Câmara Cascudo e o pensamento
conservador
Isabel
Tebyriça Ramos
Bolsista de Iniciação Científica do Projeto Modernos Descobrimentos - PUC-Rio
O trabalho aqui apresentado, como outros em jornadas
anteriores, está inserido na Segunda etapa do Projeto Integrado de Pesquisa coordenado
pela professora Margarida de Souza Neves, desenvolvido no Departamento de História e que
tem como objetivo o estudo de Luis da Câmara Cascudo. Atualmente a equipe privilegia o
estudo dos escritos memorialísticos e historiográficos do autor, mais conhecido como
folclorista e estudioso da cultura popular.
Nascido em 30 de dezembro de 1898 na cidade de Natal, Câmara Cascudo é autor de mais de
cem livros, além crônicas em revistas e jornais. Jamais abandonou sua cidade de origem e
de lá mesmo foi capaz de mapear como ninguém o folclore e a cultura popular brasileira.
Um provinciano incurável, como ele mesmo dizia adotando as palavras de Afrânio Peixoto[[1]], preocupado em desvendar a alma do Brasil e
evitar que a cultura do povo brasileiro caísse em esquecimento. Figura ilustre e
respeitada em todos os meios intelectuais do país, pude perceber quando estive em Natal
pesquisando em sua biblioteca particular, que mesmo após sua morte em 1986, Cascudo goza
até os dias de hoje de um imenso prestígio com todo o povo natalense. Todos os acervos
visitados, quando não eram nomeados em homenagem ao autor como a Biblioteca Municipal
Câmara Cascudo ou o Memorial Câmara Cascudo, sempre possuíam uma grande quantidade de
sua vastíssima obra. É interessante notar que o respeito e a estima de seus
conterrâneos deu origem ao que Moacir...... se refere como uma cascudolatria, ou
seja uma valorização de sua vida e obra que beira a idolatria. Fora do ambiente
acadêmico, Câmara Cascudo era conhecido por seu jeito simpático e folgazão.
Freqüentador das noites na Ribeira, centro boêmio de Natal, colecionador de
crepúsculos, apreciador de um bom charuto, uma boa bebida e uma boa conversa, sua casa
sempre esteve aberta aos inúmeros visitantes que lá iam atrás de estórias, casos, e
principalmente informações. Em seu discurso de posse na Academia Norte-rio-grandense de
Letras, Oriano de Almeida[[2]], professor e
estudioso da música que ocupou a cadeira de Cascudo, disse: Na presença do
Cascudo-alquimista, as pessoas entravam maus alunos ignorantes e saíam bons alunos
ilustrados. Era mais inteligente não falar, só ouvir o que ele tinha a dizer. Era como
folhear um livro ou melhor, uma enciclopédia.. Não seria a primeira vez que
Cascudo seria comparado a uma obra literária de dimensões ciclópicas, daquelas que
pretendem abarcar todo o saber, Carlos Drummond de Andrade[[3]]
também o classificou como uma pessoa em dois grossos volumes numa referência
à obra que monumentalizou o autor, o Dicionário do Folclore Brasileiro, ou simplesmente,
o Cascudo como até hoje ouvimos falar. Monumento, alquimista, etnógrafo, historiador,
poeta, folclorista, pesquisador, professor, intelectual, jornalista, advogado, crítico
literário, biógrafo, memorialista, musicólogo, boêmio, grande bebedor, não
necessariamente nessa ordem, todas essas palavras se referem a alguma faceta de Luis da
Câmara Cascudo. São denominações que fazem parte de sua memória e como memória é
também esquecimento, pretendo iniciar agora e aprofundar posteriormente em minha
monografia de final de curso um estudo sobre o que não é lembrado a respeito de Câmara
Cascudo.
Memória: escolha e construção[[4]]
A memória provoca por excelência uma grande atração nos historiadores, pois é
através dela que podemos nos aproximar do passado, esse país estrangeiro,
nos dizeres de David Lowenthal[[5]]. No entanto
devemos sempre nos lembrar que como arte, a memória é também criação, ou seja, por
maior que seja nosso desejo, jamais seremos capazes de fazer uma reconstrução
efetivamente fiel do que já passou. Para construir o passado utilizamos lembranças e
estas estão intimamente vinculadas ao seu sujeito, melhor dizendo, quem se lembra é o
homem, portanto a lembrança vem acompanhada de uma intensa carga emocional. Gilberto
Velho[[6]] ressalta em seu artigo
Memória, identidade e projeto que atualmente na chamada sociedade ocidental
moderna, o predomínio do individualismo acarretou numa valorização das biografias,
transformando assim a memória individual em peça fundamental deste processo. A memória
traz a tona uma visão retrospectiva da biografia, enquanto o projeto antecipa essa
biografia, na medida em que busca, através do estabelecimento de objetivos e fins,
a organização dos meios através dos quais esses poderão ser atingidos[[7]]. Dessa forma, o projeto e a memória se
entrelaçam e dão significado à identidade. Percebemos então que a memória faz parte
de um processo de construção, o indivíduo, ou no caso de Câmara Cascudo, ele próprio
e a sociedade, atribui maior ou menor importância a determinados acontecimentos de sua
vida. Por isso vale lembrar as palavras de Jacques Le Goff[[8]],
o conceito de memória é crucial, num sentido do entrelaçamento, do
cruzamento de diversas forças, como presente e passado, espaços e tempos, registro e
invenção, público e privado, lembrança e esquecimento. O esquecimento é parte
fundamental da memória, pois constitui a dualidade de sua ação, quem lembra, também
esquece, pois memória é também escolha. O que vai ser lembrado se sobrepõe ao que vai
ser esquecido.
É sob a ótica do esquecimento que pretendo analisar Luis da Câmara Cascudo. Através de
meus estudos no grupo de pesquisa pude aprender que o silêncio muitas vezes tem um
significado muito mais amplo do que aquilo que está claro diante dos nossos olhos. Robert
Darnton[[9]] diz: Quando não
conseguimos entender um provérbio, uma piada, um ritual ou um poema, temos a certeza que
encontramos algo. Analisando o documento onde ele é mais opaco, talvez se consiga
descobrir um sistema de significados estranho. O fio pode até conduzir a uma pitoresca e
maravilhosa visão de mundo.. Aprendida a lição, foi assim que me interessei
pelas entrelinhas de Cascudo, pela menos alardeada de suas facetas, seu conservadorismo.
Diante do intelectual simpático e folgazão, que recebia inclusive as visitas mais
ilustres vestindo pijama, espirituoso, irônico, sempre disposto a uma brincadeira e que
construiu sua memória sobre o tripé de sua erudição, seu arraigado amor à província
em que nasceu e nunca abandonou e sua atenção privilegiada à cultura popular ergue-se
um intelectual de perfil conservador: Câmara Cascudo foi integralista e coordenador do
movimento integralista no nordeste, foi também monarquista e manteve alguma proximidade
com o movimento Tradição Família e Propriedade e com militares influentes no
regime de 64.
Indícios que o tempo leva....
Na realização de uma jornada por seu livros de memorialística, O tempo e eu
onde registra lições de vida e personagens ilustres, Pequeno manual do doente
aprendiz , experiências de sua internação no hospital de Natal, Na ronda do
tempo, diário de 1969, Gente Viva, registro de biografias exemplares e
Ontem, notas de um professor sobre sua carreira, encontrei um denominador
comum aos livros citados: todos foram escritos e publicados entre 1968 e 1972. Esse foi
para mim o primeiro indício de seu conservadorismo, justo nos anos mais duros e
repressores da ditadura, Câmara Cascudo optou por fechar-se em seu casulo, sua famosa
casa na rua Junqueira Aires, que sempre foi o ponto de convergência entre as duas cidades
presentes em Natal, a Cidade Alta, lugar mais nobre e a Ribeira, lugar mais simples,
habitado pelos canguleiros. Fechou-se também literariamente, privilegiando os
escritos de memória e memorialística que não falavam sobre o sisudo presente e sim
reviviam o alegre passado, em sua Natal querida, que cresceu junto com ele. Lembrava da
família, seu pai, sua mãe, seus primeiros mestres, seus conhecimentos de Medicina,
faculdade interrompida para estudar Direito, gente ilustre com quem conviveu, alunos e
alunas que por sua sala de aula passaram, silêncio absoluto a respeito de seu tema
primordial, o Brasil e suas diversas facetas. Nenhuma palavra sobre o povo-celacanto, que
mantém viva a tradição, nada sobre a censura e a repressão que inclusive muitos de
seus ex-alunos sofreram. Carlo Ginzburg[[10]]
propôs um paradigma indiciário como método de trabalho para o historiador da cultura e
instigada por este primeiro indício, fui percebendo diversos outros vestígios da
posição conservadora de Câmara Cascudo.
Já com o olhar atento de quem busca algo, percebi na frase de Cascudo que intitula o
projeto, uma outra leitura possível: Queria saber a história de todas as coisas
do campo e da cidade. (...)
Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar, das
Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho
que leva ao encantamento do passado. (...) Tudo tem uma história digna de
ressurreição e de simpatia.[[11]]. Além
do desejo do próprio autor, que preso no feitiço dos tempos pretéritos pretendia, com
seus estudos, fazê-los ressurgir, notei nessa colocação uma postura que parece querer
frear o tempo, encantá-lo de forma a impedir transformações ameaçadoras. Assim como
Machado de Assis[[12]], Cascudo também
considerava o tempo um rato roedor de todas as coisas, e um de seus objetivos
era justamente impedir essa ação deteriorante do passar dos anos. Através de seus
livros, mantinha viva a tradição, conceito importantíssimo no estudo do autor e outro
traço de seu conservadorismo. Para Cascudo, a tradição era por excelência, a ciência
do povo, como diz o título de um de seus mais importantes livros publicado em 1971. O
folclore e a cultura popular só haviam sido mantidos através dos tempos mediante a
tradição, que perpetuava costumes e estórias. Dessa forma Cascudo atribuía um caráter
conservador ao povo, na medida em que a preocupação dele seria sempre no sentido de
preservação.
Devemos notar também que para o autor sua função era imprescindível, pois para ele
o povo não sabe que sabe, cabendo a ele, recuperar e registrar aquilo que a
ignorância do povo deixaria escapar. Sendo assim, Cascudo assume uma posição de
pontífice da cultura popular, ele sabia o que era digno de registro, quem eram as fontes
que mereciam ser ouvidas, as figuras que deveriam ser lembradas e porque elas deveriam ser
lembradas. Então imortalizou Bibi, sua babá que lhe contava estórias, Jesuíno
Brilhante, cangaceiro Robin Hood, o Conde dEu, o Marquês de Olinda e outros tantos
que figuram em obra. No entanto, essa postura contribui ainda mais para seu caráter
conservador, uma vez que centraliza em sua pessoa essa capacidade de escolher o que deve
ser lembrado ou não e também o isolamento em relação ao povo, do qual só ele tinha o
dom de se aproximar. A ingenuidade atribuída ao povo era comum no pensamento conservador
da geração de Cascudo e justificava a necessidade de uma direção mais atenta, um
braço mais forte ao lidar com o ele, trazendo-o sob sua tutela a fim de evitar
transformações ameaçadoras que modificassem radicalmente a ordem das coisas.
O conceito de atualidade do milênio desenvolvido por Câmara Cascudo é utilizado em seus
estudos sobre folclore, onde ele acredita na universalidade, ou seja mesmo surgidos em
partes diferentes do mundo, de alguma maneira os mitos e os costumes são sempre os
mesmos, com roupagens diferentes, as histórias do sertão nordestino são as mesmas do
que as do mediterrâneo, o quiabo apreciado no Brasil, já era consumido pelos faraós
antes mesmo das pirâmides. Pensando assim, não sobra realmente muito espaço para o
moderno e a modernização e podemos analisar então a controvertida relação de Cascudo
com o progresso. Se por um lado se encantava com o avião, por outro lamentava ver
sertanejos comendo macarrão e não farinha de mandioca, feito lhes era tradicional. Em
O tempo e eu Cascudo escreve: Pagamos o progresso com a moeda da
tranqüilidade. , ou seja para ele o progresso nos tira a tranqüilidade, nos
tira de nossa normalidade, muda, transforma a realidade e conseqüentemente nos afasta
mais bruscamente do passado. Para Cascudo o presente ofusca, não nos deixa ver, então
ele busca no passado virtudes, experiências enfim, uma exemplaridade, para que possamos
agir no futuro. Ele quer que futuro e passado coincidam, usando os termos propostos por
Reinhart Koselleck[[13]] em seu belíssimo
texto O futuro passado, ele busca através de seu campo de experiência as
diretrizes que irão reger seu horizonte de expectativa. Baseando-se no que já foi
vivido e que ele considera digno de ressurreição, Cascudo procura assim manter, ou
melhor dizendo, conservar o que vivemos preferencialmente em sua forma mais
original e genuína.
Uma Babilônia no Rio Grande do Norte
Após já ter estudado e avaliado os indícios conservadores de Luis da Câmara Cascudo
desenvolvidos anteriormente, em janeiro deste ano fui com o grupo de pesquisa para Natal,
a fim de aprofundar ainda mais os estudos sobre o autor. Foi extremamente gratificante
estar finalmente conhecendo uma cidade de que eu tanto ouvira falar, sempre através dos
olhos de seu mais fiel amante. Fui até a antiga Avenida Junqueira Aires, atualmente com o
nome de seu mais ilustre morador, e lá estávamos, na casa de Cascudo, com as flores
amarelas que lhe desejavam bom-dia na porta, com a placa dizendo o professor não
recebe pela manhã quando estava habitualmente dormindo após ter passado a noite em
claro, debruçado em algum estudo. Vi muitas fotos pelas paredes, fui ao seu quarto,
sentei em sua cadeira e o melhor de tudo, entrei em sua biblioteca. Babilônia como a
chamava Cascudo, com todas as suas relíquias, o São Sebastião no mandacaru, seus
óculos, sua caixa de charutos mas sem seus livros que se encontram no Memorial Câmara
Cascudo, prédio construído quando ele ainda era vivo e que tem em sua entrada um grande
monumento que representa Cascudo na mão do povo. Foi então que se iniciou a segunda e
mais conclusiva parte de minha análise sobre o pensamento conservador de Câmara Cascudo.
De acordo com Pierre Nora[[14]] existem lugares
de memória onde ela pode ser criada e conservada e a biblioteca de qualquer autor é
sob essa ótica um lugar de memória. A Babilônia de Cascudo registra a memória de sua
leitura, pois lá encontramos seus livros lidos e marcados intensamente com diversas
canetas e lápis diferentes, destacando o leitor voraz que foi Câmara Cascudo. Muitos
livros foram lidos mais de uma vez, outros tão manuseados que desmontam, é possível
mesmo perceber quais livros foram usados para consulta na realização de outros, como
Hiléia Amazônica de Gastão Cruls[[15]],
exaustivamente marcado, com prováveis dados para História da alimentação no
Brasil, Rede de dormir e Jangada. A biblioteca de Cascudo
nos permite traçar um desenho do intelectual que ele foi, do momento em que viveu, da
geração que fez parte, da leitura de uma região que imprime marcas indeléveis em seus
habitantes. Ela também nos proporciona um estreito contato com suas relações pessoais
através das dedicatórias encontradas em seus livros. Foi assim que descobri a íntima
relação de Cascudo com Gustavo Barroso, figura importante da Aliança Integralista
Brasileira, movimento de extrema direita, do qual Cascudo fez parte como coordenador
regional.
Embora pouco anotados, os livros de Gustavo Barroso podem ser encontrados quase em sua
totalidade no acervo particular de Cascudo e suas dedicatórias sempre bastante pessoais
não deixam dúvida quanto à intimidade dos dois intelectuais. Já em 1927, Gustavo
Barroso[[16]] publica Através dos
Folk-lores e oferece: Ao velho amigo, D. Luiz da Câmara Cascudo, fidalgo
de espírito e de modos, com a saudade do G. Barroso.. Em 1929, Cascudo
encontra-se com Gustavo Barroso na famosa Chácara do Tyrol e em 1933 participa do
triunvirato de chefia da AIB-RN. No livro Brasil, colônia de banqueiros,
literatura anti-semita de Gustavo Barroso[[17]],
temos a dedicatória: Ao querido Cascudo, Anauê! Gustavo e em diversas outras
dedicatórias foi usado o cumprimento dos iniciados nos integralismo. Fica portanto claro
devido ao grau de intimidade e o envolvimento fora do âmbito privado de Cascudo com o
integralista Gustavo Barroso, que Cascudo se identificava com as idéias filo-fascistas do
movimento liderado por Plínio Salgado, de quem fala em seu livro Viajando
sertão[[18]]: Para mim é um
encanto narrar como Plínio Salgado começou com nove rapazes e tem duzentos mil em dois
anos, com o silêncio dos jornais e todas as baterias do ridículo assentadas contra
ele. Viajando o sertão é um livro composto por dezoito crônicas
que narram a viagem feita por Cascudo a convite do interventor federal Mário Câmara em
1934. Essa viagem incomodou a ala mais revolucionária do Integralismo, que era contra o
governo de Getúlio Vargas, o que obrigou Cascudo a escrever em 04.09.1934 nA
República a seguinte nota em sua própria defesa: (...) Tenho feito vários
discursos em presença de chefes locais do Partido Popular e Povo, e desafio, de maneira
formal, que qualquer um desses senhores afirme, (...) , que me ouviu abordar qualquer tema
que referisse ao momento político atual. Se o tivesse feito, assumiria absolutamente toda
e completa responsabilidade. Chefe Provincial Integralista, miliciano convicto, considero
os partidos políticos meras fórmulas desacreditadas e incapazes de renovação social.
Não pertenço a nenhuma agremiação partidária e mantenho relações íntimas com
vários próceres que não ignoram a retidão de minha atitude assumida publicamente a 14
de julho de 1933. Aos camisas verdes de minha Província não dou
explicações, porque eles me conhecem de perto. Aos políticos é desnecessária qualquer
justificação em contrário às suas afirmações, porque política é isso mesmo..
Aqui podemos observar umas das raras manifestações de Cascudo em relação à política
além de uma amostra de sua convicção integralista. Na sua marcha progressiva
do litoral para o centro do Brasil a pouco e pouco vai a civilização. Eliminando os
tipos tradicionais e apagando ou deturpando os velhos costumes, esse trecho do
livro de Gustavo Barroso[[19]], Terra do
sol. Natureza e costumes do Norte, deixa entrever a preocupação de Cascudo e
origem de todo seu pensamento conservador, como forma de preservar a sociedade da maneira
que ele considera melhor.
Outro fato que me chamou atenção foi a análise do livro ABC da política
internacional[[20]] de Carlos Ferrão
publicado em Lisboa em 1941, onde o autor traça um panorama da política mundial da
época. O livro se encontra intensamente anotado por Cascudo, que completava no livro
informações posteriores à sua publicação, como a morte de Hitler, onde Cascudo
identifica até o veneno utilizado pelo Führer para se suicidar. Na contracapa há um
recorte de jornal colado que tem dados biográficos de Gandhi,
ele completa dados biográficos de Charles de Gaulle, Churchil e Roosevelt, mas suas
anotações complementam predominantemente dados a respeito de políticos do Eixo,
como Benito Mussolini, Salazar, Imperador Hirohito, o já citado Hitler, Himmler, Goebbels
e outros tantos que não deixam dúvidas a respeito da simpatia de Cascudo por este lado
da guerra, como condiziam suas convicções políticas da época.
Encontrei também na Babilônia de Cascudo livros de Plínio Corrêa de Oliveira do
movimento conservador Tradição Família e Propriedade e apesar de não
apresentarem marcações de leitura, trazem dedicatórias muito expressivas como esta:
Ao estimado Professor Câmara, (sic) oferecem os caravanistas da T.F.P.,
encontrada no livro Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário
para o Brasil no século XXI.[[21]].
Outros livros não têm dedicatória, o que pode ser um indicativo de que não seriam
enviados pelo autor para Cascudo e sim comprados pelo próprio. A Biblioteca de Cascudo é
imtensamente povoada por livros que lhe foram presenteados por muitos intelectuais
brasileiros e ressaltando ainda mais sua controvertida figura, os presentes são
oferecidos tanto pelos intelectuais da direita quanto pelos intelectuais de esquerda. Por
isso, não é de se espantar que encontremos um livro de Francisco Julião[[22]], líder das Ligas Camponesas, com a seguinte
dedicatória: Ao Me. Luis / da Camara Cascudo, /
a maior autoridade / viva em folclore / no Brasil. Dedica / F. Julião / Recife /
1952. Devemos, sim tentar entender porque, apesar de seu conservadorismo
político Luis da Câmara Cascudo, segue, sendo lembrado como o intelectual simpático, de
pijamas, que trazia para si a tarefa de registra a sabedoria do povo e seu lado
conservador, integralista, e porque não, filo-fascista segue nas sombras, segredo que
parece impedir até hoje a abertura de sua vasta correspondência passiva, conservada até
hoje em Natal, que dentro de poucos anos terá sido tão deteriorada que não será mais
possível lê-las. As cartas, lugar de sociabilidade[[23]],
ajudariam ainda mais no traçado do perfil controverso de Cascudo.
Conclusão
Não é objetivo deste trabalho denegrir a imagem de Câmara Cascudo nem transformá-lo
numa figura demoníaca hitlerista. No entanto, não pude deixar seu conservadorismo de
lado ao estudar sua obra, esse traço para mim tornou-se presente em todos os seus
escritos. Indícios saltavam-me aos olhos e minhas leituras não permitiam que eu os
ignorasse, escolhi explorá-los, observá-los mais atentamente e tentar relacioná-los com
a obra do autor. Acredito que um intelectual que fez o que Cascudo fez para a cultura
popular e o folclore brasileiro precisaria de muito mais para que sua imagem caísse em
desgraça. Seu trabalho monumentalizou-o para sempre, seu rosto já estampou uma das
inúmeras moedas do nosso país e quando mais não seja, ele colocou Natal no mapa, nos
dizeres do presidente do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte, Enélio
Lima Petrovich, que conheci pessoalmente em Natal. Um intelectual com a preocupação de
viver o Brasil, como diz Carlos Drummond de Andrade, um apaixonado por sua própria terra,
de onde nunca saiu. Escolheu para si a missão de estudar o material economicamente
inútil, recusou convite para o Senado feito por Getúlio, reitoria da universidade
de Brasília, como queria Juscelino e jamais se candidatou à Academia Brasileira de
Letras, com quem viveu um amor platônico, morreu fessô de Província,
título que mais estimava.
NOTAS:
[[1]]
CÂMARA CASCUDO, Luis da. Um provinciano incurável IN: Província.
Natal: IHGRN, 1968. n° 2, Pp. 5-6.
[[2]] ALMEIDA, Oriano de. Discurso de
posse de Oriano de Almeida. Natal: Academia Norte-rio-grandense de Letras, 1996.
[[3]] ANDRADE, Carlos Drummond de. Imagem
de Cascudo IN: Província. Natal: IHGRN, 1968, n° 2, Pp. 15-16.
[[4]] TODOROV, Tvetzan. O homem desenraizado.
Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1999.
[[5]] LOWENTHAL, David. The past is a foreign
country. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.
[[6]] VELHO, Gilberto. Memória,
identidade e projeto IN: Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades
complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.
[[7]] VELHO, Gilberto: Op. Cit. P. 101.
[[8]] LE GOFF, Jacques. Memória IN:
Memória-História. Portugal: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984. Enciclopédia
Einaudi. Vol. 1
[[9]] DARNTON, Robert:
Apresentação IN: O grande massacre dos gatos. Rio de Janeiro: Graal,
1986.
[[10]] GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes
de um paradigma indiciário IN: Mitos, emblemas e sinais. São Paulo: Cia.
Das Letras, 1989.
[[11]] CÂMARA CASCUDO, Luis da: Op. Cit.. P.
5.
[[12]] ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó.
São Paulo: Editora Ática, 2001. (12ª ed.).
[[13]] KOSELLECK, Reinhart. Space
of experience and horizon of expectation: two historical catgories
IN: Futures past-on the semantics of historical time. Massachusetts: MIT Press,
1985.
[[14]] NORA, Pierre. A História nova.
Lisboa: Edições 70, 1977.
[[15]] CRULS, Gastão. Hiléia Amazônica.
Rio dde janeiro: José Olympio, 1958. (3ª ed.).
[[16]] BARROSO, Gustavo. Através dos
Folk-lores. Sl, se, 1927.
[[17]] ________________. Brasil, colônia
de banqueiros. Rio de Janeiro, se, 1934.
[[18]] CÂMARA CASCUDO, Luis da. Viajando o
sertão. Natal: Fundação José Augusto CERN, 1984. (3ª ed.).
[[19]] BARROSO, Gustavo. Terra do sol.
Natureza e costumes do Norte. Rio de Janeiro: Benjamim Aguila, 1912.
[[20]] FERRÃO, Carlos. ABC da política
mundial. Lisboa: Livraria Sá Costa Editora, 1941.
[[21]] OLIVEIRA, Plínio Correia de. Tribalismo
indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI. São Paulo: Editora
Vera Cruz, 1978. (2ª ed.).
[[22]] JULIÃO, Francisco. Cachaça
(contos). Recife: Editora Nordeste, 1951.
[[23]] GOMES, Angela de Castro.
Correspond6encia de intelectuais no Brasil nos anos 1930-40: um lugar de
sociabilidade. Comunicação apresentada no Congresso AHILA, Porto, setembro de
1999. Mimeo.
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