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NO SÍTIO DE JOSÉ BENTO PATRIMÔNIO,
IMAGEM DE INFÂNCIA E LÍNGUA NACIONAL
Ilmar Rohloff de Mattos
DUPLA ORFANDADE O registro encontra-se ali, na seção "Datas", em seu estilo característico, e ao leitor quase passaria desapercebido em meio aos demais não fosse a foto que exibe um inconfundível personagem com suas bastas sobrancelhas: "Aprendidos: 2378 exemplares do primeiro volume do livro Reinações de Narizinho no Reino das Águas Claras, da editora Brasiliense. A obra, de Monteiro Lobato, é alvo de uma disputa judicial desde novembro do ano passado. Para os quatro herdeiros do autor, a publicação do texto em três tomos não foi autorizada e a inclusão de um glossário descaracterizou a obra. Os editores negam que tenham modificado o texto original e afirmam que estão amparados pelo escritor há 53 anos. Pleiteiam ainda uma perícia técnica para verificar a procedência da acusação. Dia 9, em São Paulo". (Veja, ano 32, n. 7 - 17 de fevereiro de 1999) Não era propriamente um raio em céu azul! Quando muito, o penúltimo capítulo de uma dessas cada vez mais comuns crônicas de uma morte anunciada. Só que esta - de modo até certo ponto irônico - tinha tecido mais alguns fios de sua trama a duas semanas do encerramento formal de uma pesquisa referente ao personagem que, sentado à mesa de trabalho, indiferente a um enredo que não imaginara mas do qual era um dos protagonistas principais, parecia me argüir se fora efetivamente o responsável por "outros descobrimentos do Brasil". Tarde demais? A disputa entre os herdeiros de José Bento Monteiro Lobato e aqueles da editora Brasiliense ocorrem há muito, e em princípio pouco se diferencia das tradicionais disputas de heranças, avultadas ou não. O que a singulariza, porém, é o fato de envolver, ao juízo de muitos, dois dos maiores patrimônios do que geralmente é identificado como uma "cultura brasileira": a obra de Monteiro Lobato e a editora Brasiliense. Patrimônios culturais que se apresentam entrelaçados de tal forma - em especial a partir de 1946 quando a Editora prepara a edição de suas Obras Completas, com sua inconfundível capa verde musgo, cortada por linhas oblíquas brancas que formam pequeninos losangos, ou balõezinhos com um pontinho branco no centro na imaginação de qualquer criança -, que o processo de crise vivido por um deles parece arrastar o outro, inevitavelmente. Disputa que, ao se nutrir também nas discordâncias entre os herdeiros de um daqueles patrimônios, não poderia deixar de atingir todos aqueles que, em algum dia de suas vidas, haviam descoberto tanto Monteiro Lobato quanto a editora Brasiliense, como crianças ou como leitores - como crianças-leitoras no essencial, e por isso mesmo crianças diferentes, que permaneceram sendo leitoras pela vida afora e, em alguns casos, de modo quase mágico, também para sempre crianças. Porque as "histórias de Monteiro Lobato" não foram quase sempre as primeiras histórias infantis que leram; mas com todo a certeza foi com aquelas "histórias" que, pela primeira vez, disseram - ou melhor, dissemos - que eram "de Monteiro Lobato". Isto é, histórias que tinham um autor. Livros cujo autor nos fazia sonhar, imaginar, inventar, querer tudo ou quase tudo transformar... como muitos dos livros da Brasiliense, lidos já como adultos - ou como crianças, porque também faziam sonhar, imaginar, inventar, querer transformar..., como se por trás de cada um de seus autores, "soprando o texto", estivesse... - adivinha quem? É a escritora Ruth Rocha quem comenta - por mero acaso, às vésperas do registro há pouco referido: "Acho que "Reinações de Narizinho foi um dos primeiros livros que eu li e certamente um dos primeiros que eu ouvi. Sempre adorei Monteiro Lobato. Li com meus irmãos, li para minhas sobrinhas, para minhas filhas. Lobato influenciou toda essa nova geração da literatura infanto-juvenil brasileira, que é uma das melhores do mundo. Esse humor, essa ironia e esse engajamento político, que vêm muito de Lobato, não se encontra em praticamente em nenhuma outra literatura. Definitivamente Reinações de Narizinho é o meu clássico". ("Prosa & verso" - O Globo, 13.02.99) Tatiana Belinky, escritora infantil, recorda que "foi a primeira coisa que li em português, aos 10 anos, pouco depois de chegar da Rússia. Não encontrei nada tão mágico em nenhuma língua. Com Lobato aprendi a sonhar enquanto me tornava brasileira". (Veja SP, 22.04.98) Por sua vez, o filósofo Leandro Konder não duvida em afirmar que o começo do seu interesse pela filosofia e o modo como a História se insere em sua perspectiva filosófica derivam do fato de ter se interessado "muito pela Grécia através da leitura de Monteiro Lobato, Os doze trabalhos de Hércules. E desde então eu me interessava muito pela História da Grécia e pela filosofia nascida na Grécia. E tentava fazer uma aproximação entre as idéias do herói inspirador de meu pai, Karl Marx, e dos filósofos gregos". (História & memória, n. 2, abril 1998) Como já disse alguém, Ruth Rocha, Tatiana Belinky e Leandro Konder incluem-se entre os "filhos de Lobato", (...) embora nem todos encontrem-se ao pé do Olimpo, como é possível constatar do também emocionante depoimento de Thiago Florêncio, estudante do 4o. período do curso de História da PUC-Rio: "Minha mãe era uma das seis filhas da casa. Origem pobre, nasceu no Maranhão. Chegou ao Rio de Janeiro com oito anos de idade aproximadamente. Meus avós tinham poucos estudos, mas não deixavam de ser inteligentes. Muito ensinaram sobre a vida com seus poucos estudos. Tanto é que, mesmo tendo estudado somente até a sexta série, sabiam que o mundo da letras tinha muito a oferecer. Assim, meu avô um dia chegou com toda a coleção infantil do Monteiro Lobato para suas filhas. Passaram as férias lendo e relendo. Até sua morte, meu avô orgulhava-se, emocionado, de ter criado filhas "sabidas que só elas". De fato, todas conseguiram fazer suas vidas, melhorar suas condições. Todas têm o nível superior. Meu avô, só por isso, já posso dizer que morreu feliz. E minha mãe e minhas tias, todas, abraçam a coleção de Monteiro Lobato como se fosse um segundo pai." (novembro 1998) Recordo-me que foi ainda na primeira metade dos anos cinqüenta, numa tarde chuvosa de domingo, que descobri Monteiro Lobato. Ou ele me descobriu! Guardadas as proporções, eu já era um leitor compulsivo aos oito/nove anos de idade, lendo quase tudo o que me passava pela frente dos olhos. Antes mesmo de ingressar na escola primária, de algumas coisas o sabor da leitura era tamanho, que não resistia a copiar a matéria lida, desenhando caprichosamente as letras, em especial a das embalagens de diferentes cores do caramelo "Busi". Mas Lobato chegou-me no dia da primeira comunhão, como presente da avó paterna e madrinha. Eram dois volumes - Viagem ao céu e Emília no país da gramática - que, de imediato, me fascinaram por suas capas coloridos e alegres, e - logo em seguida - pelo sabor da história. Minha primeira e profunda comunhão com um autor, que se estendeu daquela tarde de domingo - desde então nada mais me interessava - até mais ou menos a metade da semana, quando ambos os livros estavam literalmente devorados. Um desafio então se apresentou, misto de prazer, ansiedade e angústia: encontrar Lobato novamente, dentro de outros livros, pois eu já não tinha qualquer dúvida que ele morava ali. A pequena biblioteca da escola particular que freqüentava era de dificílimo acesso, em especial no que respeitava aos livros de Lobato, por razões que então desconhecia; a biblioteca pública era distante e inacessível - a linha férrea separava perversamente as duas metades do bairro - para um menino de menos de dez anos; minha parceira e cúmplice de leituras apreciava Lobato, mas tendia a recusar qualquer exclusividade, até mesmo porque parecia ter um "plano de leituras" para seus filhos, que tivera seu começo com o pequeno volume Como vai, Jaci? das edições Melhoramentos, quando ainda mal soletrávamos; deveria passar pelos contos de Anderson, dos irmãos Grimm, além das Histórias da Carochinha e as Histórias do Arco da Velha, os dois grossos volumes de capas duras e inesquecíveis, porque iguais, desenhos da Editora Vecchi; pelas histórias da Condessa de Ségur e as aventuras de Júlio Verne; até alcançarmos, em demonstração de quase emancipação, as obras de Alencar e Machado de Assis, que em alguma oportunidade deveriam dialogar com alguns textos de Balzac. Ainda assim, deixando o seu lado cúmplice se impor, ela me ajudaria a chegar aos demais volumes de Lobato, talvez porque desejasse redescobrir ela própria o prazer de ser criança. Lobato era assim: fascinante! Porque nos descobria. E permitia que nos descobríssemos crianças, sendo crianças, em idade própria e recortada da vida. Todavia, ao que parece, a recíproca nem sempre era verdadeira. "Monteiro Lobato foi um homem adiante de seu tempo e pagou caro por isso. O país não estava pronto para receber suas idéias. Na literatura, ele foi um contista estupendo, mas seus textos infantis não soavam autênticos. Era como querer nacionalizar o Papai Noel", avalia José Mindlin, empresário e bibliófilo. (Veja SP, cit.) Lobato era assim - escrevi há pouco. "Era": não é mais?; não continuará sendo?; tornou-se um "clássico"? "Ele tinha uma magia para ensinar as crianças a ler e brincar. Infelizmente, toda uma geração cresceu sem conhecê-lo direito, mais interessada em videogame e computador. Com a peça, ajudamos a apresentar Lobato a essa garotada", enfatiza Cintia Abravanel, produtora da peça "No Reino das Águas Claras". "Ele é surpreendente não só como escritor, mas como pensador. O problema é que a linguagem ficou antiga, precisaria de atualização. Os textos tem palavras muito complicadas e o coloquial de hoje não é o mesmo de sua época", sustenta o escritor José Roberto Torero. Ao passo que Luciano Amaral Araújo, apresentador do Turma da Cultura, argumenta, ao mesmo tempo que recorda: "Comecei a ler Monteiro Lobato quando estava gravando o Mundo da Lua. O personagem que mais me surpreendeu foi o Pedrinho, porque era muito parecido com o Lucas que eu interpretava. Ambos usavam a imaginação, eram corajosos e curiosos. As crianças e os adolescentes de hoje, no entanto, preferem outro tipo de leitura". (Veja SP, cit.) Presença marcante a de Lobato - ao menos para os seus "filhos". Presença em declínio - talvez para aqueles mais interessados "em videogame e computador" ou que "preferem outro tipo de leitura"? Seja lá como for, a partir de determinado momento, a associação entre o restrito número de leitores de Lobato hoje e a crise experimentada pela editora Brasiliense torna-se quase inevitável, numa espécie de causalidade recíproca. E, desde então, as soluções - ou o que se imagina como tal - também se apresentam. "Por que não mobilizar os milhares de leitores da Brasiliense para que auxiliem-na a se reerguer? Por exemplo, lançar uma antologia de ensaios dos principais escritores da casa, e utilizar o dinheiro das vendas para solucionar a crise?", perguntava um dos editores de uma publicação voltada para o mercado editorial, há quase dois anos, no primeiro trimestre de 1997, tentando talvez espantar a crise que havia muito dobrara a esquina, aceleradamente. Mais uma vez! Porque dificuldades parecem ter sempre marcado a trajetória da Brasiliense, desde que, no ano de 1943, o intelectual marxista Caio Prado Junior unira-se a Monteiro Lobato e ao militante do Partido Comunista Artur Neves para fundar uma revista, que logo cederia lugar ao projeto de uma editora. Com a adesão da escritora Maria José Dupré, estava composto o grupo fundador da editora, que logo alcançou significativo sucesso com a publicação das obras completas de Lobato, dos livros da Madame Dupré e dos trabalhos historiográficos de Caio Prado Junior. A morte de Lobato em1948 e a prisão de Caio Prado Junior pelo governo Dutra encontram-se na origem de uma primeira crise vivida pela nova editora, que, no entanto, ganharia projeção no cenário intelectual do país na década seguinte com o lançamento da "Revista Brasiliense". Com a ditadura militar, e mais especificamente após a decretação do Ato Institucional n. 5, a Brasiliense enfrentaria uma nova e mais grave crise, somente superada durante a gestão criativa de Caio Graco, que promoveu a aproximação entre a editora e o público universitário, da qual o melhor exemplo, embora não exclusivo, foi a criação da "Coleção Primeiros Passos". A morte trágica de Caio Graco em 1992 lançou a editora em nova crise, agravada pela partilha dos bens e pela necessidade de uma reestruturação administrativa. É Dando Prado, atual responsável pela editora, quem tenta responder à pergunta, deixada acima: "É uma boa idéia, mas nós vivemos o dia-a-dia, e o dia-a-dia de problemas financeiros é terrível. Você tem de enxugar, e para tanto é necessário despedir funcionários, começando pelos que não têm formação técnica atualizada ou cuja função não é mais imprescindível. Ora, despedir pessoas em uma época de tamanho desemprego é algo quase desumano, mas não há outra opção, então você imagina o desgaste que nós sofremos. Quando assumi a presidência da Brasiliense, nós herdamos da Casa do Livro mais de cem funcionários; nós tínhamos cento e cinqüenta funcionários, e hoje estamos com pouco mais de cinqüenta, sendo que muitos deles foram contratados há pouco tempo. Dispensamos mais de dois terços dos funcionários que tínhamos em 1990. Nós precisaríamos de um pouco de tempo para "respirar" novas idéias..." A entrevista prossegue, fazendo agora referência a um projeto, alternativa para a crise, talvez. "Como está o projeto de relançar a obra do Monteiro Lobato em cores?" "Já temos as pranchas coloridas de um livro. É bem diferente, o próprio autor das ilustrações teve um trabalho enorme para colori-las. Nós temos muitos planos: no ano que vem comemoram-se os cinqüenta anos da morte de Lobato, e na ocasião pretendemos relançar suas obras, com uma série de modificações. Nós lançamos o livro Reinações de Narizinho em versão didática: cinco capítulos resumidos precediam um capítulo autêntico, no original. Fizemos isso pois as professoras diziam que não adotavam Lobato porque o texto era muito difícil para crianças, porque Lobato falava em Carlos Magano, Adão e Eva, em Ricardo Coração de Leão, em Bizâncio, e a professora primária brasileira desconhecia tudo isso. Inserimos um vocabulário no fim de cada capítulo, explicando termos regionais e neologismos utilizados pelo autor. Mas, infelizmente, as professora não compreenderam a idéia, não utilizaram os livros. Foi um investimento grande em especialistas ligados à USP, na produção de três mil exemplares, mas não deu certo, foi uma perda de tempo. Apesar disso, eu acredito que esse projeto ainda será um sucesso, os professores vão compreender suas vantagens, pois se as crianças lêem cinco capítulos resumidos, elas ficam ansiosas por continuar a história, e então elas lêem o capítulo original e são instadas a compreendê-lo. Isso foi feito com Os Lusíadas, mas infelizmente não deu certo". (Livro aberto, ano I, n. 4, maio 1997) A efetivação da proposta conduziria à disputa judicial, agravando a crise da editora, quase extinta. E isso no próprio momento das comemorações dos cinqüenta anos da morte de Lobato, comemorações assinaladas por eventos de grande significação, como a publicação de Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia, de Carmen Lúcia de Azevedo, Marcia Camargos e Vladimir Saccheta (São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1997). Mas comemorações que não conseguem esconder quer a crise da editora quer o "lugar" que Lobato ocupa na literatura brasileira, infantil ou não, hoje. Ou não provoca estranheza que tenham sido impressos apenas 3000 exemplares do primeiro volume das Reinações...; e, já num segundo momento, ainda apreendidos 2378 exemplares! Digo "apenas" porque não consigo deixar de lembrar, agora, quer do que já foi caracterizado como uma "imprudência editorial" - 50 mil exemplares! - a primeira edição de A menina do narizinho arrebitado, em 1921, e que esgotou-se em oito ou nove meses; quer do comentário eufórico feito por Lobato em carta a Oliveira Viana, treze anos depois, por ocasião do lançamento de Emília no país da gramática, que "a minha Emília está realmente um sucesso entre as crianças e os professores. Basta dizer que tirei uma edição inicial de 20.000 e o Octales está com medo que não agüente o resto do ano. Só aí no Rio, 4.000 vendidas num mês". Outros tempos; outros leitores; outras crianças; ou outros editores? O que talvez importe reter, de tudo que até agora foi comentado, é que a crise da editora Brasiliense, a diminuição do número de leitores de Lobato e - sua manifestação mais ruidosa, embora não festeira - a disputa entre os herdeiros daqueles "dois patrimônios" nos falam tanto do que poderíamos denominar o esgotamento de mais uma das formas e conteúdos da "moeda colonial", em permanente processo de recunhagem por sua origem mesma, a qual no período de pouco mais de um século, desde o final da guerra do Paraguai, expressava a maneira como foram vividos pela sociedade brasileira de modo intenso, ao menos nos principais núcleos urbanos, os processos definidores da modernidade, os quais impunham ademais e prioritariamente a reelaboração do projeto de uma nação ainda por descobrir, mais do que nunca, na tentativa de combinar tradição e mudança; quanto dos sonhos e utopias de Lobato, de suas idéias e formulações, de suas experiências e vivências, expressão particular eles todos da maneira como o neto do Visconde de Tremembé procurou "dar conta", criativa e sobretudo ativamente, daqueles processos. Ou não é evidente que as referências recorrentes, no conjunto de falas acima transcritas, a "glossário", "texto", "leitores", "alunos", "professores", "editores", "crianças", "autor", "imaginação", ao lado de alguns outros termos e expressões, aos quais acrescentamos, desde cedo, "patrimônio", nos permitem ter acesso ao "mundo de Lobato" e às "descobertas" que empreendeu, ao mesmo tempo que ia "se descobrindo"? Dizendo de outra maneira, o que pretendo é, em primeiro lugar, aproximar-me de Lobato por meio de três grandes referências, intimamente relacionadas entre si, que logo se desdobram em inúmeras outras que lhes estão associadas e somente na relação com elas encontram seu conteúdo, constituindo uma espécie de campo ou sistema, as quais se serviram para nortear os rumos do mapa traçado por Lobato para se movimentar no turbilhão em que vivia, em permanente e acelerada transformação, assim como também serviram para que se movimentassem aqueles que com ele caminhavam, foi porque eram referências fundamentais elas também para todos aqueles que, de modo direto ou não, mas por certo sempre intensamente, viviam os processos acima mencionados. Refiro-me a Patrimônio, Infância e Língua. NO INÍCIO, UMA BENGALA No início, além da presença marcante do avô, havia uma bengala. Nascera José Renato, em 1882; aos sete anos, por desejar poder usar quando crescesse uma encantadora bengala, um unicórnio cor de âmbar, com castão de ouro granulado, onde estavam gravadas, na parte lisa mais acima, as iniciais J.B.M.L. de seu pai, trocara o nome para José Bento. Mas seria para sempre Monteiro Lobato. Era como cada um de nós: estava sempre mudando, mas possuía algo essencial, que permanecia, imutável. A bengala era o seu espadim, e por um tempo julgou-o maior do que a espada de Napoleão, à maneira de um outro menino de nove anos, Brás Cubas. Por um curto tempo, porque jamais cuidaria apenas do espadim - ou da bengala, embora esta lhe outorgasse tradição. E lhe conferisse autoridade: como José Bento, poderia ser Monteiro Lobato; e ser Monteiro Lobato permitir-lhe-ia uma comunicação e uma criatividade sociais, fornecendo a uma referências comuns e a outra vias possíveis; uma autoridade que, em breve, iria se referir, de uma maneira ou de outra, àquilo que é "aceito" como "crível". (Michel de Certeau. A cultura no plural. São Paulo: Papirus, 1995, p 23) Exposto ao turbilhão da modernidade, seria semelhante a seus contemporâneos, sua diferença residindo na maneira como elaborava e reelaborava o mundo no qual vivia e convivia, sempre de modo extremado, superlativo, atributos que não eram suficientes, contudo, para invalidar o fato de que as representações que cada qual elabora a respeito de si próprio é sempre - como já pôs em evidência Norbert Elias - uma "eu-e-nós imagem" ou um "eu-e-nós ideal". (Os alemães. A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 199 , p. 147) Movimentando-se em um mundo no qual a "era do capital" cedera lugar à "era do imperialismo"; em que a primeira Grande Guerra possibilitaria ao seu final a plena emergência dos EUA no plano mundial; em que a Revolução Russa revelava o poder do operariado e os movimentos fascistas punham em destaque a força das massas e o valor da propaganda; em que os valores da sociedade liberal eram postos em xeque a cada instante; e em que a paz estava permanentemente em questão; Lobato tenderia sempre a operar com pares, de modo dicotômico, "ou isto, ou aquilo", sempre que se saía em defesa de alguma tese, embora nem sempre tal ocorresse no que dizia respeito à sua própria vida. Ardoroso e extremado defensor do "moderno", o pai do Jeca Tatu tinha entre seus quitutes prediletos melado com farinha de mandioca, café com farinha de milho, rapadura e iça torrado - isto é, bunda de tanajura torrada! Nascido às vésperas da Abolição e da República, Lobato emergiria no "mundo das letras" no mesmo ano da deflagração da Grande Guerra. Com sua bengala, porque até então, embora possuísse quantidade razoável de escritos, quase tudo quanto tinha produzido fora divulgado com pseudônimos. Fato que fizera com que seu amigo e correspondente de toda a vida, Godofredo Rangel, insinuasse ter ele "fracassado para as letras", o que motivou a resposta até certo ponto desaforada de Lobato: "julgas-me então um raté pelo simples fato de não haver nas livrarias uma brochura amaarela com meu nome na capa? Um rebelde nunca é raté" (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: vida e obra, vol. I, p. 158) Começaria a "preencher o vazio" que caracterizava a atividade literária e editorial no período entre o desaparecimento da geração de 1870, por volta de 1908/1910 aproximadamente, anos da morte de Machado de Assis e Joaquim Nabuco, e a eclosão do movimento modernista em 1922, no entender de tradicionais historiadores e críticos literários e dos principais biógrafos de Monteiro Lobato. Conforme recorda E. Cavalheiro, "até então não tínhamos tido verdadeiramente um editor nacional. Garnier, Briguiet e outros imprimiam na França. Uma que outra casa arriscava-se a imprimir vagos volumes, em geral mal impressos e pessimamente distribuídos. Éramos, também, um país sem leitores, e sem oficinas tipográficas. O resultado era um retraimento quase total dos que escreviam. Coelho Neto, o mais fecundo de todos, mandava seus originais para Portugal. Assim procedia João do Rio e tantos mais. O primeiro livro de Lima Barreto foi levado para a Europa por Antônio Noronha Santos e entregue ao editor A M. Teixeira em Lisboa. O Garnier, que até fins do século imperava sem concorrentes, começa a decair, os originais ainda eram enviados para a França, e com isso a revisão sempre constituía autêntico desastre. Francisco Alves especializara-se em livros didáticos, lançando, esporadicamente, um ou outro medalhão, em geral acadêmico. Aliás, a pobreza da nossa literatura no período que vai da morte de Machado de Assis (1909) até o aparecimento de "Urupês" (1918) é muito grande. Pelo menos quanto aos prosadores. Pouco se escrevia; não se publicava quase nada. O jeito era reler o velho e grande Machado, ou Aluísio, Coelho, João do Rio, Júlia Lopes... Depois desse grupo, que imperou até o começo do século, surgira Afrânio Peixoto, com os seus hoje medíocres romances. Mas na época era o que de melhor se podia apresentar. No conto, então, a pobreza passava de franciscana. Uns casos esporádicos (Xavier Marques, Veiga Miranda e poucos outros, e assim mesmo regionalismos, mal divulgados como o grande Simão Lopes Neto ou o péssimo Alcides Maya), sem profundas repercussões. É verdade que havia aqui em São Paulo um certo Canto e Melo, que desovava anualmente um romance. E no Rio existia o "caso" de Lima Barreto". (A correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1955, pp. 9-10) A este intermezzo seria reservada a designação pré-modernismo, e - como é possível constatar da leitura do trecho acima transcrito - aos autores que a ele pertencem não eram reservados maiores elogios. Sob a hegemonia dos modernistas, cujo legado subsistiria por muito tempo ainda como a fonte máxima de autoridade estética, seriam atribuídos sinais distintivos pouco louváveis aos detentores da autoridade intelectual daquele período. "Seriam - no dizer de Sergio Miceli - os epígonos das escolas dominantes no final do século XIX, os deserdados das grandes causas políticas - como, por exemplo, a Independência para os românticos, o Abolicionismo e o movimento republicano para a geração naturalista -, os importadores otimistas das escolas européias periféricas ao Simbolismo, os descristianizados". Todavia, conforme põe em relevo o mesmo autor, ao invés de ser uma fase de estagnação da atividade literária, [...] nela se desenvolveram as condições favoráveis à profissionalização do trabalho intelectual, especialmente em sua forma literária, e à constituição de um campo intelectual relativamente autônomo, em conseqüência das exigências postas pela diferenciação e sofisticação do trabalho de dominação". Poder, sexo e letras na República Velha. São Paulo: Perspectiva, 1977, p. 13). No então ainda acanhado mundo em que Lobato se formava - o mundo da República que logo adiante seria apodada de "Velha" - praticamente inexistiam posições intelectuais relativamente autonomizadas em relação ao poder político. Como ainda ensina Miceli, recrutamento, trajetórias possíveis, mecanismos de consagração e demais condições necessárias à produção intelectual sob suas diferentes modalidades dependiam quase que inteiramente das instituições e dos grupos que exerciam o trabalho de dominação. A vida intelectual era dominada pela grande imprensa; era ela não só a principal instância de produção cultural à época, como também quem fornecia a maioria das gratificações e posições intelectuais. E daí decorria que os escritores profissionais viam-se forçados a ajustar-se aos gêneros importados da imprensa francesa: a reportagem, a entrevista, o inquérito literário e, acima de tudo, a crônica. (cf. op. cit., p15) Não poderia diferir a trajetória de Lobato. Desde fins de 1908, traduzia para o Estado de São Paulo matéria que julgara interessante no Weekly Times, do qual era assinante, recebendo 10 mil-réis por colaboração; em 1913 publicava no Correio Paulistano o primeiro artigo assinado com o seu próprio nome, intitulado "Uma visita a Guiomar Novais"; e, no ano seguinte, remete para a seção "Queixas e Reclamações" do jornal O Estado de São Paulo o artigo Velha Praga, incomodado com o fato de que os caboclos, no mês de agosto, "tocavam fogo no mato", estragavam belas florestas. De acordo com o seu mais importante biógrafo, a direção do jornal achou tão bem feito o artigo ou a reclamação que, na edição de 12 de novembro, "deu-lhe inesperado destaque no corpo da folha, então a mais importante do Estado". (E. Cavalheiro. Monteiro Lobato: vida e obra, cit., p. 161) Em 23 de dezembro, um novo artigo, intitulado Urupês, ampliaria o prestígio de Lobato. "O caboclo é o urupê de pau podre que vegeta no sombrio da mata". Nascia o Jeca Tatu. Quando, em 1915, passa uma temporada na capital do estado, não se cansa de ouvir comentários elogiosos a seus trabalhos literários, culminando com a proposta do jornal que publicara Velha Praga de pagar-lhe os artigos a vinte e cinco mil-réis. E ainda surgira alguém, Plínio Barreto, propondo-lhe que reunisse em livro as coisas que vinha publicando. O surgimento da Revista do Brasil - "Mensário de ciências, letras, artes, história e atualidades" -, em janeiro de 1916, tendo à frente os paulistas Júlio de Mesquita Filho, Luís Pereira Barreto e Alfredo Pujol, abriria mais um campo para a atividade literária de Lobato, que não deixava de se identificar plenamente com o programa de seus editores: formar uma consciência nacionalista. E isto em um mundo já conflagrado por nacionalismos extremados. A colaboração na Revista do Brasil, que muito rapidamente alcançara intensa penetração nos meios intelectuais, passando a alimentar o sonho de todo o estreante e candidato ao reconhecimento e à glória no "mundo das letras", reforçaria em José Bento seus planos de vender a fazenda - ah, sim, é verdade: em meio ao cipoal de informações, esqueci-me de mencionar que, desde a morte de seu avô em 1911, José Bento se tornara proprietário da Fazenda Buquira, uma enorme propriedade, abrangendo 1515 alqueires, que acrescidos de outros do espólio paterno, perfaziam cerca de dois mil alqueires - e publicar um livro. Conseguiria vender a fazenda, em 1917, indo residir com a mulher e os três filhos na capital do estado, após breve permanência em Caçapava, onde fundara a revista Paraíba; nesse mesmo ano, colaboraria em diferentes publicações, mas alcançaria repercussão, para o bem e para o mal, com um artigo profundamente crítico a respeito de uma exposição de Anita Malfatti, do qual resultaria um profundo desentendimento, jamais superado, com os futuros líderes do movimento modernista. Ainda no ano da Revolução Russa, dava início no "Estadinho", como era conhecida a edição vespertina d’ O Estado de São Paulo, a um inquérito sobre o Saci Pererê, como modo de sermos "nós mesmos" - "nós nunca nos vemos a nós, e todos os nossos males embicam nesse erro". Empolgado com os resultados alcançados, apresenta-os sob a forma de livro de trezentas páginas, impresso às suas custas, com capa vermelha, e assinado por ... "Demonólogo Amador". O enorme sucesso do livro não era o sucesso do escritor Monteiro Lobato - ainda. 1918 foi um ano vertiginoso para Lobato. Parecia ser regido por uma bengala! Com o dinheiro obtido com a venda de Buquira, compraria a Revista do Brasil. E resolvera editar em livro, por conta própria, após saber por quanto as oficinas do "Estado" imprimiriam mil exemplares de cerca de 200 páginas, os contos há muito publicados: "Os faroleiros", "Chóóó-Pan", "Boca-torta", "A colcha de retalhos", "Mata-Pau" e outros. Pensou em dar o título de "Doze histórias trágicas" àquele que seria o primeiro livro assinado com o seu verdadeiro nome, uma vez que a maioria dos contos terminava em morte... Por sugestão do velho amigo Artur Neiva, então chefe do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, chamou-o Urupês, título do artigo que fechava o volume e no qual fazia sua profissão de fé. Posto à venda nas poucas, acanhadas, feias e desertas livrarias da capital paulista, o livro foi vendido com espantosa rapidez: "Os "Urupês vão se vendendo melhor do que esperei; nesse andar tenho de ir com a segunda edição dentro de três ou quatro semanas. Há livrarias que no espaço de uma semana repetiram o pedido três vezes, e como os jornais ainda nada disseram, julgo muito promissora essa circunstância", comentava em carta a Godofredo Rangel, em 18 de julho. Dias depois voltava a escrever ao amigo: "Meu livro esgotou-se no dia 26, exatamente um mês após a saída. Estou a rever as provas da 2a. edição". E logo acontecera a terceira edição, conforme lembrava a alguém que ainda não conhecia pessoalmente, mas a quem já dedicava profunda amizade - o também escritor Lima Barreto, em carta datada de 28 de dezembro do próprio ano do lançamento. O trecho é longo, mas certamente elucidativo: "O meu livro de contos... Cá entre nós: não sou literato, nem quero ser, porque João do Rio o é. Mas, morando na roça, e, "curioso", muito amigo de carpintejar, experimentei um dia aplicar às letras a arte do carapina. E mede, serra, aplaina, encaixa, embute, entrosa, lixa, enverniza, fiz uns contos para a "Revista do Brasil" como faria móveis se o material fosse madeira. Mudando-me para São Paulo por estimulação ao Plínio Barreto publiquei-os em volume. E com grande espanto, vi-me transfeito da desadorada espécie-homem de letras, com o livro a fazer carreira - positivamente... Basta dizer que já tirei em cinco meses, três edições num total de 7000 exemplares. E pelos modos por que sai a terceira (600 vendidos na primeira semana) para o ano farei a quarta... Isto quer dizer que o Brasil está errado. A Academia de Letras deve despir-se da imortalidade que se outorga para vir pegar da enxó, e os carapinhas do Norte a Sul que apanhem a pena. Donde concluo uma definição boa para o país: o Brasil é a terra onde o certo dá errado e o errado dá certo. Quando ouço te criticarem a vida desordenada - leio por outro lado os teus livros, firma-me a idéia supra. E cá comigo: se o "ordenam", em vez de "Policarpos", o Lima engorda e emudece, etc. etc.". Se, como pretende Samuel Johnson, nas cartas de um homem sua alma aparece nua, a alma de Lobato estava quase toda ali. Todavia, como põe em relevo E. M. Cioran em Manie épistolaire, a carta, conversação com um ausente, representa um acontecimento maior de solidão. E, naquele fim de um ano vertiginoso, a bengala de José Bento não deixava de ter um certo aspecto de espadim. Mas 1918 ainda não terminara. Ao mesmo tempo que preparava as sucessivas edições de Urupês, Lobato ia se lançando de corpo e alma na atividade editorial. Havia já algum tempo - conforme é possível resgatar de sua correspondência com Rangel, a qual parece a cada carta reafirmar que, no fundo, os livros são acidentes e as cartas, acontecimentos - ele vinha "estudando o negócio editorial" e conversando sobre direitos autorais com "o Jacinto" (provavelmente Jacinto Silva, o encarregado do departamento de livros da Casa Garraux, que se tornaria editor, mais adiante). Servindo-se do sinete editorial Edições da "Revista do Brasil", ele publicaria obras de "gente nova", como Léo Vaz, Ribeiro Couto, Paulo Setúbal, Oliveira Viana, embora muito poucos modernistas. "Nada de velharias, medalhões, nada de acadêmicos com farda de general de opereta do tempo de Luís XIV, armado daquela espadinha de cortar-papel. Gente nova, de paletó saco, humilde nas suas pretensões, mas gente nova", diria, como se firmasse um Manifesto. Conforme recorda Laurence Hallewell, em O livro no Brasil (São Paulo: T. A Queiroz/EDUSP, 1985), que fornece os dados e principais informações referentes a esta última parte, em março de 1919 constituía-se a Monteiro Lobato & Cia, sendo que a "Cia" era "um brilhante jovem de dezoito anos, vindo de Belo Horizonte: Octales Marcondes Ferreira. Este rapaz impressionara tão fortemente Lobato que este atendera à sua reivindicação de participação na sociedade apenas alguns meses após tê-lo contratado como guarda-livros, e apesar dele não dispor de capital algum" (p.253) No decorrer do ano de sua constituição, foi significativo o crescimento da nova empresa. Quinze títulos editados, cerca de 60.000 exemplares. Dentre os títulos, Cidades mortas e Idéias de Jeca Tatu, de autoria de Monteiro Lobato, cujas tiragens de 4000 exemplares de cada obra rapidamente se esgotaram. No ano seguinte, Lobato publicaria Negrinha, um novo livro de contos, que venderia 15 mil exemplares em apenas três anos. De acordo com o mesmo Hallewell, em princípios de 1920 a nova editora vendia em média quatro mil livros por mês. "A marca Monteiro Lobato tornou-se recomendação bastante conhecida para vender livros por si só". Acredito que são suficientes as informações até aqui reunidas, a respeito do ingresso de Lobato no "mundo das letras" - como autor e como editor. Monteiro Lobato sucumbira às regras do mundo rural, ou não se interessara por jogar com elas. Mas aprendera e já lidava com segurança com aquelas que regiam a produção intelectual. Todavia, não desejava apenas jogar com as mesmas. Queria dominá-las, para melhor conhecer e compreender as instituições e grupos que exerciam o trabalho de dominação. As regras queria transformar. Ousava querer substituir as formas de ingresso e participação no "mundo das letras" baseadas sobretudo nas relações pessoais e no jogo de favores por regras que privilegiariam o talento e o mérito literário, ao que se acrescentaria a qualidade editorial. Sentado à sua escrivaninha, no escritório da "Monteiro Lobato & Cia.", ele sabia, antes de tudo e mais do que nunca, que não deveria deixar que o engordassem e o emudecessem. Lobato escrevia porque lia. Desde cedo, lia e relia, revelando a falta de outros livros infantis, os álbuns de cenas coloridas O menino verde e João felpudo; aos doze anos descobrira Júlio Verne; com os colegas e amigos do "Minarete", lia e discutia muito; nas férias acadêmicas, em Taubaté, "leio tanto que quando vou para a cama meu cérebro continua a ler maquinalmente": Lamartine, Zola, Renan, Balzac, Michelet, Shakespeare, Tolstoi, Maquiavel, Oliveira Lima, Eça de Queiroz...; no ano de sua formatura chegara a Nietzche, "o maior gênio da filosofia moderna [...] dum banho de Nietzche saímos lavados de todas as cracas vindas do mundo exterior e que nos desnaturam a individualidade. Da obra de Spencer saímos spencerianos; da de Kant saímos kantistas; da de Comte saímos comtistas; da de Nietzche saímos tremendamente nós mesmos", diria ao interlocutor de sempre; em quase disponibilidade já como Promotor Público em Areias, preenche as longas horas do dia e da noite lendo: "leio para me embriagar, como o bêbado bebe para esquecer. Desde que cheguei já devorei perto de 1500 páginas in 8o", encontrando-se dentre elas, certamente, páginas de Camilo Castelo Branco, de Machado de Assis e do dicionário de Caldas Aulete, estas lidas pacientemente. E seria sempre assim... E porque lia, escrevia: por onde passasse, onde estivesse, artigos para o "Onze de Agosto", jornal do grêmio acadêmico, ou para o "Minarete", do grupo do "Cenáculo"; imaginara traduzir O Príncipe, de Maquiavel, mas acabaria realizando - "só para o meu prazer" - as traduções de O Anti-Cristo e O Crepúsculo dos Ídolos, de Nietzche, que nunca foram publicadas; escrevia artigos, quase sempre servindo-se de pseudônimos os mais variados, para diferentes jornais, como a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Escrevia cartas, muitas cartas, sobretudo para Godofredo Rangel. Mas escrevia também porque via. "Areias, Rangel! Isto dá um livro à Euclides. Areias tipo de ex-cidade, de majestade decaída. A população de Areias de hoje, vive do que Areias foi. Fogem das anemia do presente por meio duma eterna imersão no passado". Tornado fazendeiro, vê as pessoas ao redor, o caboclo e sua vida apagada e modorrenta. Via porque tinha lido, a leitura educando o olhar, a observação feita por meio das lentes da ciência de seu tempo. E porque via, escrevia. "Já te expus, Rangel, a minha teoria do caboclo como piolho da terra, ‘porrigo decalvans’ das terras virgens?" Velha Praga ganhava contornos; e, logo em seguida, Urupês. Porque lera e observara, agora conseguia enxergar o Jeca Tatu - ali, de cócoras, à porta de sua casa de sapé e lama, picando fumo. Não o tecera, mas servia-se de seu texto para apanhá-lo e aprisioná-lo, sem as idealizações nacionalistas feitas pela literatura romântica - como os gordos e emudecidos representantes da Academia de Letras não conseguiam fazer. E, no mesmo movimento, apanhava e aprisionava um outro elemento: o leitor. Não cuidarei da saga do Jeca Tatu, de condenado, por ser ignorante, imune ao progresso e supersticioso, a redimido, no prefácio de uma 4a. edição, quando é apresentado como vítima da anquilostomíase, segundo o diagnóstico de Álvaro Osório de Almeida, em reunião da Sociedade de Medicina. "Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não. Assim, é com piedade infinita que te encara hoje o ignorantão que outrora só via em ti manparra e ruindade...". Antigo modo de proceder: ou isto ou aquilo! Não cuidarei também das polêmicas que suscitou, ao sair dos domínios literários para a arena política, ao Jeca Tatu sendo contraposto um Mané Xique-Xique, "rocha viva da nacionalidade", no mesmo momento em que Rui Barbosa afirmava, em discurso que marcaria época no Teatro Lírico da Capital Federal, que "o gênio do artista, refletindo alguma coisa do seu meio, nos pincelou, consciente ou inconscientemente, a síntese da concepção que tem da nossa nacionalidade, pelos homens que a exploram"; polêmicas que ajudam a caracterizar um tempo no qual se vivia - como já assinalou com justeza Nicolau Sevcenko (Literatura como missão. São Paulo: Brasiliense, 1983) - em busca "de um tipo social, ou melhor, extra-social, que pudesse dar o tom geral à nacionalidade, permeando-a de uma homogeneidade integradora, quando não por outra razão, pelo menos pelo fato de representar um tipo específico, étnicamente definido e característicamente nacional": o "caipira" de Lobato, o "sertanejo" de Euclides da Cunha, o "bandeirante" de Rocha Pombo, o "sertanejo", o "gaúcho" e o "matuto" de Oliveira Viana, os dois primeiros sendo submetidos, e não poderia ser de outro modo, pelo último. Porém, talvez interesse recordar, nesta oportunidade, que caipira - além de ser denominação que parece derivar da corruptela de caipora, "habitante do mato" - é termo que também serve para designar uma cultura rústica que, do interior de São Paulo, se espalha por partes dos estados de Minas Gerais e Goiás. Resultado da miscigenação do branco com o índio, a cultura caipira é uma "cultura integral", ou seja, ela abarca desde hábitos alimentares até costumes religiosos, conservando um vocabulário riquíssimo. Na década de vinte, autores como Cornélio Pires e Amadeu Amaral debruçaram-se sobre a maneira de falar dos caipiras e descobriram que vários de seus erros de português são, na verdade, preciosidades lingüísticas, como a expressão estâmago (estômago), que remonta ao português do século XVI, e concordâncias exóticas como "a multidão falaram" são encontradas em versos de Camões. E isto porque assim fica melhor evidenciado o modo como Lobato olhara o caipira, aprisionando-o em seu texto para melhor colocar em evidência faltas, ausências e falhas que, ao menos, serviam para estabelecer um diálogo com o seu leitor. Um diálogo fundado não tanto no valor literário do próprio conto, mas numa circunstância exterior e imprevisível, que encontra sua referência no traço de denúncia que encerra. A Silviano Santiago intriga, ao menos como recurso de exposição, como alguém, dono de uma linguagem elaborada e senhor de grande erudição, pôde ter chegado a diagnósticos tão simplistas e tão abrangentes sobre a realidade cultural, social e econômica brasileira. E encontra a explicação "no pessimismo araistocrático, cheio de boas intenções, que Monteiro Lobato, à semelhança do Paulo Prado, autor do "Retrato do Brasil", cultivava diante da nossa trôpega formação étnica. O colorida definitivo desse cenário aristocrático está no dito, quase provérbio, que se encontra em "Mr. Slang eo Brasil": "Grão de bico, pacova e quimbombó só podem pensar os frutos que pensam..." O português com o grão-de-bico, o índio com a banana e o negro com o quiabo deram na nossa terra os frutos que podiam ter dado. Nesse cenário tropicalista avant la lettre, Monteiro Lobato se instala como um escritor, dublê de médico, de sanitarista, de biólogo, de pregador bíblico e de economista". ("Um dínamo em movimento", Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28 de junho de 1998) O que é certo é que a um cientista por formação, sanitarista, devia Lobato a decisão de mudar o título de seu primeiro livro, a partir do qual estabeleceria um diálogo permanentemente renovado com seus leitores adultos. E a um médico devia Lobato a inversão do sinal com que marcara o Jeca Tatu. A quem deveria, se é que deveria, a decisão de editar Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana, obra na qual o matuto, valorado positivamente, aparece como o tipo social fundamental na formação histórica do Brasil? O que parece certo também é que a decisão de substituir o título de seu primeiro livro revelava que a idéia que obcecava Lobato era menos a de morte, e mais a de degradação; o que lhe perseguia não era tanto a idéia de decadência, e sim a de dilapidação. A Mantiqueira "tornara-se "hoje um cinzeiro imenso". E denuncia, com veemência, "as velhas camadas de húmus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo paralisado e retrógrado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes". E havia ainda as "cidades mortas", que revelavam ser o nosso progresso "nômade e sujeito a paralisias súbitas". "Progresso de cigano, vive acampado. Emigra, deixando atrás de si um rastilho de taperas". Degradação e dilapidação não deixavam de remeter a uma noção que cada vez mais ganharia destaque: patrimônio. E isto em um momento em que, sob o aguilhão da modernização compulsória e da modernidade tardia, tradição e inovação buscavam se complementar. Se os postulados do cientificismo haviam permitido a descoberta do Jeca Tatu, em qualquer de suas avaliações, a noção de patrimônio cumpriria o papel de aproximar Lobato da geração modernista, forjando uma relação que, pelos tempos afora, seria caracterizada pela ambigüidade, e em certos momentos pela incompreensão recíproca. Afinal, Lobato parecia antecipar Sergio Buarque de Holanda, que em sua busca das raízes do Brasil, alertava para o fato - se é que não denunciava - de sermos "desterrados em nossa própria terra". Lobato também parecia sentir-se assim; e, como sempre extremado, não deixaria de, em diferentes oportunidades, apresentar-se como uma espécie de "estrangeiro", o que levaria mesmo a reclamar uma nova filiação, enquanto Sergio resgataria a herança ibérica. Lobato aproximava-se de Mário de Andrade, mas enquanto este ao se deparar com o caboclo "do Norte" não hesita em afirmar que "este homem é brasileiro como eu", e assim reafirmava os postulados universalistas que norteavam sua concepção de civilização ao mesmo tempo que permitiam determinar a singularidade da "cultura brasileira" em sua homogeneidade, não obstante as diferenças regionais, Lobato não quer ser como aquele homem, recusando-se a habitar um país de "papudos". Assim, se para os modernistas o Brasil contrasta com nações "mais civilizadas", tal fato não deve trazer como conseqüência uma visão negativa ou pessimista da cultura brasileira, e sim o de que se tornará uma nação plenamente moderna e civilizada, na medida em que, por um lado, os brasileiros venham a reconhecer, assumir e defender sua cultura ou "tradição", parte da civilização universal, e, por outro, as "nações civilizadas" reconhecerão os valores genuínos da cultura brasileira. (cf. José Reginaldo Santos Gonçalves. A retórica da perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/IPHAN, 1996) Lobato, por sua vez, investirá na modernização e, em uma espécie de decorrência inevitável, na própria modernidade, hesitando a respeito de qual "tradição preservar. Sempre apontado como - e, em algumas circunstâncias, punido por ser - um nacionalista, Lobato não legou qualquer texto significativo que possa ser identificado como uma "narrativa nacional", ou seja, cujo propósito fundamental seja a construção de uma "memória" e uma "identidade nacional" brasileira. Se a partir de certo momento de sua trajetória de escritor as crianças se tornam a razão para continuar escrevendo, para elas escreverá uma História do mundo para as crianças e cogitou até de escrever uma história da América em atenção às solicitações de crianças argentinas, que lhe endereçavam cartas; ao que parece, porém, jamais teria cogitado em escrever uma História do Brasil. Ou isto ou aquilo, ainda desta vez. Porque este "estrangeiro" não deixava de manter relações ambíguas e contraditórias com a terra e o mundo em que nascera e ao qual pertencia. De Nova York, em 1928, escrevia: "Inverno, sabe o que é? Morte da cor.[...] Começo a ter saudades do Brasil, não do Rio, mas de São Paulo, e sobretudo do interior". E, dois anos depois, do mesmo lugar revelaria a outro correspondente toda uma nostalgia do "sertão": "Que coisas gostosas, esse sertão fora do mundo e dos tempos e esse largo, que me represento o contrário da minha Broadway - sem tráfico, sem carvão de pedra esvoaçante, com um cachorro lá longe, dormindo sob a palma que dá nome ao lugar, e tua casa à esquerda de quem vem da cidade, de downtown - senhorial, janelas de arco, espaçosa, construída por um antigo capitão-mor, acolhedora e fresca". O desânimo se manifestando, ainda que de modo intermitente: "Ser brasileiro, ter eternamente diante dos olhos o espetáculo das nossas coisas, das nossas idéias, da tapeação perpétua que é a vida nacional, como isto cansa...". Despreza o Rio de Janeiro, após um primeiro encantamento, agradando-lhe apenas certas "coisas velhas", como o Cosme de Machado de Assis , a ladeira do Ascurra... O diagnóstico é amargo: a Capital Federal não passa de um tremendo cancro que parasita e suga toda a seiva do Brasil - "ou o Brasil dá cabo deste Rio de Janeiro, ou o Rio de Janeiro dá cabo deste Brasil". Despreza também a Europa, em particular Paris, que nada tem a nos oferecer. Deslumbra-se com os EUA: "Sinto-me encantado com a América! O país com que sonhara. Eficiência! Galope! Futuro! Ninguém andando de costas!" Sentimentos contraditórios e complementares os que forjam um "estrangeiro e avalizam um diagnóstico. Triste presente, pior herança. "Porque a herança que a atual geração vai deixar à futura é das mais pesadas. Tudo por fazer e o que está feito a refazer, por que está malfeito", lamentava em carta a alguém que muito admirava, Eoys Black Vieira Alves, moradora em Campinas, em 1942. Em certa ocasião, numa tapera, descobrira o Jeca Tatu. Ensinaram-lhe depois as razões de tantos males, e ele próprio conhecia muitos dos meios para enfrentá-los. Se Henry Ford conseguira aproveitar cegos e aleijados em suas fábricas, por que não era possível recuperar o Jeca. Mas seria esse o caminho? Agora, por ter em consideração uma herança onerosa, chegara às crianças. Elas estavam ali, ao lado das terras empobrecidas, das cidades em ruínas e abandonadas, da Mantiqueira em chamas... "Uma coisa que sempre me horrorizou foi ver o descaso do brasileiro pela criança, isto é, por si mesmo, visto como a criança não passa da nossa projeção para o futuro", diria em carta a Vicente Guimarães - o "Vovô Felício", alguém que também estava se dedicando a escrever para crianças, mais de cinco lustros depois desta nova e mais sensacional descoberta. E desta valia a pena cuidar. Como se deve cuidar de um patrimônio ameaçado. "Escrever para crianças é semear em terra roxa virgem - e não praguejada. Cérebro de adulto é solo já praguejado", dizia a Otaviano Alves de Lima, aquele que lhe apresentara aos princípios do georgismo, em carta escrita em Buenos Aires, a 13 de agosto de 1946. INFÂNCIA Desta vez não poderia ser diferente. Sentado no seu escritório, o novo editor percebeu que pendurara-se-lhe uma idéia no trapézio que tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a fazer as mais diferentes piruetas e volteios, assumindo ora a forma de um cifrão, ora o perfil de uma coruja, ora a imagem de uma caravela que partia em busca de novos continentes. E muito rapidamente ela se transformara em uma idéia fixa. Mas dela não quis se libertar, embora soubesse que uma outra idéia fixa tornara Brás Cubas um defunto autor. Ali estava a razão de sua vida, naquele momento. Não poderia ser diferente também desta vez. Determinado e apaixonado colocou o papel na máquina de escrever. Como sempre, não recusava servir-se dos avanços da técnica para levar adiante um novo projeto. Por que permanecer escrevendo a mão, produzindo originais ilegíveis e incompreensíveis, como os de um Lima Barreto? E pelas inovações propiciadas pela técnica seria sempre um cruzado: "Ora graças que se civilizou - deixou a pileca antediluviana do escrever com as unhas e passou ao teclado. Quantas vezes não insisti com você para que mudasses? Dedo humano não foi feito para escrever, e sim para meter no nariz, para fazer cócegas nas mulheres, para coçar, etc. Finalmente a gente pode agora receber uma carta do Sr. Oliveira Viana sem um suspiro. Tua letra faz muita gente suspirar! Estou agora catequizando o Godofredo Rangel, que gatafunha tão ininteligivelmente como aquele O V. que felizmente já passou. Viva a máquina! Vais ver como a máquina te alerta o pensamento. Cada pancadinha é uma chicotada que repercute nas células cerebrais e fá-las pular. Este ano meti-me numa noiseless. Ah, não agüentei! Dava-me sono. Passei ou voltei às barulhentas", escrevia a Oliveira Viana, em 1934 - ou seja, dezesseis anos após aquela idéia ter-se lhe pendurado no trapézio de seu cérebro. E, tangido por ela, datilografou: "[...]Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada "livros"? Vossa Senhoria não precisa inteirar-se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro; batata, querosene ou bacalhau. É uma mercadoria que não precisa examinar nem saber se é boa nem vir a esta escolher. O conteúdo não interessa a V.S., e sim ao seu cliente, o qual dele tomará conhecimento através das nossas explicações nos catálogos, prefácios etc. E como V. S. receberá esse artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais "livros", terá uma comissão de 30 p. c.; se não vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com o porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa". No momento em que o mundo assistia ao término da primeira grande guerra, uma revolução parecia estar prestes a se completar entre nós. De farmácia a padarias - "os únicos lugares em que não vendi foi nos açougues, por temor de que os livros ficassem sujos de sangue", recordaria muitos anos depois - inúmeros pontos de venda de livros estavam brotando, quase dois mil. "Dizem que o Brasil não lê! Uma ova! A questão é saber levar a edição até o nariz do leitor, aqui ou em Mato Grosso, no Rio Grande do Sul, no Acre, na Paraíba, onde quer que ele esteja, sequioso por leituras... Livro cheirado é livro comprado, e quem compra, lê. Se o Brasil não lia é porque os velhos editores, na maior parte da santa terrinha, limitavam-se a inumar os volumes nas poeirentas prateleiras das suas próprias livrarias, e quem quiser que tome o trem, ou o navio, e vá ao Rio comprá-los. Umas bestas! O Brasil está é louco por leituras. Só os editores é que não sabiam disso!". Uma revolução que dessacralizava o livro, tornando-o uma mercadoria - expressão ela também de movimentos mais amplos e profundos relacionados à urbanização, à industrialização, à burocratização e à secularização da sociedade. Uma mercadoria diferente, por certo, e que aquele que fora sempre um leitor compulsivo, tornara-se autor e transformara-se em editor procurava conhecê-la no seu necessário e inevitável processo de circulação. Lobato sabia que não bastava evitar que os livros ficassem sujos de sangue; ao leitor que teria livros sob o seu nariz, para cheirá-los, importava oferecer livros com qualidade gráfica - capas modernas, desenhos especiais para ilustração, títulos atraentes - e sustentados por comentários, resenhas, críticas e prefácios por ocasião de seus lançamentos. Mas aquela idéia não cessaria de balançar no trapézio do cérebro de Lobato. E ele a embalava, imprimindo-lhe por vezes uma velocidade vertiginosa. Em certo momento, ganhou a forma de um cavalo, saltando para um tabuleiro de xadrez. Naquela tarde de 1921 estava Lobato jogando xadrez com Toledo Malta na editora quando - de acordo com Edgard Cavalheiro - este lhe contou uma história de um peixinho que, por haver, passado algum tempo fora d’água, desaprendera de nadar, e que ao voltar ao rio afogara-se. Esse peixinho mexeu com a imaginação de Lobato que, logo após o jogo, deu início à redação da História do peixinho que morreu afogado. Inquieto, insatisfeito e sonhador, resolveu ampliar a história, desenvolvê-la com cenas da roça, onde passara a infância: as pescarias no ribeirão, as entradas na floresta com o pai, as brincadeiras com as irmãs. E começa a história com Dona Benta, uma velha "porque se iam entrar em cena crianças, era preciso botar uma velha, uma vovó, pois só as vovós aturam as crianças e deixam-nas fazer o que querem. E um rapaz com quem estudara, Pedro de Castro, contava histórias de sua avó Benta", recordaria anos depois. Surgia Lúcia, ou a Menina do Narizinho Arrebitado. À publicação, fez Lobato preceder uma nota na qual destacava que "a literatura infantil tem sido, com poucas exceções, pobríssima de arte e cheia de artifício - fria, desengraçada, pretensiosa. Ler algumas páginas de certos "livros de leitura", equivale, para rapazinhos espertos a uma vacina preventiva contra os livros futuros. Esvai-se o desejo de procurar emoções em letra de forma; contrai-se o horror do impresso... Felizmente, esboça-se uma reação salutar. Puros homens de letras voltam-se para o gênero, tão nobre como qualquer outro". Lobato encontrava-se com um novo público leitor - os escolares. Lúcia, ou a Menina do Narizinho Arrebitado trazia o subtítulo "segundo livro de leitura para uso das escolas primárias". Um encontro que reafirmava uma filiação e revelava uma inflexão. Um encontro que ocorria na ocasião em que, em locais distantes geograficamente daqui, mas aos quais não se cessava de buscar uma aproximação de caráter civilizacional, onde o analfabetismo ainda não estava vencido nem nos campos nem nos subúrbios, mas em que os novos leitores descobriam com esforço ou com grande prazer os usos do texto impresso, a muitos não deixava de preocupar que "eles lêem demais", "eles lêem qualquer coisa", revelando as inquietações causadas por um acontecimento sem igual: o irresistível ingresso de uma sociedade inteira no mundo da leitura. E também da escrita, embora não como decorrência obrigatória. Não por outras razões, as reformas de Jules Ferry, tornavam obrigatória, por ocasião da conclusão de uma primeira fase de estudos, a realização de redação sobre um tema referente à história da França, em língua francesa, pondo em evidência os modos como ia se forjando uma hegemonia, no campo sempre complexo da educação e da cultura. Modos que se desdobravam na instituição dos manuais de leitura primária, desde Jules Ferry até Paul Lapie, em seus três modelos: o enciclopédico das leituras instrutivas, o educativo da narrativa moralizante e o cultural das leituras literárias. ( cf. Anne-Marie Chartier e Jean Hébrard. Discursos sobre a leitura - 1880-1980. São Paulo: Ática, 1995) Um encontro com escolares, numa sociedade onde ainda "poucos lêem", lendo "qualquer coisa", mas que poderão ser muitos, lendo coisas definidas, porque começava a redefinir o lugar da educação primária, em especial no que se refere ao público ao qual se destina. Um encontro que, por isso mesmo, devia se dar sob a forma de um "segundo livro de leitura para uso das escolas primárias". Um encontro que ao reafirmar uma filiação poderia vir a se constituir, ao menos sob o ponto de vista de Lobato, em uma limitação. Mas um encontro que, por ocorrer no momento de uma inflexão no que se referia à política educacional, apresentava-se como a possibilidade de uma expansão, da qual falava, de imediato, a verdadeira imprudência editorial da primeira edição de A menina do Narizinho Arrebitado: 50 mil exemplares! Uma imprudência que se transformaria em ousadia, uma vez que a edição esgotar-se-ia em cerca de nove meses, em decorrência de um quase acaso. É ainda E. Cavalheiro quem nos recorda ser a presidência de São Paulo ocupada por Washington Luís, que ao visitar os grupos escolares percebeu a existência de um livro de leitura extra-programa muito requisitado pelos alunos, mas "sujinho e surrado". O fato é que Lobato havia mandado como propaganda a todos os grupos e escolas do Estado um exemplar daquele "segundo livro de leitura", que era disputado avidamente pelos alunos. Washington Luís teria comentado que "se este livro anda assim tão escangalhado pelas crianças em tantos Grupos, é sinal de que as crianças gostam dele"; e, em seguida, ordenado: "indague de quem é e faça uma compra, para uso em todas as Escolas". E assim foi feito. Lobato descobria um vasto continente a ser explorado, no momento mesmo em que este continente constituía-se em matéria de reflexão, redefinindo o conteúdo que lhe dera existência, até então - o continente da educação. Conforme destaca de modo arguto Simon Schwartzman e outros, em Tempos de Capanema, "o que dava à educação naqueles tempos a relevância política que ela já não mantém era a crença, por quase todos compartilhada, em seu poder de moldar a sociedade a partir da formação das mentes e da abertura de novos espaços de mobilidade social e participação. Havia os que preferiam a educação humanística sobre a técnica; os que defendiam o ensino universal contra os que preferiam escolas distintas para cada setor da sociedade; os que se preocupavam com o conteúdo ético e ideológico do ensino contra os que favoreciam o ensino agnóstico e leigo. Havia os defensores da escola pública e os guardiães da iniciativa privada; os que punham toda a ênfase na formação das elites e os que davam prioridade à educação popular. Todos concordavam, contudo, que optar por esta ou aquela forma de organização, controle ou orientação pedagógica significaria levar a sociedade para rumos totalmente distintos, de salvação ou tragédia nacional". (in Tempos de Capanema. Rio de Janeiro: Paz e Terra; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1984, p.51) A descoberta e exploração desse novo continente poria Lobato em contacto com figuras exponenciais, como um Fernando de Azevedo. Todavia, seriam com o baiano Anísio Teixeira os contatos mais freqüentes e - por que não dizer assim? - frutíferos. Recordando, em 1946, a já longa amizade, caracterizada por intensa troca intelectual, no momento em que Anísio era convidado para exercer uma função na UNESCO, Lobato não se contém, e à sua maneira proclama, em carta escrita em Buenos Aires, em agosto de 1946: "Aqui me chegou a notícia da Meridional sobre o convite de Julian Huxley para que vás funcionar como matéria cinzenta num dos lobos cerebrais do mundo - e exultei! Vi confirmada aquela minha dedicatória, que foi suprimida pelo medo do Octales, na qual eu dizia que você não cabia no Brasil. Huxley viu isso e te mudou do país excessivamente pequeno para talvez o único que te contém. Que país poderá convir a você, Anísio, senão esse país ideal da United Nations Educational & Cultural Organization? A grande coisa deste mundo moderno, Anísio, é que há o padre Olímpio e há também Julian Huxley". Muitos anos antes, porém, ele já reservara a Anísio um papel de destaque. Anísio Teixeira projetara-se nacionalmente no bojo do escolanovismo. O movimento da Escola Nova, sem se constituir em um projeto totalmente definido, estruturava-se ao redor de alguns grandes temas e de alguns nomes mais destacados, como o de Anísio Teixeira. A escola pública e universal e gratuita; a educação para todos, sendo que todos deveriam receber o mesmo tipo de educação, como maneira de se criar uma igualdade básica de oportunidades, a partir da qual floresceriam as diferenças baseadas nas qualidades pessoais de cada um; o papel principal reservado ao setor público na consecução desses objetivos, e não a grupos ou setores privados, que se caracterizariam por seu facciosismo; o ensino leigo, com a função de formar o cidadão livre e consciente que pudesse incorporar-se, sem a tutela de corporações de ofícios ou organizações sectárias de qualquer tipo, ao grande Estado nacional em constituição; e o repúdio às formas autoritárias e repetitivas de transmissão de conhecimentos e ensinamentos. Sempre enfático, Lobato punha em destaque o lugar e o papel reservados a Anísio Teixeira. Lugar e papel ímpares. "Comecei a ler o manifesto [dos Pioneiros]. Comecei a não entender, a não ver ali o que desejava ver. Larguei-o a pensar - quem sabe está nalgum livro do Anísio o que não acho aqui - e lembrei-me dum livro sobre a educação progressiva que me mandaste e que se extraviou no caos que é a minha mesa. Pus-me a procurá-lo, achei-o E cá estou, Anísio, depois de lidas algumas páginas apenas, a procurar aos berros de entusiasmo por essas coisas maravilhosas que é a tua inteligência lapidada pelos Deweys e Kilpatricks! Eureca! Eureca! Você é o líder, Anísio! Você é quem há de moldar o plano educacional brasileiro. Só você tem a inteligência bastante clara e aguda para ver dentro do cipoal de coisas engolidas e não digeridas pelos nossos pedagogos reformadores. Acho que antes de reformarem qualquer coisa ou proporem reformas, os mais adiantados e ilustres dos líderes educacionais do momento o que devem fazer é reformarem-se a si próprios, isto é, aposentarem-se e saírem do caminho. Eles não entendem a vida, Anísio. Eles não conhecem, senão de nomes, aqueles píncaros (Dewey & Co.) por cima dos quais você andou e donde pôde descortinar a verdade moderna. Só você que aperfeiçoou a visão e teve o supremo deslumbramento, pode, neste país, falar de educação". E completaria, eufórico e - como sempre - sonhador: "Meu petróleo está uma pura maravilha. A vitória está assegurada e, a não ser que me veja espoliado por leis do Juarez, nacionalizadoras do petróleo e que tais, que venham matar o surto a futura indústria e privar-me do que com ela eu possa vir a ganhar, terei meios de realizar várias grandes coisas que me fervem na cabeça. Uma delas diz com você. É criar luxuosamente um aparelho educativo com você à testa, como nunca existiu no mundo. Um gânglio novo, libérrimo, autonomíssimo, fora de governo, de religião, de tudo quanto restringe e peia. Um gânglio que vá se erradicando até fazer-se um formidável organismo moldador de homens - educador no mais elevado sentido. Com escolas especializadas, com jornais e revistas, com casa editora, com livrarias, com cinema, com estação de rádio própria, com estação teleemissora de imagens... Qualquer coisa como a Radio City, mas educativa. O governo que ensine ao povo o que quiser; a religião, idem. Nós, do alto da nossa Education-City, servida por todas as máquinas existentes e as que hão de vir, pairaremos sobre o país qual uma nuvem de luz. Um corpo de cérebros, dirigidos por você, prepara; a máquina multiplicadora, dissemina. Iremos fazer com um pugilo de auxiliares o que o Estado - essa besta do Apocalipse - não faz com milhares e milhares de infecções chamadas escolas e de cágados chamados professores. A "nossa educação" cairá como uma chuva de neve sobre o país, sem saber e sem querer saber onde os flocos irão pousar. Processo da natureza. Vem a chuva em pingos. Não vem cada pingo endereçado a uma certa coisa - desce ao acaso, e esse acaso permite que essa maravilha que chamamos natureza se desenvolva em todos os rumos, como lhe apraz, etc". O projeto de uma hegemonia cultural é evidente, levado a efeito a partir de uma "Education-City", como condição para uma sociedade de novo tipo, cujo modelo mais próximo parece residir na sociedade norte-americana. Um projeto que, sob a direção de Anísio Teixeira, prescindiria dos projetos e ações do Estado e da própria Igreja. Um projeto que, embora devesse cair "como uma chuva de neve sobre o país", punha em destaque um personagem: as crianças - e não mais os escolares. E isto porque entre o momento da publicação de A menina do narizinho arrebitado, em 1921, e aquele da carta endereçada a Anísio há pouco transcrita, nos primeiros anos da década seguinte, o aprofundamento da importância da questão educacional para Lobato significou - ainda que possa parecer contraditório - uma inflexão no sentido que imprimia aos livros que escrevia para o público infantil, e que tivera naquela publicação de 1921 o seu marco inicial. Dispostas em um continuum, que teria em um dos seus extremos A menina do narizinho arrebitado (1921) e no outro Os doze trabalhos de Hércules (1948), é possível perceber como a obra infantil de Monteiro Lobato vai perdendo progressivamente o caráter de "livros de leitura" para adquirir as marcas de uma literatura infantil, da qual ele é, no essencial, o criador no Brasil. Ou dizendo de outra maneira: de uma filiação a uma tradição, que encontrava na França o seu modelo por certo mais acabado, e que tinha como alvo os "escolares", a uma autonomia que permite fundar uma literatura infantil entre nós, por meio da descoberta da infância. Uma descoberta que implicava no rompimento com imagens e concepções a respeito das idades da vida havia muito estabelecidas. Mas uma descoberta que - se permitia romper com as imagens que contrapunham o "menino anjo" ao "menino diabo" por volta dos sete/dez anos de idade, vendo neste apenas o adulto ainda não plenamente formado, e atribuía à infância uma posição de destaque e diferenciada, por constituir uma idade da vida agora plenamente individualizada, cujo valor residia em si mesma - era fruto ela também, como ensina Philippe Ariès, de uma constelação de representações, como a fragilidade das crianças, a necessidade de moldá-las disciplinarmente, a importância de um modelo específico de família para circundá-las, constelação essa fundamental para o surgimento de novos tipos de intervenção social, bem como de diferentes disputas sobre a legitimidade da forma de intervir e do agente privilegiado para fazê-lo. Uma descoberta, por fim, que atribuía um valor essencial à imaginação. A respeito deste último ponto - sem dúvida, essencial - talvez seja interessante contrapor a referência que é feita - melhor dizendo, o lugar representado pela imaginação em livros situados em pontos bastante diferentes no continuum há pouco referido. Em A menina do narizinho arrebitado, duas das histórias que compõem o livro terminam com as seguintes exclamações: "Que pena! Tudo aquilo não passara de um lindo sonho..." "Que pena! Era sonho outra vez..." . Por sua vez, em O Picapau amarelo,(1941) que tem como subtítulo "O sítio de Dona Benta, um mundo de verdade e de mentira", é possível ler logo em suas primeiras frases: "O sítio de Dona Benta foi se tornando famoso tanto no mundo de verdade como no chamado Mundo de Mentira. O Mundo de Mentira, ou Mundo da Fábula, é como a gente grande costuma chamar a terra e as coisas do País das Maravilhas, lá onde moram os anões e os gigantes, as fadas e os sacis, os piratas como o Capitão Gancho e os anjinhos como Flor das Alturas. Mas o Mundo da Fábula não é realmente nenhum mundo de mentira, pois o que existe na imaginação de milhões e milhões de crianças é tão real como as páginas deste livro. O que se dá é que as crianças logo que se transformam em gente grande fingem não mais acreditar no que acreditavam. "- Só acredito no que vejo com meus olhos, cheiro com o meu nariz, pego com minhas mãos ou provo com a ponta da minha língua, dizem os adultos - mas não é verdade. Eles acreditam em mil coisas que seus olhos não vêem, nem o nariz cheira, nem os ouvidos ouvem, nem as mãos pegam. "- Deus, por exemplo - disse Narizinho. - Todos crêem em Deus e ninguém anda a pegá-lo, cheirá-lo, apalpá-lo. "- Exatamente. E ainda acreditam na Justiça, na Civilização, na Bondade - em mil coisas invisíveis, incheiráveis, impegáveis, sem som e sem gosto. De modo que se as coisas do Mundo da Fábula não existem , então também não existem nem Deus, nem a Justiça, nem a Bondade, nem a Civilização - nem todas as coisas abstratas. "- Eu sei o que quer dizer "abstrato"- disse Emília. - É tudo quanto a gente não vê, nem cheira, nem ouve, nem prova, nem pega - mas sente que há. "- Muito bem. Logo, o Mundo da Fábula existe, com todos os maravilhosos personagens. "- E tanto existe - declarou Dona Benta - que tenho aqui uma carta muito interessante, recebida hoje". Não por outras razões, o Lobato fundador da literatura infantil brasileira e um dos descobridores da infância diria sempre ser uma criança "nada mais do que isto: imaginação e fisiologia". Imaginação: "as crianças desadoram os brinquedos que dizem tudo, preferindo os toscos onde a imaginação colabore. Entre um polichinelo e um sabugo, acabam conservando o sabugo. É que este ora é um homem, ora uma mulher, ora é carro, ora é boi - e o polichinelo é sempre um raio de polichinelo". E já em 1916 preocupava-se com o fato de nada haver que as crianças pudessem ler: "Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo de literatura que nos falta". Traduziria algumas fábulas, mas só se sentiria realizado quando começa a escrever para crianças, conforme confessaria dez anos depois: "Dá-me prazer e traz-me compensações, coisas que jamais senti e tive escrevendo para marmanjos. Prazer... Será que a criança subsiste sempre no adulto? Hum...Vem daí a sabedoria popular dizer que a velhice é um retorno à puerilidade. [...] O gosto que sinto em escrever histórias que irão dar prazer às crianças, prova que estou chegando à idade mental delas. A criança que mais se diverte com as minhas histórias é a que subsiste ou está renascendo dentro de mim. Eis tudo... Velhice". Certamente, aí não estava tudo. Mas estavam as razões principais que levavam Lobato a escrever para crianças: prazer e compensações. Para Cassiano Nunes, verdadeiras necessidades: "note-se que Lobato realizou a sua literatura infantil instigado por três necessidades: a de influir espiritualmente no país; a de se manter e manter também suas campanhas ruinosas, e, por fim, a de se esquecer das angústias da vida e se divertir" (Monteiro Lobato vivo. Rio de Janeiro: MPM Propaganda/Record, 1986, p. 18) O livro era moeda - "minha moeda sempre o livro e vamos ver agora se reduzo a moeda os livros em estado potencial que tenho na cabeça", comentava com o amigo Cândido Fontoura a respeito dos recursos de que necessitava para cobrir as despesas decorrentes da doença do filho Edgard, em 1930; assim como a de muitos outros recursos para sustentar seus sonhos, utopias e mesmo desvarios - "só me volto para as letras quando o bolso se esvazia, e agora, em vez de ganhar milhões de dólares, perdi alguns milharaes na Bolsa. Resultado: literatura around the corner", escrevia em 1930, alcançado que fora pelo crash da Bolsa de Nova York. Mas o livro era também e sobretudo morada. Era neles que ambicionava as crianças morassem, de modo que fossem plenamente crianças. Conforme rememorava com Godofredo Rangel, "lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoé do Laaemmert. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e n’Os filhos do capitão Grant". "Morando" ali, caminhando pelas páginas, participando a cada instante de um jogo simbólico, os jovens leitores viveriam plenamente uma idade da vida que lhes era própria, preparando-se para as seguintes. Diria em certa ocasião: "Um país se faz com homens e livros"; estava dizendo também, por suposto, que os homens se fazem nos livros, caminhando por suas páginas enquanto são crianças. E afirmava, incisiva e pedagogicamente, por meio de uma interrogação, após ter lido "Keraban, o cabeçudo": "Que menino não corre espontaneamente a abrir um atlas para ver onde fica o Bósforo? A inteligência só entra a funcionar com prazer, eficientemente, quando a imaginação lhe serve de guia. A bagagem de Júlio Verne, amontoada na memória, faz nascer o desejo do estudo. Suportamos e compreendemos o abstrato só quando existe material concreto na memória". No pequeno volume Fábulas publicado em 1918 ele advertia, ao final, que "as fábulas constituem um alimento espiritual correspondente ao leite na primeira infância. Por intermédio delas a moral, que não é outra coisa mais que a própria sabedoria da vida acumulada na consciência da humanidade, penetra na alma infante, conduzida pela loquacidade inventiva da imaginação. Esta boa fada mobiliza a natureza, dá fala aos animais, às árvores, às águas e tece com esses elementos pequeninas tragédias donde ressurte a ‘moralidade’, isto é, a lição da vida. O maravilhoso é o açúcar que disfarça o medicamento amargo e torna agradável a sua ingestão". Assim, ser criança é também morar nos livros infantis - é morar no "Sítio do Picapau Amarelo! É aprender a caminhar; e caminhando, conhecer. Morando nos livros, caminhando por suas histórias, os pequenos leitores se tornam crianças. Ouçamos Lobato mais uma vez: "para as crianças um livro é todo um mundo". Porque ali o conhecimento não deverá resultar de uma revelação, em qualquer de suas formas: um sonho, um profeta, uma mensagem angélica. Não deverá resultar também de uma autoridade, que o possui e monopoliza, transmitindo de modo a perpetuar instrumentos de poder. A prática da leitura - em voz alta e coletivamente ou de modo individual e silenciosamente - conduz sempre a um auditório no qual a criança que lê é convidada a argumentar e a aprender a ouvir o argumento do outro. Assim, conhecer é tornar-se apto para descobrir - coisas e pessoas, semelhantes e diferentes daquele que lê. Lobato descobrira as crianças; descobrira aqueles que empreenderão um outro descobrimento do Brasil. O pôr em questão o princípio de Autoridade e os modos de comunicação que possibilitavam uma Revelação, combinado com a colocação em evidência da imaginação, da inteligência como construção e da autonomia, não ocorreriam de maneira tranqüila. Dois mundos não deixariam de se chocar, resgatando antigas polêmicas e enfrentamentos, cujas raízes talvez possam ser buscadas na já distante modernidade européia. Muito cedo, a Geografia de Dona Benta foi rotulada de "obra deletéria, separatista", embora Lobato contra-argumentasse que "Dona Benta disse aos seus netos a verdade pura, e uma verdade de conhecimento do mundo inteiro. Não há nenhum insulto ao Brasil no fato de uma avó contar aos netos o que é verdade e todos os adultos sabem". Não fora diferente com a História do Mundo para Crianças, que merecera avaliações altamente desaprovadoras da chefia do Serviço das Instituições Auxiliares da Escola, do Departamento de Educação da Secretaria dos Negócios da Educação e Saúde Pública do Estado de São Paulo - ufa! Era uma obra inconveniente, pois apresentava ironias a respeito da queima do café pelo Governo, revelava o tom polêmico do autor na defesa da "formação cristã" da família brasileira; e não era suficientemente explícito a respeito do valor de Santos Dumont. Avaliações que eram corroboradas pelo fato de a obra ter sido proibida em Portugal e suas colônias - isto é, províncias ultramarinas. O Poço do Visconde, por sua vez, não era recomendável por insistir em algo que havia muito os técnicos do governo tinham demonstrado não existir, não obstante dois anos após o lançamento do livro tivesse brotado petróleo no Estado da Bahia, justamente - vejam só! - na localidade de Lobato. Assim, nas escolas oficiais e nos estabelecimentos católicos uma ordem ia se generalizando: os livros de Lobato devem ser retirados das bibliotecas escolares. O que ignoravam os responsáveis por tal ordem - mera expressão da longa noite em que o país ia mergulhando -, e ignoravam talvez devido ao fato de nunca terem sido crianças, é que junto com os livros que eram retirados das bibliotecas escolares, eram retiradas também as crianças que neles moravam. E ignoravam ainda algo mais significativo. Lobato descobria os futuros descobridores do Brasil; a infância descobrira o autor Monteiro Lobato. Lobato ambicionava que as crianças morassem nos livros que escrevia; havia muito as crianças sabiam que Monteiro Lobato morava nos livros que liam ou eram lidos para elas. Uma comunidade de sentido. Autor e personagens; leitores e ledores - lendo silenciosamente, lendo ou ouvindo alguém ler; vendo aqueles que liam e ouvindo aqueles escutavam os que liam - participavam de um mesmo mundo, sonhavam os mesmos sonhos, imaginavam realidades diferentes daquelas nas quais viviam e conviviam. Uma comunidade de destino. "Eu fiz 8 anos no dia 21 de janeiro. Já sei ler e gosto muito de ler os seus livros", diz João Bernardo em um bilhete. Após juntar dois retratos de Lobato copiados de um livro do pai, Humberto escreve ao autor para saber onde pode encontrar o tal pó de pirlimpimpim: "Papai disse que a única pessoa que tem é o senhor, pois foi o senhor quem fez. Se eu tivesse o pó de pirlimpimpim e pudesse mexer na chave do tamanho, eu ia procurar Tarzan para levá-lo também ao sítio". Alguém que usava o pseudônimo Rã ajuizava: "Ótima idéia essa da Emília modificando a natureza! Imagine se a Lambeta-mor resolvesse modificar o homem. Dar-lhe-ia o couro de rinoceronte para não haver fuzilamentos; saindo do meio da cabeça, um lindo guarda-chuva vermelho; duas asas também, para bater o recorde do Santos Dumont; um cestinho pendurado embaixo do nariz para se encher ou de flores ou de perfumes sempre [...] e nas solas do pé duas formidáveis molas para o indivíduo pular quando quisesse numa altura considerável ou então andar se balançando, conforme o gosto". Por sua vez, Alariquinho - filho de Alarico Silvesira, um velho amigo de Lobato - diz que, embora usando a lanterna que Lobato lhe mandara como presente, não consegue caçar nenhum saci: "eu procurei até a meia-noite e não achei nada". Estas e muitas outras expressões das trocas entre os leitores e o autor encontram-se em Furacão na Botocúndia, e nos revelam como o Sítio do Picapau era habitado também por seus leitores. E se isto se tornava possível era porque ali - como já fora dito pelo próprio Lobato em trecho acima reproduzido da história que tem como título o nome do próprio sítio de dona Benta - o Mundo da Fábula misturava-se com o mundo de verdade. Mas também porque os livros destinados às crianças encerravam uma outra marca significativa, assim exposta por seu autor, em Reinações de Narizinho: "A moda de Dona Benta ler era boa. Lia ‘diferente’ dos livros. Como quase todos os livros para crianças que há no Brasil são muito sem graça, cheios de termos do tempo do onça ou só usados em Portugal, a boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje. Onde estava, por exemplo, ‘lume’, lia ‘fogo’; onde estava ‘lareira’ lia ‘varanda’. E sempre que dava com um ‘botou-o’ ou ‘comeu-o’, lia ‘botou ele’, ‘comeu ele’- e ficava o dobro mais interessante. Como naquele dia os personagens eram da Itália, Dona Benta começou a arremedar a voz de um italiano galinheiro que às vezes aparecia pelo sítio em procura de frangos; e para o Pinóquio inventou uma vózinha de taquara rachada que era direitinho como o boneco devia falar". A "moda de Dona Benta ler" era o modo como Lobato escrevia para as crianças. Porque na construção de uma literatura infantil, e conseqüentemente no forjar de uma imagem de infância, ocupava um lugar significativo o modo como era possível "conversar" com essas crianças. No Brasil dos anos vinte, a questão da língua retornava, e aqui se apresentava sob uma forma específica. "Pátria é a língua, nada mais", dissera Lobato em certa ocasião. Sempre contundente, reafirmava: "Esta minha saída serviu para me revelar uma coisa: o que é a pátria. Pátria é a língua, nada mais. O sair fora da língua nos deixa aleijados - "despatriados"- expatriados. Viver é sobretudo conversar, e como conversar em pátria estranha, isto é, em língua estranha? A grande coisa que há no Brasil para os brasileiros não é o Duque de Caxias, nem o general Dutra - é a língua". Não obstante, durante um certo período de sua atividade como escritor, Lobato também se preocupara com uma linguagem mais formal e uma sintaxe rebuscada. Por ocasião da preparação da segunda edição de Urupês, ele solicitara a Adalgiso Pereira, seu amigo, que corrigisse sua colocação de pronomes - o teste crucial do português metropolitano (Hallewell, op. cit., p242). Foi escrevendo que Lobato "aprendeu a escrever em brasileiro" - não porque pretendesse, à maneira dos românticos, "fazer uma coisa americana", ou como Mario de Andrade aproximar a língua escrita da língua falada. Lobato queria conversar - conversar com as crianças, por meio de seus livros -, porque conversar é viver. Todavia, os livros infantis de Lobato à medida que surgiam forjavam o Sítio do Picapau Amarelo, tornando viva a proposta que um dia - no próprio transcorrer desse "durante" - formulara a Anísio Teixeira: constituir uma Education-City. "Formidável organismo moldador de homens - educador no mais elevado sentido" - ou seja, um projeto de hegemonia cultural, que fatalmente colidiria com os projetos do Estado e da religião; afinal, "o governo que ensine ao povo o que quiser; a religião, idem". Um projeto de hegemonia que não poderia deixar de colocar a questão da língua. Chegara o momento de uma maior aproximação com o falar de "nossa gente", representada fundamentalmente pelos homens de amanhã; cumpria superar tanto a síntaxe de corte metropolitano, ainda prevalecente nos escritos de um Coelho Neto, quanto os dialetos que distinguiam o mundo rural, expressão do isolamento em que viviam e propiciador do surgimento de uma infinidade de neologismos, conforme apontara em "Gramática viva", em 1919. Se é verdade, como afirmou o sociolingüista Gianrenzo Clivio, ao tentar explicar as diferenças entre um dialeto e uma língua, que esta última "é um dialeto que tem um exército, uma marinha e uma força aérea", ou seja, é a presença do Estado que define ou deixa de definir a fronteira entre língua e dialeto, o Sítio - isto é, o conjunto da obra infantil de Lobato - é o Estado que forja e impõe uma língua. Condição para o exercício de uma nova hegemonia cultural, uma língua nacional comum era também condição para um outro descobrimento do Brasil. Uma língua mais natural; menos racional, rígida e seca. Não tenho muitas dúvidas a respeito de Lobato não ter tido como ponto de partida de uma prática que possibilitava a criação de uma literatura infantil e a invenção do publico leitor infantil, o pequeno ensaio de Herder, datado de 1769, a respeito da questão de a linguagem ser divina ou humanamente inspirada, no qual concluía dever ser a mesma considerada como um produto social, mutável e irregular, que refletia o progresso da sociedade humana, da mais baixa à mais alta forma de conhecimento. Naquele momento, porém, o modo de escrever que Lobato inaugurava não deixava de dizer respeito também à maneira como buscava-se transformar um fundo histórico necessariamente heterogêneo em uma comunidade nacional, e assim expressava as mudanças que ocorriam nos alinhamentos políticos ou de classe - a saber, a própria reorganização da hegemonia cultural. (cf. Jonathan Steinberg. "O historiador e a questione della lingua", in História Social da Linguagem, org. Peter Burke e Roy Porter. São Paulo: UNESP, 1997). (Questão a enfrentar: por que um dos pontos da disputa entre os herdeiros de Lobato e da Brasiliense situa-se exatamente na questão da inclusão de um "vocabulário" na nova edição?) Por todas essas razões, o livro infantil se contrapunha, de modo marcante, ao livro didático - "instrumento de tortura das crianças" -, assim como o Sítio do Picapau Amarelo se contrapunha ao Brasil do Jeca Tatu, doente e abandonado pelas elites republicanas. Avistado por "quem passa pela estrada", o Sítio é uma região situada acima do país. Seus habitantes não devem ser contaminados pelas mazelas de todo o tipo que distinguem o país, assim como o Jeca descalço se deixava contaminar pelos micróbios que lhe entravam pelos pés. Uma região diferente, que não se confunde com qualquer das regiões do país - o mundo de verdade -, recortadas pela literatura de cunho regionalista; mas uma região que permanece unida ao mundo circundante por meio do rádio, dos livros e do estafeta. O mundo circundante que oferece a Lobato os temas de sua literatura adulta, permanentemente reelaborados para a construção de uma literatura infantil. Uma região diferente também dos demais territórios que compõem o Mundo da Fantasia ou o Mundo das Maravilhas, o Sítio colocado ao lado da Ilha de Robinson, do Castelo do Barão de Munchausen, do País das Fábulas, do Castelo da Bela Adormecida, da Terra das Mil e Uma Noites, da Terra do Nunca, da Ilha da Branca de Neve, da Casa de Alice e do País das Maravilhas, de Liliput... Mas sem se confundir com qualquer desses territórios. De tal modo que quando os habitantes do Mundo da Fábula comunicaram por carta a Dona Benta que estavam de mudança para o Sítio - "o resto do mundo anda uma coisa das mais sem graça. Aí é que é bom" - a boa velha cuidou de comprar umas terras vizinhas, ali assentou os novos vizinhos e, diante das dúvidas e inquietações de Tia Nastácia, tomou as providências que julgou necessárias: " - Fazemos uma cerca, Nastácia. Eles ficam morando paaralá da cerca. Só virão aqui quando quisermos. - Cercas, Sinhá? Pois se até muro com caco de vidro em cima gente pula, quanto mais eles, que são uns demoninhos... - Quindim fica de guarda à cerca, passeando de cá prá lá - e na porteira eu boto um cadeado. O Visconde tomará conta da chave". Uma região que não deveria se tornar impura, de tal modo que os futuros descobridores do Brasil se não seriam eugênicamente perfeitos, deveriam em tudo ser o avesso do Jeca Tatu... Por que não visitar o Sítio do Picapau Amarelo, agora que nos aproximamos de um final?
O SÍTIO POR SEUS MORADORES "O sítio de Dona Benta ficava num lugar muito bonito. A casa era das antigas, de cômodos espaçosos e frescos. Havia o quarto de Dona Benta, o maior de todos, e junto o de Narizinho, que morava com sua avó. Havia ainda o ‘quarto de Pedrinho’, que lá passava as férias todos os anos; e o da Tia Nastácia, a cozinheira e o faz tudo da casa. Emília e o Visconde não tinham quartos; moravam num cantinho do escritório onde ficavam as três estantes de livros e a mesa de estudo da menina. A sala de jantar era bem espaçosa, com as janelas dando para o jardim; depois vinha a copa e a cozinha. - E a sala de visitas? Tinha? - Como não? Uma sala de visitas com piano, sofá de cabiúna, de palhinha tão bem esticada que ‘cantava’ quando Pedrinho batia-lhe tapas. Duas poltronas do mesmo estilo e seis cadeiras. A mesa do centro era de mármore e pés também de cabiúna. Encostadas às paredes havia duas meias mesas também de mármore, cheias de enfeites; três casais de içás vestidos, vários caramujos e estrelas do mar, duas redomas com velas dentro, tudo colocado sobre os "pertences" de miçanga feitos por Narizinho. Antes da sala de visitas havia a sala de espera, com chão de grandes ladrilhos quadrados, ‘cor de chita cor de rosa desbotada’. A sala de espera abria para a varanda. Que varanda gostosa! Cercada de um gradil de madeira muito singelo, pintado de azul claro. Da varanda descia-se para o terreiro por uma escadinha de seis degraus. (...) Aquela varanda estava se transformando em jardim, tantas eram as orquídeas que o menino [Pedrinho] pendurara lá, os vasos de avenca da miúda que ele foi colocando junto a grade. O jardim ficava nos fundos da sala de jantar, um verdadeiro amor de jardim, só plantas antigas e fora de moda. - E o pomar? - O pomar ficava nos fundos da casa, depois do ‘quintal da cozinha’, onde havia um galinheiro, um tanque de lavar roupa e o puxado da lenha. O poço velho fora fechado depois que Dona Benta mandou encanar a aguinha do morro. Passado o quintal vinha o pomar - Aquela delícia de pomar! -Por que delícia? - Porque as árvores eram muito velhas e árvore quanto mais velha melhor para a beleza e frescura da sombra. (...) Certas árvores do pomar tinham donos. Havia a célebre pitangueira da Emília, as três jabuticabeiras de Pedrinho, a mangueira de manga chupada de Narizinho e os pés de mamão de Tia Nastácia. Até o Visconde tinha a sua árvore - um pézinho de romã muito feio e raquítico. Impossível haver no mundo lugar mais sossegado e fresco e mais cheio de passarinhos, abelhas e borboletas. Como Dona Benta nunca admitiu por ali nenhum menino de estilingue, a passarinhada se sentia à vontade e fazia seus ninhos como se estivessem na Ilha de Segurança. O próprio bodoque de Pedrinho não funcionava no pomar. ( O Saci. p. 9-19) Os vizinhos do Sítio serviam para pôr em relevo as diferenças que o distinguiam, assim como a seus habitantes: "A muda foi presente do defunto Zé das Bicas, um português muito trabalhador que morava numa chácara perto da vila. (O Saci. p. 13) "Um dia Pedrinho enganou Dona Benta que ia visitar tio Barnabé, mas em vez disso tomou o rumo da mata virgem dos seus sonhos. Depois de cumprida a caminhada, o menino percebeu que já estava em terras do sítio, viu o rancho do tio Barnabé perto da ponte, em seguida, os pastos, e finalmente a casa de sua querida vovó. (O Saci., p.35 e 93) "-Isto aqui é Itaoca. - Itaoca? - repetiu Emília, surpresa. - Então é aquela vilazinha que ficava a menos de meia légua do Sítio de Dona Benta? -Pois é." (A Chave do Tamanho. p. 33) "Essas bandeiras, estampadas em morim, custavam CR$ 1, 50 na venda do Elias turco, lá na estrada. O terreiro [do Sítio] era vedado por uma cerca de paus a pique - rachões de quarantã. Bem no centro ficava a porteira. Para lá da porteira era o pasto, onde havia um célebre cupim de metro e meio de altura (...) Através do pasto seguia o ‘caminho’- ou a estrada que ia até a vila, a légua e meia dali. No fim do pasto, perto da ponte, apareciam a casinha do tio Barnabé e a figueira grande; e bem lá adiante o Capoeirão dos Tucanos, uma verdadeira mata virgem onde até onça, macacos, e jacus haviam. E que mais? Ah, sim, o ribeirão que passava pela casa do tio Barnabé cortava o pasto e vinha fazer as divisas do pomar com as terras da plantação." (O Saci. p.17) O cotidiano do Sítio era assinalado pelas inúmeras atividades de seus moradores. Como a leitura... "Enquanto isso, Pedrinho desdobrava o jornal e lia os enormes títulos e subtítulos da guerra." (A Chave do Tamanho. p. 8) "Viva! Exclamou Pedrinho quando o correio entregou o pacote - Vou lê-lo para mim só, debaixo da jabuticabeira. Alto lá, interveio Dona Benta. - Quem vai ler Pinóquio, para que todos ouçam sou eu, e só lerei três capítulos por dia de modo que o livro dure e o nosso prazer se prolongue. A sabedoria da vida é essa." ( Reinações de Narizinho. p. 193-194) "Dona Benta era uma senhora de muita leitura; além de ter uma biblioteca de várias centenas de volumes, ainda recebia, dum livreiro da capital, as novidades mais interessantes do momento. (História do Mundo. p. 5) "Naquele dia, antes que Dona Benta recomeçasse a contar a história do Mundo, Pedrinho esteve a ler um artigo de jornal em que encontrou uma palavra desconhecida. A frase era assim: ‘... e o pobre homem a tudo resistiu estoicamente’, que quererá dizer isso?- perguntou ele a Narizinho, que ia entrando. A menina também não sabia." ( História do Mundo. p.125)
...festas e comemorações... "No terreiro do Sítio em frente à varanda havia sempre um mastro de São João, que Pedrinho fincava na véspera do dia desse santo, a 24 de junho, quando vinha pelas férias. Ele mesmo cortava o pau no mato, ele mesmo o descascava e pintava inteirinho, com arabescos vermelhos, amarelos e azuis. No topo do mastro colocava a ‘bandeira de São João’..." (O Saci. p.17) ...pescarias... "Aos domingos Tia Nastácia saía para mariscar de peneira. Os meninos davam pulos de alegria. A boa negra, metia-se na água até a cintura e ia descendo o ribeirão, com eles a acompanhá-la da margem, aos gritos". ( O Saci. p. 18) ...a observação da natureza e de seus fenômenos... "O pôr de sol de hoje é de trombeta - disse Emília, com as mãos na cintura, depezinha sobre o batente da porteira onde, naquela tarde, depois do passeio pela floresta, o pessoal de Dona Benta havia parado. Eles nunca perdiam ensejo de aproveitar os espetáculos da natureza. Nas chuvas fortes, Narizinho ficava de nariz colado à janela, vendo chover. Se ventava, Pedrinho corria à varanda com o binóculo para espiar as danças das folhas secas - "quero ver se tem saci dentro". E o Visconde dava as explicações científicas de todas as coisas." (A Chave do Tamanho. p. 7) ... muitos sonhos e imaginação... "- Que lindo! - exclamou Emília. - Quem me dera boiar neles nos dias de calor! Adoro a neve... -Já se viu que pernóstica? - disse Narizinho. - Neve! Onde Emília viu neve? -Nunca vi neve, mas adoro-a. Que tem uma coisa com outra? Dona Benta já disse que temos duas qualidades de olhos: os da cara e os da imaginação. Já vi muita neve com os olhos da imaginação. Mas Emília conhece a geada, que dá um pouco a idéia da neve - disse dona Benta." (Serões de Dona Benta. p. 67) "- Uma coisa grande nós temos, meus filhos: a imaginação. Se a nossa inteligência é limitada e de todos os lados dá de encontro a barreiras, temos o consolo de montar no cavalo da imaginação e galopar pelo infinito. E puseram-se todos a galopar pelo infinito no cavalo da imaginação". (Serões de Dona Benta. p. 77) ...aprendizagem... "Pedrinho ficou entusiasmado. -Nesse caso vovó, eu sou um verdadeiro sabiozinho, porque sei mil coisas práticas. Sei sem que ninguém me ensinasse... -Engano seu, meu filho. Tudo quanto que você sabe foi ensinado sem que você o percebesse. A maior parte das coisas que sabemos nos vem de ver os outros fazerem. -Isso lá bem é verdade - confessou o menino. - Cada coisa que eu sei veio de alguém lá de casa - sobretudo da mamãe e papai. A gente quando é criança presta atenção a tudo e imita. Mas eu não sabia que isto era ciência..." (Serões de Dona Benta. p. 11) "[...] Venha desenhar um bomba de sucção, Narizinho. - Eu não sei vovó. - É para ficar sabendo. Eu darei as indicações. Narizinho desenhou uma bomba, bem desenhadinha." (Serões de Dona Benta. p. 18) "- Não percebo nada, vovó - disse ele. - O tal oxigênio é um ar à toa, sem cor , nem cheiro. Como a senhora sabe o que está no vidro é oxigênio e não ar?"( Serões de Dona Benta. p. 15) "[...] Venha desenhar um bomba de sucção, Narizinho. - Eu não sei vovó. - É para ficar sabendo. Eu darei as indicações. Narizinho desenhou uma bomba, bem desenhadinha." (Serões de Dona Benta. p. 18) "- Explique como é isso, vovó. Estou curioso, pediu o menino." (Serões de Dona Benta. p. 19) ...mas uma aprendizagem sempre prática... "- Sim - disse ele - porque nesta toadinha do Visconde ficamos toda a vida a estudar coisas dos livros e nada de perfuração. Nosso Visconde é livresco demais. Temos que declarar greve. Topam? - Topamos - concordaram as duas, também já cansadas de ciência teórica. - Feche o livro, Visconde. Resolvemos dar começo ao poço já, já, já. (Poço do Visconde. p. 9)" ...mas que também permitia estar pronto para questionar... "Dona Benta ficava tonta com certas perguntas; mas respondeu que rigorosamente toda a água provinha da destilação, [...] - Então a senhora errou dizendo que a água de chuva era água destilada. - Errei e não errei, meu filho, porque destilada ela é; mas para usos práticos, de farmácia, e outros, só se considera água destilada a que se obtém da condensação do vapor num vaso fechado, onde não possa contaminar-se com coisa nenhuma." (Serões de Dona Benta. p. 24) ...e valorizar a escrita e os livros... "(...) Já pensaram vocês, por um minuto, na invenção maravilhosa que foi o alfabeto? Ainda não - disse Pedrinho. - Vamos começar a pensar nisso de hoje em diante, porque só agora vovó nos abriu os olhos. (História do Mundo. p. 45)
"É uma danada esta vovó! Parece um livro aberto - disse o menino entusiasmado com a ciência da velha." (Hans Staden. p. 128) Aqui estão eles, todos os moradores do Sítio. Dona Benta: "- Só vovó sabe, Pedrinho. Vovó é um colosso! Não há o que não saiba. (História do Mundo. p.125) a aplicada e estudiosa Narizinho: "Pedrinho tinha recebido carta de sua prima, dizendo: "Nosso grupo vai este ano completar século e meio de idade e é preciso que você não deixe de vir pelas férias a fim de comemorarmos o grande acontecimento. " (...) Logo que recebeu essa carta, Pedrinho fez a conta num papel para ver se a pilhava em erro; mas não pilhou. - É uma danada aquela Narizinho! - disse ele. Não há meios em errar em contas." (O Saci. p. 8) "Vovó eu ando com umas idéias de ir caçar na mata virgem. (...) - Mas não sabe que naquela mata há onças? - disse com ar sério. - Mas eu não tenho medo de onça, vovó - exclamou Pedrinho fazendo o mais belo ar de desprezo. - Olhem o valentão! Quem foi que naquela tarde entrou aqui berrando com uma ferrotada de vespa na ponta do nariz? - Sim vovó, de vespa eu tenho medo, não nego - mas de onça não! (...) - Chega! - interrompeu Dona Benta, com medo de levar também uma pelotada. Mas além de onças existem cobras. Dizem que até urutus há naquele mato. - Cobra? E Pedrinho fez outra cara de pouco caso ainda maior: Cobra mata-se com um pedaço de pau, vovó. Cobra!" "- O analfabeto mais instruído da Europa, a senhora deve dizer! - lembrou Narizinho, que lia e escrevia muito bem e orgulhava-se disso." ( História do Mundo para Crianças. p. 156) o inteligente e sempre arguto Pedrinho: "- Um deus supremo. Os outros eram deuses menores - espécie de santos. Povo nenhum se contenta com um deus só. São precisos vários, mesmo para os que seguem as religiões chamadas monoteístas. - Mono, um; theos, deus. Religião monoteísta quer dizer religião dum deus só berrou, com espanto de todos, Pedrinho, que por acaso havia lido aquilo um dia antes. - Perfeitamente! - aprovou Dona Benta. - Você as vezes até parece um dicionário..." (História do Mundo. p. 66-67) "- O Nilo, como vocês sabem, despeja por diversas bocas no Mar Mediterrâneo. - Eu sei! - gritou Pedrinho. - Quando chegam perto do mar, as águas abrem-se em leque e formam o delta do Nilo. Alfa, Beta, Gama, Delta - A, B, C, D em grego. A letra delta, ou D, tinha a forma de um triângulo e por isso os geógrafos chamam delta aos leques que certos rios formam quando desembocam no mar. Todos se admiravam daquele acesso de ciência de Pedrinho. O Visconde chegou a levantar-se do seu canto para vir examiná-lo de perto, da cabeça aos pés, voltando depois para o seu lugar." (História do Mundo. p. 24) o Visconde de Sabugosa, um verdadeiro sábio: "- Aqui entre nós, Mr. Champignon - disse ela (Dona Benta) em seguida: acha o Visconde realmente um sábio de verdade? Não tem qualquer dúvida sobre a ciencinha dele? - Acho, sim, minha senhora. Acho que o senhor Visconde de Sabugosa do Poço Fundo (que é como a senhorita Emília me disse que se chama), é na realidade um grande sábio. E isso me assombra extraordinariamente, porque, afinal de contas, não passa de um sabugo. Logo que aqui cheguei meu queixo caiu; primeiro, ao ver um sabugo vivente; depois ao verificar que era um falante; e por fim, ao reconhecer nele um sábio -, mas sábio de verdade desses que descobre coisas e mudam as diretrizes da civilização." (Poço do Visconde. p.126-8) "Como já fosse tarde, o Visconde, por ordem de Dona Benta, suspendeu o espetáculo daquele dia. - Chega por hoje - disse ela. Quem quer aprender demais acaba não aprendendo anda. Estudo é como comida: tem de ser a conta certa, nem mais, nem menos. Quem come demais tem indigestão. Amanhã o senhor Visconde continuará o espetáculo. Mas no dia seguinte o Visconde anunciou que só recomeçaria o espetáculo depois que todos soubessem na ponta da língua as tabuadas escritas nas laranjeiras, de modo que os meninos passaram o dia no pomar, chupando laranjas e decorando números. Narizinho foi a primeira a decorar todas as casa, porque era menina de muito boa cabeça, como dizia tia Nastácia. Pedrinho, que não quis ficar atrás, esforçou-se, decorando também todas as casa, embora errasse algumas vezes sobretudo no 7 vezes 8. Cada vez que tinha que multiplicar o 7 pelo 8, ou o 8 pelo 7,parava, engasgava ou errava. O meio de acabar com aquilo foi escrever com tinta vermelha o número 56 na palma da mão. Sete vezes 8 dá 56. (Aritmética da Emília. p. 35-36) "Emília estava mais que certa de que o voto do Visconde iria ser igual ao seu, não só porque o Visconde era uma propriedade sua, um verdadeiro escravo, como porque, depois do apequenamento, ele se tornara um gigante gigantesco e, pois, muito mais importante que o pobre sabugo de pernas que sempre fora. Mas enganou-se. O Visconde andava com medo das suas tremendas responsabilidades novas, e cansado de ser dirigido daqui para ali pela Emília, e sujeito até a ser emprestado a governos como se fosse um guarda-chuva". (A Chave do Tamanho, p. 83 - 86) "Apesar de transformado no maior gigante do mundo, o Visconde, pela força do hábito, obedecia à Emília do mesmo modo que antigamente". (A Chave do Tamanho. p. 50) "Sacudiu-o, virou-o dum lado para outro, gritou-lhe ao ouvido. Nada. O Visconde não dava o menor sinal de vida. Só deixava sair de si um caldinho. - É o caldo de ciência. - observou Emília - Vou guardá-lo num vidro. Pode servir para alguma coisa." (D. Quixote. p. 139)
a danadinha da Emília: "- Já sei! - exclamou Emília. - Fator é o mesmo que fazedor. Quer dizer que o Multiplicando e o Multiplicador são os que fazem o produto, ou os fazedores do produto. - Isso mesmo. Mas não se usa dizer fazedor e sim fator. - Pois eu agora só vou dizer fazedor - declarou Emília, que era espírito de contradição. - Não me importo com o uso dos outros; tenho meu usinho pessoal. Todos olharam-na, admirados daquele ‘topete’." (Aritmética da Emília. p. 27) "- Isso que dizer que a ordem dos fazedores não altera o produto - observou Emília. Dona Benta olhou para ela com os olhos arregalados. Estava ficando sabida demais. Pena era aquela teimosia! Por que insistir em dizer fazedores em vez de fatores. - Sim - disse Dona Benta - o ordem dos fatores não altera o produto. - Ordem dos fazedores - teimou Emília. Narizinho deu-lhe um beliscão. - Respeite os mais velhos, ouviu? Mas Emília, sempre louquinha, correu para longe e lá gritou: - Fazedores! Fazedores!...- e ficou longo tempo a amolar com aquilo." (Aritmética da Emília. p. 30) "Emília sempre teve fama de não possuir coração. Mentira. Tinha sim. Está claro que não era coração de banana como o de tanta gente. Era um coraçãozinho sério, que ‘pensava que nem uma cabeça’. Podendo deixar ali duas crianças, já que a situação do mundo era a de um geral ‘salve-se quem puder’, não as deixou. Heroicamente resolvei salvá-las." (A Chave do Tamanho. p. 26) "- Que lástima! - murmurou Dona Benta. - A Emília, que já é uma personagem célebre no mundo inteiro e está se tornando uma sabiazinha, de vez em quando se esquece das conveniências e fica uma verdadeira praga... - Criaturas de pano são assim mesmo - observou Visconde. - Culpa teve tia Nastácia de fazê-la dum paninho tão ordinário..." (Aritmética da Emília. p. 30) "Viu [Narizinho] que a fala da Emília não estava bem ajustada, coisa que só o tempo poderia conseguir. Viu também que era de gênio teimoso e asneirenta por natureza, pensando a respeito de tudo de um modo especial, todo seu. - Melhor que seja assim - filosofou Narizinho. - As idéias da vovó e tia Nastácia a respeito de tudo são tão sabidas que a gente adivinha antes que elas abram a boca. As idéias de Emília hão de ser sempre novidades." (Reinações de Narizinho. p. 28) "Emília tinha idéias de verdadeira louca". (Reinações de Narizinho. p. 31) "Emília nunca soube fingir. Quando ia fingir, fingia demais e estragava o fingimento." (Reinações de Narizinho. p. 122) "Emília estava ansiosa para ver as figuras de Dom Quixote. Como fosse uma boneca sem coração, era-lhe indiferente que o Visconde ficasse ali naquele triste estado. Além disso, tinha a certeza de que, dum jeito ou de outro, Pedrinho o consertaria. Criaturas de sabugo têm essa vantagem. São consertáveis, como os relógios, as máquinas de costura e as chaleiras que ficam com buraquinhos. Mas tia Nastácia, sempre de mãos à cintura, não tirava os olhos do pobre sabuguinho". (D. Quixote. p. 131-140) "Ganja demais, é isso - explicou o menino. - Aqui quem manda é ela. Tudo quanto ela faz aquele sujeito conta nos livros. Daí a ganja. Emília não respeita ninguém. Não obedece a ninguém - nem a vovó." (D. Quixote. . 252) "- Inveja, sim! - berrou Emília. - Sou de pano, sim, mas de pano falante, engraçado paninho louco, paninho aqui da pontinha. Não tenho medo de vocês todos reunidos. Agüento qualquer discussão. A mim nínguém embrulha nem governa. Sou do chifre furado - bonequinha de circo. Dona Quixotinha ..." (D. Quixote. p.252) "Eu nasci boneca de pano, muda e feia, e hoje sou até marquesa. Subi muito. Cheguei muito mais que vintém. Cheguei a tostão." (Fábulas. p. 19) "Emília nascera simples boneca de pano, morta, boba, muda como todas as bonecas. Mas misteriosamente foi se transformando em gentinha. Todos ainda a tratavam de boneca por força de hábito apenas, porque na realidade Emília era gente pura, de carne. Fazia tudo que as gentes fazem - comia ótimo apetite, bebia, pensava, tinha um coraçãozinho lá dentro, e alma e tudo. Como explicar esse mistério, essa transformação duma feia boneca de pano em gente?" (O Poço do Visconde. p 128) "- Mas eu sou boneca - disse Emília. Não pertenço a raça humana. - Morda aqui! - exclamou o menino espichando o dedo. Você é tão gente como eu. É gentíssima até. Essa história de boneca, Emília, ninguém mais engole..." (O Poço do Visconde. p. 142)
e Tia Nastácia: " - É grave ! - exclamou. - A senhora condessa está sofrendo duma anemia macelar no pernil barrigóide esquerdo. Caso muito sério. - E que receita, doutor? Pílula de sapo outra vez? - indagou a menina. - Esta doença só pode sarar com um regime de superalimentação local. - Alimentação macelar eu sei - disse a menina rindo-se da ciência do doutor. - Tia Nastácia sabe aplicar esse remédio muito bem. Em dois minutos com um bocado de macela e uma agulha com linha ela cura Emília para o resto da vida. - Tia Nastácia! - exclamou o médico escandalizado. - com certeza é alguma curandeira vulgar! Macela! Alguma mezinha vulgar também! Oh, santa ignorância! Admira-me você uma princesa tão ilustrada desprezar assim a ciência de um verdadeiro discípulo de Hipócrates e entregar a condessa aos cuidados de uma reles curandeira ... - Reles curandeira? Exclamou a menina indignada. - chama então tia Nastácia de reles curandeira? (...) Já viu, Emília, um desaforo maior?" ( Reinações de Narizinho. p. 62-63) "- Pois cá comigo - disse Emília - só aturo essas histórias como estudos da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e bárbaras - coisa mesmo de negra beiçuda, como tia Nastácia. Não gosto e não gosto ..." ( Histórias de Tia Nastácia. p. 31) "- Também acho - disse Emília. Essa princesa que se casa com um negro velho, o pássaro preto que leva o menino no bico, aqueles quartos cheios, de cavalos um, de arreios outro, de moças brancas outro - e os últimos com os tais rios de prata e ouro, tudo isso não tem o menor propósito. (...) Tudo bobagens de negra velha ... - E os tais pássaros de pluma? - disse Narizinho. Que é que entende você por pássaros de pluma, Nastácia? - Não sei, menina - respondeu a preta. A história eu ouvi assim e por isso conto assim. Passáro de pluma é pássaro de pena, parece. - E já viu pássaro que não seja de pena, sua tola? (...)" (Histórias de Tia Nastácia. P.38) E, para terminar, o que cada um deles achava do Sítio do Picapau Amarelo e da vida que ali levavam: "- Então? Nossa vida agora é esta. Eu sempre morei num lugar lindo lá no Sítio de Dona Benta. - Sei. Li as histórias. [Respondeu Juquinha]" (A Chave do Tamanho. p. 33) "- Todas as histórias fazem do jabuti uma idéia muito boa - comentou Emília. Espertos, inteligentes, mil coisas. Mas o nosso lá do pomar mostrou-se muito bobinho. - Ao contrário, Emília. Tanto não era bobo que já sumiu. - Por isso mesmo. Se tivesse ficado aqui, estava no seguro. Nada nunca lhe aconteceria. Mas fugiu - e se foi para os lados do Elias Turco, aposto que dele só resta casca. O Elias tem cara de gostar muito de jabuti ensopado..."( Fábulas. p. 159-160) "No outro dia dona Benta recebeu carta de dona Antonica, sua filha, dizendo que as aulas de Pedrinho iam começar e que o mandasse imediatamente. - Que pena! - suspirou Pedrinho, quando dona Benta lhe trouxe a notícia. - Anda mamãe muito iludida, pensando que aprendo muita coisa na escola. Puro engano. Tudo quanto sei me foi ensinado por vovó, durante as férias que passo aqui. Só vovó sabe ensinar. Não caceteia, não diz coisas que não entendo. Apesar disso, tenho cada ano, de passar oito meses na escola. Aqui só passo quatro..." (Serões de Dona Benta. p. 102) "Dona Benta suspirou e disse : - Está aqui outra fábula muito dolorosa, meus filhos. Põe em foco a inveja - o sentimento pior que existe. A maior parte das desgraças do mundo vem da inveja, e creio que não sentimento mais generalizado. A inveja não admite o mérito - e difama, calunia, procura destruir a criatura invejada. Felizmente é coisa que não vejo aqui por casa. - Engano seu, Dona Benta! - berrou Emília. Ás vezes bem que me invejam ... - Quem inveja você, bobinha? - Gentes ... respondeu Emília fazendo muxoxo de direita ..." ( Fábulas. p. 63) "Nisto surgiu na sala, muito apressada e aflita, uma baratinha de mantilha [Dona Carochinha], que foi abrindo caminho por entre os bichos até alcançar o príncipe. (...) - Ando atrás do pequeno Polegar - respondeu a velha. - Há duas semanas que fugiu do livro onde mora e não o encontro em parte alguma. Já percorri todos os reinos encantados sem descobrir o menor sinal dele (...) - Tudo isso - continuou Dona Carochinha por causa do Pinóquio, do Gato Félix e sobretudo de uma menina do Narizinho arrebitado que todos desejam muito conhecer. Ando até desconfiada que foi a diabinha que desencaminhou Polegar, aconselhando-o a fugir." ( Reinações de Narizinho. p. 12-13) "- Isso, sim, não deixa de me intrigar - disse ele [Pedrinho]. - Se Polegar fugiu é que a história está emborolada. Se a história está emborolada, temos de botá-la fora e compor outra. Há muito tempo que ando com esta idéia - fazer todos os personagens fugirem das velhas histórias para virem aqui combinarem outras aventuras." ( Reinações de Narizinho. p. 52) "- Fez muito bem! [disse Emília]. Isso de coleira o diabo o queira (...) - Nada mais certo, vovó! - gritou Pedrinho. Este seu sítio é o suco da liberdade; e se eu fosse refazer a natureza, igualava o mundo a isto aqui. Vida boa, vida certa, só no Picapau Amarelo. - Pois o segredo, meu filho, é um só: liberdade. Aqui não há coleiras. A grande desgraça do mundo é a coleira. E como há coleiras espalhadas pelo mundo!" (Fábulas. p. 89) "Dona Benta suspirou. - Se este meu sítio não é um sonho - disse de si para si, é então a coisa mais espantosa que o mundo ainda viu. E beliscou-se para ver se estava dormindo ou era sonho. Doeu. Logo, não era sonho." ( O Poço do Visconde. p. 129) Agora, no momento em que chegamos até aqui, é impossível não confessar: dá uma vontade imensa de ir prá lá! Quer saber aonde ele fica? Ele é logo avistado "por quem passa pela estrada". E para chegar até lá rapidamente, basta ser como uma criança. Mas caso V. ainda assim não consiga encontrá-lo, não se esqueça que o motivo pode estar em que "as crianças logo que se transformam em gente grande fingem não mais acreditar no que acreditavam". |