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1882 - 18 de Abril : Nasce José Renato Monteiro Lobato, "em Taubaté, na então província de São Paulo. Monteiro Lobato era filho de uma tradicional família de plantadores de café do já então decadente Vale do Paraíba."

1886 - Aprende as primeiras letras com a sua mãe Dona Olímpia

1887 - "Apesar do ar severo, imponente, o Visconde se desmanchava em agrados aos netos, particularmente a Juca, o varão, que recebia sempre como presente de festas aquelas idas `a chácara, e ao casarão da cidade, onde havia a sala encantada - o escritório do avô. Estantes enormes, cheias de grossos tomos. Ainda era cedo para entendê-los, mas o menino adorava folhear a ‘Revista Ilustrada’, de Ângelo Agostini, ou a ‘Novo Mundo’ de J. C. Rodrigues. Uma coleção do ‘Journal des Voyages’, foi, no entanto, o seu maior encanto. ‘Cada vez, diz êle, que me pilhava na biblioteca do meu avô, abria um daqueles volumes e me deslumbrava. Coisas horríveis, mas muito bem desenhadas - do tempo da gravura em madeira. Cenas de índios escapelando colonos. E negros de compridas lanças contra o inimigo numa gritaria. Eu ouvia os gritos... E coisas horrorosas da Índia. Viúvas na fogueira. Elefantes esmagando sob as patas as cabeças dos condenados. E tigres agarrados `as trombas de elefantes. E índios da Terra do Fogo, horríveis, a comerem lagartixas vivas. E eu via a lagartixa bulir’."

"A mais antiga lembrança de menino está ligada `a natureza e remonta aos cinco anos de idade: da varanda da casa grande, por cima do parapeito, êle descortinava, diáriamente, os terreiros de café, cercados pelo muro de taipa que num quadrado fechava o recinto daquele castelo. O portão abria-se para a estrada das Sete Voltas, que demandava Taubaté. Depois da estrada, o terreno descia íngreme até o ribeirão. Transposto este, começava outro morro. Um morro coberto de escura mata virgem. Da varanda, o pequeno olhava a floresta como um fantástico ninho de onças e de índios. Evaristo, seu pajem, lhe contara que lá existiam selvagens, homens nus, de tanga, de penas, armados de arco e flechas, que comiam gente. Juca [Monteiro Lobato] olhava para o morro e sentia-se tomado de um pavor medonho, causador de agitadas noites de insônia. Mas um dia, seu pai convidou-o para acompahá-lo numa caçada de jacus. Lá seguiu, atrás dêle, feito uma sombrinha, realizando, assim, a sua primeira grande aventura romântica(...) O sombrio da mata, aquêle frescor úmido, os troncos musguentos que lhe pareciam gigantescos, a cipoama enredada, o silêncio, tudo isso foi deixando Juca naquele estado de espírito com que fixaria, muitos anos depois, o Pedrinho, quando, `as escondidas de Dona Benta, penetrou pela primeira vez no capão de mato do Tucano Amarelo, onde havia até onças."

"Juca era menino quieto, pouco arteiro. Ester e Judite, suas irmãs mais novas, eram as companheiras de folguedos. Em que consistiam êles? Naqueles tempos, nas fazendas, as crianças costumavam brincar com bonecos de sabugo. Tomavam sabugos de milho e os vestiam como se fôssem bonecas. Ou então xuxus, aos quais punham pernas de palitos, e assim êles ficavam sendo os ‘cavalos’, os ‘porquinhos’... As crianças, anotou o próprio Lobato, ‘desadoram os brinquedos que dizem tudo, preferindo os toscos onde a imaginação colabore. Entre um polichinelo e um sabugo, acabam conservando o sabugo. É que êste ora é um homem, ora uma mulher, ora é carro, ora é boi - e o polichinelo é sempre um raio de polichinelo’."

"Como todos os demais fazendeiros seus pais possuíam residência na cidade, e ali permaneciam boa parte do ano. A casa da cidade ocupava tôda uma quadra: separada de um lado pelos trilhos da Central, dava frente para o Jardim Público, no Largo da Estação, um dos poucos lugares que lhe permitiam ir sem acompanhantes. E o largo era, algumas vêzes, escolhido para nêle armarem os circos que, espaçadamente, chegavam a Taubaté (...)

Comovido, diante de um circo, o adulto Lobato relembra com emoção a chegada e permanência dêle na cidadezinha: ‘Lá estava ela, a clássica barraca, iluminada por dentro e deixando ver desenhados no pano os vultos dos espectadores dos bancos de cima. Em redor os tabuleiros enfeitados com lanterninhas dúbias e mulheres acocoradas ao pé, vendendo baús de pastéis, cestas de amendoim torrado, balaios de pinhão cozido, e a saparia que espia de fora porque não tem o deztustão da entrada. Pelas ruas deslizavam famílias em caminho do circo. Deslizavam umas sombras diáfanas, `a luz baça, misturada de luar e gás. Bandos de pretas passavam tagarelando, ruflando saias engomadas. Iam depressa, num açodamento ingênuo, sequiosas das graças do palhaço’.

Recorda, então, os tempos em que também sentia essa sofreguidão nas noites magníficas em que o pai anunciava na mesa: ‘Hoje vamos aos cavalinhos’. Duas horas antes, já estavam prontos; êle de fatiota preta, boné a marinheiro e bengalinha de junco. Revê-se nítidamente, sentadinho na terceira tábua da arquibancada, a lançar olhadelas gulosas para a última, rente ao pano, lá onde se repimpavam os moleques, lá onde gostaria de ficar, se o pai deixasse. Era sempre ali, tão baixo, tão perto do chão... Tocava a sinêta. A molecada pedia o paiaço (...): ‘Eu não podia ver o palhaço que não risse a pnto de incomodar os vizinhos. A cara pintada, os modos, a roupa, tudo era imensamente engraçado’."

1888 - "Dêsse tempo uma das cenas de que quardou viva memória, foi a da última visita de Pedro II `a Provícia de São Paulo, quando o Imperador se hospedou na casa do avô(...) A Figura patriarcal de Pedro II, o cerimonial, nada disso o impressionara tanto quanto a falinha fina da imponente figura." 

1889 - É desse tempo a primeira resolução séria tomada por José Renato Monteiro Lobato: seu pai possuía uma bengala que o encantava: um unicórnio côr de âmbar, com castão de ouro granulado. Bem em cima, no tôpo do castão, numa parte lisa do metal, estavam gravadas as seguintes iniciais: J.B.M.L. Essas iniciais estragavam todos os seus planos. Afinal, pensava o pequeno Juca, quando meu pai morrer não poderei usar essa bengala ‘Eu me chamo José Renato; as iniciais são J. B.; êsse diabo do B...’ E por causa da bengala do José Renato Monteiro Lobato resolveu mudar o nome. Passou a chamar-se, para todos os efeitos, José Bento Monteiro Lobato."

"Está com sete anos quando L. Kenedy abre em Taubaté Novo Colégio. Juca foi um dos primeiros matriculados. Era um excelente Colégio, mas por questões econômicas não se manteve, fechando poucos meses depois. Keneddy foi em breve substituído por Miss Stafford, senhora irlandesa, radicada na cidade. Fundou ela uma escola mista - ‘Colégio Americano’ - que também não durou muito tempo, apesar dos novos métodos de ensino e do excelente corpo de professôres. Ao ‘Americano’, sucedeu o ‘Colégio Paulista’, do positivista Josino Mostardeiro. Fechando-se também êste, Lobato foi para o ‘São João Evangelista’ dirigido por Antônio Quirino de Souza e Castro. Nessas escolas fêz os estudos primários e parte dos preparatórios, até a transferência para São Paulo, onde, no ‘Instituto Ciências e Letras’, concluiu o estudo das matérias indispensáveis `a matrícula no curso superior."

"Aliás, seus divertimentos preferidos inclinavam-se, cada vez mais, para o garatujar incessante e o incessante debruçar-se sôbre os poucos livros que lhe caiam nas mãos. Não havia muitos volumes para crianças naquele tempo. Êle conseguira reunir uns poucos, que lia e relia: três obras de Laemmert, adatadas por Jansen Muller, e dois álbuns de cenas coloridas - ‘O Menino Verde’ e o ‘João Felpudo’. Havia ainda o ‘Róbinson’ resumido e certo livro de narrativas ingênuas intitulado ‘Dez Contos’, incansávelmente lidos e relidos. Êsse último, êle o perdeu no Jardim Público, certa tarde."

"Um quadro que Monteiro Lobato guardava nítida imagem era o dêle entre a criançada humilde, crias da casa em geral, e as irmãs, todos a rodearem-no, enquanto folheava as páginas dêsses livros, mostrando-lhes as figuras e lendo-lhes os dizeres."

"Dos mestres, o que lhe causou mais viva impressão foi o Dr. Quirino. Muitos anos depois, recorda-o numa página de comovente tributo: ‘Eu era bem criança quando o vi pela primeira vez: um homem alto, de cartola. A cartola impressionou-me profundamente por ser novidade para mim. (...)

E eu corria de onde estivesse, para ‘ver’ a singular estranheza daquele homem alto, desempenado, sempre de preto e de cartola (...) Um dia fui parar em seu Colégio, onde êle era o professor de gramática. O compêndio de Bento José de Oliveira, encadernado em couro... O colégio ficava a uns três quilômetros de minha casa, distância que eu vencia com o Bento José diante dos olhos, procurando decorar a lição, mas sem entender coisa nenhuma. O que mais tarde me fêz escrever ‘Emília no País da Gramática’, talvez fôsse a lembrança do muito que naquele tempo me martirizou a tal ‘arte de falar e escrever corretamente’. Na aula tínhamos diante de nós o homem misterioso em pessoa, sem cartola, mas sempre duma originalidade tremenda em todos os seus atos. comecei a conhecer o Doutor Quirino, embora na minha infantilidade, não pudesse analisá-lo nem defini-lo e muito menos compreendê-lo’."

1893 - "Anda pelos onze anos quando descobre que uma pescaria tem seus encantos. Impulsivo é todo da beira do rio por uns tempos: o anzol o tresmalho e o covo faziam-no esquecer o mundo. Talvez por imitação ao pai, interessou-se também pelas caçadas e tanto pediu que acabou ganhando uma linha carabina Flaubert.

(...) é nessa época que mais está interessado em rabiscar, em garatujar. Um desenho de Gumercindo Saraiva, que copiou dum jornal e ‘saiu ótimo’, mereceu a aprovação de todos os parentes e os incondicionais louvores dos amigos da casa. Assim como a cópia de um quadro representando uma canoa deslisando lentamente no meio do rio..."

1894 - Descobre Júlio Verne aos 12 anos de idade.

"Recordando a vida colegial, dizia que os mestres tinham contribuído muito pouco para a formação de seu espírito. No entanto, acrescentava, a Júlio Verne devia todo um mundo de coisas. Júlio Verne abrira-lhe as portas da geografia e das ciências físicas e sociais, descerrando-lhe as cortinas do mundo como coisa viva, pitoresca, composta de paisagens e dramas. De posse dessa visão, e esporeada pela imaginativa, a inteligência ‘compreendeu e quis saber’. ‘Que menino, perguntava êle, mais tarde, após a leitura de ‘Keraban, o Cabeçudo’ não corre espontâneamente a abrir um atlas para ver onde fica o Bósforo? A inteligência só entra a funcionar com prazer, eficientemente, quando a imaginação lhe segue de guia. A bagagem de Júlio Verne, amontada na memória, faz nascer o desejo do estudo. Suportamos e compreendemos o abstrato só quando existe material conmcreto na memória’."

1895 - Sua mãe adoece gravemente e vai tentar cura em Santo Antônio do Pinhal próximo a Campos do Jordão. Seu pai se vê obrigado a vender sua fazenda - a Fazenda Santa Maria - comprando outra em sociedade, situada um pouco além de Tremembé: Fazenda Paraíso.

Monteiro Lobato dirige-se `a Capital Paulista com o intuito de prestar exames para o Instituto de Ciêcias e Letras.

"O dinheiro que lhe deram fôra pouco, e isso o obriga a economia medonhas: ‘Tenho só um vintém e o dinheiro de Teca que ainda não buli nem bulo. Vou `a cidade a pé e por um caminho muito longo que se sobe uma ladeira porque não tenho 3 vinténs para passar no viaduto; mas como é bom aprender a não ser gastador, não pedi nenhum vintém para o Dr. Rodrigo. Tem estudantes aqui que trazem 500$000 e gastam tudo num dia’."

"Neste ano Monteiro Lobato tem o primeiro grande choque de sua vida: é reprovado no exame de Português. Lobato estava convicto de que saíra bem nas provas: "Mamãe, ontem entrei na prova oral de Português e fiz uma boa prova. Todos que viram disseram que eu tinha tirado plenamente, mas quando eu fui ver eu estava inabilitado. Creio que é engano mas se não fôr eu vou sexta-feira, dia 10. A minha prova escrita foi boa e a oral também. Eu vi na prova escrita uns seis rapazes que não sabiam nada, que me perguntavam tudo, que colavam e que faziam uma descrição de dez linhas, serem aprovados. Na oral vi rapazes que diziam que ‘pouquíssimo’ era advérbio: ‘fortes’ não sabiam o que era, saírem aprovados. E eu que respondi tudo saí inabilitado. Me parece que o Freire viu tanta proteção que disse: êste menino não sabe nada, porque se soubesse não precisava empenho e por isso me bombeou injustamente. Tenho vergonha de tôda gente, aqui que conheço poucas pessoas, quanto mais aí que todos sabem que vim fazer exames. Todos dizem que há engano, mas isso não é certo. Agora quando chegar aí vou estudar Francês, Português, Inglês,Geografia para fazer em Junho ou faço em Março os dois. Parece que vou morrer, principalmente vendo como a senhora, papai e seu Germino vão ficar tristes. Só de me lembrar saem lágrimas dos olhos. Isso é uma loteria! Se alguém perguntar de mim, diga que não sabe, que morri. Conte só para seu Germano."

1896 - Passa a maior parte de seu tempo disponível na chácara do avô e "é `a sombra da jaqueira que se debruça sôbre os compêndios, ou sonha com as primeiras glórias literárias".

Monteiro Lobato volta ao Colégio Paulista, `as aulas de seu Germano, do Dr. Eliseu, `a convivência dos colegas e amigos. Passa o ano inteiro grudado nos livros a fim de que vergonha tão grande como aquela não se repita nunca mais.

"Nessa época, no Colégio Paulista, em Taubaté, os colegas resolveram fundar o clássico jornalzinho estudantil. Este chamava-se ‘O Guarani’, e é nele que José Bento Monteiro Lobato, aos 14 anos de idade, estreará nas letras: um artiguete de poucas linhas, que modestamente intitula de ‘Rabiscando...’, e que mais modestamente ainda subscreve com o pseudônimo de Josbem.

"Em dezembro Lobato volta a São Paulo para prestar os exames das matérias que estudara durante o ano em Taubaté. A primeira notícia que manda a mãe é cheia de vivas e pontos de exclamação: ‘Salve! Salve! Viva o meu plenão’. ‘Hoje, grande dia, parece-me que já estou formado! Viva! Viva!!!’ E em letras bem grandes: ‘O MEU PLENAMENTE!’".

1897 - Passa a viver na capital paulista internado no Instituto de Ciências e Letras. Sua mãe permanece doente.

"Que o seu pensamento está quase sempre junto ao da mãe, não padece dúvidas: ‘A senhora não teve nenhum acesso de tosse ou outra coisa no dia 18, `as 8 e meia mais ou menos? Tive um pressentimento e para ver se deu certo mando-lhe perguntar’."

"No internato a vida era divertida. ‘O Colégio, escreve êle, é bom tanto no corpo docente composto na quase totalidade de lentes, como também a respeito de disciplina, ordem, comida e o mais; a casa é um monumento de grande, porém velha e feia’."

1898 - Falece o pai de Monteiro Lobato vítima de uma congestão pulmonar.

1899 - Falece a mãe de Monteiro Lobato. "Está então com 16 anos de idade, em plena e impaciente adolescência. As irmãs são logo enviadas para o Colégio; êle volta para o Internato. Não mais os dias alegres da ‘Paraíso’. Não mais o ribeirão das animadas pescarias. Não mais, nunca mais, o doce colo materno. Êle e as irmãzinhas são agora órfãos, que o avô recolhe e orienta, e que a avó Anacleta já não poderá visitar como antes. O ‘mundo tinha virado’, e ao tomar o trem de volta para a Capital, José Bento Monteiro Lobato não ignora que a infância já se tornara uma saudade."

"Embora não expandisse facilmente os sentimentos que o dominavam, Juca andou por algum tempo sem ânimo para nada. Agora, nas férias, ia para a ‘Buquira’. Mas a solidão da Fazenda sóservia para aumentar a angústia e o desespero de não mais contar com a mãezinha para sover-lhes as dúvidas e aninhá-lo em seu colo. Preferia a cidade; o casarão do avô ficava a poucos quarteirões do Largo da Estação."

"Tenta fixar os seus pensamentos em tumulto numa espécie de diário: ‘Solidão mental... Sinto-a completamente aqui. O cérebro embolora.’ Só resta a natureza. Abre a janela. ‘Que paisagem! Céu, serra e vale. Céu - gaze de puríssimo azul translúcido. Serra - a Mantiqueira, rude muralha de safira. Vale - o do Paraíba, tapête sem ondulações que lhe enruguem o plaino. Ao longo do vale singra uma pinta branca, vôo de giz e vôo da garça em manhã assim! Neve sôbre azul!... Súbito... - o bando. Vinham em bando alongado, ora a erguer-se uma, ora a baixar-se outras, estas ganhando a dianteira, aquelas atrasando-se. Passam a quilómetro da minha janela, tão nítidas que lhe percebo o aflar das asas. Mas... Outro bando! E outro, atrás! E outro bem longe!... Jamais vi tantas, e em tão formoso quadro. Subiam rio acima. Emigravam. Passavam. Passaram. E deixaram-me com a alma tonta de beleza, e a sonhar mil coisas...’"

"Com o que sonha Monteiro Lobato aos dezesseis anos? Êle teve sempre a mania do diário, embora jamais tenha conseguido levar adiante, por muito tempo, os inúmeros cadernos iniciados (...) Numa dessas páginas, que intitula ‘Júlio’, traça uma espécie de auto-retrato: ‘16 anos. Belo, simpático, inteligente. Inebria-o a glória literária. Só pensa num futuro brilhante de poeta e escritor emérito. Mergulhado no pélago das idéias, ei-lo debruçado sôbre a mesa de estudos. Júlio pensa. Em quê? Júlio sonha. Com quê? Pensa naquela menina que o põe tonto e que traz cativo o seu coração de ouro. Sonha em ser poeta; em gravar em páginas imorredouras as façanhas dos heróis do tempo; sonha em legar `a Pátria um monumento que para sempre ofusque seus congêneres: um poema. Toma uma folha de papel, lança um título pomposo, delineia um conjunto, redige o sumário, dá nome aos personagens e... Lança-o na pasta para mais tarde começa-lo... Agora... Ei-lo mudado. Ei-lo entusiasmado por Carlos Magno, seu guerreiro favorito! Idealizando a conquista do mundo, Júlio traça planos de guerra, e crê ver seu nome ofuscando o dos Alexandres, Napoleões, dos Moltkes!"

1901 - Entra no comêço do século para a Faculdade de São Francisco, onde estudará Direito. Está então com 18 anos de idade. "Reside por algum tempo numa república da Rua Conselheiro Furtado, passa depois para a Ladeira do Riachuelo, desta para a Alamêda dos Andradas, nº 76, pensão de uma família taubateana; mais tarde está na Rua José Bonifácio ou no Largo do Palácio, num velho sobradão, indo finalmente para o Cambuci, mas mudando-se logo em seguida para a Rua Araújo até descobrir o ‘Minarete’."

"O quarto do largo do palácio era dos melhores, mas o cômodo do ‘Cambuci’ proporcionou-lhe aventuras mais estranhas. Êsse cômodo passou logo a ser conhecido como ‘L’Hermitage’, pois andava lendo ‘Robert Helmont’. `A tarde Lobato costumava sair a passeio pelo bairro(...) Na volta de um dêsses passeios, introduziui-se numa rodinha de italianos, onde se falou de tudo, do papa, da língua italiana, dos dialetos, e até mesmo de literatura. ‘Sim, de literatura e eu, sequioso como estava por uma palestra, exultei de encontrar o Aurélio, um belo tipo de toscano, um anarquista, um leitor assíduo de Zola e de Kropotkine. Levei-o ao meu quarto, confessei-me também anarquista, falei da solidariedade humana, da segurança social e por fim despedimo-nos amigos’."

1903 - "Curioso acentuar que nenhum colega da turma de Monteiro Lobato fêz parte de suas rodas fora da Academia. Os amigos com os quais se reúne no Café Guarani, ou nos quartos das pensões em que reside, são também, quase todos, estudantes de Direito. Mas, com exceção de Edgar Jordão, não pertencem `a sua turma. Ou estão mais adiantados no curso, ou mais atrasados."

É nesta época que Monteiro Lobato descobre o "Minarete", um chalé onde residiam Godfredo Rangel, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Artur Ramos, indo ali residir. E depois de Lobato vieram ainda outros: Tito Lívio Brasil, Albino de Camargo, Lino Moreira, Cândido Negreiros e José Antonio Nogueira. "A vida ali decorria entre piadas e risos, e altos sonhos de glórias literárias. Liam muito, discutiam muito."

1904 - Monteiro Lobato "começa a jogar futebol, apaixonando-se pelo esporte (...) ‘O futebol empolgou-me de corpo e alma; escrevo crônicas de futebol e jogo. O futebol apaixona e contunde’, comunica a Rangel."

Em Dezembro deste ano Monteiro Lobato recebe o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, " completando o lustro acadêmico com o mesmo desinterêsse inicial pelos estudos. ‘De Direito, depõe Augusto Sílvio, nunca falamos nas conversações, e se classficávamos os lentes era pela qualidade de sais das pilhérias, sal ático, ou sulfato de magnésia’."

"Enquanto não chega o fim do ano, desimpedindo-o de uma vez, Monteiro Lobato afunda-se em leituras e procura uma filosofia. O destino levara-o a ler, casualmente, certa frase de Nietzsche, numa brochura que um colega trazia debaixo do braço. (...) Fôra ao livreiro em procura daquele e de outros volumes do mesmo autor (...)

‘Foi, confessaria depois, a maior bebedeira da minha vida. Aquêle pensamento terrívelmente libertador intoxicou-me. Um dos seus aforismos penetrou em meu ser como a grande coisa que eu procurava. ‘Vade Mecum? Vade Tecum.’ ‘Queres seguir-me? Segue-te.’"

"Lobato concluiu os exames a 7 de dezembro. Resta, agora, a última formalidade: a entrega de diplomas. Imagina que a sensação - vestir a beca, encaminhar-se `a tribuna, etc. - deve ser a mesma que lhe causou a primeira calça comprida. Uma vergonha de todo mundo. Duas coisas sempre o constrangeram: as solenidades oficiais, com todos os chavões e protocolos, e a perspectiva de tornar-se alvo dos olhares curiosos e penetrantes. O rubor subia-lhe logo `as faces. Apaquenava-se ainda mais, constrangidíssimo."

1905 - Monteiro Lobato volta para Taubaté.

"Mas Monteiro Lobato sente-se como exilado. Acabara de sair da libérrima vida estudantina de São Paulo e aquilo parecia-lhe sonolenta aldeia.

"As cartas a Godofredo Rangel são fartas nesse período, e quando não está preocupado com a leitura de algum novo autor, enche-as de comentários ferinos a propósito da vidinha bêsta que está sendo forçado a levar. Seu estado de espírito oscila entre a euforia e o desalento. Eufórico quando as belas do lugar lançam-lhes olhares apaixonados. Desalentado quando, quase `a força, é metido no corpo de jurados (...)

Nessas idas e vindas, é assaltado, `as vezes, pôr incontrolável desespêro. Sente que está se ‘burrificando’ com o ar dessa coisa chamada ‘interior’, capaz de arrasar qualquer criatura em poucos meses. As idéias chegam-lhe lorpas, e já não são mais aquelas idéias brilhantes e audaciosas dos tempos do ‘Cenáculo’, das tardes do ‘Minarete’, das noitadas no ‘Café Guarani’. São idéias que trazem carimbo local, idéias de boticário de roça, e que só servem para enferrujar-lhe o cérebro."

1906 - O "ano novo lhe traz, a princípio, os mesmos disabores, o mesmo desânimo. O diagnóstico é fácil - instabilidade, vida no ar. Saudades do ‘Cenáculo’, sequioso como diz em carta a Tito, ‘pelo recomeçar daquelas intermináveis palestras ao ar livre, das mútuas confidências deambulatórias pelo viaduto’."

Em março chega à cidade a jovem Maria Pureza Natividade, que viera da capital passar uma temporada em casa do avô, o velho Dr. Quirino. Lobato apaixona-se e começa a namorar a jovem.

1907 - Em Maio Monteiro Lobato chega a Areias, a fim de assumir o cargo de Promotor Público da Comarca, e em Abril fica noivo `a revelia do avô.

"Lobato tem de contentar-se com a sua nomeação para Areias (...), onde escorre uma vida morna de cidadezinha qualquer", servindo-lhe como modelo para Oblivium, Itaoca e "todas as cidades mortas cuja imagem percorre os contos do escritor".

No "ócio de um promotor público solteiro em Areias", Lobato dedica-se `a pintura de aquarelas e em escrever "muitos dos contos posteriormente publicados em revistas e mais tarde enfeixados em Urupês".

Procura distrações nos arredores. "Não havia muito o que escolher, mas uma caçada na Serra da Bocaina, ou uma pescaria acompanhado de Fídias, o Delegado, tem os seus encantos, ajuda a matar o tempo."

"O serviço era pouco, práticamente nenhum. Como encher as longas horas do dia e da noite? Só havia uma saída - a leitura. ‘Encho os dias lendo, leio para me embriagar, como o bêbado bebe para esquecer. Desde que cheguei já devorei perto de 1500 páginas in 8º. E se não fizesse isso morreria de desespêro’. Ou então: ‘Estou a ler Homero na Odisséia. Vingo-me da chateza da vida areense passando o dia em plena Hélade, com Ulisses e Penélope. Que grande coisa a literatura! Sem ela a minha vida aqui conduziria irremediavelmente ao suicídio’. Nesse lugar, continua nas longas, apaixonadas e pitorescas cartas `a noiva, ‘só casado’."

"Não se entrega, no entanto, passivamente, `a opressão do ambiente, e procura distrações, inclusive tentando advogar. Consegue uma causa, a primeira e única que se tem notícia de suas atividades como bacharel em Ciências Jurídicas. Nada sensacional; em Areias já não sucediam coisas extraordinárias."

"Descobre, nessa época, Kipling, e têm dêle brutal inveja: ‘Que felizes os homens que podem escrever uma novela européia, outra americana, outra indiana, outra esquimó - haurindo as tintas em observações de primeira mão, feitas nesses meios tão variados’. O contraste, para êle, é bem chocante: e é pensando em Kipling e nas suas longas andanças pelos quatro cantos do mundo, que comenta para Rangel, também vegetando num lugarejo sem importância, do interior de Minas: ‘Nós somos os inversos. Nossas capacidades embotam na mesquinhez da introspecção e na sordidez tacanha de meiozinhos roceiros e pífios onde não há caracteres fortes e sintéticos que o romance requer para não degenerar em teatrinho de Jõao Minhoca’. Ali, daquela Areias onde a meses apodrece, está convencido de que nem Shakespeare tiraria sequer um título de drama. Para Lobato, é errado supor que um artista possa criar independentemente do meio. Para êle, ‘meio pífio - obra de arte pífia’. O romance que sonhara escrever nos ócios areenses gorou, não tem ânimo sequer para tentá-lo. Em compensação encontra Dostoiewsky, e ‘Crime e Castigo’ o deslumbra."

Lobato começa a aprofundar-se no inglês e "dá início, também, `as anotações sôbre a vidinha de Areias, a princípio pensando num romance simples e emotivo. Mas não consegue concretizá-lo."

"Estropiado e empoeirado, o jovem Promotor aportou em Areias, e logo ao primeiro contato com a cidade teve um choque, misto de perplexidade e de assombro: ‘Areias, Rangel! Isto dá um livro `a Euclides. Areias tipo de ex-cidade, de majestade decaída. A população de Areias de hoje, vive do que Areias foi. Fogem da anemia do presente por meio duma eterna imersão no passado’. O desalento é maior nas cartas que escreve `a noiva. O lugar é muito pior do que pensara; felizmente ali estava por pouquíssimo tempo."

"Anda muito inquieto, sentindo que lhe falta alguma coisa. Sabe que para combater tal inquietação, instabilidade e desassossêgo só há uma solução: o casamento. ‘Nunca senti tão imperiosa a necessidade de já estar casado, como neste últimos dias...’."

1908 - "A 28 de Março de 1908, contando 26 anos de idade, ligou-se Monteiro Lobato a Maria Pureza de Natividade. Embora anticatólico, casou no civil e no religioso (...)

O Casal foi ‘luademelar’ em Santos. Um belo dia, quando tomavam banho e bricavam nas ondas ‘como dois peixes nupciais’, pisaram num molusco venenosíssimo, sentiram logo uma moleza, e em seguida sobreveio uma quentura nas solas dos pés tanto do marido quanto da mulher. Depois um comichão contínuo, uma infecção, e ei-los recolhidos ao leito, pés em posição horizontal, incapazes de locomoção por todo um longo mês.

Só em Junho aportam em Areias, para ali permanecerem por mais dois anos, um casal solitário, que não frequenta as famílias locais nem é por elas visitado."

Lobato "para encher os dias de ócio, trabalha em carpinteiragem, fazendo móveis, coisas da casa, toscas, mas bonitas. Os dedos andam calejados e por longas temporadas perde o gôsto pela leitura e pela escrita."

1909 - Em Março nasce sua primeira filha.

Na vida monótona de Areias, Lobato continua escrevendo para a imprenssa, "enviando de Areias matérias e charges para diferentes jornais e revistas". Para Lajolo, uma carta ao cunhado de 1909 já expressa "indícios de uma consciência profissional incipiente", onde Lobato parece "admitir que o texto escrito é também mercadoria", aceitando "escrever por encomenda". Para Lajolo, "trata-se de uma manifestação de pragmatismo" ainda tênue que, todavia, se fortalecerá no futuro.

"É deste período a paciente leitura de Aulete, do contato mais íntimo com Machado de assis, e das leituras de Camilo Castelo Branco."

1910 - Em Maio nasce seu segundo filho: Edgar.

O "ano finda com êle ainda Promotor Público, pai de dois filhos, e com uma sensação de frustração impossível de sopitar. Chega mesmo a escrever: ‘Hoje, que positivamente já falhei, nem mais me acodem os sonhos de outrora’. Os sonhos a que se refere são os de ordem literária, tanto assim que pensa em desistir da literatura para cuidar de algo científico - uma gramática, histórica e filosófica, ou então um vocabulário brasileiro. Mas tudo muito vago, muito sem consistência; Monteiro Lobato quer ganhar dinheiro, quer sair de Areias, a Promotoria causa-lhe engulhos. Ainda inquieto, desalentado. Dêsse estado de espírito vem tirá-lo trágica e inesperada notícia: seu avô, o Visconde de Tremembé, vítima de uma ruptura do aneurisma, acaba de falecer em Taubaté."

1911 - "A morte do Visconde de tremembé ocasiona profundas transformações na vida do neto, o Promotor Público de Areias, José Bento Monteiro Lobato. Agora êle é proprietário de coisas - terras, casas, fazendas... A literatura ficará para depois. É pelo menos o que pensa, enquanto como inventariamente cuida do espólio."

"... a Monteiro Lobato cabe, como herança, a Fazenda Buquira, uma enorme propriedade, abrangendo 1515 alqueires de terras, que acrescidas de outras de espólio paterno, perfazem cêrca de dois mil alqueires, um fazendão mesmo naqueles tempos."

"Monteiro Lobato toma a sério as novas funções, procurando conciliar duas personalidades distintas e, num certo sentido, antagônicas: o lavrador e o literato."

"Instalado a partir de 1911 na sua fazenda, o proprietário Lobato empenha-se em torná-la rendosa, através de projetos que incluem a modernização da agricultura, a importação de cabras, galinhas e porcos, o recurso a especialistas, o cruzamento para melhoria da criação. Abre, além disso, novas frentes na lavoura, planta café, milho e feijão."

1912 - Insatisfeito com a política econômica, que "ao menos na ótica dos fazendeiros paulistas" não favorecia a lavoura, Lobato "lidera a oposição municipal na vila Buquira."

Segundo Edgar Cavalheiro a política municipal da vila Buquira logo enoja Lobato: "Não nascera para suportar a caceteação dos correligionários. Quando mais o julgavam metido na luta, escrevia `a irmã: "Já ontem aturei uma visita de três horas dum eleitor. Enquanto ele comentava a minha entrada na política, eu cá comigo ia estudando meios de sair dela, e ver-me livre de visitas semelhantes."

"... ele sente-se frustrado, inquieto, nem fazendeiro, nem escritor, nenhum dos sonhos realizados".

1914 - "A Grande Guerra tornava a vida muito difícil, não só pels restrições de crédito, como pela irregularidade das exportações".

"Afunda-se em Balzac, que o assombra, e lê inúmeros autores das mais diversas tendências. E quando Rangel insinua ter ele fracassado para as letras, responde: "julgas-me então um raté pelo simples fato de não havera nas livrarias uma brochura amarela com meu nome na capa? Um rebelde nunca é raté."

1915 - No meio do ano Monteiro Lobato passa uma temporada em São Paulo e conhece uma porção de gente dentre os quais Emílio de Menezes. "Em São Paulo ouve comentários desvanecedores `a sua literatura, e acontece a coisa melhor que poderia desejar: o ‘O Estado de São Paulo’ propõe pagar-lhe os artigos a vinte e cinco mil-réis. Mas não era tudo: aparecera-lhe também ‘um papudo’, alguém querendo reunir em livro as várias coisas que tem publicado. Tudo isso leva-o a cuidar mais da literatura, e menos da Fazenda".
Procura vender a Fazenda.

1916 - Nasce a terceira filha de MonteiroLobato. Morre um grande amigo: Ricardo Gonçalves.

É frustrado em seus sonhos que vê chegar 1916: não vendeu a fazenda como desejava; não publicou o livro que sonhara; não escreveu nada que repetisse o êxito de ‘Velha Praga’ e ‘Urupês’. Apesar disso, está, nos últimos dias do ano, mais otimista: sente-se grávido de uma obra, entra em 1916 refazendo febrilmete vários contos.

Ao reler a correspondência com Rangel é tomado pela saudade: "Estamos ali inteirinhos, com os sonhos todos e a grande ânsia de criar". E sobre a publicação revela: "Seria um grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes personalidades". Neste ano, ambos "são autores inéditos, ilustres desconhecidos da vida literária".

Lobato pensou "em vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e Lafontaine. Segundo ele, "Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo de literatura que nos falta". Alguns anos depois chega a traduzir Lafontaine, mas outras atividades o absorvem e não prossegue.

1917 - No meio do ano consegue vender a Fazenda Buquira.

"Vendida a Fazenda, depois de ligeira permanência em Caçapava, onde com Carlos Freire e Pereira de Matos funda a revista ‘Paraíba’, Monteiro Lobato transfere-se com a família para São Paulo, indo residir `a Rua Formosa."

Lobato era "ferrenho inimigo dos imitadores e, acima de tudo, irritava-o o francesismo então dominante nas rodas elegantes da Paulicéia. Pensava-se em francês, comia-se em francês, escrevia-se em francês. Tudo quanto fosse ‘chic’, requeria o ‘made in France’: livros, pintura, escultura, roupas, artes em geral. ‘de que maravilhosas coisas, escrevia indignado, não seria capaz o brasileiro se não ficasse no terreno do pastiche o inibitório terror `a mofa escarninha do francês. Essa obsessão leva uma sociedade que se diz culta a atitudes ridículas, a macaquices inacreditáveis’.

O inquérito sobre o saci, a série de contos e artigos que vinha produzindo, nãp passavam em suma de reação a tal estado de coisas (...) Em lugar de sermos ‘nós mesmos’, de criarmos uma personalidade própria, que fazemos? Contentamo-nos em sermos ‘cópias’, péssimas cópias por sinal. Esquecido de que tanto maldissera o Jeca Tatu, toma-lhe agora a defesa, chega mesmo a dizer que o pobre Jeca lhe parece ainda a melhor coisa que produzimos. E com aquele exagêro do polemista de lança em riste, impõe o dilema: ‘Ser Jeca e levar `as últimas consequências a afirmação do indivíduo com o ambiente, ou ser coquetel, puzzle, garni nacionalidade roupa usada de gola sebosa’. Seu espírito nacionalista, nestas alturas, é tão intenso, que o leva a pleitear, para os nossos parque infantis, em lugar daqueles horrorosos anões barbudos, tão em voga, a graciosa figurinha do demônio brejeiro - o Saci Pererê. Leva tal preocupação nacionalista para outros campos das artes, da política, da vida social em toda a amplitude. Muito escreverá sobre temas específicamente brasileiros. Não se deixará tomar de um nascionalismo vesgo, e muito menos não pertilhará da corrente ‘ufanística’, apregoando serem belas todas as nossas tristes realidades. Não! O nacionalismo que o anima é diferente, nada tem de ‘pátria amada’, de ‘hino nacional’. Este tipo de patriotismo só consegue irritá-lo. O que prega é a exata compreensão dos nossos problemas, a valorização das coisas brasileiras, sem os olhos deformadores do róseo e falo otimismo(...)

Nas páginas que escreveu antes e depois do inquérito sobre o Saci Pererê, insistiu na tecla de que, embora péssimas, não havia motivo para desprezarmos as nossas coisas. O Jeca era aquela miséria descrita em ‘Urupês’, mas antes ele do que qualquer cópia, por melhor que fosse. "Nós, frisava Lobato, nunca nos vemos a nós, e todos os nossos males embicam nesse erro."

1918 - No mês de Maio Monteiro Lobato compra a Revista do Brasil.

Dirigindo a Revista do Brasil, em 1918, Lobato "demonstra o espírito empreendedor que marca seu esforço como empresário da cultura". Segundo Marisa Lajolo, "comprar a Revista do Brasil, analisado na perspectiva de mais de meio século depois, parece ter sido uma iniciação simbólica: passo audacioso e definitivo para a transformação do escritor Lobato no escritor-editor que inaugura a marca Monteiro Lobato com o livro de contos de sua autoria Urupês."

1922 - Neste ano Lobato confessava: "Que vontade de mudar de terra - ir viver num País vivo, como o dos americanos! Isto não passa de um imenso tartarugal. Tudo se arrasta".

1923 - Após os trabalhos da Editora Lobato se dirigia ao "velho" Café Guarani, onde "como nos alegres dias da mocidade, tem mesa especial, mas agora não de sonhadores, poetas, contistas, filósofos ou jornalistas". Encontra-se com um grupo heterogêneo que conversa de tudo menos de literatura e arte. "A obrigação é só dizerem coisas que provoquem risadas. Nenhum deles o conhece como escritor. Na roda funciona apenas como um ‘pagante’. O fato escandaliza os amigos, mas ele explica: ‘Que querem? Passo o dia inteiro lidando no escritório com literatos, poetas, escritores, intelectuais de toda a espécie; `a noite preciso descansar; achan que ainda devo procurar gente dessa categoria?’ Para equilibrar a fadiga do espírito só o pitoresco daqueles vagabundos."

Lobato escreve: "Depois que me meti na indústria vivo esmagado em engrenagens. Meu sonho era parar, mas com dinheiro no Banco; e numa Paz do Senhor, como a da Fazenda Buquira, retomar o fio de Urupês."

"No fundo o que irritava Monteiro Lobato eram as obrigações sociais, o sacrifício daquela bela liberdade de ler quando lhe apetecia, escrever quando viesse o ‘elan’, ou simplesmente não fazer nada quando lhe desse na veneta. Metido até o pescoço na indústria e no comércio, adeus liberdade".

1925 - Neste ano a Empresa Editora de Monteiro Lobato abre falência. "A verdade é que Lobato saíra pobre da falência. Tão pobre que para transfirir-se para o Rio de Janeiro, precisou por em leilão seus bens."

Segundo Edgar Cavalheiro Lobato "não se deixou abater. Pelo contrário. Além dos negócios editoriais, possuía uma sociedade com Otales Marcondes Ferreira pequena casa de loteria, `a Rua Direita. Da venda desse negócio apuraram 100 contos de réis. Com tal importância habilitaram-se ao espólio da massa falida. A proposta que fazem é a melhor: o estoque das edições e direitos autorais são avaliados em dois mil contos. Por 300 e poucos fecham o negócio, entrando êle e Otales, no momento, com os cem contos, que é tudo quanto, esprimidos, conseguem dispor. O resto seria pago em prestações mensais com o produto da venda do próprio estoque.

E assim, dos escombros da Gráfico-Editora Monteiro Lobato surge outra pequena empresa - a Cia. Editora Nacional."

1926 - Confessa ter vontade de entrar definitivamente pelo caminho da literatura infantil: "De escrever para marmanjos já enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças um livro é todo mundo. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e nos Filhos do Capitão Grant". E Lobato completa: "Que é uma criança? Nada mais do que isto: imaginação e fisiologia". E quando lhe perguntam porque escreve para elas, responde: "Dá-me prazer e traz-me compensações, coisas que jamais senti e tive escrevendo para marmanjos. Prazer ... Será que a criança subsiste sempre no adulto? Hum... Vem daí a sabedoria popular dizer que a velhice é um retorno à puerilidade.(...) O gosto que sinto em escrever histórias que irão dar prazer às crianças, prova que estou chegando à idade mental delas. A criança que mais se diverte com as minhas histórias é a que subsiste ou está renascendo dentro de mim. Eis tudo... Velhice."

1927 - Monteiro Lobato aceita o convinte para ser Adido Comercial brasileiro em Nova York, e em Maio embarca para lá com sua família.

Quinze dias após a sua chegada em Nova York, Lobato já escrevia dizendo que estava "americanizado, possuíndo automóvel, rádio e um belo apartamento. Em agosto começa a transmitir aos amigos as impressões do País. ‘Imaginei grande, mas é maior! É imenso, é infinito, é um mundo novo.’ ‘Sinto-me encantado com a América! O País com que sonhava. Eficiência! Galope! Futuro! Ninguém andando de costas!’ Esta realmente feliz, eufórico. ‘Tudo como quero, como sempre sonhei. Seu desespero é por ter acordado tão tarde, ter ido tão velho para o País maravilhoso. ‘Que estupidez infinita estragar uma vida inteira aí... A ilusão do brasileiro é um caso sério. O mundo já está na era do rádio, e o Brasil ainda lasca pedra. Ainda é troglodita. O Brasil dorme. Daqui se ouve o seu ressonar. Dorme e é completamente cego’.

Segundo Edgar Cavalheiro dois meses após a sua chegada em Nova York já se esboçava na mente de Lobato uma grandiosa idéia, ou, mais precisamente, um plano grandioso: dar ferro e petróleo ao Brasil. "Isso se tornará com o decorrer dos dias uma idéia fixa. Não pensara antes no assunto. Intuira faltar ao Brasil algo que o mantinha naquela lazeira. Sabia ser a pobreza. Mas supunha que a pobreza tinha origens noutras causas: politicalha, militarismo, preguiça, sem-vergonhice. Até mesmo causas raciais, geográficas e religiosas. Mas ao deparar com o progresso dos Estados Unidos, que não calculara tão grande, procura informar-se das razões de tanta riqueza. Encontra então como base econômica da nação dois produtos - ferro e petróleo. Eram os pontos básicos. O que via deslumbrado, não passava de consequência."

Segundo Edgar Cavalheiro para Monteiro Lobato só as soluções indiretas resultariam eficazes para resolver os problemas pelos quais o Brasil atravessava. "E tais soluções, pensa o escritor em princípios de 1927, resumem-se no enriquecimento da Nação. Só a riqueza traria instrução e saúde, como só ela tráz ordem, moralidade, boa política, justiça. Para ele, o País não precisa de reformadores, e sim de homens que tirem do caminho os embaraços com que a má fé, o espírito do parasitismo, e a estupidez, embaraçam os movimentos do povo."

Em Nova York tudo o encanta: "os cinemas, principalmente os filmes falados, então grande novidade, as festas do Independence Day, o movimento da bolsa, as doações `as universidades, os teatros, os edifícios, as pessoas, os animais, as estradas. ‘A semana passada, comunica a Lino Moreira, fui a Washington de autpo. Que estradas! Que conforto! Que Maravilha... Vim besta pelo resto da vida e com uma tristeza imensa do Brasil não ser assim’."

Em Nova York, a saudade da Pátria aparece. Começa a lembrar-se da infância, da fazenda, da mata, das irmãs, do colo materno. Para Cavalheiro, "o mundo da criança se reconstitui, sereno, perfeito, e aquilo lhe dá prazer. Um prazer insuspeitado. Como há tempos não sentia. Ao regressar à casa, fecha-se no escritório, toma os livrinhos largados num canto da estante, relendo-os com infinito agrado. Chaga a ficar comovido. Não pensara, até auqele momento, que naquelas historietas o melhor era o seu próprio mundo infantil que, meio inconsciente, reconstruía, com a pureza e inocência que só as lembranças da infância permitem ao adulto."

1930 - Seu filho Edgar adoece. Nesta ano Lobato escrevia a sua irmã: "Hás de crer que acabo de cometer um dos maiores erros da minha vida? Entrei no Stock Exchange com todos os recursos que pude reunir, certo de fazer fortuna. Errei o bote. Em vez de ganhar já perdi metade do meu capital e estou ameaçado de perder o resto e ainda ficar devendo alguma coisa. Estou resistindo, sempre com esperanças de que uma alta nos títulos ainda me permitam ao menos diminuir os prejuízos, mas não sei se poderei resistir muito tempo. O mais certo é perder tudo e ficar reduzido a ordenado." Em meados de 1930 Monteiro Lobato fica reduzido ao ordenado de adido comercial.

" ‘Vou ressuscitar literáriamente’, declara em meados de 1930. É na literatura que encontrará desafôgo para todas as mágoas. É dela que vai haurir enrgias para continuar a luta. A literatura, sempre tão malsinada, tudo lhe dará: a alegria de viver e meios de subsistência. ‘Só me volto para as letras quando o bolso se esvazia, e agora, em vez de ganhar milhões de dólares, perdi alguns milhares na Bolsa. Resultado: literatura ‘around the corner’."

1931 - Monteiro Lobato regressa ao Brasil. No final do ano "estão prontos todos os planos para o lançamento da Cia. Petróleo do Brasil, inclusive os prospectos. O programa inicial consiste em levantar pequeno capital, exclusivamente para as experiências com o aparelho Romero, indicador de óleo e gás, e no qual alguns entendidos depositam profundas esperanças.". Cançado de apelar aos poderes oficiais, Monteiro Lobato dirige-se ao público.

1932 - Monteiro Lobato "tem com Getúlio Vargas o que julga a última conferência duma série objetivada para a solução do problema siderúrgico. "Lembro-me, diz Lobato, que lhe resumi o caso brasileiro nestes termos culináriamente prosaicos: A República Velha mexia o angu do caldeirão da esquerda para a direita; a República Nova está a mexê-lo da direita para a esquerda; a República Novíssima talvez o mexerá de cima para baixo ou vice-versa. Nada disso aumenta o angu do caldeirão - e o verdadeiro mal reside na escassez do angu. Há muita pobreza, muita miséria no Brasil. O que existe de riqueza criada é pouco demais para famintos (...) Criar oportunidades para todos, eis o programa. Mas só há de conseguir isso pelo desenvolvimento da indústria do combustível e do ferro, que são básicas. do ferro sai a máquina que multiplica a eficência do homem; do combustível sai a energia mecânica que faz mover a máquina. Máquina e energia: eis a grande revolução que temos de operar neste imenso gigante entrevado e faminto que se chama Brasil."

1934 - Releitura do livro de Godofredo Rangel, "Vida Ociosa".

1941 - Seus bens resumem-se nos livros publicados a partir de 1918.

Sua saúde não anda muito bem após a prisão; e seu filho Edgard também não estava bem.

Monteiro Lobato é preso em 20 de março, por escrever para Getúlio Vargas uma carta sobre o petróleo no Brasil. As primeiras informações sobre o porquê da prisão declaravam que o autor fez um pedido de passaporte para a Argentina e a polícia de São Paulo percebeu nisto uma possibilidade de fuga do escritor, visto que havia um processo no Tribunal de Segurança contra Lobato.

É julgado em 8 de abril. Sua defesa é feita por Hilário Freire e Medrado Dias que apresenta o processo como algo simples: "Trata-se de uma carta particular, que o autor não divulgou, nem autorizou o destinatário (Getúlio Vargas) ou outrem a divulgar, e que portanto não produz injúria. Revela ainda notar que o convívio mental entre o autor da carta e o seu destinatário, vinha de longe: há mais de 10 anos que Monteiro Lobato dirige cartas ao Dr. Getúlio Vargas". Sobre o passaporte para a Argentina a defesa alega que Monteiro Lobato muito antes da denúncia requerera passaporte a fim de cumprir contrato comercial com uma Empresa editora argentina, com a qual convencionara a tradução e edição de suas obras infantis. O resultado foi favorável à defesa, alegando que o autor da carta não permitiu a divulgação; faltava nesta o material da injúria; o autor pensava agir na defesa do interesse público, o que o Instituto de Censura Pública aceita neste caso.

No primeiro julgamento do Tribunal de Segurança é absolvido. Mas no julgamento com o tribunal pleno é condenado a seis meses de prisão. Lobato contribuiu para tal sentença visto que logo ao receber a notícia do primeiro resultado, que provavelmente seria confirmada no segundo, prepara duas inoportunas e esperadas "bombas". Escreve a seguinte carta ao general Horta Barbosa, DD. Comandante do Conselho Nacional do Petróleo: "É profundamente reconhecido que venho agradecer a V. Excia. O grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de una tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão desta ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (A short introduction to the History of Human Stupidity). Lá fora, o tumulto humano e mil distrações sempre me iam protelando a realização desse sonho; e eu já não tinha esperança de nada, quando fui surpreendido pela denúncia do Conselho do petróleo ao Tribunal de Segurança e logo em seguida preso preventivamente (...)".

A segunda bomba foi enviada para Getúlio Vargas: "Atirei no petróleo e acertei na cadeia, o que prova bem má pontaria. Estou porém radiante visto que, a sentença do juiz Maynard fez com o general o que eu fiz ontem com uma pulga: enrolou-o bem enroladinho entre as pontas dos dedos. (...)". Escreve sobre os tribunais, política e petróleo e conclui: "o verdadeiro amigo dum chefe de Estado não e o que anda com retratinhos dele na lapela, mas sim o que desassombradamente o adverte dos crimes cometidos em seu nome.(...) Mais uma vez os meus agradecimentos, Sr. Dr. Getúlio, e sinceros votos para menos retratos nas paredes e mais coragem no coração dos que lhe escrevem". Assina como o "impenitentemente" Monteiro Lobato e pede: "Pelo amor de Deus, não mande esta carta ao Conselho do Petróleo".

Como é condenado a seis meses de prisão recebe a visita de vários amigos mas recebe também correspondência de estranhos, de admiradores anônimos, leitores e crentes no petróleo brasileiro.

O assunto religião o preocupa na prisão. Tinha como modelo Voltaire. Concordava com Spencer, que definira a lei da evolução como uma "complexidade", uma crescente heterogenização de estruturas e funcionamentos, tudo alheio, às idéias de Bem e Mal, que são relativas a despeito de todos os esforços escolásticos para que sejam absolutas. Para Lobato, "Há fenômenos, causas e efeitos, radículas condicionais e condicionadas; mas a finalidade, desígnio, é coisa que cai no "Incognoscível", de Spencer (...)". Faz a leitura do livro "Imitação de Cristo" e acha-o deprimente. Quando recebe uma carta que procura convertê-lo a doutrina de Mary Baker Eddy, responde utilizando-se das idéias de Lavoisier: "Se nada se cria, não houve criação, o Universo sempre existiu. E se não houve criação, não houve Criador com C maiúsculo - puro antropomorfismo."

Após noventa dias de prisão, o presidente assina a ordem de liberdade do autor e os jornais são proibidos de fazer referências ao caso. Ao sair "não tem ânimo para escrever novas histórias infantis, apesar das idéias magníficas que lhe ocorrem. Nem uma ligeira estadia em Taubaté- depois de 25 anos de ausência - lhe traz alegria. Continua a traduzir porque não tem outro remédio. E faz, com grande habilidade, pequenas historietas de propaganda comercial." Sobre a relação de Monteiro Lobato com propagandas e anúncios, Cavalheiro explica que este seu trabalho começou com "Jeca Tatuzinho" em propaganda de dois preparados farmacêuticos, o "Biotônico"e a "Ankilostomina Fontoura". Teve a tiragem de 22 milhões. E além disso, todos os catálogos, folhetos, prospectos e anúncios tanto da editora como das empresas de ferro e petróleo, são de sua autoria. Para a linha Fontoura, para a máquina de escrever Royal e para o Café Jardim, Lobato escreveu os slogans, revisou os textos e criou histórias. Para a casa Lotérica que possuiu "compôs deliciosos anúncios, que na época causaram grande sucesso".

Recebe a notícia da "Cia Editora Nacional" que suas tiragens já ultrapassaram o milhão de exemplares.

Dia a dia de Lobato: levanta cedo e traduz durante toda a manhã (oito horas sem interrupções). À tarde comparece na Civilização Brasileira onde atende os amigos, recebe as encomendas e cartas dos admiradores. Passa algumas horas na Cia. Editora Nacional e ao entardecer segue para uma das inúmeras salas de cinema do centro. À noite, faz visitas a qualquer dos inumeráveis amigos.

Escreve para sua mulher sobre o quanto ele a ama e sobre a prisão, após três dias de sofrimento por não saber o que acontece no mundo e principalmente por não ter como escrever. Ao receber roupas e um lápis, escreve para Dona Pureza: "Purezinha, só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com o pensamento e nunca o pensamento trabalha tanto. (...) Estou preso há quase três dias e já me parecem 3 séculos. As horas têm 60 minutos. As noites não têm fim. Sou obrigado a não fazer nada de nada. Não há o que ler - nem jornais. E a incomunicabilidade em que estou agrava tudo, porque me isola completamente do mundo exterior. Não posso falar com ninguém, nem comunicar-me com ninguém.(...) Incomunicável! Agora compreendo o horror desta palavra."

Lobato revela que com a censura nada que fale ou escreva sobre o petróleo na prisão para os inúmeros amigos que passam a visitá-lo, será publicado, "mas o essencial, raciocina, não é que o ponham em pedestais, e sim que agitem o problema, que o comentem." Escreve a Benjamim de Garay: "Estou muito bem, alegre e satisfeito, pois isto só serve para por em foco a causa do petróleo"; e ainda a Geraldo Serra: "Se alguém lamentar a minha sorte, diga-lhe que não seja besta. Estou como queria, colhendo o que plantei. A causa do petróleo ganha muito mais com a minha detenção do que com o comodismo palrador aí do escritório".

Quando recebe a notícia favorável sobre o seu primeiro julgamento (no Tribunal de Segurança os casos entravam em dois julgamentos: o primeiro por um juri singular e o segundo pelo tribunal em conjunto), está envolvido com as notícias da guerra sobre a vitória dos alemães sobre os ingleses. Quando sai o resultado do Tribunal Pleno, condenando-o, Lobato está tão feliz com a derrota dos alemães "que não deu tento na notícia da sentença do tribunal pleno".

No terceiro mês de prisão começa a se aborrecer. Continua bombardeando através dos amigos o Conselho de Petróleo e o Estado Novo. Mas se sente decepcionado pois percebe que a causa do petróleo não estava ganhando nada com a sua prisão, visto que a imprensa censurada e o DIP atuando com força, as suas idéias não tinham muita difusão. Mas não deixa transparecer aos amigos a sua angústia. A prisão o impede de "ser livre como um selvagem".

Após a carta à Getúlio Vargas que propõe a criação da Cia. Nacional do Petróleo, Lobato percebe com o silêncio do presidente que nada mudará e que a ele só resta voltar às atividade intelectuais, não pensar mais em petróleo, pátria, miséria, riqueza, "nada dessas coisas que lhe consumiram tantas energias inutilmente".

O desejo de ir à Argentina, com grandes possibilidades editoriais propostas por Benjamim de Garay, continua perseguindo Monteiro Lobato. Há pedidos para os livros infantis de Lobato que somente o autor poderá fazer as adaptações necessárias. Com a prisão, a ida para a Argentina é adiada.

No final deste ano, Lobato sente uma enorme satisfação com o filme de Walt Disney, "Fantasia": "Fantasia deixou-me estarrecido. É a expressão. Estarrecido. E embaraçado para definir. Tudo tão novo, tudo tão inédito, que o vocabulário crítico usual mostra-se impotente. Disney é um tipo novo de gênio e sua arte é uma arte total e absolutamente nova, jamais prevista nem pelas mais delirantes imaginações. Até o aparecimento de Disney, o cinema não passava duma conjugação do teatro com a fotografia. Era uma representação teatral fotografada em todos os seus movimentos, cores e sons. Disney criou a grande coisa nova: a conjugação da fotografia com a imaginação. O desejo genial de Disney permite que todas as criações da imaginação possam ser fotografadas e projetadas com a riqueza dos sonhos". Sempre suspirou por um Disney "que fixasse os personagens do Sítio do Picapau Amarelo".

1942 - Se diverte contando aos amigos o enredo e as principais peraltagens de Emília em seu novo livro infantil "A Chave do Tamanho".

1943 - Morre seu filho Edgard no dia 13 de fevereiro.

Sobre a morte do seu filho Edgard escreve que não teve sorte com seus filhos varões, visto que ambos se foram muito cedo. Para Godofredo Rangel escreve: "Impossível filhos melhores que os meus, e talvez por isso foram chamados tão cedo".

Recomeça a analisar o Espiritismo. Porém, pela saudade dos filhos ou por não esperar mais nada do mundo começa a freqüentar sessões. Suas conversas, segundo Cavalheiro sempre falavam sobre a morte ou em coisas do Além.

Lamenta ter vendido a fazenda, porque lá não havia rádio e repórteres querendo saber o que ele pensa sobre determinado assunto.

1945 - A saúde de Lobato piora levando-o ao hospital. É operado para retirar um quisto no pulmão. Segundo os médicos a prisão causou este mal à Lobato.

1946 - Lobato já se recuperou da operação.

Lobato "sem mais esperanças no Brasil, achando que por aqui tudo andava podre, e que seriam necessárias inúmeras gerações para reparar o mal feito ao país, com a ditadura do Estado Novo e a ditadura disfarçada que se iniciava, o escritor só pensa em exilar-se. A Argentina agora é uma idéia fixa."

Quer realizar o seu grande sonho: viajar pelo Pacífico, Andes até o México, sem pressa.

1947 - Retorna ao Brasil dia 8 de junho. Comove-se com a recepção e diz que voltara "forçado pelas saudades da língua, dos bate-papos intermináveis, das conversas para boi dormir, e outros "caldos de goiaba". Caio Prado lhe proporciona um apartamento no mesmo prédio da Editora.

Para realizar sua viagem pelo Peru, lê Prescott e Garcilaso para ambientar-se. Porém, com o crescente interesses pelos acontecimentos no Brasil e sua saúde obrigam-no a ir adiando a sua tão sonhada viagem. No final de fevereiro decide voltar à sua terra.

1948 - Sofre de um espasmo vascular. O ataque não lhe traz paralisia ou distúrbios, porém deixa no escritor uma alexia. "Lobato enxergava perfeitamente, podia acompanhar com o dedo o contorno das letras impressas na capa de um dos seus livros. Não era capaz, no entanto, de relacionar os símbolos gráficos com o seu significado". O começo é bem difícil para o autor que se considera no grupo escolar. Mas com algumas semanas começa a melhorar.

3 de julho: almoça com amigos revela que no dia seguinte não poderiam se encontrar pois caso o procurassem só encontrariam um cadáver. E repete o que disse a um jornalista anteriormente: "Meu cavalo está cansado, querendo cova, e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final". À noite é visto na Livraria Brasiliense cercado de admiradores. Morre às quatro da manhã de um espasmo vascular que o atacou enquanto dormia.



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