Entrevista com Luis da Câmara Cascudo feita em 08/01/1979
pelo Folhetim da Folha de São Paulo

"O Velho Que Sabe Tudo"

Em Natal o chamam de "o homem que sabe tudo". Já virou até nome de rua. Escreveu na "Folha da Manhã" sobre musicologia, na década de 40, sendo também etnógrafo, etnólogo, antropólogo, historiador, romancista, poeta e, principalmente, folclorista. Mas não gosta do termo "folclore". Como folclorista acho que o termo certo é "cultura popular".

Luís da Câmara Cascudo só não sabe de matemática. Detesta, mais precisamente. É até inimigo dela. Mas talvez por isso é bem capaz de terminar como Ministro da Fazenda – diz ele com uma risonha ironia, do alto dos oitenta anos completados no penúltimo dia do ano passado, depois de uma semana de festejos em Natal.

Sentado na cadeira de balanço que pertenceu ao seu pai e cercado de livros, quadros e culturas, o velho mestre recebeu o repórter numa quente tarde de dezembro risonho, irônico e falando muito. Sem mesmo o cuidado recomendado pelos médicos e apesar da vigilância de Dona Dahlia, sua mulher. (Assis Angelo)

  • Sou único rio-grandensse do norte que não pode negar a idade, porque está marcada na porta de minha casa.

Mesmo que quisesse, não poderia. Placas de Bronze enfeitam a entrada da casa do folclorista mais famoso do Brasil. Todas com datas do seu nascimento: 30/12/1898. Ele recebe correspondência até desta forma: "Luís da Câmara Cascudo, Natal."

As placas dizem: "Aqui LCC serve a Rio Grande do Norte pelo trabalho intelectual mais nobre e mais constante que o Estado já conheceu." (homenagem do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte). "Aqui nesta casa LCC com sabedoria e humanidade completou cinquenta anos de vida intelectual" (homenagem do Rio Grande do Norte).

Há outras, mas o homenageado parece não ligar muito, talvez porque as homenagens tenham se tornado um fato corriqueiro na sua vida. Quando disseram-lhe que iam ergue-lhe uma estátua, ele simplemente veio com a sugestão:

  • Ah é? Pois faz muito tempo que não toco piano. E só não toco porque não tenho comugo esse belo instrumento. Deveriam ter pensado um pouquinho nisso.

Passou um terço da vida fora do Brasil, correndo o mundo:

  • E foi, então, vendo meu país por outro ângulo que passei a amá-lo e dar valor à feijoada e ao samba.

O bom humor é marca registrada neste homem que nas horas de leitura, que são muitas, delicia-se com Heródoto, Plínio, Tácito, Petrônio, Terêncio, Montaigne, Cícero, Aristóteles, Platão, Plauto, Homero, Ovídio, Sêneca, Anatole France etc.

  • Me chamo Luís, em homenagem, à Luis rei da França. Fui o terceiro filho e único sobrevivente. Meu pai era tenente da polícia, que lutou contra cangaceiros. A rua onde nasci tinha um nome lindo: Rua das Virgens. Um dia o prefeito resolveu mudar para Rua LCC. Escrevi-lhe umas cartas desaforadas, até que ele trocou, ou melhor, acresentou algo mais: Rua LCC, ex-rua das virgens.

Um velho simples, cordeal, brincalhão, irônico. Na cidade onde mora os meninos e os adultos dizem que "ele é o homem que sabe de tudo". O folclorista mais famoso do Brasil, e um dos mais importantes do mundo, aprendeu a ler por esforço próprio, em vários idiomas: inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, grego e latim. E diz que fala muito mal o português.

  • Mentir é feio, mas é gostoso.

E o velho dá risada.

O encontro com o velho começou assim. Dona Dahlia, sua mulher, atendeu a porta, convidou para entrar e pediu: "Espere alguns minutos.". Não demorou muito, mestre Câmara apareceu vestindo pijamas e arrastando sandálias, fumando um charuto que parecia nunca se apagar, olhar penetrante e fingindo cara feia. Depois dos cumprimentos de praxe, senta-se na cadeira de balanço, que pertenceu ao pai e diz:

  • Não posso me expressar com fazia em 1906... Fui professor durante toda minha vida e mudo de linguagem e a lógica de acordo com o centro de interesses dos meus ex-alunos, que foram mais de dois mil, em 50 anos. A minha preocupação como professor era dar a disciplina como matéria útil, diária e não como decoração a ser pendurada na sala de aula. Sempre procurei uma linguagem que fosse assimilada. Eu me misturo com as pessoas para aprender alguma coisa. Isso de ver de palanque não é comigo... A minha felicidade consiste em valorizar a vida alheia. Assim aprendi muito.

Em seguida pede as perguntas por escrito, porque não é mais um homem que ouve bem. Primeira pergunta:

FOLHETIM: Mestre Câmara, o senhor acha que o Brasil vai bem?

LCC: (repetindo para si mesmo a pergunta) Vai maravilhosamente bem. Vai tão bem que os políticos não puderam acabar com ele... Todo mundo diz que o Brasil está na beira do abismo. Mas eu acho que a minha pátria está nas melhores situações. Pelo seu povo, pelo poder de desorganização do seu povo. O brasileiro dá nó em pingo d’agua. Da maneira que não tem (...) para ele. Costumo dizer a todo mundo que nesta terra não existe ladrão, especuladores, mau-caráteres. É mentira, mas é gostoso de ouvir...

F: O que o senhor espera do Governo Figueredo?

LCC: Santo Deus! Muitos anos eu sonhei, e mesmo trabalhei para que o General Euclides Figueredo, o pai, fosse presidente da República. Era uma figura completa de homem e cidadão. Alegre emocional e tudo o mais. Não vi o pai, vou ver o filho assumir. Que Deus o proteja.

F: Recentemente o senhor pediu anulação do seu título de eleitor. Por quê?

LCC: É que a lei eleitoral manda dispensar do exercício as pessoas que já tenham 70 anos. Eu tenho 80. Há sessenta anos que eu participo da escolha das estrelas e das contelações do Parlamento brasileiro... Agora já basta de escolher as suas excelências. Surdo, vendo pouco, sem poder ir a rua, é necessário, pois, que eu tenha o meu programa de casa, e nesse não está incluída a escolha de suas excelências. Por isso eu que fui professor de Direito, em vez de não votar amparado na lei, fiz junto com um ex-aluno meu, hoje um grande advogado, Di... Dinarte... Como é o nome dele? (Dona Dahlia dá o nome do ex-aluno) pois bem Diógenes da Cunha Lima... Pedi que ele requeresse o cancelamento do meu título. Justamente por isso jornais do Rio e São Paulo fizeram um bafa danado, dizendo que "o mestre Cascudo não quer mais votar", "Mestre Cascudo não quer e tal". Não foi nada não. Apenas optei pelo meu direito lógico de repousar.

F: O que o senhor diz sobre a tão falada emancipação dos índios e sobre o desmatamento da Amazônia para saldar nossa dívida externa?

LCC: (repete a pergunta como se estivesse sozinho) Os índios são os donos da casa. Nas minhas pesquisas tive o maior contato com eles. Sou um apaixonado por eles. O mal é torná-los brasileiros sem ajustá-los ao momento presente em que largam as malocas amazônicas, e mato-grossensse, e vão ser funcionários públicos em Brasília. O desmatamento da Amazônia para saldar nossa dívida externa me faz lembrar do sujeito que vendeu o carro para comprar gasolina. Não teremos mais dívida, mas teremos o problema de uma região mista sem mata. Vem a erosão, vem a terra que não produz, vem a mudança do clima...

F: ... do ôxigênio...

LCC: (fazendo sinal de silêncio)... aí você bote umas coisinhas suas. Outro problema tão sério, tão nacional, tão ofensivo e premente como a dívida externa.

F: Que contribuição o senhor acredita ter dado ao Brasil?

LCC: Eu dei ao Brasil uma bibliografia leal e legítima, porque não foi feita de imaginação e de livros sobre livros, mas do contato direto com o povo. Com a legitimidade do apurado, com a confição e a contribuição de um pesquisador direto, levando aos quadros brasileiros os elementos fundamentais da sua marcha para o progresso. (e fala grifando sílaba por sílaba a palvra fundamental)

F: O que é cultura popular?

LCC: Cultura popular é a que vivemos. É a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e nas culturas convêncionais pragmáticas da vida. Cultura popular é aquela que até certo ponto nós nascemos sabendo. Qualquer um de nós é um mestre que sabe contos, mitos, lendas, versos, superstições, que sabe fazer caretas, aperta mão, bate palmas e tudo quanto caracteriza a cultura anônima e coletiva.

F: Quando o senhor decidiu pesquisar o folclore brasileiro?

LCC: Muito novo, em 1915, com 17 anos, eu era repóter do jornal do meu pai, "A Imprensa", que durou de 1914 a 27. E já nesse tempo fui, irresistivelmente, chamado pela cultura cotidiana: feiras, mercados, festas religiosas na rua, cantos populares alusivos às distrações populares, a indumentária, alimentação, a linguagem... Essas coisa me seduziram até os oitenta anos.

F: Diga uma coisa, o que o senhor acha da crítica literária?

LCC: Eu não creio em crítica literária. Por mais que se escreva sobre doutrina e outras coisas da cultura literária, eu acho que a crítica literária se reduz à sensação da opinião, a reação pessoal de cada um de nós diante do livro que lemos. Tanto mais durável quanto mais alto o dom de quem escreva isto. Mas cada um de nós tem, indelevelmente, o direito da percepção, o direito de sentir e de reagir de acordo com a sua sensibilidade, o direito de gostar ou não. Isto é eterno e deve ser respeitado.

F: Qual seria o seu último desejo?

LCC: O meu último desejo é não ir para o inferno. Ir por pouco tempo para o purgatório, que eu acho muito interessante. Queria ficar pouco tempo no purgatório para fazer as minhas reportagens, não é? Sobre a situação de lá, e sobretudo para não perder a minha comunicação com meus leitores brasileiros.

F: O senhor é cristão?

LCC: Sou católico, fumo e bebo tanto quanto deixam (solta uma baforada de charuto Havana e pigarreia).

Dona Dahlia: O médico não quer que ele fume mas ele fuma assim mesmo.

F: Como é o seu dia-a-dia?

LCC: O meu dia-a-dia, meu confrade, é que eu preciso me ocupar para não me preocupar, especialmente aos oitenta anos. Para não estar mal-humorado, irritante, intolerante devo ter um programa de realização dentro das minhas possibilidades. As possibilidades são muito limitadas. Eu já não sou o otinor do campo, o homem que vai para a África, ao interior africano, ou ao americano. Tenho de ficar em casa, logo, criar algo no mundo da casa: reminiscências, livros. Agora, você sabe, nunca estamos sozinhos quando pensamos. Está ao redor de nós o nosso passado, o que nós pensamos, conversamos, lemos, enfim o patrimônio pessoal da lembrança. E é isto que me mantém vivo e bem humorado. Todos os jornais, toda gente falam do meu bom humor. Sou bem humorado porque trabalho. Se não trabalhasse estaria perpetuamente mal-humorado... Depois de todas essas respostas, afetuosamente dadas a você, você agora vá baixar noutro terreiro...

DD: Ele é assim mesmo. Não toma prumo. Isso que ele disse "vá baixar noutro terreiro" já é uma frase conhecida de todo mundo aqui.

LCC: Vá baixar noutro terreiro sabendo que só dei isto (as respostas), porque sede vós quem sodes, caso contrário eu não daria, não me levantaria da cama.

Mas o velho brincalhão continuou a falar...

  • Estudei medicina na Bahia. Meu pai, que era milionário quando nasci, estava meio empobrecido nessa época, e não pude montar meu próprio laboratório. Por isso fui fazer Direito e me formei em 1928. Fui advogado de sindicatos de bancários, e trabalhava praticamente de graça, ganhando apenas 300 mil réis por mês...
  • Eu conservo toda a mecânica psicológica dos meus 50 anos. Generais, Brigadeiros, Almirantes, Reitores, Ministros de Estado, universitários, o repórter da folha e outras pessoas as trato de senhor... mas dentro de dois minutos começo a dizer: "mas menino, eu não tô dizendo, deixa de jumento..." chamei de menina a senhora do Presidente da República, dona Lucy Geisel, que veio me visitar. Durante dois minutos chamei de senhora, madame. Depois veio o reflexo condicionado da minha vida de professor. Fui professor de todo mundo. Cinqüenta anos de professor em Natal. Nunca aceitei os convites insistentes nem para o Rio de Janeiro. Fiquei na faculdade de Direito até me aposentar. De maneira que por mais importante que seja a pessoa, para mim, ela é sempre menina ou menino de 16, 17 anos. Agora vou me deitar e você vá baixar noutro terreiro...

E o velho vai se deitar...

Fica Dona Dahlia, que é uma história à parte. No começo ela não gostou muito da idéia de fazer uma entrevista com o mestre...

DD: Ele está cansado, adoentado e precisa de repouso. Ele não liga muito para isso não, e quando começa a falar não tem no mundo ninguém capaz de fazê-lo parar. Se não fosse eu, ele ficava o tempo todo falando.

F: Como é que se porta o mestre Câmara em casa sozinho?

DD: Da forma como você acabou de ver. Ele nunca está sozinho, tem os livros... O homem culto, de letras, folclorista, escritor se iguala a figura humana que é: uma figura maravilhosa. A simplicidade dele é uma das coisas que o tornam ainda mais grandioso. No próximo ano faremos bodas de ouro pois já temos 49 anos de casados.

F: Agora me conte a senhora, como é o dia-a-dia dele?

DD: Recebe muitas visitas. Só não recebe mais porque eu vou controlando um pouco. As cinco horas da manhã já está acordado lendo. Fuma charutos Havana que um amigo manda do Rio. Bebe uísque e vinho "tanto quanto me permitem" diz ele. Reza sempre o terço, mas dificilmente vai à igreja. Lê histórias em quadrinhos e vê Chacrinha na tevê. Detesta formalismos, e sempre que pode fica à vontade de pijama e sandália. Seus cabelos prateados estão eternamente despenteados. Gosta de apreciar a natureza.

F: O que ele está escrevendo agora?

DD: Um livro sobre superstições.

CC em entrevista ao MIS do Rio: "A minha muler se chama Dahlia. Podem dizer que sou um homem que conseguiu se unir a uma flor. Tive o prazer de possuí-la e ela o paciência de me aturar. Já me submeti a uma análise e descobri que se tivesse de me casar de novo seria com ela. Pretendo me desquitar, entretanto. Só assim poderei cortejá-la novamente."

DD: Tem vez que a gente sai por aí de mãos dadas, como dois jovens enamorados. Nessas ocasiões olhamos as estrelas e o luar.

Ela conta isso orgulhosa e sorrindo. Dona Dahlia Freyre Cascudo. Uma mulher baixinha, risonha e simpática, de gestos largos e uma beleza que o tempo ainda não esqueceu.

Pesquisa feita por Tatiana Paiva, no dia 21 de março de 2001, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro



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