"...E agora um pedido. Tenho uma fome pelo norte, não imagina. Mande-me umas fotografias de sua terra. Há por aí obras de arte coloniais? Imagens de madeira, igrejas interessantes? Conhecem-se os seus autores? Há fotografias? Acredite: tudo isso me interessa mais que a vida. Não tenha medo de me mandar um retrato de tapera que seja. Ou de rio, ou de árvore comum. São as delicias de minha vida essas fotografias de pedaços mesmo corriqueiros do Brasil. Não por sentimentalismo. Mas sei surpreender o segredo das coisas comesinhas da minha terra. E minha terra é ainda o Brasil. Não sou bairrista."

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 26/09/1924. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 34.)

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Mário de Andrade e Câmara Cascudo

"Se lembre sempre de mim quando vir fotografias da nossa terra aí dos seus lados. Meu Deus! Tem momentos em que eu tenho fome, mas positivamente fome física, estomacal de Brasil agora. Até que enfim sinto que é dele que me alimento! Ah! si eu pudesse nem carecia você me convidar, já faz muito que tinha ido por essas bandas do norte visitar vocês e o norte. Por enquanto é uma pressa tal de sentimentos em mim que não espero e nem seleciono. Queria ver tudo, coisas e homens bons e ruins, excepcionais e vulgares. Queria ver, sentir, cheirar. Amar já amo. Porém você compreende, Luís, este Brasil monstruoso, tão esfacelado, tão diferente, sem nada nem siquer uma língua que ligue tudo, como é que a gente o pode sentir integrado caracterizado, realisticamente? Fisicamente? Eu quando me penso brasileiro, e você pode ter certeza que nunca me penso paulista, graças a Deus tenho bastante largueza dentro de mim pra toda esta costa e sertão da gente, quando me penso brasileiro e trabalho e amo que nem brasileiro, me apalpo e me parece que sou maneta, sem um poder de pedaços de mim, que eu não posso sentir embora meus, que estão no mistério; que estão na idealização, posso dizer até que estão na saudade!..."

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 26/06/1925. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 35.)

 
 

"Como eu vivo e vibro de ânsia brasileira! Veja si me compreende este pequenino poema Acreano em que disse apenas que senti derrepente e que é indescritível,(...) porque um desses momentos de angustia amorosa sublime em que é tão forte a corrente de comoção, tão ansiados os sentimentos, tão contraditórios, tão interpostos e simultâneos. (...) É melhor dizer simplesmente com que for como a gente compreenderá o dizer:

Poema Acreano

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti uma friagem por dentro
Fiquei tremendo muito comovido.
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte,
meu Deus !,
muito longe de mim,
na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem alado, negro de cabelo
nos olhos.
Depois de fazer uma pele com a
borracha do dia
Faz pouco se deitou , está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu."

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 26/06/1925. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 36.)

 

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Grupo de Mário, hotel, 1918

"Ao menos me sobra esta certeza de que ninguém amou mais do que eu os brasileiros do Brasil. Se não faço nada por eles é porque Deus não me deu o destino dos fazedores. Assim mesmo vou trabalhando no meu canto e não tenho vergonha de mim."

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 26/06/1925. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 36.)

   
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"E quanto a informações sobre gente do norte tem valor inestimável pra mim. Que horror! Você fala de pessoas e cita versos legítimos que me dão a impressão de ser de algum país desconhecido e que eu estava longe de imaginar. No entanto, são iguais aos daqui e são legitimamente da mesma pátria, nem milhores nem piores... Também creio que em parte a culpa foi minha de ignorar tanta gente minha, vivi tanto de minha vida na Europa!... Em todo caso tive a coragem e a franqueza de me penitenciar e começar minha vida legítima a tempo, não acha?"

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 21/04/1926. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 60.)

"Não sei si já te contei ou não mas em Dezembro estive na fazenda dum tio e... e escrevi um romance. Romance ou coisa que o valha, nem sei como se pode chamar aquilo. Em todo caso chama-se Macunaíma. É um herói taulipangue bastante cômico. Fiz com ele um livro que me parece não está ruim e sairá em janeiro ou adiante, do ano que vem. Minha intenção foi esta: aproveitar no máximo possível lendas tradições costumes frases feitas etc. brasileiros. E tudo debaixo dum caracter sempre lendário porém como lenda de índio e de negro. O livro quasi que não tem nenhum caso inventado por mim, tudo são lendas que relato. Só uma descrição de macumba carioca, uma carta escrita por Macunaíma e uns dois ou três passos do livro são de invenção minha, o resto tudo são lendas relatadas tais como são ou adaptadas ao momento do livro com pequenos desvios de intenção.(...) Um dos meus cuidados foi tirar a geografia do livro. Misturei completamente o Brasil inteirinho como tem sido minha preocupação desde que intentei me abrasileirar e trabalhar o material brasileiro. Tenho muito medo de ficar regionalista e me exotisar pro resto do Brasil. Assim lendas do norte botei no sul, misturo palavras gaúchas com modismos nordestinos ponho plantas do sul no norte e animais do norte no sul etc etc. Enfim é um livro bem tendenciosamente brasileiro."

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 01/03/1927. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 75.)

 

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"Meu sonho me puxa, não sei explicar, sei é que minha vista vê com fome tal largo de Belem, a praia de Tambaú, as rochas de Areia Preta, a largueza largada da avenida Jundiaí, tal igarapé do Rio Madeira.(...) o Norte faz de tal forma coincidir meu corpo com minha alma que só aí eu poderia ter a verdadeira paz de mim que eu carecia e ingenuamente penso que mereço. E essa é a verdade."

(Carta a Luís da Câmara Cascudo, 18/07/1931. In: ANDRADE, Mário: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Villa Rica, 1991, p. 111.)

 

"A imagem de Jesus na altura mais grandiosa da capital da República representa incontestavelmente muito do nosso Brasil. A nossa vida histórica dos tempos coloniais está de tal forma presa à religião católica que se pode dizer que nosso destino foi afeiçoado por uma ideologia fradesca. (...) A estátua do Cristo é também a representação da nossa ‘civilização’ atual, importada e por muitas partes falsa pra nós. Neste sentido o monumento é um símbolo trágico. Civilização cristã... Deram o nome dum Deus a uma civilização terrestre cujo desenvolvimento tem sido um continuado afastamento da qüididade crística.(...)

Essa civilização construída por outros povos, com outras necessidades e outros climas, passou pela nossa alfândega, como um aerólito fulgurante. (...) A imagem de Cristo no tope do Corcovado, se representa uma felicidade da nossa tradição, se representa uma das medidas do nosso ser rotulado, representa ainda o aerólito a que nos escravizamos. Que falseamos. E que nos falseia inda mais. A imagem será chamada de Cristo-Redentor, pelo que poderá valer em nossa contemporaneidade. Mas como índice da civilização brasileira, é apenas Cristo-Rei. A imagem será chamada de Cristo-Rei enquanto símbolo duma civilização que nos falseia demais."

("Cristo-Deus", crônica publicada no Diário Nacional em 18/10/1931. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.447 e 448)

"É certo que essa fase nacionalista não será a última da evolução social da nossa música. Nós ainda estamos percorrendo um período voluntarioso, conscientemente pesquisador. Mais pesquisador que criador. O compositor brasileiro da atualidade é um sacrificado, e isso ainda aumenta o valor dramático empolgante do período que atravessamos. O compositor diante da obra a construir, ainda não é um ser livre, ainda não é um ser ‘estético’, esquecido em consciência de seus deveres e obrigações, Ele tem uma tarefa a realizar, um destino prefixado a cumprir, e se serve obrigadamente e não já livre e espontaneamente, de elementos que o levem ao cumprimento do seu desígnio pragmático."

(In: Aspectos da música brasileira. Belo Horizonte, Villa Rica, 1991, p. 16 e 17)

   
 

"(...) Embora se integrassem nele figuras e grupos preocupados de construir, o espírito modernista que avassalou o Brasil, que deu o sentido histórico da Inteligência nacional desse período, foi destruidor. Mas esta destruição, não apenas continha todos os germes da atualidade, como era uma convulsão profundíssima da realidade brasileira. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional.

Nada disso representa exatamente uma inovação e de tudo encontramos exemplos na história artística do país. A novidade fundamental, imposta pelo movimento, foi a conjugação dessas três normas num todo orgânico de consciência coletiva."

(In: Aspectos da literatura brasileira. São Paulo, Martins/ Brasília, INL, 1972, p. 242.)

 
 

"A literatura científica alemã (...) constituiu por assim dizer... a base física do espírito. Base física, alicerce. É um mundo de fixidez e regulamentação astronômica. Com essa base e dessa profundeza, os latinos da Europa e os americanos da América, façamos nossas estrelas! (...) Não me parece que haja no mundo atualmente ninguém que precise mais que o brasileiro duma base física bem germânica pro seu espírito. Inteligência fuque-fuque, brilhação espiritual exterior, fogo-de-artifício de palanfrório, colocação de pronome, Brasil com esse e metáforas lindíssimas, isso é que não nos falta absolutamente. Falta é a base física. O dia em que fundearmos a nossa Nau Catarineta desarvorada e luminosa, no porto sossegado e habilitado da ciência alemã no original (alemão é tão esquisito que não se pode jamais traduzir com perfeição) então, gentes do mundo, vocês verão com quantos paus se faz esta canoa."

("Artes gráficas", crônica publicada no Diário Nacional em 21/09/1930. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.253)

"Os nossos críticos [literários] procedem sempre nas suas generalizações apressadas e grosseiras ‘em função da cultura européia’. Na verdade, eles são insanáveis europeus, viajantes de nossa terra e gente, turistas da nossa manifestação e, o que é pior, turistas caceteados, turistas por obrigação, sem nenhum prazer e sem nenhum amor."

("Álvares de Azevedo - I", crônica publicada no Diário Nacional em 22/03/1931. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.355)

 

"Nós já temos um passado guaçú e bonitão pesando em nossos gestos; o que carece é conquistar a consciência desse peso, sistematizá-lo e tradicionaliza-lo, isto é, referi-lo ao presente."

(Entrevista concedida ao jornal A Noite, Rio de Janeiro, 12/12/1925. In: Cartas de Mário de Andrade a Prudente de Moraes Neto 1924-1936. Organizado por Georgina Koifman. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p. 150.)

"Oh vós, homens que viveis no sertão, porque me tratais assim! Eu quero ser como vós, vos amo e vos respeito!"

("A pesca do dourado", crônica publicada no Diário Nacional em 06/07/1930. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.219)

   
 

"As almas dos homens populares são visibilíssimas. Porém jamais se tem segurança delas. Escapolem da nossa compreensão, numa barafunda admirável, entre iluminações e bobagens, filosofia profunda e precariedades intelectuais. Daí minha paixão pela literatura popular, livre da literatice, livre da facilidade, sem rei nem roque, um mundo!"

("Teuto-brasileiro", crônica publicada no Diário Nacional em 27/07/1930. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.227)

 
 

"Estou me lembrando agora de dois passos que guardo na memória deslumbrada. Um deles foi do cantador nordestino, Chico Antônio, (...) O outro foi dum indígena peruano da tribo dos Huitota. Andou na minha frente um estirão pesado... O caminho parecia trilho de gado, caracteristicamente ameríndio e eu não cabia nele. Lá fui, pisando campo verde. O índio na minha frente, não é que dançasse, andava, mas os passos dele tinham uma fluidez quase bailarina e tão pacífica que a morosidade da tarde vinha buscar neles um vento pra se estimular. Andavam rápidos sem certeza de chegar, sem nenhum som, mas completos, pés na terra eram terra, e no ar se faziam ar numa invisibilidade perfeita. Esse índio era feio, negrejante por causa do jenipapo. Os pés dele também, um triângulo chato. Mas estes pelo menos ainda eram bem natureza, naquele corpo de calça e paletó, pedindo que mais pedindo meus soles e seus quebrados prás cachaçadas futuras. Não podendo simpatizar com o civilizado, amei-lhe os pés, que eu também me pretendo entre os amantes da natureza. Quando permito que o passado se lembre de mim, às vezes sinto esses pés huitota andando na minha memória. E à medida que o tempo me afasta deles, vão ficando cada vez mais passos e cada vez mais memória. Isto é: cada vez mais velozes e cada vez mais lindos. É possível até que nem fossem tão maravilhosos assim, mas eles têm a seu favor o serem já agora incontroláveis e a comoção que me deram um dia. Só eu os posso identificar com a minha memória, e só pelo que está neste papel é que os homens podem saber o que foram os passos."

("De-a-pé - III", crônica publicada no Diário Nacional em 22/12/1929. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.173)

 

"Toda a gente diante da vitória-régia fica atraído, como Saint-Hilaire ou Martius, ante o Brasil. Mas vão pegar a flor pra ver o que sucede! O caule e as sépalas, escondidos na água, espinham dolorosamente. A mão da gente se fere e escorre sangue. O perfume suavíssimo que encantava de longe, de perto dá náusea, é enjoativo como o que. E a flor, envelhecendo depressa, na tarde abre as pétalas centrais e deixa ver no fundo um bandinho nojento de besouros, cor de rio do Brasil, pardavascos, besuntados de pólen. Mistura de mistérios, dualidade interrogativa de coisas sublimes e coisas medonhas, grandeza aparente, dificuldade enorme, o melhor e o pior ao mesmo tempo, calma, tristonha, ofensiva, é impossível a gente ignorar que nação representa essa flor..."

("Flor nacional", crônica publicada no Diário Nacional em 07/01/1930. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.184)

 

"O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria, nem consciência tradicional"

(Entrevista concedida ao jornal A Noite, Rio de Janeiro, 12/12/1925. In: Cartas de Mário de Andrade a Prudente de Moraes Neto 1924-1936. Organizado por Georgina Koifman. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p. 264.)

   
   

"Esse meu nacionalismo não pensem que é chauvinismo e muito menos regionalismo. É amor humano e único meio de nós brasileiros nos universalizarmos. Porque a maneira com que um povo se universaliza é quando concorre com seu contingente particular e inconfundível pra enriquecer essa coisa sublime, uniforme mas múltipla que é a humanidade."

(In: Cartas de Mário de Andrade a Prudente de Moraes Neto 1924-1936. Organizado por Georgina Koifman. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p. 150.)

 

"De outras e muitas grandezas vos poderíamos ilustrar, senhoras Amazonas, não fora perlongar demasiado esta epístola; (...) Mas cair-nos-íam as faces, si ocultáramos no silêncio, uma curiosidade original deste povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. Assim chegado a essas plagas hospitalares, nos demos ao trabalho de bem nos inteirarmos da etnologia da terra, e dentre muita surpresa e assombro que nos deparou, por certo não foi das menores tal originalidade lingüística. Nas conversas, utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes e também nas vozes do brincar. Destas e daquelas nos inteiramos, solícito; e nos será grata empresa vô-las ensinarmos aí chegado. Mas si de tal desprezível língua se utilizam na conversação os naturais desta terra, logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade e surge o Homem Latino, de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma que, com imperecível galhardia, se intitula: língua de Camões!"

("Carta pras icamiabas" In: Macunaíma. Madrid, ALLCAXX, 1996, p. 84)

"Isso, pra mim, é uma fatalidade da nossa condição americana. É raro que possamos dar homens raçados na inteligência. É mais fácil a gente fazer um gesto ou ter uma idéia de gênio do que praticar uma vida homogênea. Falta passado, falta norma e tradição de grandeza por detrás, funcionando como fatalidade, obrigando a gente a ser homogêneo.(...)

Certamente Manoel Bernardes não teve tamanha genialidade como José de Alencar, nem Campoamor ou Boileau certos passos e certas perfeições geniais tamanhas como as de Cláudio Manuel. Porém os da Europa tinham já por tás uma cerca farpada de morros fazendo bem prá eles, dizendo a eles: - o caminho é por aqui, gente! – E foram obrigados a fazer o caminho. À força, independente deles. (...)

Faltou cerca pros nossos dois. E ainda me melancoliza mais estar imaginando que eles não conseguiram também erguer a cerca prá nós".

("Centenários", crônica publicada no Diário Nacional em 22/06/1929. In: Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo, Duas Cidades/Secretaria de Cultura, 1976, p.128)

 



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