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1897 - "... José de Alencar, Coelho Neto, Herculano, Catulle Mendés e Daudet, uma mistura de nomes e estilos, a cuja influência não pode fugir. Joaquim Manuel de Macedo, particularmente, entusiasmou-o, e bem mais tarde lembraria a emoção do primeiro encontro: ‘Ah! A Moreninha! Li êsse romance no Colégio, escondido - e achei-o a coisa mais linda do mundo. Meu entusiasmo foi tanto que fiz todos os meus companheiros o lerem. Tivemos a nossa ‘Semana da Moreninha’, no Instituto de Ciências e Letras, com sêo Bernades como vigilante, no grande salão de estudos’."

1903 - "Nas férias de Junho dá início `a troca de cartas com Godofredo Rangel, numa correspondência que vai durar quarenta anos sem interrupção."

1904 - "Escrevendo a Rangel, não é menor o entusiasmo, ‘Considero Nietzsche o maior gênio da filosofia moderna. É o homem ‘objetivo’. Dum banho de Nietzsche saímos lavados de tôdas as cracas vindas do mundo exterior e que nos desnaturam a individualidade. Da obra de spencer saímos spencerianos; da de Kant saímos Kantistas; da de Comte, saímos comtistas - da de Nietzsche saímos tremendamente nós mesmos. Nietzsche é potassa cáustica. Tira todas as gafeiras."

1909 - "Anda preocupado em ganhar dinheiro, economizar dinheiro, juntar dinheiro. O ordenado em areias é de 300 mil-réis, dá para viver com decência, mas não para enriquecer. (...) Tem muitos planos: ir para Oeste, fundar uma revista, espécie de ‘Le Rire’, escrever um livro coletando mentiras de caçadores. Idéias não faltam, não lhe faltarão jamais, mas enquanto não se fixa em nenhuma é tomado de inquietação, e agora que a filha nascera, sente que precisa tomar outro rumo. Sabe que a literatura pouco deverá esperar; só uns minguados e esporádicos níqueis. Mas a vocação é muito forte, e em Maio (...) anda `as voltas com o ‘Bocatorta’, que passa a considerar o seu conto número um. Cogita de repassar as narrativas do ‘Minarete’, práticamente inéditas. Ao enviar o ‘Bocatorta’ para Rangel opinar sôbre êle, está entusiasmado, julga ter enfim realizado um bom trabalho. Mas ao recebê-lo de volta, que decepção! ‘O meu conta agora... Que tristeza Rangel! Reli-o depois que chegou e achei-o tão seco, tão magro..."

1911- Monteiro Lobato continua a ler e escrever mas não pensa "em leitores, público, livros ou cartaz, mas mantem com Godofredo Rangel uma correspondência que gira, toda ela, em torno de obras, autores, estilos".

1912 - "Só ano e pouco depois de se tornar fazendeiro é que passa a atentar para os homens que o rodeiam. Até então se preocupara mais com a natureza e os animais. Vítima no entanto, como tantos outros lavradores, do instinto depredador do colono ou agregado, medita sôbre o assunto, e de passagem anota a possibilidade de uma obra de caráter profundamente nacional tendo como centro, ou personagem principal, o caboclo, espécie de piolho da terra. Por algum tempo rumina a teoria, e em cartas e anotações o escritor que há nêle sente que algo está ‘gestando’, coisa ainda informe, inconsistente, de linhas não muito nítidas. Em fevereiro de 1912 fala do assunto como de tema já abordado anteriormente. "Já te expus, pergunta a Rangel, a minha teoria do caboclo como piolho da terra, ‘porrigo decalvans’ das terras virgens?" A idéia inicial ameaça, meses depois transformar-se numa série de contos. Mas tudo ainda muito vago muito nebuloso: "Vou ver se consigo escrever um conto, ‘o porrigo decalvans’, em que considerarei o caboclo um piolho da terra, uma praga da terra. Mas não garanto coisa nenhuma".

1914 - Neste ano Lobato escrevia a Rangel: " ‘Um feto que já me dá pontapés no útero é a simbiose do caboclo e da terra, o caboclo considerado o mata-pau da terra, constritor parasitário, aliado do sapé e da samambaia, um homem baldio, inadaptável `a civilização...’ É o Jeca que começa a ganhar contornos, ele já o tem delineado, quase pronto: ‘Começo a acompanhar o piolho desde o estado de lêndea, noútero de uma cabocla suja fora e inçada de superstições por dentro. Nasce por mãos de uma negra parteira, senhora de rezas mágicas de macumba. Cresce no chão batido das choças e do terreiro, entre galinhas, leitões e cachorros, com uma eterna lombriga de ranho pendurada pelo nariz. Vê-lo virar menino, tomar o pito e a faca de ponta, impregnar-se do vocabulário e da "sabedoria" paterna, provar a primeira pinga, queimar o primeiro mato, matar com a pica-pau a primeira rolinha, casar e passar a piolhar a serra nas redondezas do sítio onde nasceu até que a morte o recolha’.

A idéia esta cristalizada, nada mais lhe resta senão passá-la para o papel, dar-lhe formas e contornos definidos, e com um título bem sugestivo enviá-la para o jornal. Urupês é o que, com rara felicidade, lhe ocorre. O caboclo é o urupê de pau podre que vegeta no sombrio da mata." No final do ano tem o projeto de escrever um livro tendo o Jeca como tema.

Segundo Edgar Cavalheiro para Monteiro Lobato o "Jeca Tatu era a mais pura expressão de todas as qualidades negativas do ser humano. Dele nada se salvava. Nem o corpo, nem o espírito."

Quando Godofredo Rangel parece cansar-se da correspondência, Lobato se desespera pois sem as cartas sua vida se tornaria sem sentido: "Sigamos os dois, como até aqui, peripateticamente, a debater frivolidades e a repastar as misteriosas exigências mentais dos nosso eus, apesar das centenas de quilômetros que nos separam".

1915 - São constantes os contatos de Lobato com volumes de diários, cartas e memórias. Escreve à Rangel: "Já notaste como é mais vivo o estilo das cartas, do que o de tudo quanto visa aparecer em livro ou jornal? Acho maravilhoso o prime saut das cartas. Eu, por mim, só lia cartas como as de Casanova".

1916 - Godofredo Rangel devolve as cartas à Lobato com o intuito que este as leia para uma possível publicação deste excelente material.

Ao reler a correspondência com Rangel é tomado pela saudade: "Estamos ali inteirinhos, com os sonhos todos e a grande ânsia de criar". E sobre a publicação revela: "Seria um grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes personalidades". Segundo Cavalheiro, neste ano, ambos "são autores inéditos, ilustres desconhecidos da vida literária".

1918 - Contra as críticas que sobre Lobato despencam por parte daqueles que afirmam ter o autor criado uma imagem negativa do Brasil, na descrição que faz das condições de vida de Jeca Tatu, a figura do Jeca Tatuzinho aparece como a resposta lobatiana: "Jeca Tatuzinho é uma espécie de cartilha: narra a história do Jeca que, curado da ancilostomose, enriquece e torna-se apóstolo da higiene e do progresso. Sua redenção culmina no fato de que ele se torna coronel e expande suas terras." Segundo Lajolo: " O roteiro cumprido por este Jeca parece alterar a rota ideológica de Lobato, muito embora no texto repontem ainda notas conservadoras e patronais, como por exemplo quando o narrador se dirige aos virtuais leitores-meninos, ascendendo-lhes com o lucro advindo do investimento na saúde do trabalhador: ‘Se forem fazendeiros, procurem curar os camaradas da fazenda. Além de ser para eles um grande benefício, é para você um alto negócio. Você verá o trabalho desta gente produzir três vezes mais’."

1919 - Primeira vez que convidam Monteiro Lobato para a Academia Brasileira de Letras e este responde que não tem tempo de pensar nisso, "apesar das sugestões havidas".

1921 - Inscreve-se para o preenchimento da vaga de Pedro Lessa na Academia Brasileira de Letras. Logo se arrepende e retira a sua candidatura. Neste momento as chances de Lobato na Academia eram grandes, pois possuía prestígio literário e era o maior editor do Brasil e diretor de uma grande revista.

1923 - Monteiro Lobato fica magoado com a crítica de João Ribeiro a seus livros posteriores, chamando-os de subprodutos. Monteiro Lobato "confessa andar ‘cheio de contos’, mas não os escreve. Não desdenhou nunca os que publicara. Era mesmo com certa melancolia que confessava ter sido escritor enquanto não sabia o que era. ‘Esse belo escritor morreu quando se concretizou. Surgiu em lugar dele a sórdida coisa que é o profissional, o homem de letras’."

1925 - No Rio de Janeiro encontra excelentes amigos frequentando a rodinha da Livraria de Leite Ribeiro. 1, p: 336). Neste período Lobato "socega por uns tempos com a mania de ‘grande industrial’. A nova editora firma-se dia a dia, mas a sede está longe, sua contribuição é puramente intelectual. Em lugar de viver `as voltas com tiragens em cifras, anda lendo muito, aproveitando até mesmo viagens de bonde para por as novidades em dia. E quando se aborrece na cidade foge para Paquetá ou Saco de São Francisco, de vara na mão, ‘em ictiológico desporto’."

Os amigos insistem novamente para Lobato inscrever-se na Academia Brasileira de Letras. Perde a eleição por não cumprir "a praxe". "A verdade é que tanto antes como depois de se tornar candidato, acadêmicos e academia mereciam-lhe pouquíssimo apreço." Em artigos como "A Feminina" e em sua editora, Lobato deixa clara a sua posição em relação à Academia.

Elegem-no para a Academia Paulista de Letras, mas "quase à revelia, pois um "irredutível amor à liberdade"impede-o tomar posse, entrando na "gaiolinha dourada", como diz em carta a uma amigo".

Comenta com Godofredo Rangel a possibilidade de entrar na Academia Brasileira de Letras: "Não sei, Rangel. Tenho medo de Academias, coisa algemante, e não possuo o "feitio acadêmico"

1928 - "A 3 de Maio de 1928, de New York escreve longa carta a Alarico Silveira, então chefe da Casa Civil do Presidente Washington Luís. Mais do que uma carta amiga, é um extenso, bem pensado e admiravelmente escrito relatório, abordando todos os aspectos do problema. Começa pedindo ao amigo que se prepare, pois o que vai ler é a carta mais importante que dos Estados Unidos jamais fora escrita para o Brasil. Acabara de chegar de Detroit, onde vivera a ‘semana-mãe’ de sua vida, rica de ensinamentos e altas impressões e de capital importância para a solução ‘de todos os problemas brasileiros’. Gritava a palvra ‘todos’, acentuando: ‘um país que resolve o problema do ferro, resolve, ipso fato, todos os demais problemas que o atormentam’."

Monteiro Lobato escreve em uma carta as suas impressões de Detroit: "Detroit bestificou-me. Aprendemos em uma semana ali, eu e Bulcão, mil vezes mais do que aprendemos em todas as nossa vida. Começamos pela Ford. Visitamos as partes daquela maravilhosos organismo e concluímos a inspecção travando conhecimento com o cérebro da Empresa, o punhado de células cinzentas donde tudo tem saído. Na mesa redonda onde esse cérebro se alimenta, ingerindo chikens and pies que transformam depois em idéias, tivemos a honra de mastigar juntos com Mr. Sorensen, esse colosso e mais os ‘executivos’ do poderoso staff. Entre eles estava um homenzinho do meu tamanho, mais humilde e modesto que todos os outros. Era o Benjamim do staff, o mais poderoso de todos aqueles sublimes operários, o filho de Mr. ford, Edsel."

1931 - Início da correspondência entre Monteiro Lobato e Getúlio Vargas. Nesta carta, Getúlio por intermédio de Ronald de Carvalho, oferece à Monteiro Lobato novas oportunidades à serviço do governo. Lobato recusa o convite.

1932 - Monteiro Lobato "tem com Getúlio Vargas o que julga a última conferência duma série objetivada para a solução do problema siderúrgico. "Lembro-me, diz Lobato, que lhe resumi o caso brasileiro nestes termos culináriamente prosaicos: A República Velha mexia o angu do caldeirão da esquerda para a direita; a República Nova está a mexê-lo da direita para a esquerda; a República Novíssima talvez o mexerá de cima para baixo ou vice-versa. Nada disso aumenta o angu do caldeirão - e o verdadeiro mal reside na escassez do angu. Há muita pobreza, muita miséria no Brasil. O que existe de riqueza criada é pouco demais para famintos (...) Criar oportunidades para todos, eis o programa. Mas só há de conseguir isso pelo desenvolvimento da indústria do combustível e do ferro, que são básicas. do ferro sai a máquina que multiplica a eficência do homem; do combustível sai a energia mecânica que faz mover a máquina. Máquina e energia: eis a grande revolução que temos de operar neste imenso gigante entrevado e faminto que se chama Brasil."

1933 - O livro "História do Mundo para as Crianças" teve reações contrárias da chefia do "Serviço das Instituições Auxiliares da Escola", do Departamento de Educação da Secretaria dos Negócios da Educação e Saúde Pública, do Estado de São Paulo. Apresentam inconveniências como as ironias em torno da queima de café do Governo, as discussões sobre Santos Dumont, e principalemnte, contestam o tom polêmico do autor na defesa da "formação cristã" da família brasileira. As reações também surgiram do exterior. Portugal proibiu a obra no país e em suas colônias.

1934 - Getúlio Vargas, novamente por intermédio de Ronald de Carvalho, convida Lobato a estudar a hipótese de dirigir os serviços de um "Ministério" ou de um "Departamento de Propaganda", a ser criado no seu Governo.

1940 - Escreve em maio carta à Getúlio Vargas sobre o petróleo no Brasil. Esta carta causará no ano de 1941 a prisão de Monteiro Lobato.

1941 - Novamente Godofredo Rangel insiste com Lobato a publicação da correspondência entre os dois. Lobato concorda que "a nossa troca de cartas foi uma coisa linda".

Antes de ser preso, Monteiro Lobato aceitara um pedido da rádio B.B.C. da Inglaterra, para fazer alguns comentários (a entrevista está transcrita no volume "Prefácios e Entrevistas" sob o título de "Inglaterra e Brasil"). A entrevista foi irradiada em português, italiano, francês, inglês, alemão e outros idiomas. Começa com o poema "If" de Kipling, que descreve a fibra do povo inglês. "Em seguida Lobato demonstra a grande simpatia do povo brasileiro pela Inglaterra, único país que sempre confiou em nosso futuro, emprestando-nos capitais, ou invertendo-os no Brasil sob diversas formas. Depois fala do nosso regime político imperial, quando fizeram época estadistas de pulso, regime esse que era uma cópia do inglês. Descreve a seguir a curva clássica do despotismo sul-americano, o advento da República, a progressiva restrição da liberdade individual, fazendo ver que, se tudo havíamos perdido, restava-nos a admiração pela Inglaterra. Concluía descrevendo o regime totalitário que não passava, para ele, da ressurreição do despotismo vestido à moderna". Muitos confirmavam que o processo contra Lobato não tinha origem na carta sobre o petróleo para o Presidente mas sim nesta entrevista para a B.B.C. "Desejavam castigar, isto sim, o democrata, o inimigo do regime, o homem que falara na B.B.C.

Monteiro Lobato é preso em 20 de março. É preso pois escreve para Getúlio Vargas uma carta sobre o petróleo no Brasil. As primeiras informações sobre o porquê da prisão declaravam que o autor fez um pedido de passaporte para a Argentina e a polícia de São Paulo percebeu nisto uma possibilidade de fuga do escritor, visto que havia um processo no Tribunal de Segurança contra Lobato.

Perto do aniversário de Getúlio Vargas, apenas cinco dias após a primeira carta, escreve novamente ao presidente, pois quer oferecer um presente que nada mais é que uma idéia: a criação por parte do governo de uma Cia. Nacional de Petróleo.

Revolta-se com a Academia Brasileira de Letras pois esta elege em agosto Getúlio Vargas como membro, na vaga de Alcântara Machado. "Lobato desabafa-se em explosões impublicáveis". E "sempre considerou essa eleição uma vergonha que atingia em cheio todos os intelectuais brasileiros".

1943 - Godofredo Rangel sugere novamente à Monteiro Lobato a publicação da correspondência ininterrupta de quase 40 anos entre os dois. Lobato percebe na leitura que existe uma unidade, e que "constituem o autêntico romance mental de duas formações literárias (...)"; um retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo - e o panorama de toda uma época".

1944 - No final deste ano se despede, com pesar, do oficio de tradutor. Escreve à Rangel: "Volte à sua tradução. Goze dessa delícia de que desassisadamente eu vou me privar. Foi a tradução que me salvou depois do meu desastre no petróleo. Em vez de recorrer ao suicídio e ao álcool ou a qualquer estupefaciente, recorri ao vício de traduzir, e traduzi tão brutalmente, que me acusaram lá fora de apenas assinar as traduções. Mas era o meio de me salvar. Hoje me sinto perfeitamente curado - e por isso abandono o remédio".

Decide pela publicação da sua correspondência com Godofredo Rangel.

Sobre a publicação em vida da correspondência: "Há que essas cartas tinham que vir a público um dia, e sairiam cheias de coisas que lá no meu estado gasoso eu havia de arrenegar; achei, pois, que o melhor era infringir as regras e desses modo preparar para a paz minha vida no Além."

Para Cavalheiro esta correspondência "constitui caso único na história literária do Brasil, e talvez do mundo. (...) Uma correspondência entre dois amigos, praticamente em torno de um mesmo e único assunto, que tenha durado, ininterruptamente, quarenta e tantos anos, parece-nos coisa inédita. E se o fato em si é original, as consequências são originalíssimas. Pois aqui estão as "memórias" de um homem, escritas sem ele saber, compostas sem planos prévios, realizadas com um máximo de fidelidade e isenção de ânimo.(...) É de Emília, a grande personagem dos livros infantis, estes conceitos: "Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e seu também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta idéia do escrevedor." E memórias para Lobato, não significam a vida de um sujeito como ele a teve, mas como a queira ter. E apresenta a correspondência como "espelho fiel de uma amizade rara, original e comovente, reflete a formação do espírito lobateano, suas inquietações espirituais, sua preocupações artísticas e financeiras, suas descobertas nos campos da estilística ou da filosofia, sua posição, em suma, diante da arte e da vida".

Cavalheiro questiona como dois homens tão diferentes, com personalidades distintas se corresponderam por tanto tempo. A resposta é que "ambos eram visceralmente literatos". Na "Barca de Gleyre" encontramos um diálogo literário, impressões de leituras, discussões em torno de obras, estilos, tendências as mais variadas. E "o que se conclui de " A Barca de Gleyre" é que não houve entre nós ninguém mais empreendedor, mais cheio de iniciativas e idealizações".

Lobato sobre a sua recusa de ser membro da Academia Brasileira de Letras: "Cansei-me de declarar o meu desprezo pela Academia Brasileira de Letras, em entrevistas, artigos e cartas. Não me acreditaram. Pensaram que era despeito e que, em havendo possibilidades de entrar lá, eu engoliria o que disse e me atiraria ao bofe..."(carta à Jaime Adour da Câmara); "Minha idéia é que todas as distinções honoríficas neste mundo são latas vazias. A láurea acadêmica é também uma lata com que os homens se enfeitam para ficarem diferentes dos outros - dos tristes mortais que passam a vida inteira sem nem sequer uma latinha de massa de tomate no pescoço! Lata, tudo é lata nesta vida. Tudo é lata vazia, umas maiores e outras menores, como as de querosene, outras humildes, como as de sardinhas" ; "É apenas coerência, lealdade para comigo mesmo e para os próprios signatários; reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer. Pouco social que sou, a simples idéia de me ter feito acadêmico por agência minha me desassossegaria, me pertubaria o doce nirvanismo ledo e cego em que caí e me é o clima favorável à idade".

1945 - Lobato participa do Congresso realizado em São Paulo que reuniu escritores de todos os Estados que declararam as insatisfações com o governo. Lobato é muito requisitado mas suas palavras não são publicadas devido à censura.

Com o fim do Estado Novo, Lobato faz uma entrevista ao jornalista Tulman Neto com declarações sobre a liberdade de expressão, elogios a ordem socialista e à Luís Carlos Prestes, trata da inflação monetária, da mentira estado-novista, fala com simpatia da experiência soviética. A entrevista é publicada pelo "Diário de São Paulo", que a reproduziu à pedidos e foi publicada em seguida em outros jornais.

Frequentemente os jornalistas procuram-no para falar sobre tudo. Segundo Cavalheiro "todos queriam ler o que Lobato dizia. A explicação não tem mistérios: ninguém, tanto quanto ele, sabia ser tão franco e pessoal no zurzir vícios e mazelas(...)". Quando não está com os repórteres, está em comissões de estudantes, comitês de operários, políticos, ou gente do povo, amigos e admiradores. Às vezes se desespera com os compromissos pois os pequenos leitores querem mais livros. Monteiro Lobato não gosta mesmo é de realizar discursos ou conferências. As entrevistas que espalhou pela imprensa foram reunidas por Lobato no volume "Prefácios e Entrevistas", "dando preferência às mais substanciosas, aquelas nas quais expôs idéias próprias sobre os grandes problemas do momento, ou então as puramente biográficas". As suas entrevistas não se restringem a um ou dois temas, "pelo espiríto inquieto do entrevistado".

É sempre muito requisitado para entrevistas e também para prefácios. "A todos ia atendendo pacientemente".

Revela em carta à Godofredo Rangel que pretende levar "Dona Benta e seu pessoalzinho para Roma".

Considera os "grandes prêmios" da vida as cartas que recebe diariamente de crianças de todos os pontos do Brasil e da América Latina. As cartas revelam o entusiasmo das crianças com as suas histórias; pedidos de autógrafos e fotos do autor; são inúmeros os pedidos para conhecer o "Sítio" ou para participar de uma aventura com os personagens. O autor sempre atendia aos pedidos das crianças. Há também os criadores de histórias que lhe sugerem assuntos, novas viagens, indicam livros a serem traduzidos. Outro setor curioso nas cartas, são os convites e oferecimentos: convites para os personagens comparecerem à festas de aniversário; comunicações de que o autor é o patrono de uma Biblioteca Infantil, Grêmio Escolar, Clube de Leitura. As mães também escreviam para Lobato, as antigas leitoras, que precisam revela-lo o sentimento que possuem, de amizade e gratidão.

1946 - Admira literatos como os cronistas Rubem Braga e Raquel de Queiroz, os romancistas Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, os ensaístas Gilberto Freire e Lúcia Miguel Pereira.

1947 - Escreve uma carta para Luís Carlos Prestes a propósito das eleições realizadas em São Paulo que elegeram Ademar de Barros, do Partido Comunista, para a presidência do Estado. Na carta, Lobato recoloca o líder em seu lugar de destaque pois as suas ações após o ato errôneo de aceitar Getúlio Vargas foram muito bem vistas pelo escritor. Carta de 2 de fevereiro de 1947.

Um de seus últimos atos políticos é a carta que escreve a Caio Prado Júnior, quando este se encontrava na prisão por ter assinado um manifesto em defesa da autonomia de São Paulo.

A morte é o seu tema mais recorrente. A correspondência com Rangel a partir deste ano " deixa-nos a impressão de que o escritor nõa fazia outra coisa senão preparar-se para a morte: "Daqui por diante, diz ele, o que tenho a fazer é arrumar a quitanda para a grande viagem, coisa que para mim perdeu a importância depois que aceitei a sobrevivência. Estou com uma curiosidade imensa de mergulhar no Além!"

1948 - Última carta que escreve é à seu neto Rodrigo, revelando que já está muito cansado e que em breve mudará para o outro mundo.

2 de julho: o repórter da Rádio Record Murilo Antunes Alves o procura para uma entrevista. Opina sobre o petróleo, sobre a política nacional e internacional, revela o amor que tem pelas crianças e se arrepende de ter perdido tanto tempo escrevendo para os adultos. Acha que o mundo está mesmo perdido e que só gostaria de voltar ao mundo novamente se fosse para escrever mais histórias para as crianças.



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