1897 -
"... José de Alencar, Coelho Neto, Herculano, Catulle Mendés e Daudet,
uma mistura de nomes e estilos, a cuja influência não pode fugir.
Joaquim Manuel de Macedo, particularmente, entusiasmou-o, e bem mais
tarde lembraria a emoção do primeiro encontro: ‘Ah! A Moreninha! Li êsse
romance no Colégio, escondido - e achei-o a coisa mais linda do mundo.
Meu entusiasmo foi tanto que fiz todos os meus companheiros o lerem.
Tivemos a nossa ‘Semana da Moreninha’, no Instituto de Ciências e
Letras, com sêo Bernades como vigilante, no grande salão de estudos’."
1903 -
"Nas férias de Junho dá início `a troca de cartas com Godofredo Rangel,
numa correspondência que vai durar quarenta anos sem interrupção."
1904 -
"Escrevendo a Rangel, não é menor o entusiasmo, ‘Considero Nietzsche o
maior gênio da filosofia moderna. É o homem ‘objetivo’. Dum banho de
Nietzsche saímos lavados de tôdas as cracas vindas do mundo exterior e
que nos desnaturam a individualidade. Da obra de spencer saímos
spencerianos; da de Kant saímos Kantistas; da de Comte, saímos comtistas
- da de Nietzsche saímos tremendamente nós mesmos. Nietzsche é potassa
cáustica. Tira todas as gafeiras."
1909 -
"Anda preocupado em ganhar dinheiro, economizar dinheiro, juntar
dinheiro. O ordenado em areias é de 300 mil-réis, dá para viver com
decência, mas não para enriquecer. (...) Tem muitos planos: ir para
Oeste, fundar uma revista, espécie de ‘Le Rire’, escrever um livro
coletando mentiras de caçadores. Idéias não faltam, não lhe faltarão
jamais, mas enquanto não se fixa em nenhuma é tomado de inquietação, e
agora que a filha nascera, sente que precisa tomar outro rumo. Sabe que
a literatura pouco deverá esperar; só uns minguados e esporádicos
níqueis. Mas a vocação é muito forte, e em Maio (...) anda `as voltas
com o ‘Bocatorta’, que passa a considerar o seu conto número um. Cogita
de repassar as narrativas do ‘Minarete’, práticamente inéditas. Ao
enviar o ‘Bocatorta’ para Rangel opinar sôbre êle, está entusiasmado,
julga ter enfim realizado um bom trabalho. Mas ao recebê-lo de volta,
que decepção! ‘O meu conta agora... Que tristeza Rangel! Reli-o depois
que chegou e achei-o tão seco, tão magro..."
1911-
Monteiro Lobato continua a ler e escrever mas não pensa "em leitores,
público, livros ou cartaz, mas mantem com Godofredo Rangel uma
correspondência que gira, toda ela, em torno de obras, autores,
estilos".
1912 - "Só
ano e pouco depois de se tornar fazendeiro é que passa a atentar para os
homens que o rodeiam. Até então se preocupara mais com a natureza e os
animais. Vítima no entanto, como tantos outros lavradores, do instinto
depredador do colono ou agregado, medita sôbre o assunto, e de passagem
anota a possibilidade de uma obra de caráter profundamente nacional
tendo como centro, ou personagem principal, o caboclo, espécie de piolho
da terra. Por algum tempo rumina a teoria, e em cartas e anotações o
escritor que há nêle sente que algo está ‘gestando’, coisa ainda
informe, inconsistente, de linhas não muito nítidas. Em fevereiro de
1912 fala do assunto como de tema já abordado anteriormente. "Já te
expus, pergunta a Rangel, a minha teoria do caboclo como piolho da
terra, ‘porrigo decalvans’ das terras virgens?" A idéia inicial ameaça,
meses depois transformar-se numa série de contos. Mas tudo ainda muito
vago muito nebuloso: "Vou ver se consigo escrever um conto, ‘o porrigo
decalvans’, em que considerarei o caboclo um piolho da terra, uma praga
da terra. Mas não garanto coisa nenhuma".
1914 -
Neste ano Lobato escrevia a Rangel: " ‘Um feto que já me dá pontapés no
útero é a simbiose do caboclo e da terra, o caboclo considerado o
mata-pau da terra, constritor parasitário, aliado do sapé e da
samambaia, um homem baldio, inadaptável `a civilização...’ É o Jeca que
começa a ganhar contornos, ele já o tem delineado, quase pronto: ‘Começo
a acompanhar o piolho desde o estado de lêndea, noútero de uma cabocla
suja fora e inçada de superstições por dentro. Nasce por mãos de uma
negra parteira, senhora de rezas mágicas de macumba. Cresce no chão
batido das choças e do terreiro, entre galinhas, leitões e cachorros,
com uma eterna lombriga de ranho pendurada pelo nariz. Vê-lo virar
menino, tomar o pito e a faca de ponta, impregnar-se do vocabulário e da
"sabedoria" paterna, provar a primeira pinga, queimar o primeiro mato,
matar com a pica-pau a primeira rolinha, casar e passar a piolhar a
serra nas redondezas do sítio onde nasceu até que a morte o recolha’.
A idéia esta cristalizada,
nada mais lhe resta senão passá-la para o papel, dar-lhe formas e
contornos definidos, e com um título bem sugestivo enviá-la para o
jornal. Urupês é o que, com rara felicidade, lhe ocorre. O caboclo é o
urupê de pau podre que vegeta no sombrio da mata." No final do ano tem o
projeto de escrever um livro tendo o Jeca como tema.
Segundo Edgar Cavalheiro
para Monteiro Lobato o "Jeca Tatu era a mais pura expressão de todas as
qualidades negativas do ser humano. Dele nada se salvava. Nem o corpo,
nem o espírito."
Quando Godofredo Rangel
parece cansar-se da correspondência, Lobato se desespera pois sem as
cartas sua vida se tornaria sem sentido: "Sigamos os dois, como até
aqui, peripateticamente, a debater frivolidades e a repastar as
misteriosas exigências mentais dos nosso eus, apesar das centenas de
quilômetros que nos separam".
1915
- São constantes os contatos de Lobato com volumes de diários, cartas e
memórias. Escreve à Rangel: "Já notaste como é mais vivo o estilo das
cartas, do que o de tudo quanto visa aparecer em livro ou jornal? Acho
maravilhoso o prime saut das cartas. Eu, por mim, só lia cartas
como as de Casanova".
1916 -
Godofredo Rangel devolve as cartas à Lobato com o intuito que este as
leia para uma possível publicação deste excelente material.
Ao reler a correspondência
com Rangel é tomado pela saudade: "Estamos ali inteirinhos, com os
sonhos todos e a grande ânsia de criar". E sobre a publicação revela:
"Seria um grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público
quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes
personalidades". Segundo Cavalheiro, neste ano, ambos "são autores
inéditos, ilustres desconhecidos da vida literária".
1918 -
Contra as críticas que sobre Lobato despencam por parte daqueles que
afirmam ter o autor criado uma imagem negativa do Brasil, na descrição
que faz das condições de vida de Jeca Tatu, a figura do Jeca Tatuzinho
aparece como a resposta lobatiana: "Jeca Tatuzinho é uma espécie de
cartilha: narra a história do Jeca que, curado da ancilostomose,
enriquece e torna-se apóstolo da higiene e do progresso. Sua redenção
culmina no fato de que ele se torna coronel e expande suas terras."
Segundo Lajolo: " O roteiro cumprido por este Jeca parece alterar a rota
ideológica de Lobato, muito embora no texto repontem ainda notas
conservadoras e patronais, como por exemplo quando o narrador se dirige
aos virtuais leitores-meninos, ascendendo-lhes com o lucro advindo do
investimento na saúde do trabalhador: ‘Se forem fazendeiros, procurem
curar os camaradas da fazenda. Além de ser para eles um grande
benefício, é para você um alto negócio. Você verá o trabalho desta gente
produzir três vezes mais’."
1919 -
Primeira vez que convidam Monteiro Lobato para a Academia Brasileira de
Letras e este responde que não tem tempo de pensar nisso, "apesar das
sugestões havidas".
1921 -
Inscreve-se para o preenchimento da vaga de Pedro Lessa na Academia
Brasileira de Letras. Logo se arrepende e retira a sua candidatura.
Neste momento as chances de Lobato na Academia eram grandes, pois
possuía prestígio literário e era o maior editor do Brasil e diretor de
uma grande revista.
1923 -
Monteiro Lobato fica magoado com a crítica de João Ribeiro a seus livros
posteriores, chamando-os de subprodutos. Monteiro Lobato "confessa andar
‘cheio de contos’, mas não os escreve. Não desdenhou nunca os que
publicara. Era mesmo com certa melancolia que confessava ter sido
escritor enquanto não sabia o que era. ‘Esse belo escritor morreu quando
se concretizou. Surgiu em lugar dele a sórdida coisa que é o
profissional, o homem de letras’."
1925 - No Rio de
Janeiro encontra excelentes amigos frequentando a rodinha da Livraria de
Leite Ribeiro. 1, p: 336). Neste período Lobato "socega por uns tempos
com a mania de ‘grande industrial’. A nova editora firma-se dia a dia,
mas a sede está longe, sua contribuição é puramente intelectual. Em
lugar de viver `as voltas com tiragens em cifras, anda lendo muito,
aproveitando até mesmo viagens de bonde para por as novidades em dia. E
quando se aborrece na cidade foge para Paquetá ou Saco de São Francisco,
de vara na mão, ‘em ictiológico desporto’."
Os amigos insistem
novamente para Lobato inscrever-se na Academia Brasileira de Letras.
Perde a eleição por não cumprir "a praxe". "A verdade é que tanto antes
como depois de se tornar candidato, acadêmicos e academia mereciam-lhe
pouquíssimo apreço." Em artigos como "A Feminina" e em sua editora,
Lobato deixa clara a sua posição em relação à Academia.
Elegem-no para a Academia
Paulista de Letras, mas "quase à revelia, pois um "irredutível amor à
liberdade"impede-o tomar posse, entrando na "gaiolinha dourada", como
diz em carta a uma amigo".
Comenta com Godofredo
Rangel a possibilidade de entrar na Academia Brasileira de Letras: "Não
sei, Rangel. Tenho medo de Academias, coisa algemante, e não possuo o
"feitio acadêmico"
1928 - "A
3 de Maio de 1928, de New York escreve longa carta a Alarico Silveira,
então chefe da Casa Civil do Presidente Washington Luís. Mais do que uma
carta amiga, é um extenso, bem pensado e admiravelmente escrito
relatório, abordando todos os aspectos do problema. Começa pedindo ao
amigo que se prepare, pois o que vai ler é a carta mais importante que
dos Estados Unidos jamais fora escrita para o Brasil. Acabara de chegar
de Detroit, onde vivera a ‘semana-mãe’ de sua vida, rica de ensinamentos
e altas impressões e de capital importância para a solução ‘de todos os
problemas brasileiros’. Gritava a palvra ‘todos’, acentuando: ‘um país
que resolve o problema do ferro, resolve, ipso fato, todos os demais
problemas que o atormentam’."
Monteiro Lobato escreve em
uma carta as suas impressões de Detroit: "Detroit bestificou-me.
Aprendemos em uma semana ali, eu e Bulcão, mil vezes mais do que
aprendemos em todas as nossa vida. Começamos pela Ford. Visitamos as
partes daquela maravilhosos organismo e concluímos a inspecção travando
conhecimento com o cérebro da Empresa, o punhado de células cinzentas
donde tudo tem saído. Na mesa redonda onde esse cérebro se alimenta,
ingerindo chikens and pies
que transformam depois em idéias, tivemos a honra de mastigar juntos com
Mr. Sorensen, esse colosso e mais os ‘executivos’ do poderoso staff.
Entre eles estava um homenzinho do meu tamanho, mais humilde e modesto
que todos os outros. Era o Benjamim do staff, o mais poderoso de
todos aqueles sublimes operários, o filho de Mr. ford, Edsel."
1931 -
Início da correspondência entre Monteiro Lobato e Getúlio Vargas. Nesta
carta, Getúlio por intermédio de Ronald de Carvalho, oferece à Monteiro
Lobato novas oportunidades à serviço do governo. Lobato recusa o
convite.
1932 -
Monteiro Lobato "tem com Getúlio Vargas o que julga a última conferência
duma série objetivada para a solução do problema siderúrgico.
"Lembro-me, diz Lobato, que lhe resumi o caso brasileiro nestes termos
culináriamente prosaicos: A República Velha mexia o angu do caldeirão da
esquerda para a direita; a República Nova está a mexê-lo da direita para
a esquerda; a República Novíssima talvez o mexerá de cima para baixo ou
vice-versa. Nada disso aumenta o angu do caldeirão - e o verdadeiro mal
reside na escassez do angu. Há muita pobreza, muita miséria no Brasil. O
que existe de riqueza criada é pouco demais para famintos (...) Criar
oportunidades para todos, eis o programa. Mas só há de conseguir isso
pelo desenvolvimento da indústria do combustível e do ferro, que são
básicas. do ferro sai a máquina que multiplica a eficência do homem; do
combustível sai a energia mecânica que faz mover a máquina. Máquina e
energia: eis a grande revolução que temos de operar neste imenso gigante
entrevado e faminto que se chama Brasil."
1933 - O
livro "História do Mundo para as Crianças" teve reações contrárias da
chefia do "Serviço das Instituições Auxiliares da Escola", do
Departamento de Educação da Secretaria dos Negócios da Educação e Saúde
Pública, do Estado de São Paulo. Apresentam inconveniências como as
ironias em torno da queima de café do Governo, as discussões sobre
Santos Dumont, e principalemnte, contestam o tom polêmico do autor na
defesa da "formação cristã" da família brasileira. As reações também
surgiram do exterior. Portugal proibiu a obra no país e em suas
colônias.
1934 -
Getúlio Vargas, novamente por intermédio de Ronald de Carvalho, convida
Lobato a estudar a hipótese de dirigir os serviços de um "Ministério" ou
de um "Departamento de Propaganda", a ser criado no seu Governo.
1940 -
Escreve em maio carta à Getúlio Vargas sobre o petróleo no Brasil. Esta
carta causará no ano de 1941 a prisão de Monteiro Lobato.
1941 -
Novamente Godofredo Rangel insiste com Lobato a publicação da
correspondência entre os dois. Lobato concorda que "a nossa troca de
cartas foi uma coisa linda".
Antes de ser preso,
Monteiro Lobato aceitara um pedido da rádio B.B.C. da Inglaterra, para
fazer alguns comentários (a entrevista está transcrita no volume
"Prefácios e Entrevistas" sob o título de "Inglaterra e Brasil"). A
entrevista foi irradiada em português, italiano, francês, inglês, alemão
e outros idiomas. Começa com o poema "If" de Kipling, que descreve a
fibra do povo inglês. "Em seguida Lobato demonstra a grande simpatia do
povo brasileiro pela Inglaterra, único país que sempre confiou em nosso
futuro, emprestando-nos capitais, ou invertendo-os no Brasil sob
diversas formas. Depois fala do nosso regime político imperial, quando
fizeram época estadistas de pulso, regime esse que era uma cópia do
inglês. Descreve a seguir a curva clássica do despotismo sul-americano,
o advento da República, a progressiva restrição da liberdade individual,
fazendo ver que, se tudo havíamos perdido, restava-nos a admiração pela
Inglaterra. Concluía descrevendo o regime totalitário que não passava,
para ele, da ressurreição do despotismo vestido à moderna". Muitos
confirmavam que o processo contra Lobato não tinha origem na carta sobre
o petróleo para o Presidente mas sim nesta entrevista para a B.B.C.
"Desejavam castigar, isto sim, o democrata, o inimigo do regime, o homem
que falara na B.B.C.
Monteiro Lobato é preso em
20 de março. É preso pois escreve para Getúlio Vargas uma carta sobre o
petróleo no Brasil. As primeiras informações sobre o porquê da prisão
declaravam que o autor fez um pedido de passaporte para a Argentina e a
polícia de São Paulo percebeu nisto uma possibilidade de fuga do
escritor, visto que havia um processo no Tribunal de Segurança contra
Lobato.
Perto do aniversário de
Getúlio Vargas, apenas cinco dias após a primeira carta, escreve
novamente ao presidente, pois quer oferecer um presente que nada mais é
que uma idéia: a criação por parte do governo de uma Cia. Nacional de
Petróleo.
Revolta-se com a Academia
Brasileira de Letras pois esta elege em agosto Getúlio Vargas como
membro, na vaga de Alcântara Machado. "Lobato desabafa-se em explosões
impublicáveis". E "sempre considerou essa eleição uma vergonha que
atingia em cheio todos os intelectuais brasileiros".
1943 -
Godofredo Rangel sugere novamente à Monteiro Lobato a publicação da
correspondência ininterrupta de quase 40 anos entre os dois. Lobato
percebe na leitura que existe uma unidade, e que "constituem o autêntico
romance mental de duas formações literárias (...)"; um retrato
fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo - e o
panorama de toda uma época".
1944 - No
final deste ano se despede, com pesar, do oficio de tradutor. Escreve à
Rangel: "Volte à sua tradução. Goze dessa delícia de que
desassisadamente eu vou me privar. Foi a tradução que me salvou depois
do meu desastre no petróleo. Em vez de recorrer ao suicídio e ao álcool
ou a qualquer estupefaciente, recorri ao vício de traduzir, e traduzi
tão brutalmente, que me acusaram lá fora de apenas assinar as traduções.
Mas era o meio de me salvar. Hoje me sinto perfeitamente curado - e por
isso abandono o remédio".
Decide pela publicação da
sua correspondência com Godofredo Rangel.
Sobre a publicação em vida
da correspondência: "Há que essas cartas tinham que vir a público um
dia, e sairiam cheias de coisas que lá no meu estado gasoso eu havia de
arrenegar; achei, pois, que o melhor era infringir as regras e desses
modo preparar para a paz minha vida no Além."
Para Cavalheiro esta
correspondência "constitui caso único na história literária do Brasil, e
talvez do mundo. (...) Uma correspondência entre dois amigos,
praticamente em torno de um mesmo e único assunto, que tenha durado,
ininterruptamente, quarenta e tantos anos, parece-nos coisa inédita. E
se o fato em si é original, as consequências são originalíssimas. Pois
aqui estão as "memórias" de um homem, escritas sem ele saber, compostas
sem planos prévios, realizadas com um máximo de fidelidade e isenção de
ânimo.(...) É de Emília, a grande personagem dos livros infantis, estes
conceitos: "Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e seu também
que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias
arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta idéia do
escrevedor." E memórias para Lobato, não significam a vida de um sujeito
como ele a teve, mas como a queira ter. E apresenta a correspondência
como "espelho fiel de uma amizade rara, original e comovente, reflete a
formação do espírito lobateano, suas inquietações espirituais, sua
preocupações artísticas e financeiras, suas descobertas nos campos da
estilística ou da filosofia, sua posição, em suma, diante da arte e da
vida".
Cavalheiro questiona como
dois homens tão diferentes, com personalidades distintas se
corresponderam por tanto tempo. A resposta é que "ambos eram
visceralmente literatos". Na "Barca de Gleyre" encontramos um diálogo
literário, impressões de leituras, discussões em torno de obras,
estilos, tendências as mais variadas. E "o que se conclui de " A Barca
de Gleyre" é que não houve entre nós ninguém mais empreendedor, mais
cheio de iniciativas e idealizações".
Lobato sobre a sua recusa
de ser membro da Academia Brasileira de Letras: "Cansei-me de declarar o
meu desprezo pela Academia Brasileira de Letras, em entrevistas, artigos
e cartas. Não me acreditaram. Pensaram que era despeito e que, em
havendo possibilidades de entrar lá, eu engoliria o que disse e me
atiraria ao bofe..."(carta à Jaime Adour da Câmara); "Minha idéia é que
todas as distinções honoríficas neste mundo são latas vazias. A láurea
acadêmica é também uma lata com que os homens se enfeitam para ficarem
diferentes dos outros - dos tristes mortais que passam a vida inteira
sem nem sequer uma latinha de massa de tomate no pescoço! Lata, tudo é
lata nesta vida. Tudo é lata vazia, umas maiores e outras menores, como
as de querosene, outras humildes, como as de sardinhas" ; "É apenas
coerência, lealdade para comigo mesmo e para os próprios signatários;
reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer.
Pouco social que sou, a simples idéia de me ter feito acadêmico por
agência minha me desassossegaria, me pertubaria o doce nirvanismo ledo e
cego em que caí e me é o clima favorável à idade".
1945 -
Lobato participa do Congresso realizado em São Paulo que reuniu
escritores de todos os Estados que declararam as insatisfações com o
governo. Lobato é muito requisitado mas suas palavras não são publicadas
devido à censura.
Com o fim do Estado Novo,
Lobato faz uma entrevista ao jornalista Tulman Neto com declarações
sobre a liberdade de expressão, elogios a ordem socialista e à Luís
Carlos Prestes, trata da inflação monetária, da mentira estado-novista,
fala com simpatia da experiência soviética. A entrevista é publicada
pelo "Diário de São Paulo", que a reproduziu à pedidos e foi publicada
em seguida em outros jornais.
Frequentemente os
jornalistas procuram-no para falar sobre tudo. Segundo Cavalheiro "todos
queriam ler o que Lobato dizia. A explicação não tem mistérios: ninguém,
tanto quanto ele, sabia ser tão franco e pessoal no zurzir vícios e
mazelas(...)". Quando não está com os repórteres, está em comissões de
estudantes, comitês de operários, políticos, ou gente do povo, amigos e
admiradores. Às vezes se desespera com os compromissos pois os pequenos
leitores querem mais livros. Monteiro Lobato não gosta mesmo é de
realizar discursos ou conferências. As entrevistas que espalhou pela
imprensa foram reunidas por Lobato no volume "Prefácios e Entrevistas",
"dando preferência às mais substanciosas, aquelas nas quais expôs idéias
próprias sobre os grandes problemas do momento, ou então as puramente
biográficas". As suas entrevistas não se restringem a um ou dois temas,
"pelo espiríto inquieto do entrevistado".
É sempre muito requisitado
para entrevistas e também para prefácios. "A todos ia atendendo
pacientemente".
Revela em carta à Godofredo
Rangel que pretende levar "Dona Benta e seu pessoalzinho para Roma".
Considera os "grandes
prêmios" da vida as cartas que recebe diariamente de crianças de todos
os pontos do Brasil e da América Latina. As cartas revelam o entusiasmo
das crianças com as suas histórias; pedidos de autógrafos e fotos do
autor; são inúmeros os pedidos para conhecer o "Sítio" ou para
participar de uma aventura com os personagens. O autor sempre atendia
aos pedidos das crianças. Há também os criadores de histórias que lhe
sugerem assuntos, novas viagens, indicam livros a serem traduzidos.
Outro setor curioso nas cartas, são os convites e oferecimentos:
convites para os personagens comparecerem à festas de aniversário;
comunicações de que o autor é o patrono de uma Biblioteca Infantil,
Grêmio Escolar, Clube de Leitura. As mães também escreviam para Lobato,
as antigas leitoras, que precisam revela-lo o sentimento que possuem, de
amizade e gratidão.
1946 -
Admira literatos como os cronistas Rubem Braga e Raquel de Queiroz, os
romancistas Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, os
ensaístas Gilberto Freire e Lúcia Miguel Pereira.
1947 -
Escreve uma carta para Luís Carlos Prestes a propósito das eleições
realizadas em São Paulo que elegeram Ademar de Barros, do Partido
Comunista, para a presidência do Estado. Na carta, Lobato recoloca o
líder em seu lugar de destaque pois as suas ações após o ato errôneo de
aceitar Getúlio Vargas foram muito bem vistas pelo escritor. Carta de 2
de fevereiro de 1947.
Um de seus últimos atos
políticos é a carta que escreve a Caio Prado Júnior, quando este se
encontrava na prisão por ter assinado um manifesto em defesa da
autonomia de São Paulo.
A morte é o seu tema mais
recorrente. A correspondência com Rangel a partir deste ano " deixa-nos
a impressão de que o escritor nõa fazia outra coisa senão preparar-se
para a morte: "Daqui por diante, diz ele, o que tenho a fazer é arrumar
a quitanda para a grande viagem, coisa que para mim perdeu a importância
depois que aceitei a sobrevivência. Estou com uma curiosidade imensa de
mergulhar no Além!"
1948 -
Última carta que escreve é à seu neto Rodrigo, revelando que já está
muito cansado e que em breve mudará para o outro mundo.
2 de julho: o repórter da
Rádio Record Murilo Antunes Alves o procura para uma entrevista. Opina
sobre o petróleo, sobre a política nacional e internacional, revela o
amor que tem pelas crianças e se arrepende de ter perdido tanto tempo
escrevendo para os adultos. Acha que o mundo está mesmo perdido e que só
gostaria de voltar ao mundo novamente se fosse para escrever mais
histórias para as crianças.