. Apareceu em vastas compilações dedicadas á nobíliarquia"-pp.267/8.

E tendo como ponto de chegada a constatação dos sentimentos que aqueles "cinco grupos etnográficos" nutriam em relação às riquezas naturais da terra, ao português e a si próprios. Uma caminhada no tempo orientada pela bússola do nativismo.

Caminhar no espaço, sabendo de antemão que a ocupação da costa é suplantada a todos os respeitos pelo povoamento do sertão,

"iniciado em épocas diversas, de pontos apartados, até formar-se uma corrente interior, mais volumosa e mais fertilizante que o tênue fio litorâneo" -p. 177.

Caminhar pela costa é perceber pouco a pouco tanto a ação fecunda e ordenadora do governo geral e dos jesuítas na fundação de um mundo novo em contraste com a tendência centrífuga e anárquica dos primeiros colonos o que contrapunha as "Capitanias hereditárias" às "Capitanias da Coroa", quanto as lutas pela defesa da terra contra a ameaça estrangeira - os títulos dos capítulos sublinhando-as: "Primeiros conflitos"; "Franceses e espanhóis"; "Guerras flamengas"-, cujo relato induzia à comparação entre a experiência do Brasil colônia, invadido e ameaçado e o presente do Estado-nação, potencialmente agredido. Mas tudo isso não constituía senão um tênue fio, até mesmo porque razões diversas impediam que se processassem as trocas fundamentais entre a população nativa - os Brasis- e o elemento português.

Diversa se apresenta a caminhada pelo sertão, capítulo essencial no povoamento, o mais extenso dos capítulos do livro. A partir de pontos apartados quatro regiões se constituem: a capitania de São Vicente e seu 'hinterland'; o "Norte", ou seja, o Estado do Maranhão em termos administrativos; a zona interior pastoril; e as minas. Quatro regiões surgidas pela ação dos colonos sobre o território - isto é, pelas trocas com os "antecedentes indígenas", destacando-se entre os mesmos o elemento indígena. Como resultado, a formação de uma corrente volumosa e fertilizante, embora diferenciada. Pequena a importância atribuída às minas, em que pese o seu valor econômico para a Coroa, porque nelas sempre predominariam os fatores exóticos, o elemento branco europeu explorando o trabalho escravo do elemento africano (e muito provavelmente aí reside também a pequena importância que Capistrano atribui à Conjuração Mineira). Relativa a importância da capitania de São Vicente e do "Norte", não obstante a presença marcante do elemento nativo, porque ao sul mamalucos, bandeirantes ou paulistas alongavam 'os raios do despovoamento e depredação, característico essencial e inseparável das bandeiras" - p. 181; e ao norte as autoridades portuguesas, principalmente durante o consulado pombalino, punham fim á ação fertilizadora das missões jesuíticas. Fundamental a ocupação da zona pastoril: ela gerou o vaqueiro e o sertanejo, e quando foram

"desvanecidos os terrores da viagem ao sertão, alguns homens mais resolutos levaram família para as fazendas, temporária ou definitivamente e as condições de vida melhoraram; casas sólidas, espaçosas, de alpendre hospitaleiro, currais de mourões por cima dos quais se podia passear, bolandeiras para o preparo da farinha, teares modestos para o fabrico de redes ou pano grosseiro, açudes, engenhocas para preparar a rapadura, capelas e até capelães, cavalos de estimação, negros africanos, não como fator econômico, mas como elemento de magnificência e fausto, apresentaram-se gradualmente como sinais de abastança" -p. 221.

Doze anos após a redação destas linhas a respeito de uma região onde "o negro africano não constituía fator econômico", o seu autor diria em carta a João Lúcio de Azevedo que a atração para uma nova edição dos Capítulos residia em

"encontrar documentos relativos à região entre o S. Parnaíba, aonde acho que está o nó de nossa história".

Porque no São Francisco - dissera em outra oportunidade - encontraram-se paulistas que desciam, baianos e sergipanos que subiam as suas margens sendo rapidamente povoadas, a criação de gado assumindo grandes proporções e a unidade territorial se consolidando.

O "Sertão" - ou melhor, uma determinada região do sertão - como o local onde se construiria nossa unidade territorial - entenda-se, o espaço onde as ações e reações recíprocas entre os "antecedentes indígenas" e os "fatores exóticos" do modo o mais acabado, possibilitaram a constituição de um "povo civilizado" - ou como aparece na conclusão de O descobrimento do Brasil de "uma nação moderna e civilizada em território antes povoado e percorrido por broncas tribos nômadas". Mas o sertão também como o tempo que permite descobrir as origens dessa constituição, porque ali

"em consequência das distâncias a sociabilidade é sempre diminuta e intermitente, e a ação coletiva fraca e mesmo insignificante. Por conseguinte, não podem aparecer lá modificações espontâneas. Por outro lado, as dificuldades de comunicações que separam o interior do litoral não permite que vão novos fatores deste ou só deixa que cheguem muito enfraquecidos. Consequencia: o sertão se conserva estacionado, isto é, colônia, histórico, se pode empregar-se esta expressão".

A passagem da ocupação da costa ao povoamento do sertão era também, em larga medida, a passagem de uma história externa que deveria tratar o Brasil como colônia portuguesa, podendo por essa razão ser escrita por um português- para uma história íntima - que "deve mostrar como aos poucos se foi formando a população, devassando o interior, ligando entre si as diferentes partes do território, fundando indústrias, adquirindo hábitos, adaptando-se ao meio e constituindo por fim a nação", uma história que deveria ser escrita por um brasileiro, conforme propunha em artigo sobre a História do Brasil do português Oliveira Martins, publicado na Gazeta de Notícias, em outubro de 1880.

1880 fora também o ano em cujo decorrer Machado de Assis publicara na Revista da Semana, sob a forma de folhetim, as Memórias póstumas de Bras Cubas. Do livro diria Capistrano, na mesma Gazeta, ser um romance por acidente, porque "o que é fundamental e orgânico é a descrição dos costumes, a filosofia social que está implícita". Certamente, procurava destacar, assim, a postura realista de Machado, a intenção de revelar, por meio da ficção, a verdadeira natureza da sociedade que retratava; certamente não desconhecia que as Memórias apenas traduziam o compromisso do 'bruxo", enunciado em "Instinto de nacionalidade", sete anos antes:

"Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço".

Não teria realizado o historiador em 1907 aquilo que se exigia do literato, os Capítulos sendo apresentados até mesmo sob a forma de um folhetim?

NÓS

A preocupação com a elaboração de uma história intima e o compromisso com um sentimento íntimo aproximavam aqueles que iam sendo esculpidos como os maiores representantes de seus respectivos gêneros literários, em sua época. Associava-os -guardada a consciência das diferenças de tempo e de referenciais teóricos- a um Gonçalves Dias, cujo proclamação a respeito da necessidade de "fazer uma cousa americana exclusivamente nossa" ressoava ainda. Reforçavam a intenção realista de diegar a essência da natureza do mundo que retratavam, cada qual com os instrumentos que lhes eram específicos, propiciando um conhecimento e uma compreensão de nós. Mas - peço desculpas, leitor- não é deste "nós" que esta parte cuidará; peço desculpas ainda por um quase involuntário jogo de palavras, o "nos" que tenho em mente dizendo respeito aos pontos que permanecem por ser desatados nestes já longos capítulos de Capistrano. Se é que a tal alcançarei...

Uma idéia fixa levou ao túmulo o narrador e personagem principal do romance de Machado de Assis - um "romance por acidente", disse o cearense; mas Brás Cubas - ou Machado de Assis, como é possível neste ponto distinguir entre narrador e autor?- não deixaria de concluir:

"Viva pois a história, a volúvel história que da para tudo; e, tomando à idéia fixa, direi que é ela a que faz os varões fortes e os doudos; a idéia móbil, vaga ou furta-côr é a que faz os Cláudios, - fórmula Suetônio".

Nós são como idéias fixas, e prestam-se ao menos à volúvel história, que da para tudo!

Quem discordará que Capítulos de História Colonial constitui o principal trabalho de Capistrano de Abreu, não obstante os reconhecidos méritos de Caminhos antigos e o povoamento do Brasil, dos textos sobre O descobrimento do Brasil, da edição da História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, entre inúmeros outros? Quem deixará de concordar que ali estão presentes alguns dos pressupostos como a critica documental de fundo erudito e o enredo que reserva um lugar aos eventos, para além da simples cronologia- que distinguem o que se costuma denominar de concepção moderna de história? Não obstante, para os padrões e requisítos que definiam o oficio do historiador, no momento em que este recortava o seu campo específico entre nós, a ausência das referências documentais e bibliográficas no corpo do texto dos Capítulos, e mesmo em notas à parte, constitui ao menos matéria de estranheza - um primeiro "nó", que a muitos e há muito vem intrigando, sobretudo quando se recorda a censura externada por Capistrano a vários contemporâneos e em especial a Varnhagen, em diferentes oportunidades. Sigo com as hipóteses, que procuram concretizar o ato de desatar falando do pouco tempo para a redação dos Capítulos, do estilo que os mesmos assumiram, do crescente desinteresse do autor pela prática da escrita... Não me convencem inteiramente.

O tempo era curto para a obra encomendada, que deveria estender-se até a República; ao menos para aquela idealizada pelo autor. Não obstante, para o que ganhara uns ares de tapera, muito já estava redigido em trabalhos anteriores, na tese para o Colégio de Pedro II, na introdução aos Diálogos das Grandezas do Brasil, na edição de Frei Vicente, nos artigos publicados na revista Kosmos sob o titulo de "História pátria" o ano de 1905... Os Capítulos reúnem todo este material, transcrevem-no em las oportunidades, e deste modo parecia não existir maiores dificuldades para a apresentação das notas correspondentes, ao menos no que se refere a esta parte. Questão de estilo, talvez, tendo em vista o público a que se destinava; o esforço por encontrar uma forma convincente de contar como se transitou progressiva e necessariamente de um sentimento transoceânico para outro nativista, este anunciando a consciência moderna de nação, para interlocutores que não mais se restringiam ao círculo de letrados empenhado em explicar o Brasil, devendo ser considerada não só a ampliação do raio da cidade letrada mas sobretudo a pressão exercida sobre as muralhas que a resguardavam por um 1contingente que não cessava de crescer, representado pela massa de homens livres e 1despossuídos, ex-escravos e imigrantes de origem européia, os quais, malgrado tudo, deveriam ser incorporados a esta grande comunidade imaginada chamada Brasil; questão de estilo que talvez o fizesse regressar ao Colégio de Pedro II, como parte de um descobrimento, resgatando uma antiga dívida, sobretudo na oportunidade em que a História do Brasil, curso superior de João Ribeiro, baseada nos mesmos pressupostos da Escola histórica alemã, expunha para um contingente expressivo os fundamentos de uma nacionalidade (e o silêncio de Capistrano de Abreu a respeito da obra de João Ribeiro parece por demais eloquente...). Nestes termos, é no ato de ler, mais do que no ato de escrever, que talvez se encontre o segredo para a ação de desatar este primeiro "nó", a leitura dos Capítulos devendo possibilitar um rápido e automático "reconhecimento" - e, até onde estou informado, este é o primeiro significado da palavra grega para "leitura" - do Brasil. Nestes termos ainda, em que pesem as notórias resistências à prática da escrita da parte daquele que identificou quem era o benemérito Antonil -"o tempo passa, a vida corre e cada vez gosto menos de escrever e tenho tanta coisa ainda que ler antes de partir para as regiões donde ninguém volta", diria em carta a Guilherme Studart, em novembro de 1906, em plena composição do livro fundamental, e repetiria o queixume pela vida afora -, os Capítulos foram redigidos da forma que o foram, representando muito provavelmente uma opção.

Ocorre-me, neste instante, que também optei por redigir estes outros Capítulos sem a indicação de notas e referencias bibliográficas E torna-se importante que o diga. Ignoro, nesta oportunidade, o destino futuro deste texto, mas tenho certeza de que ele dificilmente encontrará adiante alguém que se disponha a anotá-lo, como Capistrano pacientemente procedeu em relação ao texto de Varnhagen e José Honório Rodrigues em relação aos Capítulos, por ocasião da edição comemorativa do centenário de nascimento de seu autor. Por tal circunstância, indico que para melhor compreender Capistrano de Abreu e sua obra principal, sob a perspectiva de um "Descobridor", recorri aos trabalhos essenciais do mesmo José Honório Rodrigues, Sérgio Buarque de Holanda, Albert Hirschman, Brito Broca, Ricardo Benzaquem, Nicolau Sevcenko, Eric Havelock, Antonio Cândido, Helio Vianna, Hayden White, John Gledson, Ana Pizarro, Benedict Anderson, Flora Sussekind, Vitorino Magalhães Godinho, Roberto Schwarz, Luiz Felipe Barreto, Nelson Werneck Sodré, Jacques Le Goff, Antonio Dirnas. Antonio Arnoni Prado, Jean Foucambert, Roque Spencer Maciel de Barros... Optei ainda, como maneira que melhor me pareceu para expressar o modo como Capistrano entendia o seu ofício e o mundo no qual se movia, em transcrever suas próprias palavras sernpre que possível. quer sob a forma de citações, por vezes exageradamente longas, quer sob a forma da pura transcrição de trechos de livros, artigos e de sua copiosa correspondência que complementavam as idéias que eu desejava expor; nessa segunda possibilidade, de modo a marcar para o leitor o que se deve a Capistrano procurei destacar suas palavras recorrendo à forma itálica. Como é possível observar logo no início deste texto, no item ou parte referente aos Descobridores, Capistrano também assim procedeu em diferentes oportunidades, em particular no que se referia à documentação; animava-o, então, a intenção da "prova", o testemunho permitindo narrar "o que efetivamente aconteceu"; anima-me a imitá-lo na forma não tanto a mesma intenção mas talvez o que animava Sérgio Buarque de Holanda a proceder de maneira semelhante em busca tanto da caracterização do modo como pensava uma personagem quanto da forma mentis que distinguia uma dada sociedade em determinada época Estou seguro também que, qualquer dos recursos por mim utilizados - a não inclusão de notas e referências bibliográficas e a transcrição literal das palavras do próprio Capistrano- tinham como finalidade maior homenagear um autor que me acompanha desde sempre; não estou tão seguro, mas desconfio fortemente, que outra não foi a intenção de Capistrano que, ao assim optar para os Capítulos, buscava homenagear Francisco Adolfo de Varnhagen -mestre, guia e senhor, que deveria permanecer em seu pedestal, por um longo tempo ainda...

Aquele que resistia ao ato de escrever foi um míssivista aplicado, sua correspondência ativa - organizada e publicada por José Honório Rodrigue - preenchendo três volumosos tomos, o segundo quase inteiramente contendo as cartas dirigidas ao historiador português João Lúcio de Azevedo. Contudo, nesta copiosa correspondência somente uma única carta é dirigida a Machado de Assis; uma única carta deste, endereçada a Capistrano de Abreu, é transcrita em sua Obra completa.

Convidado a ingressar na Academia Brasileira de Letras, criada sob a inspiração de Machado de Assis, Capistrano de Abreu recusaria. Comentaria com João Lúcio anos depois, que

"fui inscrito na Academia Humana independente de consulta e já acho excessivo. Os fundadores da Academia de Letras daqui eram quase todos meus amigos, instaram comigo para que lhes fizesse companhia. Resisti e cada vez estou mais convencido de que andei com juízo".

Silêncios e recusas que não significavam distanciamento ou divergências profundas entre aqueles que, à medida que a vida corria, não apenas se notabilizavam como também iam se tomando, no entender de alguns contemporâneos, cada vez mais solitários e casmurros.

Capistrano reconhecia a importância e o valor da instituição que ora completa o seu primeiro centenário. A importância por formalizar de modo claro a progressiva autonomização do campo literário, a autoridade literária diferenciando-se da autoridade política, a profissionalização do escritor tomando-se possível em decorrência, em larga medida, da multiplicação da imprensa periódica, de jornais e revistas, e da ampliação do papel das casas editoras. Não obstante, as dificuldades permaneciam para a grande maioria dos que constituíam o círculo ainda estreito dos letrados, em meio a este intenso movimento caracterizado por um projeto reformista, tanto assinalado pela combinação complementar e contraditória de nacionalismo e cosmopolitismo no interior de um mesmo projeto reformista, quanto interessado na articulação ideológica de um novo tempo de unidade nacional voltado para a afirmação da soberania. Neste particular, as considerações feitas por Capistrano a respeito das vicissitudes enfrentadas pela viúva e pelos filhos de José Veríssimo constituem muito mais do que um testemunho a respeito de uma situação individual:

"...a casa, a hospitaleira casa da Rua Marques Leão, está paga ou quase e era própria; em sua biblioteca há algumas raridades que em outras partes poderiam dar algum dinheiro; o montepio federal perdeu, porque em momento de apuro suspendeu as contribuições e nunca mais foi readmitido (...): eis o triste balanço de uma existência voltada ao trabalho indefesso e honrado".

Mas o reconhecimento da importância da Academia não era suficiente para fazer dela participar aquele que, recordo, fazia parte do Instituto Histórico e até mesmo já cogitara em fundar uma instituição congênere.

Nem mesmo o valor que a ela atribuía é capaz de propiciar, ao menos de imediato, um outro desatar. Sem dúvida, ele também partilhava a preocupação a respeito da importância da fixação de uma língua nacional, esta língua que ao final de três séculos constituía a única comunidade ativa a ligar os grupos etnográficos que ocupavam um território, por meio da gramática e da ortografia, numa preocupação que caminha lado a lado àquela com o direito e a construção do Estado, num momento em que, como foi dito há pouco, as muralhas da cidade letrada encontram-se fortemente pressionadas, aqueles grupos devendo integrar-se cada vez mais até o ponto de constituírem uma só e única comunidade. Porque uma língua comum é o primeiro dos pré-requisitos para que haja uma cultura humana determinada, e uma língua comum edifica-se sobre a base de uma memória comum; memória que, por sua vez, não pode permanecer sendo frágil, pobre e confusa.

Todavia, os labores são diversos, porque diversos São os caminhos que conduzem ao que é íntimo, e o oficio do ficcionista não deve se confundir com o oficio de historiar. A história, a verdadeira história que traça a biografia da nação, nem pode ser volúvel nem pode dar para tudo. À diferença do romance moderno, que opera com a distinção marcada entre o narrador e o autor, inventando situações narrativas ou narradores postos em situação, e assim deixando ao leitor o papel de juiz ou avaliador em última instância, na maneira moderna de narrar a história o narrador elide o autor, por ser a sua narrativa o produto da visão de um observador privilegiado, posto a calculada e medida distancia dos testemunhos dos eventos que pretende narrar, devendo em um mesmo movimento ambos julgar ou avaliar como condição para a identificação do sentido que conduz a um porto seguro de chegada, ponto de partida para um descobrimento.

Por certo, a história íntima não completara o seu percurso ao cabo de três séculos. Mas o seu sentido estava delineado. Uma raça histórica se constituíra, como diria Euclides da Cunha em Os sertões, e embora os elementos que a formavam ainda não se prezassem uns aos outros, permaneciam ligados pela comunidade ativa da língua e passiva da religião, e pelo estrepitoso entusiasmo pela natureza. E ainda pela aversão ao português, com o que anunciavam o capítulo seguinte de uma constituição que Capistrano não conseguiu -provavelmente não quis- incluir nos Capítulos. Porque entre os "efeitos da Independência - já anotara aquele que erigira um monumento, em outro estudo, em oportunidade diversa- encontrava-se o estabelecimento de um dia de consciência nacional, em que através do espaço e da distância, os diversos membros se reconheciam unos pelo passado.

O CAMINHO DE DAMASCO

Síntese das mais significativas de nossa formação colonial, os Capítulos de História Colonial são também a síntese da vida intelectual de seu autor. Percorrer cada linha de cada um dos capítulos é exercitar a possibilidade de identificar o documento pesquisado, o trecho transcrito de um estudo anterior, a polêmica travada, o juízo emitido, o interlocutor eleito - a possibilidade de identificar momentos que não mais retornam de uma vida inteira de dedicação invulgar a um oficio. Porque é coisa por demais sabida: o autor forja a obra, os Capítulos forjaram cada capítulo da vida daquele que gostava de assinar João Ninguém. Pode ter sido um mero acaso; a você, leitor, resta a possibilidade de avaliar.

Os anos seguintes à publicação da monumental tapera foram consumidos, em meio a enormes desânimos, em muitas leituras e pesquisas, em anotações para uma nova edição da História Geral do Brasil e para uma planejada reedição dos Capítulos, em reunir documentos para uma história sertaneja. E sobretudo em estudos sobre os bacacris e os caxinauás.

Os reveses da vida eram parcialmente compensados pelos regressos propiciados pelo oficio. Caminhava certo dia de 1918 pela avenida Rio Branco quando

"dirigiu-se muito apressado para falar o Paulo Prado. Disse que, obrigado a ficar em casa por um acesso de gota, lera meus Capítulos e achara seu caminho de Damasco, e convidou-me para almoçar com um amigo que deseja muito conhecer-me. (...) Paulo voltou para Piratininga, vi o Pinto repetidas vezes, até ir ver a família no Rio Grande, donde não tardará a voltar. Uma noite tomei uma tira de papel como esta e escrevi;

Eduardo Prado

PARA MELHOR CONHECER O BRASIL

Editor Paulo Prado

Juntei um programa, fiz o orçamento de 10 contos o volume e rematei ditado: Quem não tem coragem não amarra negro".

Quantos mais não terão encontrado na obra daquele agnóstico o seu caminho de Damasco? A linhagem aberta pelos Capítulos conduz à historiografia do modernismo, em quaisquer de suas vertentes, com suas tensões entre a tradição e a mudança expressadas nos trabalhos dos sérgios, caios, gilbertos, robenos, fernandos, franciscos, nelsons, alices, emílias, iedas, margaridas e de muitos e muitos outros navegadores que em busca de outros descobrimentos e procurando desbravar novos sertões seguiam por este mar de longo...

 



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