CÂMARA CASCUDO, Luis da: O tempo e eu. Confidências e proposiç-es. Natal, Imprensa Universitária, 1968. (338 pp.); por Silvia Ilg Byington

• Ementa:

O livro é uma autobiografia escrita em 1968, portanto, escrita aos 70 anos do autor. É a primeira de cinco autobiografias publicadas. A construção do texto substitui a narrativa convencional baseada em uma linearidade cronológica, esperada em uma biografia, por pequenos flashes de memória que registram "encontros sucessivos com pessoas e coisas, pensamentos e paisagens, idos e vividos..."(17) Chamada por ele de "... peregrinação ao derredor de mim mesmo..."(15), a obra marca passagens de sua vida que constituem o seu universo de memória afetiva.

A tese central pode ser encontrada no primeiro segmento da segunda parte do livro, intitulado "Uma teoria da imagem mental", em que Cascudo sintetiza a questão que parece envolver sua produção etnográfica e memorialística, ou seja, a busca da fórmula – entendida em sua existência positiva – da relação entre o particular e o universal: "Conhece-te a ti mesmo! É a fórmula da impossibilidade introspectiva. Não há roteiros para esse país de revelaç-es assombrosas, submergidas no meu peito. O Passado vive em mim! Mas o Passado é identificável. Posso conhecer suas procedências, origens, raízes. E o que não existia? O que não li, não vi, não ocorreu comigo? ...Podemos dizer "pensamentos idos e vividos" porque não sabemos calcular a duração do percurso na extensão da elipse. Certo é que voltarão, para nós ou para outros. Persistem, indefinidamente sem que envelheçam...Existirão pensamentos básicos dos quais se ergue a estrutura conseqüente de todos os demais? É a mesma técnica instintiva dos contos populares, anônimos e universais. Não são incontáveis, como parecem, mas consistem na combinação dos contos tipos, os modelos essenciais. Comunicam-se, ampliam-se, percorrem o mundo no recurso das variantes locais, regionais, nacionais. As idéias, pensamentos, atos de elaboração, obedecem ao mesmo ritmo de formação, aglutinante e de expansão útil, como participantes da convivência humana."(212)

O livro é composto por quatro partes:

No rasto das velhas imagens, Cascudo constrói seu "oratório doméstico"(132). Em pequenos trechos comp-e pela escrita do etnógrafo, que esmiúça uma descrição física detalhada de seu objeto, a genealogia de cada personagem ou cenário lembrados, surgem figuras de sua convivência e histórias que não deixaram "rastos na areia"(19) e cujo único registro é a sua própria lembrança.

Em A lição do cotidiano, uma espécie de "livro da Sabedoria", "Livro de Ensinamentos", Cascudo faz reflex-es sobre a vida em geral, marcadas pela perspectiva de sua experiência pessoal. Sua narrativa é marcada pela dualidade vocação (o verdadeiro sentido da vida)/ ostentação (seu aspecto superficial e ilusório). Adota a partir deste capítulo um estilo fabular que irá marcar os capítulos seguintes.

Em Compensaç-es e mistérios, Cascudo desenvolve o estilo da fábula – a lição sobre o "sentido verdadeiro do viver"(295) – ao narrar histórias sobrenaturais e retoma, assim, a relação vocação/ostentação.

Em Aula de bichos essa exemplaridade fabular se utiliza do mundo animal como espaço de reflexão sobre o sentido da vida.

• Interlocução:

- Etnógrafos:

Savage Landor(96), W. Montgomery Mac-Govern (96), Skiner (211), Malinowski – Theory of needs(266), Mauss(273), Thurnwald(273)

- Literatura:

Renan (59, 134, 226), Machado de Assis (59, 122, 212,235), Carlos de Laet(59), Prof. A da Silva Mello (Depoimento e pesquisa sobre a magia branca no Brasil (153, 196); Alexandre Herculano (122), Georges Sand(49), Bossuet(49), Olavo Bilac(54, 209), Eça de Queiroz (59), Cândido de Figueiredo (59), Amado Nervo, poeta mexicano(1870- 1919) p.66, Azorin (67), Anatole France (70, 235), Coelho Neto(72), Emílio de Menezes (72), Robert Burns (116), Longfellow( epígrafe 122), Tennyson (122), Guizot (77, 122), Humberto de Campos (127, 129, 227), Herman Lima (128), Graciliano Ramos (133), Ronald de Carvalho (136), Paul Verlaine (143), , Baudelaire (epígrafe, 178), Chesterton (epígrafe, 226,251), Fidelino de Figueiredo (epígrafe), Sor Tereza de Jesus (epígrafe), Monteiro Lobato (trecho ao fim do índice (338), José Maria Pemán (185), Stefan Zweig (197), Beranger(198), Graciliano Ramos(135), Eugênio de Castro (216), Miguel de Unamumo(217, 221), Marcel Proust (235), Joaquim Manuel de Macedo(249), Casimiro de Abreu(249), Oscar Wilde "All art is quite useless"(275), Madame de Stael(277), Volney (278), Teófilo Braga(303), Xavier de Maistre( epígrafe), Guerra Junqueiro(p.48), Remy de Gourmont(72), Tristão Bernard(80), Sainte-Beuve(111, 167), John Ruskin(102), Alvaro Moreira(221)

- Clássicos:

Shakespeare (157); Montaigne (epígrafe, 57,274); Dante (217,326), Victor Hugo (epígrafe, 103), Goethe (epígrafe), Da Vinci (epígrafe), Pitágoras(254), Diderot(255), Prudhomme(255), Petrônio(273), Sebastian Mey (273)

- Gramáticos:

Fidelino de Figueiredo(135),

- Historiadores e cientistas sociais:

Tobias Monteiro (168), Capistrano de Abreu (98, 129, 133, 135); Spengler( epígrafe, 162), Carlyle(122, 318), Adauto da Câmara(49), Rocha Pombo (78, 121- prefacia Histórias que o tempo leva), Oliveira Lima(93, 120), Batista Pereira (99), Taine (74), Conde de Afonso Celso(196), Nestor Vitor(81), Menendez y Pelayo(221),

- Geógrafos:

Mommsen ("na Coleção Nobel", p215),

- Biólogos:

Darwin- Naturalist’s Journal(324)

- Relatos de viagem:

Koster (144), von Steinen-Entre os aborígenes do Brasil Central(271);

- Informantes :

o pescador Chico-Preto (185), Utinha (Benvenuta de Araújo que tanto aparece no meu Contos Tradicionais do Brasil) p.138, João Juvenal da Costa Lima, o "Mestre Zinho"- insinuante, conversador, simpático, residindo no Alecrim com "trabalhos" semanais muito concorridos". (153), Chico Vicente(113, "Adorava conversar assuntos vividos por ele."), Professor Panqueca ( "Foi meu professor de História Popular, de tradicionalismo oral",p. 133)

- Código Canônico(273), Proverbia Communia(275)

- Mário de Andrade: 68, 154, 259

- Filósofos e educadores:

Johan Huizinga(57), Froebel(57), Montessori(57), Sartre(83), Schopenhauer (143), Friedrich Kainz(275), Nietzsche (318, 319), Ramiro de Maeztu(219),

Sem identificação(para mim): Nicoll (epígrafe), Aloysio de Castro(79), Hugo Catunda (81),), Alfred Adler(epígrafe,271), Silvestre de Sacy (epígrafe), Claudio Tillier (epígrafe), Bastian(211, 276), Gounod(220), E. Legouvé(235), Carrit,"professor de Oxford(275), Bernard Berenson(276), Ferdinand Ossendowski(325), Claude Tillier (325)

· Fichamento:

[Introdução] pp. 17-20.

- A introdução apresenta algumas idéias centrais para o entendimento não apenas do projeto autobiográfico do autor, mas também de seu projeto intelectual mais abrangente – remete à afirmação de Tradição, ciência do povo, "Não bibliotecas, mas convivência":

"O Tempo e Eu é a história de todas as criaturas humanas. Tempo-cronologia e Tempo-dimensão, nos encontros sucessivos com pessoas e coisas, pensamentos e paisagens, idos e vividos, como diria Machado de Assis."(17) ... "Meu patrimônio, transmissível aos netos e aos amigos queridos, não constará do que fiz, pouco ou muito mas verificável, mas do que compreendi e senti, vivendo."(18). Afirma: "Quero contar meus casos individuais na companhia do Tempo [grafado com maiúscula]. Sem a beca doutoral e o arminho "emérito"."(18).

- Recorre à idéia de vocação (predestinação) e de simplicidade associadas à autenticidade para definir-se em sua trajetória de vida – "menino rico, estudante pobre..."(18) para ser, enfim, um simples "professor de província"(19). Neste sentido, revela a importância atribuída por ele mesmo aos seus méritos: "Pus de lado o pormenor das viagens, acolhimento dos famosos, convívio dos "grandes", distinç-es recebidas, visitas carinhosas, relação dos trabalhos. Estes passos deixaram rastos na areia."p.19. Ainda: "Acredito que, na minha vida, o mais interessante é o que ela me permitiu ver e não o seu desenvolvimento social."p.17.

- Acrescenta-se ainda, a apresentação do que irá surgir no decorrer do texto, a construção de sua auto-imagem fundamentada na autoridade de quem fala [porque testemunhou, como o pesquisador de campo] em nome do Tempo: "Todo o "material", utilizado nessa viagem, foi aparecendo num percurso de setenta anos, o Tempo e eu, andando juntos, inseparáveis, vendo a vida passar com suas multid-es."p.19; "A curiosidade ausente, o abandono displicente, a fingida ignorância, não anularão a existência vivida. Nem mesmo Deus tem o poder para modificar o Passado."(19)

- Aparecem já aqui citaç-es e algumas frases e termos em francês e inglês, como uma das marcas de distinção de sua escrita e, portanto, como explicitação de sua erudição. Outra marca seria a recorrência de referências a nomes e sobrenomes para a identificação daqueles que irá retratar.

- Qualificação de History [os "rastos na areia"] e Story [a convivência](19, 111). A History surge através das Stories e estas restam apenas na lembrança do narrador(120, 147, 159, 168: "Dois anos depois eu era professor de História na província. Tinha obrigação de ler e de ouvir os historiadores, mortos e vivos. As opini-es, críticas, defesas, elogios, ataques, louvaç-es, entrecruzavam-se com todas aquelas cores do espectro solar...Aquele velho grupo de Teixeira de Souza vivera os momentos históricos, ouvira os homens-dominadores, alguns na intimidade. Trinta anos depois os depoimentos não teriam a exaltação participadora mas eram evocaç-es fiéis e claras, peneiradas pelo tempo. Tantas conclus-es diversas...Que é a verdade?"(173).

- Vem datada da seguinte forma:

Cidade do Natal.

Dia de Todos os Santos.

1967.

I - No rasto das velhas imagens. Pp. 29-201.

- A primeira e mais extensa parte do livro, formada de 104 pequenos fragmentos de memória que organizam-se de forma desordenada ou, em alguns trechos, em breves seqüências, pode ser entendida como a construção de seu altar de convivência afetiva, onde são consagrados aqueles que, segundo Cascudo, despertam de diferentes formas sua memória emocional, seus "santos do oratório doméstico"(132).

- Com sua prática de etnógrafo, traça perfis detalhados de seus "santos"(são retratados em sua exemplaridade), divididos em três esferas de relacionamento, mas que revelam, cada uma a seu modo, a rede de relaç-es dos homens na província:

  1. A família, tendo como figura maior o seu pai: "o velho Coronel Cascudo"(39) – mascate, alferes, tenente, delegado "caçador de cangaceiros" no sertão do Seridó(35), comerciante, tenente da Guarda Nacional, membro da Intendência, deputado estadual, dono de jornal, retratado em um relato quase épico, empresta sentido ao próprio nome Cascudo, ao transformar em sobrenome do filho a alcunha recebida pelo pai por sua devoção ao Partido Conservador. A mãe, Ana Maria da Câmara Pimenta, "amava o seu pequeno mundo e nunca passou das emoç-es do cotidiano"(42). A família é por ele entendida em seu sentido ampliado: os padrinhos("Meu padrinho sabia latim e respondeu às perguntas do sacerdote",p.31), a parteira, as amas e criados, os professores, o padre e demais figuras de prestígio na cidade de Natal. Este traçado da família extensa revela uma realidade que imprime a sua marca na formação da identidade de Cascudo, imprime uma faceta de seu lugar social, uma "gênese tradicional dos passados arrebatamentos"(30).
  2. A face privada do homem público em que se destacam a carreira oficial, o fato de ser professor e sua relação com a política – os comentários sobre fatos e opini-es políticas estão sempre na boca destes personagens, a History surge na narrativa quando comentada por algum destes ilustres. "Lembro os velhos "literatos" do meu Rio de Janeiro, 1919-1922, frequentando a Garnier, conversando familiarmente com os ‘mestres’, fazendo conferências e anunciando sucessos nos livros. Eram naturais, jubilosos, inquietos. Ninguém os recorda mais.(72) "Fui apresentado ao Conselheiro Rui Barbosa, como ele gostava que o chamassem, pelo historiador Rocha Pombo, na Livraria Briguiet. Estava mau-humorado mas sempre superior e cortez."(78). "O Padre Amaro foi um grande motivador de assuntos, History and Story, pelo velho Rio Grande do Norte
  3. Os companheiros de farra: "... constituíam a trípode fundamental. Seriam todos deputados, professores da Universidade, escritores brilhantes, inquietos, inteligências hors concours, com a devoção do trabalho, acolhedores, incomparáveis"(96)."Esses homens valorizam a Vida!"(98), refere-se à ‘Ordem do Chocalho de Ouro’ (96,114), "Todos nós vivíamos encantados com Mister John Chesterton, "filho natural da Rainha Vitória com o Padre AntônioVieira"(115), "A sua roda, num dos bares no térreo do Hotel Avenida", no Rio de Janeiro, era a mais interessante."(117) Os espaços percorridos: Natal, Rio (em especial, o Hotel Avenida), Paris(128);

- Sobre sua formação, alguns trechos importantes:

"Aprendi a ler quase sozinho, aos seis anos, graças ao Tico-Tico, proezas de Chiquinho e Jagunço, Juquinha e Gibí..."(44)

"Em casa lia, lia, lia, revistas, álbuns de gravuras, viagens, curiosidades, os desenhos de Benjamin Rabier, apresentando os animais cômicos em sua naturalidade..."(46).

"As vozes das amas subiam, de força mágica, abrindo as cavernas miríficas de drag-es, princesas, cavaleiros valentes, animais falando, findando em casamento e presentes de doces que a narradora perderia, escorregando e caindo".(46)

"Minha vocação era o Laboratório."(47)

Educação formal: Professora Totônia, "adivinhando métodos intuitivos, mas carinhosa e acolhedora de convívio."(45);

Externato Sagrado Coração de Jesus – "exclusivamente feminino";

Colégio Diocesano Santo Antônio, "para ter amigos meninos"(46);

Ensino em domicílio: Pedro Alexandrino e Francisco Cavalcanti, "dupla que há cinqüenta anos trabalhou no granito e no gesso do meu espírito"(51), "A pouca densidade do que se encontrava em mim facilitava a transformação e disposição renovadora e lógica, limpa e nova, da mobília cultural. Daí em diante fui andando, mas possuía cadência e rítmo, evitando a fadiga tumultuosa e a absorção desmedida dos acepipes literários."(53), "Aos dois fiquei devendo minha pequenina festa de iniciação em livros, imagens, sonhos e pesadelos intelectuais. Orientaram o meu rito de passagem."(61);

Exames no Ateneu Norte-Riograndense;

Curso de Medicina na Bahia, "Minha vocação era o Laboratório. Já não era possível."(47);

"Para não ser seu Cascudinho, horrorizando mamãe, fui para a Faculdade de Direito do Recife...Em dezembro de 1928 disse: — Sou como toda a gente um bacharel formado! "(48);

"A pobreza de meu pai, não me permitia abandoná-lo e viajar para o sul, vencer no Rio. Filho único, devia retribuir em assistência quanto tiver em pecúnia e carinho. Fiquei, definitivamente e sem recalques, provinciano. Ia ser, até a velhice, professor jagunço. But that is another story, Sir!"(48);

II- A Lição do cotidiano (Pp. 209-278)

- Apresenta sua tese sobre as possibilidades e limites do conhecimento em "Uma teoria da imagem mental". Cascudo sintetisa a questão que parece envolver sua produção, etnográfica e memorialística, a busca da fórmula da relação entre o particular e o universal : "Conhece-te a ti mesmo! É a fórmula da impossibilidade introspectiva. Não há roteiros para esse país de revelaç-es assombrosas, submergidas no meu peito. O Passado vive em mim! Mas o Passado é identificável. Posso conhecer suas procedências, origens, raízes. E o que não existia? O que não li, não vi, não ocorreu comigo? ...Podemos dizer "pensamentos idos e vividos" porque não sabemos calcular a duração do percurso na extensão da elipse. Certo é que voltarão, para nós ou para outros. Persistem, indefinidamente sem que envelheçam...Assim pensamentos súbitos talvez conservem substâncias milenárias... Digo que os nossos penssamentos originais são compósitos, mosaicos ou embrechados, resultando da reunião harmoniosa de idéias agenciadas pela reminiscência e não à imaginação... Existirão pensamentos básicos dos quais se ergue a estrutura conseqüente de todos os demais? É a mesma técnica instintiva dos contos populares, anônimos e universais. Não são incontáveis, como parecem, mas consistem na combinação dos contos tipos, os modelos essenciais. Comunicam-se, ampliam-se, percorrem o mundo no recurso das variantes locais, regionais, nacionais. As idéias, pensamentos, atos de elaboração, obedecem ao mesmo ritmo de formação, aglutinante e de expansão útil, como participantes da convivência humana."(212)

- Referencia à raça: Voz das raças nômades e ambulatórias, fixadas na gleba na imposição sesmeira, mas tendo o anseio da marcha no potencial dos cromossomos."(213)

- Referência a alguns objetos estimados, como relíquias: a chave do Principado do Tirol, a bengala de cana-da-Índia (216)

- Metodologia/ as possibilidades de conhecimento da realidade: "O poder do Cinema é sua democratização cultural dispensando argúcia e dedução. Fixa, foca o pormenor, valorizando-o, gesto, membro do corpo, móvel acessório tornado principal. O cinema vence a Morte, atualizando o Passado... Restringindo os recursos infinitos do Cinema, o Teatro cada noite, exibe a contingência humana, vivendo outras vidas, com os elementos vitais de cada ator, no momento da interpretação, perceptivelmente renovada. O Cinema é o real ‘Animatógrafo’, uma fotografia animada, positiva, legítima, do que ocorreu ante a máquina. O Teatro com todas as suas dimens-es naturais e lógicas no imediatismo da precariedade fisiológica é um depoimento oral, uma reconstituição da realidade possível, realizável e crível, vivida em ação natural, cômica ou dramática, com o material perecível e efemeramente dominante. No Cinema ninguém morre."(234);

"Aptidão não é vocação. É uma habilidade adquirida ou nata. Falta o sentido dimensional da profundeza criadora, denunciando a legitimidade. Sente-se, insensivelmente, a vitória do curioso e nunca a impressão autêntica da revelação." (245);

"A Superstição, super-stitio, o que sobreviveu, motivou um longo ensaio para evidenciar sua permanência natural e normal na base da psicologia individual ou coletiva. É uma floração espontânea no espírito, congênita e lógica, como uma continuidade biológica. Apenas substituimos uma por outra fórmula, no plano da credulidade consecutiva. No âmbito semântico aprofundam-se as raízes demonstrativas de muitos dogmas supersticiosos..."(270);

"A permanência da lapidação depende da densidade do diamante. A mesma técnica é inoperante em sílex, basalto, diorito, casca de cajá, miolo de bananeira, bolão de gesso. Aplico essa conclusão aos devotos da unidade dos métodos de instrução, sem a prévia verificação psicológica na entidade humana."(144)

- Viagens (relação com o tópico acima) : As minhas viagens pelo mundo retificaram ou ratificaram leituras e deduç-es anteriores. Não modificaram a mentalidade pessoal que sabia, com limpidez e lealdade, constatar a diversidade das civilizaç-es e a multidão das culturas, adaptadas ou sobreviventes. Sempre me dispensei discorrer sobre essa gloire viagère... Foram cursos no espaço, ensinando-me a universalidade de certos atos e a uniformidade de determinadas reaç-es psicológicas. Como não fui caçador de curiosidades anedóticas ou reminiscências pitorescas, emprego-as como canela em mingau, leve pitada oportuna e leve, para dar o sabor prestigioso das coincidências longínquas..."(278)

- Idéia de Predestinação/vocação: "A teologia católica recusa o Destino mas aceita a Predestinação."(235); "A Vida nos leva como água corrente, mas há quem saiba nadar."(235); "Numa improvisada e breve refeição jagunça, João Neves, Ribeiro Couto e eu conversamos sobre o problema da vocação e a imposição econômica de ganhar o pão com o abandono, parcial ou total da inspiração verdadeira, de impossível rendimento para a subsistência pessoal. J. Neves queria fazer História Social. Ribeiro Couto poesia e romance. Eu, cultura popular brasileira em suas origens formadoras.(...) Depois eles partiram, para funç-es deslumbrantes, e eu segui minha vida de professor, até 1966, na alegria provinciana, triste e feliz.(...)"(218) "O segredo da realização em proporção relativa e duradoura é a fidelidade interior à vocação. Cumprir o dever oficial, exato e fiel, e retomar em casa, nas horas de folga, o direito da personalidade criadora, animado pela alegria íntima do trabalho favorito. Pela satisfação espiritual, recatada e secreta, obstinada e tranqüila. Certamente essa missão estará distante do aplauso, da compensação, do prêmio consagrador. Mas se é realmente vocação, pagará, no silêncio e na solidão, todos os esforços ignorados pela multidão.(...) A vocação é o suficiente, a constância ecológica, a moeda que salda todas as suas angustias. O resto é escravidão ao demônio da utilidade financeira. Nunca o dever ao trabalho. Direito do sonho."(219).

- mentalidade (cultura?): " legítima, típica sincera e medular."(237);

- Distinção entre "o fabricado e o feito"(236, 249)

- Referências ao Integralismo: Plínio Salgado (230)

- Referências ao Celacanto: 211.

III – Compensaç-es e mistérios.(281 – 311)

- O autor relata pequenas fábulas e casos exemplares em que surgesua visão da dualidade da vida humana, o essencial, relacionado à Felicidade (vida, verdade, simplicidade, vocação natural e secreta) versus o aparente, o Sucesso (noite glacial, sem estrelas(294), ilusão, poder, riqueza, artifício): "Truth is strangest than fiction, não é uma verdade compensadora?"(286), Nas minhas primeiras viagens ao Rio de Janeiro conheci os escritores aos quais devia livros e cartas afetuosas. ..Eram, nos versos e prosas compreensivos, olhando a Vida com o lirismo do entendimento, ternura piedade. Encontrava-os inquietos e angustiados com a marcha lenta das compensaç-es...Eu, professor vitaliciamente provinciano, encantado com o destino do trabalho escolhido...via-os bailando a dança do fogo, agitados como sombras na ventania."(288),

As atrizes suicidas, em quem "evaporou-se a motivação vital, o desejo da cotidianeidade festiva... As mulheres dos jangadeiros, cegs cantadores nas feiras, não se matam. Morrem secas, famintas, ... Não perdem o sentido verdadeiro do Viver. Sentem a sua missão...Compensação..."(295)

- Narra casos sobrenaturais (ligar às suas idéias sobre superstição?)

IV – Aula de bichos.(315 – 332)

- Cascudo utiliza os animais como metáforas para o comportamento humano, em especial, para suas reflex-es sobre a intelectualidade. O comportamento do rinoceronte, que sofre de prisão de ventre é comparado à "irrascibilidade de certas criaturas, plenas de glória literária,... mas desajustadas, incapazes de afeto, ternura,... terá essa explicação comprovada pelo exame da produção mental, semi-digerida, impaciente de expansão e sempre inferior ao ímpeto pessoal dominante. Era justamente o que Nietzsche dizia de Carlyle."(318)

"O papagaio contentava-se com os farelos da ambição, fragmentos que ficavam, por acaso, na placa da gaiola. Pois é, Joaquim. Muita gente é assim."(323)

· Observaç-es:

- A forma fragmentada de exposição já foi encontrada na leitura de CASCUDO, Luis da Camara. Tradição, ciência do povo. São Paulo, Perspectiva, 1971.

- Auto-definiç-es: "Fiquei, definitivamente e sem recalques, provinciano. Ia ser, até a velhice, professor jagunço. But that is another story, Sir!"(48);

"menino rico, estudante pobre..."(18) para ser, enfim, um simples "professor de província"(19),

"Eu, neto de indígenas tarairius, sorri..."(127),

"Perguntou o que eu queria fazer. Pesquisar, estudar, expor, a Cultura do nosso Povo, informei...Investigar o mundo popular, mergulhar nas raízes, procurando as constantes e permanentes da nossa mentalidade alheias às influências da educação clássica e do influxo europeu. Conhecer o que realmente é brasileiro e suas fontes de formação. Tal é o plano. O senhor vai ser o meu colaborador, se já não for um mestre!"(149),

"Eu [queria fazer] cultura popular brasileira em suas origens formadoras.(...) Depois eles partiram, para funç-es deslumbrantes, e eu segui minha vida de professor, até 1966, na alegria provinciana, triste e feliz.(...)"(218),

"Um amigo, ouvindo-me exaltar a terra e a gente, explica-me: —Mas realmente V. não foi jamais concorrente de ninguém. Nunca pleiteou as coisas ambicionadas por eles, funç-es políticas ou administrativas. V. se impôs por um trabalho de meio século inteiramente à margem da vida pública norte-rio-grandense e nacional. Não catucou a ninguém para obter o pouco que lhe deram, como deram a tantos..."(228),

"Toda a minha alegria era o meu professorado provinciano.(...) Os amigos de meu Pai surpreendiam-se do filho único ser rapaz de livros em vez de estar no escritório. Talvez fosse outtro o destino financeiro de meu Pai, mas não seria o meu."(242)

"Eu, professor vitaliciamente provinciano, encantado com o destino do trabalho escolhido..."(288)

- Entre as pequenas histórias contadas, surgem reflex-es lacunares, pequenas fábulas, ensinamentos: "A vaidade atua em certos temperamentos como a adrenalina na digestão."(71). "Gustave Lanson, de Sainte-Beuve sobre Chateaubriand, notava un désir inconscient de trouver des petits hommes dans les très grands génies. Recordo esse ciúme retrospectivo, afastando a imagem do competidor, desaparecido, mas de presença humilhadora. Conheço essa pesquisa obstinada, procurando no mármore a falha para alojar um escorpião."(82), sobre a inveja (221), Felicidade versus Sucesso (244),

- Referências a Mario de Andrade:

"Minha "festa de formatura" foi a coincidência de Mário de Andrade vir de São Paulo e ser meu hóspede em Natal."(48)

""Mário de Andrade, que então escrevias Macunaíma, perguntou-lhe o nome de uma fruta nordestina bem perfumada. Jaime Câmara informou: — Guajiru! Mário empregou o forte odor do guajiru. O guajiru não cheira a coisa alguma...(68);

Roda de catimbó, "E trouxera a Natal, Macunaíma..."(154)

Mario de Andrade admirava-se do mistério psicológico da antipatia injustificada... o escritor tratava o Macunaíma infalivelmente por Professor, título de especial implicância para o Mario.

- Categorias que surgem na leitura :

- convivência( 133), contemporaneidade/memória: "Quem não o conheceu de perto jamais perceberia a possibilidade existencial daquele dínamo..."(98), "Anedotário delicioso, inédito, sugestivo, perdido para sempre."(110), "Conversando era inimitável, centralizando a atenção dos ouvintes... Todo esse material, gone with the wind para o esquecimento."(118), "Guardo frases suas, raras opini-es, escapadas da boca como aves que furam as grades da passadeira, e voam."(122), "...horas inesquecíveis de convivência cordial."(125), "Horas e horas insubstituíveis, ouvindo, conversando, jantando ou saboreando..."(125), "Posso, como o velho timbira do Y Juca Pirama dar o depoimento testemunhal: — Meninos, eu vi!..."(136), " as alegrias da convivência"(175), "Não dizia termos técnicos, provocando dicionário. Aprendia-se sempre, ouvindo-o "(180).

- província (19,48, 218, 242, 250)

- capital: "local e carioca"(115), "babel toponímica carioca"(167)

- Conceitos:

- tradição e modernidade relacionam-se de formas diferenciadas pela observação do etnógrafo: mobília"( "Perdemos o contato sentimental com a nossa mobília. Vale pelo uso natural sem nenhuma sugestão lírica. Significam utilidades indispensáveis. Nada mais... Não foram feitos. Foram fabricados em série."(249), alimentação( "A imagem síntese da alimentação antiga era a panela. Da "moderna" é o abridor de lata."-247) , apertos de mãos, expansão das cidades (Ä velocidade mudou a doce cadêncai de outrora e Tempo parece diminuir na voracidade dos encargos imperiosos. As buzinas atordoantes substituem os velhos preg-es. Morreram os "tipos populares". O Povo desapareceu na massa e o Homem na classe. ...Delícia de Tempo... Estamos assistindo e participando de um ato na história da Vida Social. Não é eterna a representação...essa saudade antiga e confusa esperança futura, dizem que o aparrente vulcão é um cadinho onde os materiais humanos, imperfeitos na forma borbunlhante, ardentes no estado indeciso, guardam ainda o segredo surpreendente da cristalização.(p.247), mentalidade dos jovens americanos (238)- valoração negativa: máquina (194), "pagamos o Progresso com a moeda da Tranqüilidade". (220), "os diabinhos do Progresso..."(294), "O poder do cinema é sua democratização cultural, dispensando argúcia e dedução...(234)

- vocação( semelhante à ascese) (218-219). Marca de A lição do cotidiano.( versus "ostentação vaidosa, artificialidade pomposa, inutilidade funcional"(265), Felicidade versus Sucesso (244). , "Aptidão não é vocação. É uma habilidade adquirida ou nata. Falta o sentido dimensional da profundeza criadora, denunciando a legitimidade. Sente-se, insensivelmente, a vitória do curioso e nunca a impressão autêntica da revelação." (245)

- o particular( conterrâneos, provincianos) carrega o universal em si: Chico Preto ( um Nijinski de ébano), "Tocava flauta como os indígenas da Serra do Norte e os polinésios."(105), "Olham Paris, duas vezes milenar como um centurião romano visitaria Atenas...Têm, como os romanos do Império ou os ingleses da Rainha Vitória, a consciência do poder pátrio. "(237)

- cultura "alta e sólida"(p.140), "na solidez da cultura medular"(115), "A inteligência supria as deficiências da cultura", "ilustre em cultura e brilho intelectual...Que daria de sua esplêndida cultura..."(244)

popular: "...evocando toda a cultura popular"(106), (p.148) ("raízes, autenticidade, fontes") ligar com a reflexão da p.203, "Perguntou o que eu queria fazer. Pesquisar, estudar, expor, a Cultura do nosso Povo, informei...Investigar o mundo popular, mergulhar nas raízes, procurando as constantes e permanentes da nossa mentalidade alheias às influências da educação clássica e do influxo europeu. Conhecer o que realmente é brasileiro e suas fontes de formação. Tal é o plano. O senhor vai ser o meu colaborador, se já não for um mestre!"(149), "Eu queria fazer cultura popular brasileira em suas origens formadoras."(218), "O iê-iê não é dança popular brasileira nem de parte alguma desse mundo. É uma "composição" com a característica ...de certos bailados no Sudão, com outros ritmos coreográficos.(253),

"Ubaias, joás, maçarandubas, camboins, trapiás, pitombas, guajirus recusaram heroicamente aceitar a "civilização" européia. Continuam fiéis ao sabor selvagem, anterior ao ano de 1500. (...) São frutas do povo. Sem replantio, sem predileção e sem literatura. Vivas na legitimidade do consumo anônimo e vulgar."(253)

- Pontua a narrativa com a sua própria produção (106);

- Qualifica History e Story(ver acima);

- Utiliza a expressão "povo miúdo"(164)

- Assim como a grande maioria dos livros do autor, são muitas as epígrafes utilizadas, todas com referência apenas de autoria:

  • Esperai, em nome do Céu, um instante só, e vós e os vossos inimigos, e eu e os malmequeres, tudo isso vai acabar. ( Xavier de Maistre ) -folha de rosto-
  • É o meu coração que está aqui! ( Nicoll ) -folha de rosto-

Mas enfim, sou o que sou,

Se assim te sirvo, aqui estou;

Se queres mais linda prenda,

Mande-a fazer d’encomenda.

Que eu, enfim, sou o que sou,

Se assim te sirvo, aqui estou.

( Goethe, Liebhaber in allen gestaltem. Trad. Eugenio de Castro ) -p.15-

  • J’ai plus de souvenirs que si j’avais mille ans. ( Baudelaire) -p.17-
  • A simples vida já é demasiadamente interessante. ( G. K. Chesterton) -p.17-
  • Tout le Passé, pêle-mêle

Revient à flots dans mon coeur. (Victor Hugo) -p. 17-

 

NO RASTRO DAS VELHAS IMAGENS:

- Quando um indivíduo se volta para o seu passado, podemos ter a certeza de que tudo o que a sua memória trouxer à luz terá interesse emocional para ele e assim encontraremos a chave da sua personalidade. (Alfred Adler) -p. 21-

  • Le même travail a rempli toute ma vie. (Silvestre de Sacy) -p.21-
  • ils ne veoyent pas mon coeur, ils ne veoyent que mes contenences. (Montaigne) -p.21-
  • Nessuna cosa si puó amare, nè odiare, se prima non si há cognition di quellas. (Leonardo De Vinci) -p.21-

A LIÇÃO DO COTIDIANO:

  • Nossos hojes e ontens, São os tijolos com que construímos. (Longfellow) -p.203-
  • As coisas ordinárias têm mais valor do que as extraordinárias; podemos dizer até, que são mais extraordinárias. (G. K. Chesterton) -p.203-
  • Quantas coisas não teria a dizer a cada dia! (Goethe) -p.203-

COMPENSAÇ-ES E MISTÉRIOS:

  • Deus tem mil meios de fazer compensaç-es. (Claudio Tillier) -p.279-
  • Tudo que existe e perdura tem sua legitimidade causal. (Fidelino da Figueiredo) -p.279-
  • Le myisterieux séduit toujours les hommes. (sem autor) –p.279-
  • El chuncho canta, El indio muere, No será cierto, Pero sucede. (sem autor) -p.279-

AULA DE BICHOS:

  • Tudo, seja o que for, deve ser também expressão de algo que vive. (Spengler) -p.313-
- Creo que en cada cosita que Dios crió hay más de lo que se entiende, aunque sea una hormiguita. (Tereza de Jesus, novembro de 1577) -p.313-

Fechando o livro, ao fim do índice na p.338, há o seguinte trecho de Monteiro Lobato:

"Não há lei humana que dirija uma língua, porque língua é um fenômeno natural, como a oferta e a procura, como o crescimento das crianças, como a senilidade. Se uma lei institui a obrigatoriedade dos acentos, essa lei vai fazer companhia às leis idiotas que tentam regular preços e mais coisas. Leis assim nascem mortas, e é um dever cívico ignorá-las, sejam lá quais forem os paspalhões que as assinem. A lei fica aí e nós, donos da língua, nós, o povo, vamos fazendo o que a lei natural da simplificação manda."

- Utilização de maiúsculas em nomes como: homem,(161), vida(209), tempo(151), beleza(199)

 



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