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NO BALANÇO DA REDE A
correspondência entre Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade, Silvia Ilg Byington
Desafios e emboladasNo dia 14 de agosto de
1924 o escritor paulista Mário de Andrade escreveu uma carta ao
jornalista e crítico literário potiguar Luís da Câmara Cascudo em
resposta ao seu artigo publicado dois meses antes em um jornal de
província no qual afirma sua admiração pelo “arrojo deste singular
temperamento de artista e criador” incorporando Lohengrin no
“teatro onde todo o talento se acoitara madorrando[sic]”[2].
A carta é breve, quase um bilhete, certamente bem curta para o padrão da
correspondência de Mário de Andrade. Mas bastante generosa em
agradecimentos e elogios ao “estilo da actualidade”[3]
por ele observado na escrita de Câmara Cascudo. Misturadas aos
elogios, chamam a atenção as considerações sobre as turbulências vividas
no período e sobre si próprio: “Luis da Camara
Cascudo.
Você há-de permitir à
minha modéstia que confesse a alegria que me deu o seu artigo. Muito
obrigado. Sempre traz conforto à gente ver que de todo não é
improfícua a empreitada que se deu de renovação, prolífera
principalmente em desgostos, lutas, calúnias, desilusões.
(...) Nós estamos num
período de quinas e pontas. Quem não sabe andar com flexibilidade
vive a receber pontaços e machucões.(...)
Acredite que não me
esquecerei mais de você. Não tanto por agradecido. Isto é, sim: por
agradecido. Gratidão maior que lhe tenho da revelação de mais uma
inteligência viva e eficaz. Nunca fui caçador de elogios. Criei para
meu uso uma couraça de tatú onde os elogios resvalam. Mas não há
tatú, por mais ressabiado, por mais duro de costado que não tenha o
seu... calcanhar de Aquiles. ( Deixe passar a imagem! Dirigida a um
tatú tem ares de novidade.) Meu ponto vulnerável é a confirmação das
inteligências fortes. Você tocou-me rijo.
Um sincero aperto de
mão.
Mario de Andrade.
Rua Lopez Chaves, 108.”[4]
Carta recebida, carta respondida. Câmara Cascudo escreveu em resposta a Mário de Andrade de imediato, considerando que o tempo de envio de correspondência era algo em torno de 10 dias e que sua carta está datada de 25 de agosto. Junto com a carta, enviou seus dois livros mais recentes: Joio, seleção de textos de crítica literária e Histórias que o tempo leva, crônicas sobre a história do Rio Grande do Norte, província onde morou por toda a vida.[5] Em breve mensagem, com caligrafia apressada, Cascudo registra seus agradecimentos e, irônico, devolve os elogios, sem deixar de apresentar-se num tom igualmente coloquial: “ Mario de Andrade.
Não há de que. Pelo
contrário. Eu é que lhe estou devendo o pretexto, o motivo, o tema,
o lombo, o fazer-barulho. Vê então?.. (...) Para que quer assanhar
caixa de marimbondo? Conhecer-me? Pois aí vai o pedido audacioso,
Lohengrin lascivamente novo n’um país de cosas pouco
curiosas.
(...) Muito me julgarei
célebre se souber de sua opinião sobre os meus livros.
Aqui estou as suas
ordens, meu caro amigo. Muito me julgarei honrado merecendo uma
ordem sua. Na falta de ordem mande um retrato. Desejava dá-lo a uma
revista d’aqui do Norte Eu sou “presentista”. Amo a você (sentido
figurado), detesto os seus imitadores, destes o Norte está cheio.
Peccato!
Com admiração seu
Luis da Camara
Cascudo.”
[6]
Cordiais saudações guiando-os entre o senso de familiaridade e de estranheza, causados pelas palavras do outro, experiências indissociáveis no encontro. Nas apresentações, procuram identificar a si próprios através de expressões de impacto e declarações exaltadas que os situam como agentes de um período histórico de intensas transformações sociais e políticas, como foi a década de 20 no Brasil. Se por um lado é central neste estudo acentuar a importância dos testemunhos individuais e sublinhar as diferenças entre as perspectivas dos autores, marcadas por seus distintos lugares sociais, por outro é necessário traçar as especificidades da temporalidade histórica aqui tratada. Destas primeiras saudações de Mário de Andrade e de Câmara Cascudo percebe-se, pelas imagens utilizadas, que nada poderia ser mais familiar e ao mesmo tempo mais exótico do que a experiência histórica narrada pelas palavras de um contemporâneo – assim como são distintas as imagens de um tatu e de um vespeiro. No entanto, ambas assinalam em uma perspectiva histórica, a postura combativa dos escritores em relação à tradição literária compartilhada pelos homens de letras de então. Como eles, membros de uma elite cultural brasileira que, historicamente em sua relação com a sociedade, imbui-se da missão de representá-la e ordená-la através de suas instituições, constituindo-se no que o crítico literário Angel Rama chama de uma “cidade letrada”[7]. Neste sentido, o movimento Modernista e seus emblemas como a Semana de Arte Moderna são entendidos como projetos de renovação estética de uma parcela desta elite letrada. Projetos que, se por um lado são influenciados pelas idéias e criações das vanguardas européias ao absorverem sua estética e parte de suas questões, por outro, inserem-se no processo histórico de modernização política, econômica e social de setores da sociedade brasileira e que, portanto, estão relacionados ao conjunto de movimentos políticos de contestação à ordem da República Velha que marcaram a década de 1920. Acontecimentos como a fundação do Partido Comunista Brasileiro, em 1922, os Levantes tenentistas de 1922 e 1924, assim como seus desdobramentos posteriores, são exemplos de distintos projetos de modernização política e registram as rachaduras na ordem política instaurada pela elite oligárquica cafeeira, construtora e sustentáculo da República Velha. Esta, tendo seus valores de civilização e progresso amplamente representados e difundidos pelos letrados desta mesma “cidade das letras” tem seus projetos inscritos no imaginário e no tecido social. Realizada neste emblemático ano de 1922, a feérica Exposição Internacional do Rio de Janeiro, significativamente chamada de Exposição do Centenário da Independência, é um dos exemplos da afirmação de sua hegemonia cultural e da continuidade de seus projetos. O movimento de renovação literária Modernista, como discurso de ruptura em relação à tradição e como conjunto multifacético de projetos políticos e culturais, apresenta duas fases distintas. Em um primeiro momento, a questão para os intelectuais que promoveram as primeiras manifestações críticas seria a necessidade de atualização da produção artística brasileira em função de referências estéticas internacionais, entendidas como autênticas por sua relação com as questões políticas e sociais trazidas pelo pós-guerra. Identificados com os novos problemas e compassos da modernidade enfrentados e interpretados pelos artistas e pensadores europeus, os intelectuais brasileiros encararam a realidade brasileira com novas lentes . Nesta fase que durou até meados da década, um dos elementos marcantes do movimento, segundo Eduardo Jardim de Moraes, seria a polêmica contra o passadismo, que identificou os artistas como “futuristas”, generalização da designação original do movimento vanguardista italiano da primeira década inaugurado com o manifesto literário de Filippo Marinetti.[8] Em seus primeiros anos, o movimento resume-se a um pequeno grupo de artistas, crescente em número e influência no meio literário no decorrer da década, que lançou-se em busca de novos temas e formas de expressão que estivessem em conformidade com o momento em que viviam e atuavam, experimentado por eles em suas transformações e dinamismo. Através de suas obras e de manifestos estéticos, voltaram-se em campanha contra o que para eles era o motivo da falta de vitalidade e de sentido de realidade da produção artística e intelectual da época, a criação pautada pelos cânones de um academicismo herdado do séc. XIX. Para expressar a realidade brasileira desejada pelos artistas novos, estes padrões literários haviam se tornado obsoletos e inadequados como velhas importações herdadas da tradição portuguesa. Unidos pelo “grande desejo de expressão livre” e pela “tendência para transmitir, sem os embelezamentos tradicionais, a emoção pessoal e a realidade do País” [9], percorreram o campo da experimentação estética, recriando estilos, vocabulário, sintaxe, temas e gêneros artísticos. Os primeiros eventos ocorridos, resultados de experiências pioneiras, foram isolados e não causaram grande impacto fora do panorama de São Paulo, como a exposição de Anita Malfatti, em 1917 ou a campanha renovadora lançada na imprensa local por Oswald de Andrade e Menotti del Picchia.[10] A partir da Semana de Arte Moderna de 1922 o movimento adquiriu maior repercussão no panorama nacional. Contando com a participação de intelectuais de São Paulo e do Rio de Janeiro, entre eles Mário de Andrade e seus poemas de Paulicéia desvairada, o evento reuniu exposições de artes plásticas, concertos, recitais, conferências e atuações teatrais que provocaram reações como vaias e tumultos envolvendo artistas e público [11]. Mais pelo viés do escândalo do que pelo ainda confuso sentido específico da Nova Arte, as idéias tomaram forma de campanha, difundida rapidamente pelo ambiente cultural do Rio de Janeiro, onde o movimento ganhou múltiplas adesões, portanto, novos enfoques através de polêmicas e debates que ocupavam os homens de letras em seus espaços e instituições. Amplificadas pela imprensa carioca e pela postura militante dos artistas modernistas, as diversas propostas de renovação foram recebidas e interpretadas nos meios intelectuais das outras regiões, em especial em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul e na região Nordeste, nos anos seguintes da década [12]. Em uma segunda fase do movimento, identificada pelos autores especializados a partir de 1924, a questão da atualização estética cede espaço para o tema de construção de uma nova literatura nacional, como representação afinada com a realidade brasileira, questão que irá ampliar-se, num segundo momento, no projeto de elaboração de uma identidade cultural para a nação[13]. Sublinha-se aqui uma série de aspectos das distintas esferas de interpretação histórica que conformaram os rumos do movimento modernista neste momento: dos acontecimentos políticos como os levantes tenentistas que marcaram a década à influência da vanguardas artísticas francesas e sua proposta de retorno ao primitivo como fonte de criação, há um conjunto de fatores internos e externos à sociedade brasileira que colocam no centro dos debates modernistas da segunda metade da década de 20 as noções de nacionalismo e de brasilidade. O ponto de partida destes debates foi a publicação, em 1924 do “Manifesto pau-brasil” pelo escritor Oswald de Andrade que, com a sugestão da redescoberta do Brasil pelos brasileiros, introduz a problemática do nacionalismo literário no movimento: “só seremos modernos se formos nacionais”. [14] Passam a ser valorizados elementos que, antagonicamente segundo o texto, constituem a realidade histórica nacional, constituem como pólos opostos a “brasilidade”, dos “casebres de açafrão e de ocre nos verdes das favelas” e a “formação étnica rica” às “turbinas elétricas” e as “questões cambiais”[15]. Como afirma Moraes, “Até 24 o importante
era o processo de modernização-atualização e o combate a quaisquer
formas de passadismo. No Pau-Brasil não é o passado genérico
que é negado, mas parte concreta deste passado, o lado doutor,
aquele que escondia, em função do processo de transplantação
cultural, o verdadeiro passado brasileiro. Daí a recuperação do
nosso lirismo, dos traços bárbaros da civilização brasileira.(...)
Nosso material cultural deve ser descoberto aqui mesmo.”[16]
Na busca pela valorização nacionalista de um certo passado, o manifesto apresenta um caminho de resposta para a indagação feita então pelos modernistas de qual o caminho tomar para a construção da cultural brasileira. Constituindo um marco a partir do qual se definiram diversas posições dentro do modernismo, o manifesto explicita dois aspectos que irão conformar as propostas deste período, as noções de integração e de alma brasileira. Está presente nas distintas posições que serão demarcadas neste período – desde o movimento verde-amarelo de Plínio Salgado que segue as proposições de Oswald às formulações diferenciadas de Mário de Andrade – a idéia de que a literatura brasileira para ser universal, deve ser primeiramente nacional e para isso, deve relacionar presente e passado histórico, assim como dar conta das aparentes disparidades culturais da realidade brasileira. Igualmente é central nas formulações dos modernistas a busca pelo “caráter” brasileiro, o que expressa uma visão psicológica de nossa realidade, de que existiria uma alma brasileira a ser captada pelos novos missionários. Formulada mais uma vez, a pergunta de como abrasileirar nossa cultura, é respondida de inúmeras formas por estes agentes culturais. Da vertente autoritária e intuitiva de Plínio Salgado ao projeto liberal “erudito” de Mário de Andrade é parte importante da herança deixada pela perspectiva modernista a valorização da “obra de nossos antepassados, sobretudo nossos antepassados populares, não contaminados pelo eruditismo de importação.”[17] A aproximação entre Mário de Andrade e Câmara Cascudo, que ocorre pela mútua admiração intelectual e pelo reconhecimento de uma postura estética renovadora adotada por ambos nestes anos 20, insere-se neste momento de inflexão e pulverização do movimento em que, juntamente com os ataques aos passadistas, os autores voltam-se para a questão das novas possibilidades de representação da realidade, afirmando seus projetos. Neste ano de 1924, Mário de Andrade, então com 31 anos, já havia publicado três livros de poemas [18], artigos em jornais e colaborações em revistas como a Klaxon[19], Revista do Brasil e América Brasileira. Formado em Música pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, já era então um requisitado professor de piano ao mesmo tempo em que iniciava suas pesquisas de musicógrafo, interesse que marcou sua produção intelectual posterior, sendo este o aspecto privilegiado em seus estudos etnográficos sobre a cultura brasileira. Tornara-se um dos intelectuais de destaque no movimento a partir da repercussão de sua participação na Semana de Arte Moderna e de seus poemas escandalosos de Paulicéia desvairada [20], e por sua atuação combativa e polêmica na imprensa, em seus ataques contra obras e autores passadistas – termo referido aqueles que, segundo Mário de Andrade, continuavam a utilizar referências “além tumulistas” do século anterior para compor suas obras em descompasso com a época vivida que exigia “noções exatas”[21]. Manifestando-se de forma combativa a favor da renovação estética, Mário acusava esta tradição passadista de impedir a liberdade de criação e inviabilizar a função social da arte – e do artista – de expressão comprometida com a realidade, sendo este o tema de seu livro de ensaios críticos, A escrava que não é Izaura, escrito em 1924 e publicado no ano de 1925. A respeito deste seu trabalho, declara: “A necessidade de me fundar em normas e teorias bem organizadas me fez fazer todos aqueles estudos que deram teoricamente na Escrava (...)”[22]. Em um dos ensaios, constrói a imagem de si mesmo como artista moderno, caracterizado em um estado de “cisma”, angustiado pela consciência de seu novo papel, dado pelo caráter de sua época artística: “A realização sincera
da matéria afetiva e do subconsciente é nosso realismo. Pela
imaginação deformadora e sintética somos estilizadores. O problema é
juntar num todo equilibrado essas tendências contraditórias.
Contradigo-me. Erro. Firo-me. Tombo. Morrerei? É coisa que não me
preocupa nem perturba. Em todos os períodos construtivos é
assim.(...)
Somos homens duma
imaginação dominadora quase feroz. Inegável. Apesar disso: críticos,
estudiosos, esfomeados de ciência, legitimamente intelectuais. Donde
vem pois esse estado de cisma contínua,(...) que apresentam muitas
vezes as criações dos poetas modernistas senão da fadiga
intelectual? (...) Deveremos reagir contra isso? É muito provável
que sim. (...) Qual a obrigação do artista? Preparar obras imortais
que irão colaborar na alegria das gerações futuras ou construir
obras passageiras mas pessoais em que as suas impulsões líricas se
destaquem para os contemporâneos como um intenso, veemente grito de
sinceridade? Há nessas duas estradas, numa a obrigação moral que nos
atormenta, noutra a coragem de realizar esteticamente a atualidade
que seria ingrato quase infame desvirtuar, mascarar, em nome dum
futuro terreno que não nos pertence. Deus nos atirou sobre a Terra
para que vivêssemos o castigo da vida ou preparássemos a mentira de
beleza para vidas porvindouras? Dores e sofrimentos! Dúvidas e
lutas. Sinto-me exausto.(...) E ante a risada má, inconsciente,
universal tenho a orgulhosa alegria de ser um homem triste. E
continuo para frente. Ninguém se aproxima de mim. Gritam de longe: -
Louco! Louco! Respondo: Loucos! Loucos! (...) “
[23]
Nestes trechos em que são colocadas em forma de indagações as questões do artista-intelectual, sentindo-se exaurido e incompreendido pelos contemporâneos, está contida uma confissão de fé. Enfrentando as vaias, o intelectual Mário de Andrade explicita a sua escolha pela arte comprometida com a atualidade, zombando da incompreensão de seus contemporâneos e de sua própria solidão, estado constante em sua trajetória biográfica, gerado pelo posicionamento crítico em relação ao seu próprio meio, pela devoção à sua missão de artista e intelectual, que para ele consistia em construir uma identidade cultural para a nação. Luís da Câmara Cascudo, cinco anos mais novo, filho único de um abastado comerciante de Natal, representa, no início da década de 20, no incipiente meio literário de Natal uma referência intelectual central na vida cultural da cidade. Como crítico literário atuante teve papel fundamental na difusão dos acontecimentos dos grandes centros, tanto nas rodas sociais da elite local, nas quais a residência de seu pai, a Chácara do Tirol, era referência obrigatória, quanto nos espaços mais populares da boemia, que sempre freqüentou e onde mantinha contatos com outros intelectuais e poetas da cidade[24]. Registrava, divulgava e atualizava através de resenhas e artigos semanais publicados n’A Imprensa, as idéias e eventos ligados tanto à campanha modernista quanto ao movimento regionalista que o influenciava pelos contatos com o meio literário do Recife, o centro de referência intelectual da região. Em especial, Câmara Cascudo foi correspondente de Gilberto Freyre, Joaquim Inojosa e Ascenso Ferreira. A partir de sua província, Cascudo travou contato com diversos grupos de intelectuais, sem identificar-se a nenhum deles. Em fins do ano de 1922, visitou São Paulo em companhia de Monteiro Lobato[25]. – um crítico incisivo da arte moderna – e esteve no Rio de Janeiro, onde apreciou os sinais do progresso, inscritos nas modernas tecnologias de comunicação. Expressando sua identidade de intelectual cosmopolita, registrou para seus leitores na província a visita a uma agência jornalística: “Visito os
departamentos, os arquivos, as instalações...Há o estrepido das
Remingtons e Underwoods, o tinindo dos telefones ligados a São
Paulo...É a sala das maravilhas.(...) O diretor presidente é o meu
cicerone amabilíssimo. O sr. Carvalho de Azevedo é uma celebração de
patriota eficiente. Centralizou a sua energia criadora decuplicando
as possibilidades de progresso, no país, pela divulgação das nossas
coisas. Tive entre as mãos jornais da Itália, Espanha, França,
Estados Unidos; mil formas, mil tipos, mil impressões anotando fatos
brasileiros” [26]
No entanto, o contato com os intelectuais modernistas pernambucanos parece ter sido umas das referências fundamentais em suas considerações acerca da renovação literária. Em sua singular posição de literato na província, de temperamento irriquieto e intensa produção, Cascudo absorveu as idéias modernistas em suas distintas formulações, fossem elas vindas dos centros hegemônicos de difusão do sul, São Paulo e Rio de Janeiro, através de sua correspondência ou vindas do meio literário pernambucano, para onde viajava constantemente. [27] Quando inicia a correspondência com Mário de Andrade, Câmara Cascudo já havia publicado dois livros de crítica literária, Alma Patrícia, em 1921 e Joio, em 1924, registrando as obras de escritores e poetas norte-riograndenses desde o século XIX e reunindo ensaios críticos, desdobramentos das pesquisas que desenvolveu, visando a valorização e fixação da identidade regional, em textos sobre a tradição literária norte-riograndense escritos para a Revista do Centro Polymathico, publicação trimestral que circulou entre 1920 e 1922 e que era dirigida por ele[28]. Neste ano de 1924, publica ainda um livro sobre o Rio Grande do Norte, Histórias que o tempo leva, em que narra através de crônicas, casos marcantes que pontuaram a história da província. Estas publicações buscaram constituir, pelo registro e pela análise crítica, um conjunto de obras que fundasse uma tradição literária regional, em especial, referida à história do Rio Grande do Norte. Assim, identifica no regionalismo o impulso de constituição de uma autenticidade literária, uma literatura que não fosse, segundo suas palavras, “...uma literatura de
reflexo ... Isso quer dizer que somos amadores das letras.
Não implica ausência de cultura [,] instinto de seleção, este olvido
de regionalismo. Significa que a absorção diária da vida asfixiante
de província seduz a esterilidade desarmadora da renúncia aos
primeiros impulsos de renovação.” [29]
No mesmo período do artigo citado por Mário em sua carta, em que aplaude a figura do modernista paulista – “a maior originalidade que posso encontrar no escritor brasileiro é o de apresentar-se com o aspecto natural de sua inteligência. (...) O sr. Mario de Andrade é o homem busca-pé, o foguete, o ele-mesmo.”[30] –, Câmara Cascudo escreve n’A Imprensa dois artigos sobre o escritor Graça Aranha e seu rompimento com a Academia Brasileira de Letras, ocorrido também em 1924[31]. Este episódio, integrante da série de polêmicas modernistas, foi importante no processo de difusão do movimento no nordeste.[32] Segundo Araújo, o discurso de Graça Aranha causou, até mesmo em Recife, bem mais impacto que a “semana doida” de 1922. [33] Câmara Cascudo registra o episódio formulando sua opinião através de dupla perspectiva. Critica a atitude de Graça Aranha como exemplo da recorrente tentativa de se formar escolas no meio literário nacional: “Melhor seria
convencer-se toda a gente que “escolas” só existem as de primeiras
letras... É tempo de acabar com esses guieiros de manadas
espirituais. Cada qual faça o que quiser ou puder. Onde vimos
renovação partir de um meio classicamente oficializado? Com fardas,
bordados, ‘jetons’ e palácios? Renovação vem de fora, das praças,
das bibliotecas particulares, dos exemplos pessoais. (...) “[34]
E pelo viés propositivo formula a questão que se impõe à intelectualidade modernista – do compromisso entre literatura e formação de uma identidade nacional, . Em um trecho do artigo, incomodado com o uso de modelos externos no processo de criação das obras de literatura, poesia ou pintura, algumas das múltiplas formas de arte da “era nova”, exemplifica o equívoco da iniciativa ao vislumbrar a literatura como possibilidade de acesso a uma tradição legítima nacional e como síntese, criação que, como havia sido proposto no mesmo ano no “Manifesto de poesia pau-brasil” integrasse a diversidade dos elementos regionais: “O que se devia fazer
era um mais sério e formidável trabalho de conhecimento entre o sul
e o norte. É deixarmos de julgar o nortista como matuto e o sulista,
um frívolo. E tentarmos um serviço de publicação que os fosse
reunindo, ligando, numa síntese vitoriosa de grandeza sadia.”[35]
Ao defender a liberdade de criação contra modelos impostos, lida pelo autor como um universo de referências original e autônomo – “O modernismo, o verdadeiro como eu tenho feito, é ser independente” [36], Cascudo acaba compondo uma significativa definição de si: “(...)Convenhamos que
as idéias associadas de Blaise Cendrars e a prosa rítmica de Gustave
Kahn não podem constituir moldes para mim, brasileiro impulsivo,
desigual, romântico, com o sangue cheio de pimenta, de azeite de
dendê, de sambas, de choros de yayá. O primeiro dever de uma
literatura tal qual deseja o sr. Graça Aranha é um país incolor. Um
país-maria-vai-te-com-as-outras.”
[37]
Trocando o sinal da segunda crítica, o colorido original brasileiro surgiria, portanto, de uma literatura que, deixando de “mastigar Cendrars e citar Jean Cocteau” [38], fosse construída, no limite, a partir da espontaneidade e independência individual de cada autor. Segundo ele, a expressão da terra é incolor e inodora porque os retratistas não se voltam para ela: “Veja a terra e nela faça residir o seu esforço.”[39] Cascudo, no entanto, explicita de antemão para os candidatos à aventura sugerida as cores e cheiros a serem representados: “brasileiro impulsivo, desigual, romântico, com o sangue cheio de pimenta, de azeite de dendê, de sambas, de choros de yayá.” As cores surgem de todas as partes, sendo o elemento regional, o particular, uma forte referência na composição da totalidade desejada e a garantia de sua autenticidade e originalidade. Da mesma forma, sua identidade individual transforma-se em atributo coletivo – o para mim transforma-se em para nós, quando desloca a afirmação de si para o país. O nome forte da amizade Cascudo avistara Mário de Andrade quando esteve em São Paulo, em 1922, em companhia de Monteiro Lobato, por entre as tramas urbanas do passado e do presente: “(,,,)Vi-o rapidamente
em 22 quando aí passei uns dias absorvido pelo Butantã,
Penitenciani, Suarteis, General Nerel, estátua de Bilac, Anhangabaú,
Brilozzara, fábricas, café, Santos e o sorvete do Penoni. Lobato (o
jeca-assú, meu amigo) mostrou-me o terrível Mario, de bigodinho e
claros dentes, n’uma rua que não sei se si chamava Líbero Badaró.
Nesse recuado e prehistórico tempo não comprei a Paulicéia
Desvairada cuja arlequinal e gritante capa assombrou-me no
coração os nomes de Casimiro de Abreu e de Vicente de Carvalho.
Adivinhasse que depois havia de querê-lo tanto faria, em pleno
triângulo, à cara do jeca e às faces do meu querido Rocha Ferreira,
uma cena muito parecida com as dos 5os. Atos em 1840.”
[40]
Aproximando os dois intelectuais, o primeiro diálogo entre Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo ocorre, não no “prehistórico” tempo de 1922, mas sim em 1924, através das cartas citadas. A partir desta inicial troca de autógrafos – no lugar de olhares e de apertos de mão – os dois mantiveram longa e regular correspondência, constituindo uma série epistolar que se estendeu até 1944, vésperas da morte de Mário de Andrade, aos 51 anos de idade, em fevereiro de 1945. Constituindo parte essencial do conjunto da produção dos intelectuais modernistas, a correspondência destes homens de letras muitas vezes contém indícios[41] do processo de criação de suas obras monumentais, feitas para durar. Dirigidas a indivíduos ou instituições, a jovens poetas de talento promissor, colegas literatos – camaradas ou verdadeiros desafetos – até a ilustres ocupantes de cargos oficiais, as cartas encaminhavam idéias e sugestões, estudos e notícias, pedidos de livros e de favores. Carregam e transformam em suas linhas desordenadas todo o universo de questões de que se ocupavam esses importantes agentes sociais. E neste sentido, ao registrarem os distintos universos de relações, as cartas são construtoras de um tempo social. São espaço de relação e diferenciação. No conjunto, a correspondência constitui-se em um vetor significativo para a interpretação da atuação desta elite cultural para a qual, segundo as palavras de Angela de Castro Gomes, “ a correspondência é
lugar de sociabilidade: é lugar de troca de idéias, de
construção de projetos, de amores e de ódios e por fim, mas não em
último lugar, de pedir emprego, porque intelectual geralmente é
pobre, mas é ambicioso.”[42]
Este primeiro cumprimento cordial inaugura uma interlocução, registrada na série, que acompanhou suas trajetórias biográficas no decorrer de 20 anos. Particularmente, registrou os encaminhamentos dos projetos intelectuais de renovação de cada um marcados pelo processo de transformação da inicial admiração intelectual, o que promoveu a aproximação a uma amizade intelectual que forjou a relação e o contato de tantos anos. O “nome forte da amizade” – lastro de seu mútuo reconhecimento como pares – imprime um dos sentidos da relação intelectual, construída no frágil equilíbrio entre relação pessoal e crítica, ameaçado à medida que seus projetos tomam rumos distintos. Uma interpretação da primeira carta de Mário de Andrade e seus efusivos cumprimentos a Câmara Cascudo como uma tentativa de aproximação deliberada delineia-se pelo perfil militante adotado nestes anos de difusão do movimento pelos artistas modernistas e, em especial, por Mário de Andrade na campanha de divulgação de suas idéias. O escritor expressava sua veia crítica não só através da atuação como escritor e jornalista, mas também em respostas particulares a opiniões manifestadas publicamente. É sabido que cultivava o hábito de responder por carta considerações que eram feitas a seu respeito, positivas ou negativas. E, certamente, a sua correspondência é uma das vias mais férteis para a análise de seu pensamento, com todas as armadilhas contidas nesse tipo de documento. Embora a primeira vista pareça inesperado o fato de um jornal de circulação restrita ter chegado às suas mãos, o certo é que o artigo de Câmara Cascudo chamou a atenção de Mário de Andrade e motivou o envio da mensagem de agradecimento, estímulo e solidariedade, gestos comprometidos com a divulgação das idéias modernistas. Certamente este é um aspecto importante a ser considerado na análise da correspondência de Mário de Andrade. Suas cartas podem ser lidas como o traçado de uma escrita doutrinadora, expressão do devoto ao projeto de renovação do papel da arte e do artista na sociedade. Esta disposição panfletária é explícita em carta à pintora Tarsila do Amaral neste ano de 24, “Estou inteiramente
pau-brasil e faço uma propaganda danada do pau-brasilismo. Em Minas,
no Norte, Pernambuco, Paraíba, tenho amigos que estou
paubrasileirando.”[43]
Nas cartas, incluídas as enviadas para Câmara Cascudo, Mário “aconselha, admoesta, comenta, discorda, prega, teoriza, doutrina, corrige poemas e outros escritos”. [44] Faz-se presente em cada atento comentário. Um adorável e poético “sedutor” [45] de seus destinatários, Mário não difere tanto assim de seus correspondentes se for considerado o fato de que a sedução é um elemento constitutivo da argumentação e que esta ocorre em mão dupla na troca do texto epistolar. Uma passagem da primeira carta que Câmara Cascudo escreve a Mário de Andrade, já reproduzida acima é significativa desta troca: “Ser seu admirador é
hoje um lugar comum. Muito me julgarei célebre se souber de sua
opinião sobre meus livros. (...) Aqui estou às suas ordens, meu
caro amigo. Muito me julgarei honrado merecendo uma ordem sua.
(...) Amo a você (sentido figurado) “
As palavras de Cascudo a primeira vista confirmam a relação desigual entre um conhecido e influente escritor do meio literário paulista de vanguarda, destacado no panorama nacional e um outro, atuante na esfera da província e honrado pela atenção dispensada. Mas ao ser explicitada a honraria nas graciosas mesuras de Câmara Cascudo, a situação de hierarquia é esvaziada de sentido, deslocada igualmente pela referência significativa do tratamento de “amigo”. Neste momento de “quinas e pontas”, campanhas e bandeiras hasteadas, a carta reafirma as mesmas palavras de solidariedade do artigo elogioso que tanto agradou ao crítico paulista. Dois anos depois, Mário relembra a marca do encontro quando revela o desejo de dedicar um de seus poemas ao amigo Câmara Cascudo: “...é tambem natural
que eu tenha pra com você uma ternura particular e mais grata. Os
outros são paulistas, são daquí mesmo e você é brasileiro; e de tão
longe um dia me ofereceu mão tão apertando que me deu confiança
verdadeira.”
[46]
Separados pelas diferenças entre seus respectivos universos culturais, os escritores encontraram-se na escrita epistolar pela composição, a quatro mãos, de uma relação de amizade intelectual, trama poética tecida e cadenciada por cada nova carta enviada e recebida. O conjunto da correspondência, sendo algo mais do que registro da relação entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade – já que é o meio de convívio por eles priorizado, para além das respectivas produções publicadas, do universo de amigos em comum e dos raros encontros entre eles – e bem menos que uma pretensa moldura que abarque a totalidade de suas respectivas trajetórias biográficas e intelectuais, constitui para o historiador um lugar onde são construídas identidades. Como locus do encontro, as cartas, por sua natureza de escrita discreta e privada, possibilitam uma perspectiva de análise bastante peculiar em relação às outras esferas de produção intelectual de cada um. Como série, possibilitam boa perspectiva para acentuar o caráter dinâmico de uma relação vivida, tramada no tempo histórico experimentado por ambos de formas diferenciadas. Cada carta, um fragmento que marca novas e velhas coordenadas, sempre a mudança. Na perspectiva do conjunto, em que os fragmentos são relacionados, é possível traçar os elos que encadeiam o movimento. Não demora muito, aos olhos do analista, para que a formalidade das primeiras cartas, o “sincero aperto de mão”, dê lugar ao “...grande abraço. E se V. estiver com a cara limpa um beijo também.” [47] Ainda, aos poucos, Cascudo conjuga à escrita de crítico os temas do coletor de cantos sertanejos ou, de forma sinuosa, Mário se afasta de seus versos para assumir a experiência do etnógrafo-viajante aprendiz. Em fins do ano de 1925 Mário envia alguns artigos a pedido de Câmara Cascudo como “colaboração” para sua revista de arte moderna, publicação anunciada para breve em carta anterior. A revista “gorou”, como Cascudo revelaria depois em carta de 9 de dezembro de 1925, mas o envio dos artigos foi oportunidade para Mário fazer uma ressalva sobre os artigos mandados desdobrado-a em uma declaração de afeto: “...Gostou do que lhe
mandei? Si não gostou fale que mando outra coisa. Faça de mim o que
você quiser. Na nossa amizade, Luis, me parece que já passamos o
tempo do aperto de mão e do “você” apenas... Já estamos no período
mais amigo em que a gente pode passar dos minutos um ao lado do
outro, sem falar, sem procurar assunto, vivendo apenas a vida uma só
de dois iguais e bem se conhecendo: É doce viver a existência do
amigo... Às vezes me ponho matutando no que você está fazendo, de
certo acendeu um cigarro, não, está bebendo refresco de abacaxi,
debaixo das árvores. Pronto, sosseguei de novo, deixo você
procurando uma nota qualquer pra Potyguarania [48] e vou trabalhar. Os espaços não são nada
quando a gente se sente assim...”
[49]
Esta passagem da carta chamou a atenção de Cascudo que respondeu com igual entusiasmo e devoção: “Sua carta à lápis é um
instantâneo. Um instantâneo de alma. Finalmente. Finalmente o
intelectual deixa cair a folharia que o estava disfarçando. Ficamos
amigos! Amigo do homem. Eu tenho, Mario, um grande ciúme das
relações de espírito. Tremo pensando que o Homem é sempre excluído.
Que não adoece. Que não pode ficar doido, bêbado, mau, burro. Que só
poderá merecer a piedade – horrível pá de terra quando o afeto está
morto. Eu quero que você seja amigo do homem. Do mais desvalorizado
fator. Do homem que você não conhece. Se amanhã eu ficar
hemiplégico, de boca torcida, olho parado, andando às avessas,
tarmudeando jumentices, quero que exista a chama serena e fiel,
ardendo, ardendo. E que nunca a lembrança do que eu escrevi e pensei
justifique a luz tranqüila deste caminho. O espírito mata – Mario.
Antes a letra, como na Academia dos ditos. “ [50]
As duas passagens destacadas são trechos das cartas que surgem entre inúmeras opiniões e referências sobre livros e estudos em andamento ou propostos, acontecimentos e suas repercussões envolvendo eles próprios ou outros intelectuais. Uma rede de assuntos, do erudito ao prosaico, que compõe a riqueza narrativa do texto epistolar e que possibilita suas múltiplas leituras – tradicionalmente nos estudos literários e mais recentemente nos estudos históricos, como registros para a reconstituição de percursos de vida ou como registros de formulação de idéias e de teorias “não comprometidas pela forma estética”.[51] Nos trechos destacados, outro aspecto aparece como coordenada de leitura importante para a interpretação do texto como lugar de construção de identidades. Como louvações muitas vezes repetidas no decorrer da série, esses trechos evocam uma dimensão de identidade que unificaria o que está separado pelas circunstâncias. Nestes instantes, como uma suspensão da passagem do tempo que os envolve nos assuntos diários tratados, reafirmam a dimensão do encontro. Segundo Silviano Santiago, “Essa compreensão da
amizade como um sentimento totalitário [algo que é superior a tudo,
que é abrangente de tudo] é que torna o sentimento de duas ou mais
pessoas completo, redondo. E o encontro delas jubilatório. Nesse
sentido, a amizade – como o amor, são as manifestações mais
profundas da alegria humana (da beatitude, diria Nietzsche),
traduzindo o bem estar total com o mundo e os homens. A
bem-aventurança. Ao contrário das relações de parentesco, (...) a
amizade explode no acaso e pelo acaso, na aventura da vida. A
amizade não é e não pode ser fraterna. Ela é filha da
disponibilidade do homem para com o seu semelhante. Ela se recobre
de total gratuidade no minado campo do social e no precário campo do
profissional.”[52]
Como via integradora de distâncias e diferenças, superior à esfera das relações cotidianas, a condição de amizade é evocada como reafirmação da transcendência do encontro em relação às circunstâncias históricas, no dizer de Mário, “Os espaços não são nada quando a gente se sente assim...” O movimento que busca selar a relação sob a égide da amizade, explícito nos trechos sublinhados acima, surge de diversas formas no traçado das cartas. Uma das mais evidentes é a mudança de tratamento no princípio e no fim dos textos. Nas primeiras cartas trocadas, o nome próprio do destinatário abre os assuntos tratados, concluídos com a discreta informalidade de “Um abraço” ou “Abracemo-nos” tanto nas cartas de Câmara Cascudo quanto nas de Mário de Andrade. Nas seguintes, o que corresponde a pouco mais de um ano vivido, Mário responde entusiasmado a um bilhete de Cascudo enviado durante uma viagem deste último ao sertão dirigindo-se ao “Camaradão” e despedindo-se com “Me escreva contando coisas e abraçando o camarada velho que aqui sempre pensa em você. Sodade comprida do Mário”. Cascudo registra então maior intimidade a partir daí nos “Abraços, abraços, abraços” e, em carta seguinte, no “Abraço grande do seu Luis”, para estampar no fim da carta-confissão um “Grande abraço, meu amigo, grande abraço. E se você estiver com a cara limpa um beijo também.” Após o ano de 1927, a quase totalidade das cartas de Mário é iniciada pelo apelido afetuoso de “Cascudinho” e concluídas na forma de “acochos saudosos”. Os apelidos variados criados por Cascudo para o “mano mario pôlista” no decorrer dos anos em alguns casos registram, de uma perspectiva irônica, eventos políticos marcantes neste período. Logo após a Revolução de 30 em que os estados estavam sob a mão de interventores federais, Câmara Cascudo inicia uma carta com a expressão “Mario tutti bahiano do coração tabatinguéra”[53], referindo-se a uma expressão em carta anterior em que comenta a situação política vigente: “E V., bestão de amor natalense, siamo allora tuti bahiani, heim? Felizmente nós estamos livres do domínio dos bahiani daqui.”[54] Em 1933, meses após o Levante Constitucionalista que fez Mário de Andrade se mobilizar em defesa de São Paulo, Cacudo refere-se algumas vezes ao “mario do coração paulista”, solidarizando-se com sua indignação. Este mútuo sentimento de comunhão expresso nas primeiras cartas ainda como um desejo de aproximação através da crescente informalidade dos cumprimentos e que, a partir das cartas de 1925 e por toda a série, é repetidamente explicitado como algo conquistado por ambos, adquire sentido ao ser entendido como algo mais do que um estilo de cordialidade adotado na escrita. Define a própria complexidade do sentido da relação como amizade intelectual, a partir do tenso equilíbrio entre amizade e crítica. Em seu caráter totalitário, o sentimento de amizade “indicia que a avaliação (elogiosa ou crítica) da produção artística de um amigo é irrisória diante da perenidade irretocável e da nobreza de sentimentos que os une.”[55] Se não torna cego o julgamento crítico, pois ele tem lugar no vai-e-vem de suas produções e idéias, o sentimento empresta-lhe lentes de encantamento e o compromete. O somos amigos fornece a medida pela qual a crítica intelectual se faz, transformando-a em diálogo entre pares em comunhão de espírito – como na expressão de Mário de Andrade “você, a quem vivo dando minha alma por cartas”[56] – estabelecendo com isso uma marca de continuidade no sentido da relação. O primeiro movimento de aproximação entre Mário e Cascudo foi pela via da crítica, da mútua admiração intelectual que teve como referência o projeto de renovação literária modernista. Este primeiro reconhecimento se deu no terreno das experiências e projetos literários gerados pelas diferentes apropriações feitas das bandeiras modernistas e que marcaram suas produções neste período e posteriormente: temática nacional, liberdade de estilo na incorporação da língua falada brasileira e sua recriação como linguagem literária, e ainda o projeto de criação de compêndios, obras repositórias da autêntica tradição cultural brasileira. É neste solo de criação
que cresce o interesse de um pelas obras do outro. As intervenções,
as de Mário de Andrade quase sempre mais esmiuçadas e sistematizadas
– professorais em seu compromisso com os projetos alheios – enquanto
as de Câmara Cascudo mais impressionistas e fragmentárias,
sucedem-se a cada nova carta trazendo mais um livro, mais um poema,
mais um projeto a ser comentado. Diferentes faces descobertas por
cada um em sua leitura silenciosa e redesenhadas na escrita da
próxima carta, coloridas com as cores de entusiasmo pelo compromisso
de ambos com o projeto renovador. Tudo merece ser lido, apreciado e
comentado, pois é resultado da força criativa de um tempo de
construção que une os que estão longe, tornando-os companheiros num
projeto comum.
Uma dos primeiros
textos enviados por Mário foi o seu “Poema Acreano”
[57], publicado por Cascudo n’A Imprensa. Na mesma
carta, Mário o incentiva acentuando suas qualidades intelectuais ao
mesmo tempo em que necessita explicitar a natureza do elogio, não um
agrado ao amigo mas sim uma opinião isenta:
”...Gostei de saber que
você (você tu) está folclorizando. Isso mesmo. Trabalhe e mande as
coisas que fizer. Me interessam formidavelmente, porque são
inteligentes, bem pensadas, ditas com leveza e graça. Só depois de
tudo isso é que me interessam porque são suas, de amigo. Quando
gosto gosto primeiro pelo valor. Não misturo amizade com valor. Está
certo. Olhe: quero que você leia o terceiro numero de Estética[58]
que não sei quando sairá. Conhece a revista ? Terei lá um poema,
Noturno de Belo Horizonte e uma carta a Alberto de Oliveira sobre os
quais me interessa a sua opinião franca..”
[59]
Como na carta seguinte Cascudo não havia recebido a revista, escreve como lembrete: “Seja misericordioso e mande um exemplar da Estética que trouxer o “Noturno de Belo Horizonte”. Enfim, saindo algo de sua pessoa, vá mandando.”[60] Mário manda os três primeiros números da revista, envia ainda seus livros Paulicéia desvairada e A escrava que não é Izaura. Ambos contendo dedicatórias emblemáticas de sua relação de amizade afetiva e intelectual com Câmara Cascudo. No primeiro, Mário escreve em caneta tinteiro preta, na folha de rosto da edição princeps : “Pra Luiz da Camara Cascudo inteirinho, da cabeça aos pés, corpo e alma, Natal, Rio Grande do Norte, Eu, Brasil, Nós, Brasil, Brasil, Brasil, of. o Mario de Andrade, S. Paulo, 7 / IX / 925.” E, na mesma folha de rosto de A Escrava..., registra saudoso: “Ao Luiz da Camara Cascudo, ingratão, que nunca mais deu o ar de si. Mario de Andrade, S. Paulo, 31 / I / 925.”[61] Em referência a este último, Cascudo registra: “Recebi, li, treli e
quase decoro o Escrava... (...)E sua carta afetiva (e
efetiva) encheu-me de alegria. Creia que repito aqui seu nome e sua
ação como uma bandeira vermelha. V. sabe o efeito do vermelho sobre
a inteligência dos homens e sobre a ira dos bois. Não há hipóteses.
Não há causas. V. conjuntou um amigo. Fora de blague,
blefe (...). Sinceramente. Creia. E um dia pedir-lhe-ei café e
um charuto aí nesta 108, Lopes Chaves.”
[62]
Após viajar pelo sertão do Rio Grande do Norte, Cascudo envia sua inspiração sertaneja em forma de três poemas que impressionam Mário, mais pelos temas, desconhecidos seus e tão familiares ao amigo, do que pela qualidade artística que colhe alguns poucos elogios e muitas observações: “...si você os lesse em
voz alta e se preocupasse mais com a rítmica creio que você mesmo
corrigiria. (...)Fica muito mais naturalmente rítmico assim e muito
mais brasileiro. (...) Não zangue não, de eu estar propondo mudanças
no poema que é seu. O Manuel e o Drummond e uma porrada de outros
amigos fazem isso comigo e eu com eles sem nenhuma cerimônia. É
lógico que nenhum tem obrigação de aceitar tudo o que os outros
propõem . O certo é que eu mesmo devo muito pra eles principalmente
pro Manuel, que me querendo muito bem é absolutamente impiedoso
comigo, não deixa passar nada. Assim também faço com você. Prova de
amizade que não obriga você a coisa nenhuma, está visto. E que só
serve prá gente ir ficando cada vez mais cutuba e destorcido na arte
que escolheu, não acha? Refletir nunca fez mal pra ninguém. Bom, até
logo. Me escreva contando coisas e abraçando o camarada velho que
aqui sempre pensa em você.
Sodade comprida do
Mário.
[63]
A resposta vem algumas semanas depois, junto com a tradução dos termos sertanejos e uma explicação a respeito de sua péssima caligrafia – motivo de reclamações constantes de Mário de Andrade. Cascudo emenda num fôlego só os assuntos, tratando de responder, de forma explosiva e irônica, as considerações críticas que Mário havia feito: “...Escrever é que
significa retratar. Quer que lhe diga? Teimo em não usar máquinas
para V. ter os meus garafunhos . Vá ao sr. Escragnolle Taunay. Vá ao
museu. Não escrevo bem. Escrevo o que escrevo e como escrevo. Se
gostar recebe cartas e não gostar continua a receber cartas por que
eu, decididamente, estou disposto a ser seu amigo. A revista gorou.
O meu exestro voou nas asas do folhetico. Engoli a inspiração para
descomê-la em prosa. V. é um assassino! E inda lhe devo o favor.
Foi, como n’aquela história persa, o menino que viu o Rei nú. E eu
estava certíssimo de estar vestido tão bem. O que me enfureceu foi o
conselho de “modificar”. Pois modificar o que não significa [mais]
que um traço, um rabisco, um desenho japonês dizendo coisa alguma
que não seja evocação? V. inda apresentou emendas ao projeto...E
técnicas. Bandido complicado em (ilegível). Fiquei furioso. Aqui
pelo Norte nós somos furiosamente, liricamente talentosos. Apontar
uma falha é desmantelar o castelinho. E o meu veio abaixo como se
fosse de poeira. Estou desanuviado. Mais lépido. Com a impressão de
ter vencido. E venci uma convicção às avessas. Devo a V. Meti o
livro de versos num envelope e sepultei-o no “inferno” da
biblioteca. Creia que estou sinceramente grato. Até cabeleira eu
estava usando...” [64]
Mário insiste no assunto dos poemas nas cartas seguintes. E, também nestas ocasiões, a crítica e a justificativa de sua isenção, isto é, de sua validade intelectual, surge acompanhada da referência à condição de amizade. Seja na tentativa de separar as duas dimensões como no trecho inicialmente destacado, seja ao usar a segunda para justificar ou negar a primeira, ambas estão intrinsecamente vinculadas na apreciação dos versos, pois estes tornam-se, para além de sua natureza artística, um indício da existência do outro e de uma realidade desconhecida. Nas cartas, a produção intelectual de cada um passa a ser a via por ambos privilegiada de reconhecimento do outro que, no entanto, revela-se maior que sua dimensão meramente intelectual. A autoridade da opinião nutre-se de ambas as fontes: “...o Losango Cáqui,
versos líricos, coisa íntima, coisa de coração moderno. Não tem o
caracter humanitário nem nacionalista dos meus últimos versos. Vamos
a ver si você gostará. Mas, olhe, si não gostar fale e os reparos
que descobrir fale também que você encontra em mim um sujeito que
jamais se ofendeu com censuras e que a si mesmo se vive censurando
numa conta. Infelizmente seria indiscreto fazendo censuras e
críticas dos meus próprios livros... Isso me lembra o que você fala
na sua carta sobre a poesia de você. Você vai-me tirar imediatamente
do “inferno da biblioteca” como escreveu, os seus livros de versos e
vai relê-los e trabalhá-los. Ou então primeiro mande-os
imediatamente registrados pra mim. Quero lê-los e conversar sobre
eles com você. Isto não é pedido social não, é ordem de amigo, coisa
que se cumpre num átimo sem raciocinar. (...)Você está na obrigação
de trabalhar a sua poesia, que é boa. E si não fosse boa pode ter a
certeza que eu não falava que era.” [65]
As recorrentes afirmações de Mário sobre a independência crítica de suas considerações acerca da produção do amigo Cascudo, não elimina o duplo aspecto do juízo, de amigo e de crítico. Ora uma dimensão é evocada, ora outra para expressar as opiniões. Indica num só tempo a tentativa e a dificuldade de estabelecer uma linha de distinção entre elas. Cada comentário explicita seu duplo significado, sendo a dimensão da amizade o fundamento da validade da crítica e, ao mesmo tempo, a acuidade crítica o elemento de identificação inicial entre eles, parceiros na aventura modernista de construção de uma nova tradição cultural para o país. É nesta perspectiva que a interlocução ganha a sua especificidade e o estatuto de referencial de identidades e diferenças nos respectivos projetos. As suas próprias obras e projetos (não necessariamente literários) são o tema recorrente das cartas. Eles ocupam a quase totalidade do panorama de interesse de ambos, sendo um universo de referências em que pontificam os dois autores. Duas fortes individualidades, Mário e Cascudo tomam a si mesmos como referências de excelência intelectual e moral. São poucos os autores, contemporâneos ou não, merecedores de referências mais consistentes e demoradas nas cartas. Os elogios vão para alguns: “Os ‘verdadeiros’, los raros, vivem como este maravilhoso Manuel Bandeira, como Gilberto Freyre e mais dois, cercados pelo ódio e pelo respeito de um mundozinho de literatos grasnadores.”[66] Mário referiu-se, em trecho destacado acima, ao mesmo Manuel Bandeira e a Carlos Drummond de Andrade – como Mário e Cascudo membros desta cidadela letrada modernista – como exemplos de amizade e autoridade artística: dotados de grandeza moral e inteligência, “as coisas humanas mais prezáveis desta vida”[67]. Suas opiniões eram para ele referências fundamentais, eram estes os leitores que lhe interessavam, os que compreendiam sua arte. Isto é, los raros, aqueles para quem foi dada a voz neste mundo de “grilos azucrinantes que são barulho sem tema fixo” [68] porque compartilhavam em suas criações do desejo de expressão de uma brasilidade modernista. Expressões individuais de um sonho comum projetado nas conversas: “Recebi as cartas, assú
e a mirim. Idem os dois números da Terra Roxa e o
Losango Cáqui. Muito breve falarei a respeito do último.
Terra Roxa assim, assim. Pé no mato, pé no caminho. V.
magnífico em musicalerías e coragem. Só não gostei das pedras ao
Menotti. Que diabo quer dizer uma defesa do papai? V. é mudo de
oficio. Trabalhe. Responda pelo mundo de coisas realizadas. E deixe
a récua de zés bocó grudada às plantas dos pés. Adiante. Parar,
responder, analisar, discutir, vai isto, V. é aquilo, o
simultanismo, o sr. Eflenger, e aquilo outro, perde-se tempo,
cimento, areia e sangue. Todo o material que você sacode na cabeça
do interlocutor podia estar servindo pr’outra coisa. Parabéns lhe
manda a minha curiosidade vermelha pela História da Música.
Não esqueça a Gramatiquinha.
[69]
Cada pequeno estudo
planejado, cada nova idéia indicada nas cartas é tomada como
expressão individual desta vontade criadora comum e que,
compartilhada, desdobra-se na outra margem e retorna em forma de
críticas, comentários e contribuições. Como na colaboração –
gratuita, como na maioria das vezes – pedida por Mário a Cascudo
para a Revista Nova. Cascudo envia um artigo sobre Álvares de
Azevedo e o fumo e Mário registra o sucedido:
“Cascudinho,
bom-dia. Acabo de
devorar o tudo mandado, carta, charuto do Alvares e mais o Ensaio.
Este é simplesmente magnífico e fico a me lamber de gratidão. Você
dantes nesta vinha já mandava, agora basta aspirar que se obedece.
Falo na casa da Revista Nova está claro, que na outra você é rei de
todas as liberdades. O trabalho sobre o charutaria de Alvares também
está muito interessante e tão mesmo que por causa dele é que escrevo
agora já. Achei que só mesmo por esquecimento é que você deixou de
citar aquela delícia de passagem da Noite na Taverna em que um dos
convivas faz um brinde “ao fumo das Antilhas e à imortalidade da
alma!” Não pude resistir e com esta liberdade que me faz te insultar
chorando de amor (...) acrescentei a citação no lugar adequado,
certo de te acrescentar e certo de que você fazia o mesmo comigo com
a mesma liberdade e fraternidade.(...) Está claro que todas as
pessoas nosso-gênero podem acrescentar ou discordar de coisas
alheias, e imagine o que você não fará no meu Na Pancada do Ganzá,
que aliás não publicarei sem seu imprimatur primeiro. Mas
sempre a gente respeita, está claro, e eu faço. Mas no caso a
citação vinha tão a propósito, o esquecimento era tão visibilíssimo
e eu sou tão você que não creio você possa se magoar ou recatar por
isso.(...) [70]
Cascudo tomara atitude
semelhante meses antes, segundo relatou em carta de 27 de abril de
1931, quando fez uma dedicatória e autografou Remate de Males
no lugar de Mário de Andrade, o autor. Cascudo confessou o “crime”
cometido para “manter o fogaréu do amor furioso”
[71]
do admirador.
Em outra ocasião, em que novamente os laços entre amizade e crítica ultrapassam as fronteiras do privado, Cascudo publica um artigo no Boletim de Ariel sobre Mário, em 1934. Dez anos depois do primeiro artigo e do início da correspondência, o crítico que aplaudiu da província a récita de Paulicéia no teatro das artes paulistas – concluindo que “O sr. Mario de Andrade deve ser de raros comentadores. O homem espelho para o homem é quasi um engano de Carlyle. Nada mais afugenta como um homem. Às vezes atrai pelo extremo encanto sugestivo da originalidade e talento.” [72] – agora narra com a autoridade de quem tudo teria assistido na intimidade, a trajetória do artista por outras searas. Em um texto extenso Cascudo registra a partir do primeiro livro de 1917 Há uma gota de sangue em cada poema, todos os “trabalhos de demora” [73] do amigo-intelectual anotados em forma de uma genealogia das obras como pegadas da vida. Em ordem cronológica, relacionados em uma ordenação evolutiva – “Clã do Jaboti has reached a goal. A goal is and end. An end can be also a beginning. (...) Macunaíma é a soma de todos esses fatores” [74] – os livros são apresentados detalhadamente em suas datações, origens e fontes de experiências e estudo, gêneros literários, condições de publicação e recepção e interpretados pelo olhar de quem acompanhou cada um dos passos: “Do mesmo ano de 1928 é
o Ensaio sobre música brasileira que não viveria sem a
jornada ao Norte. A documentação melódica, em sua proporção maior
sai do Norte e aqui Mario sambou os melhores sambas e gritou
entusiasmado nos melhores cocos (...) No meio de tudo isto
correm anedotas que eu não quero contar.(...)”[75]
Neste artigo Câmara Cascudo conjuga múltiplos olhares: de crítico literário que analisa a natureza específica da criação artística; de historiador de seu tempo que constrói uma genealogia a partir da precisão de datas e relevância dos acontecimentos para a sociedade; de folclorista comprometido na valorização do saber etnográfico; de amigo, testemunha e parceiro nas viagens físicas e simbólicas, confidente de projetos e descobertas. Enfim e para além de todas estas, como memorialista, forja um sentido para o passado pelo traçado genealógico, na seleção e interpretação das obras, lidas como criações originadas das experiências vividas por Mário. Neste artigo Câmara Cascudo constrói uma identidade, um retrato do artista, ao construir sua memória, dimensão geradora de sentido das ações do presente e dos projetos do porvir. Em carta seguinte Cascudo refere-se ao artigo como um riscado, uma prévia de seu projeto de ensaio sobre o amigo que surge na pele de seu personagem mais marcante: “Mario do coração
brasileiro.
Fiquei contente por V.
ter gostado da foto. Deu aquilo. Eu nem siquer sabia se V. estava
dentro do foco. Daí o encanto lendo sua carta sobre a parecença do
instantâneo. Velhos anos que tenho vontade de escrever sobre V. um
ensaio sem caráter, sem função nenhuma. Apenas registros, anedotas,
críticas, desabafos, trechos de cartas, planos, coisas. Nada de
plano para explicar o mais inexplicável dos macunaímas
tabatinguêras. Creio que daria bem. Aquela crônica no Ariel foi um
diagrama de percurso. Eu queria (ou irei) andar em cima dos riscos
que V. aprovou porque não se recordava da justeza deles.(...) “ [76]
Mário ao ler o artigo,
escreveu a Cascudo uma carta exultante, tomando as palavras do amigo
como suas, transformando-as em ponto de partida para uma avaliação
de sua própria figura projetada para um novo destino, transformando
a memória viva, o retrato feito por Cascudo em compromisso
com aqueles que são o futuro, os jovens:
“Cascudinho e tanto,
li, reli, adorei, te
adorei, o artigo de Ariel. Não agradeço, mano, eu te amo. Eu
carecia assim de alguém, de alguém que me estimasse, me quisesse
muito bem, mas não fosse dessa terrível piedade dos ditirambos
elogiásticos sem nexo, que me fizesse um minuto o exame de
consciência de mim. Eu mesmo era impossível. (...)O passado em mim
não é um elemento de experiência, é uma aparência desagradável de
contradição. Não dá experiência, dá fadiga e enjôo. O que tem de
milhor no seu escrito foi isso, você pode recompilar sem fazer
passado, fez retrato e pude me comtemplar. O retrato, você é
retratista bom, está muitíssimo parecido e ponhamos que regularmente
favorecido, o que vai em conta, não da amizade, o que era insulto,
mas em conta da perfeita compreensão que entre nós existe, e que de
dois literatos que se escrevinhavam cartas, acabou fazendo esta
amizade de hoje, mais que admirável, verdadeiramente necessária para
mim. Foi isso o que você me fez com o seu retrato, um exame de
consciência que eu mesmo seria incapaz de fazer, e de que estava
carecendo mesmo.(...) Não é isso não minha íntima realidade, você
nas entrelinhas provou bem, minha realidade é muito outra, dum
anteacadêmico pesquisador, se utilizando deste profundamente humano
dom que é a faculdade de errar.(...) E lhe devo também outro favor
enorme: uma nova faculdade de compreensão dos novos, que o excessivo
rebuscamento de mim me estava fazendo perder. Estou outro, estou
mocinho, estou virgem, numa vibração nova danada. E até entusiasmado
de mim, num entusiasmo novo, que o perene entusiasmo em que vivo me
fazia não notar mais. Você me deixou profundamente generoso e
profundamente humano, com o seu escrito, isso é que é. (...)Agora o
Fernando Luís que eu de tanto amar estava fazendo meu filho também,
virou meu pai, a mocidade manda... Ora não vou mais escrever pra
você, pra Roquete Pinto, pra Manuel Bandeira, pra mim, pra
celebridade conquistada, mas pro Fernando Luís, e pros outros muitos
fernandinhos da vida e prá celebridade justificar. (...)”
[77]
Este desejo explícito de ser para o futuro, de ser para muitos (e ser mais do que trezentos), realidade íntima revelada pelo retrato “muitíssimo parecido” feito por aquele que tem condições de fazê-lo – e a evocação ao amigo-intelectual surge mais uma vez – expressa-se na missão do escritor incansável em orientar[78], projetar os destinos e descobrir vocações tendo como referência seu próprio projeto intelectual, compromisso social assumido pelo artista moderno com a posteridade. Últimos na mesa, primeiros no coração. Esta “rede” firme, que embalou a relação entre Mário de Andrade e de Câmara Cascudo, incorpora não somente a relação de afinidade intelectual que promoveu suas aventuras de descobridores[79] mas também é tecida com outros fios. E, a medida que vai sendo tramada, conjuga uma dimensão de compromisso, de favores e agradecimentos. As viagens que Mário de Andrade fez ao Nordeste, ocasiões de encontro com o amigo, estabelecem o início de uma outra dimensão em sua relação, que une-os em torno de amigos em comum e das respectivas famílias. A partir daí, registram nas cartas o desejo de um parentesco de sangue em que acentuam suas afinidades e compromissos pessoais. Em junho de 1930, Mário despede-se do amigo e afirma: “Estou caindo. Ria...
sua gente...minha gente....Você sabe que eu quero bem todos. Bem que
agora não digo porquê agora o gostoso mesmo era deitar esta cabeça
fatigadíssima no colo carinhoso de nossa mãi d’aí pra dormir,
abanado pelos anjos que andam em volta dela. Assim seja. Mário.”
[80]
Cascudo, declara intimidade semelhante ao retornar de sua viagem a São Paulo, onde ficou hospedado na casa de Mário, em 1935 e escrever ao amigo em agradecimento pela hospedagem: “Um respeitoso beijo em
minha doce mãe paulista e meus respeitos a Mana e demais senhoras da
casa.”[81]
A intimidade expressa nas recomendações aos parentes e nas lembranças de convívio em casa do outro, é uma segunda marca de distinção na relação entre Mário e Cascudo. Considerar-se “de casa” significa compartilhar não somente as questões intelectuais que mobilizam seus projetos, mas abrir espaço nas cartas para o universo privado das relações pessoais. E por outro lado, assumir um vínculo pessoal. Neste sentido, é significativa a explicitação desta vontade de união sangüínea como afirmação dos laços entre Cascudo e Mário, na proposta de relação de compadrio - parentesco simbólico - , feita por Cascudo. Na mesma carta em que registrou o desejo de escrever o artigo sobre Mário, datada de 1931, Cascudo anunciava para breve o nascimento de seu filho: “Espero um filho que se
chamará Fernando Luis e que Mário de Andrade levará para o senhor
Bispo passar os santos óleos da crisma. Desta forma rendo V. a (sic)
uma entidade viva e humana, afora Macunaíma-o-eterno.”[82]
Mário comove-se
profundamente com o convite, agradecendo a homenagem, enviando,
constantemente, lembranças e pedindo fotografias. Entretanto, nunca
voltou ao Nordeste e as promessas de batizado estendem-se por toda a
série. A par dos assuntos literários e temas de seus estudos, as
cartas registram pedidos e encomendas como, por exemplo, um sal
terapêutico para o pai de Cascudo. Mário envia a encomenda e
sublinha:
“Compadre Cascudo,
Mais e muito mais você
tem, não o direito, mas o dever de exigir de mim, por tudo quanto já
tem sido nossa perfeita camaradagem que cada vez mais se estreita.
Duma atração mutua para camaradagem o pouco distou. Depois
insensivelmente de camaradagem pra cordialissimo prazer de dois
seres juntos passamos insensivelmente. E insensivelmente fomos
passando disso pra essa coisa mais magnifica e rara em que a palavra
amigo não tem mais o sentido quotidiano em que todos a empregamos
mais já vem de raízes inamovíveis. Veja bem, mandando o sal não tive
a mínima intenção de corresponder a um favor mais antigo. Este
existe, mas eu não pago. Uma hospedagem se paga, mas não se paga o
sorriso com que sua mãi me olhava, as conversas de seu pai, e todo o
resto que foi essa casa pra mim. Hoje nem tenho mais a impressão do
favor que existiu, lembro isso tudo com uma exigência do meu próprio
ser, isto é, sou da família. E o Fernando Luis veio coroar tudo como
uma perfeição.”[83]
Os laços de parentesco,
representados na relação de compadrio, têm sua importância
assinalada na medida em que são marcas historicamente definidoras
das relações pessoais no Brasil. Regem estas relações para além do
âmbito privado, sendo acionados não somente em um pedido de sal
terapêutico, mas igualmente em um pedido de emprego.
Em carta de junho de 1937, Câmara Cascudo pede ajuda ao amigo: “Este bilhete é curto
porque é desagradável. Trata-se do seguinte. Minha situação aqui é
asfixiante e besta. Ganho uma miséria como professor e as dez
pessoas da família que sustento não podem esperar pão de outra
parte. Nada posso nem devo solicitar ao governo e o mesmo a
oposição. Venho pedir-lhe que V. “persona gratíssima” em São Paulo
consiga de algum jornal daí uma colaboração remunerada para este seu
companheiro. Poderei dar artigos de divulgação histórica,
folc-lorica, bibliografia, curiosidades, etc. Creia que será um
obséquio sério. (...)Tenho a certeza de que é difícil o que peço mas
não impossível. Não preciso explicar-lhe mais. Bilhete desagradável,
não?
Espero sua resposta.
Seu velho Cascudinho.” [84]
Mário, neste momento,
atua nas novas fronteiras abertas para os intelectuais no projeto de
modernização, levado a cabo pela Frente Ampla Paulista, assumindo a
direção do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Neste
sentido, vincula-se ao projeto de especialização profissional de
novos quadros político-administrativos e institucionalização das
Ciências Sociais que marcou os anos 30.[85].
Tornado “persona gratíssima” pelo seu cargo, é convocado pelo “seu
velho Cascudinho.”, em seu pedido de ajuda, “o que é difícil mas não
impossível”, para “este seu companheiro”.
Cascudo aciona o amigo no momento de crise financeira relacionada às transformações políticas em sua província provocadas pela desestabilização do poder das oligarquias regionais na instauração do Governo Provisório após a Revolução de 30. Estabelecidas as Interventorias nos Estados, foram esvaziadas momentaneamente as redes de relações que tradicionalmente organizavam os poderes locais, desestabilizando as relações políticas nas quais se baseavam muitas vezes os acordos financeiros e as possibilidades de acesso a cargos e empregos. Ainda como fator de desestabilização das redes de relações mantidas até então por Câmara Cascudo em sua cidade, é importante destacar que, em princípio da década até 1934, Cascudo participara ativamente do movimento Integralista de Plínio Salgado como chefe regional do movimento no Rio Grande do Norte. Com a crescente perseguição aos “camisas-verdes” assim como às outras oposições ao governo federal, pode-se considerar este como um outro motivo de frustração política e de posterior ostracismo. Esse bilhete é significativo da interferência do âmbito pessoal nas relações profissionais além de expressar as marcas de distinções, neste momento histórico, entre os dois intelectuais. Cascudo assinala o que é para ele, a partir de seu universo de relações rurais, o lugar distintivo de Mário neste momento, “persona gratíssima” no seio do poder público. Aciona, assim, os meios conhecidos de se obter o favor desejado revelando em seu pedido a marca destas relações. A saber, as ligações de parentesco e compadrio recobrindo as relações de favor político ou profissional. A resposta de Mário a esse pedido de trabalho, chamada por ele de “carta desagradável”[86] é expressiva da coexistência, com estes laços tradicionais, de uma novo posicionamento decorrente do processo de modernização das relações sociais nos meios urbanos. Registra, em primeiro lugar o desconforto em relação ao pedido do amigo: “Cascudinho
sua carta me deixou
numa aflição horrível. Você ter me vindo pedir qualquer serviço pra
ganhar me doeu completamente porque sei você não fazia isso si não
estivesse em forte apuro. Você foi sempre, dentre os amigos que
tenho por aí tudo, um dos poucos que, não sendo ricos, nunca me
pediram coisa nenhuma. Aliás o próprio tom de sua carta, uma
seriedade angustiada, acabaram por me acabar.”[87]
É sabida a posição de Mário em relação a esses pedidos pessoais. Em carta a Murilo Miranda, declarou em 1936: “Vocês tenham paciência
comigo, mas não peço não. O sacrifício é maior que as minhas forças
(...) Nunca pedi pra mim. Só duas vezes pedi pra outros e ambas pra
amigos íntimos.(...) As duas vezes sofri o que custa um crime,
palavra de honra.”[88]
No entanto, os laços pessoais continuam sendo uma perspectiva presente, como se vê na segunda parte de sua resposta. Se Cascudo assinala aquilo que é, a partir de seu universo de relações, a marca de distinção do amigo, esta indicação é compreendida por Mário: “Dei imediatamente
passos da maneira que podia dar. (...)sou amigo íntimo do Sérgio
Milliet e ele amigo íntimo do Leo Vaz, secretário do jornal. O Leo
Vaz ageitou(sic) por êle, mas não pode decidir, pois o caso
necessita anuência do diretor do jornal, e indicou o deputado Paulo
Duarte, como de suficiente influência para conseguir a coisa. Vou
falar com o Paulo Duarte que é bastante meu amigo, e lhe escreverei
assim que obtenha resposta. Deus queira venha boa porque eu te quero
um bem sincero.[89]
Na seqüência de sua resposta, no entanto, Mário estabelece distância em relação a Cascudo, agregando à sua posição de “persona gratíssima”, um discurso novo, o discurso do profissional especializado, como forma de conduzir a questão. Falando através da autoridade de Diretor do Departamento Municipal e como Editor da Revista do Arquivo Etnográfico, garante a encomenda de colaboração para a Revista do Arquivo, periódico criado por ele em sua gestão administrativa, estabelecendo as condições. Não servem generalidades quaisquer, “artigos de divulgação histórica, folc-lorica, bibliografia, curiosidades, etc.”, como ofereceu Cascudo mas obras especializadas: “Fica você entendido:
quero dois estudos por ano prá Revista do Arquivo, e pago duzentos
paus cada. Não precisam ser de 40 páginas de revista não. Mas
precisam ser fundamentais, estudados sérios, com paciência, sem
leviandade de colheita e exposição de dados.”
Transformando-se, mais uma vez no decorrer da carta, Mário detalha seu parecer de especialista. Evocando mais uma vez a relação da amizade entre os dois intelectuais, desta vez não para sublinhar o seu sentido de “rede firme” mas para conduzir e validar a sua crítica e estabelecer a distinção entre eles, Mário aponta a falta de “cientificidade” nos trabalhos de Cascudo, seja pelos temas seja pela metodologia: “Fiquei num tal estado
de irritação pela sua falta de paciência e leviandade de colheita de
documentação, que disse palavras duras, te esculhambei mesmo, pra um
amigo comum que também quer muito bem você, o Luís Sáia. Êle que
está se metendo também em folclore (científico, sério, pertencente
ao grupinho de pesquisadores que estou formando aqui, com o Curso de
Etnografia e agora com a Sociedade de Etnografia e Folclore) ele
concordou logo com o jeito anticientífico do estudo de você, a
ausência de dados sobre como foram colhidos os dados, de quem etc.[90]
Completa o “desabafo” ao “sempre querido e velho amigo Cascudinho” explicitando o seu compromisso com o projeto de modernização e institucionalização. Apoiando-se na “rede” da amizade, faz uma convocação metodológica na qual expressa sua visão da identidade do amigo: “E não zangue comigo.
Talvez eu nunca esteja tão perto de você como nesta carta triste.
(...)Sei que você pode fazer isso e mais. Você tem a riqueza
folclórica aí passando na rua a qualquer hora. Você tem todos os
seus conhecidos e amigos do seu Estado e Nordeste pra pedir
informações. Você precisa um bocado mais descer dessa rede em que
você passa o tempo inteiro lendo até dormir. Não faça escritos ao
vai-vem da rede, faça escritos caídos das bocas e dos hábitos que
você foi buscar na casa, no mucambo, no antro, na festança, na
plantação, no cáis, no boteco do povo. Abandone esse ânimo
aristocrático que você tem e enfim jogue todas as cartas na mesa, as
cartas de seu valor pessoal que conheço e afianço, em estudos mais
necessários e profundos. Disso é que eu quero como Diretor, e exijo
como amigo, prá minha revista que está sendo citada na Australia, na
França, nos Estados Unidos e mais.[91]
A “rede”, nesta passagem, não é a metáfora conhecida de 1931. Ao invés, é a imagem de uma postura intelectual “aristocrática”– ou diletante – identificada por ele em Cascudo e que não se adequaria a um moderno critério de validade do saber que os autoriza como pesquisadores da cultura. Câmara Cascudo escreve
uma semana depois agradecendo a ajuda e mostrando-se lacônico quando
às críticas feitas. Sua resposta é expressiva da surpresa causada
pelas duras críticas de Mário. Não responde a elas e mais uma vez é
pela dimensão da amizade, evocada como sentido último da relação
entre eles, que elas são filtradas por Cascudo:
“Caiu-me a pedra no pé
e o meu berro instintivo e natural foi para você. Deduza daí a
confiança, a certeza, a lealdade em que tenho nossa velha
amizade.(...) não sou capaz de escrever coisa alguma depois de sua
carta. (...) É uma situação inteiramente nova para mim e careço de
tempos para voltar a tona e consertar a respiração. Venho pedir-lhe,
numa confissão ultra-amistosa, para desobrigar-me do que é para mim
materialmente intransponível. Saiu um termo besta mas não tenho
outro. Também ir defender meus livros seria auto elogio e não tenho
vaidade deste tamanho. Melhor é calar. (...)E não há compensação de
ordem alguma para nós dois um entendimento “literário” depois da
lealdade de sua confissão... ou auto-de-fé.”[92]
Por estas cartas de 1937, é possível assinalar a dimensão da amizade intelectual como uma dimensão constitutiva da relação entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade, ao identificarem-se na perenidade e inviolabilidade de seus sentimentos em relação ao outro e em sua nobreza de espíritos elevados que possibilita a crítica e transcende a ela – a correspondência manteve-se até a década seguinte. Ainda, Mário e Cascudo estabelecem outros vínculos na relação que não só identificam as continuidades na História da Cultura, no reconhecimento mútuo dos sentidos dos laços de parentesco nas relações pessoais, mas também assinalam as distinções entre seus respectivos universos culturais, que são a província e o meio urbano. As cartas, expressivas do diálogo entre dois autores que orientaram suas produções na construção de novos mapas do Brasil, na tentativa de responder as questões que nortearam a sua geração, registram igualmente a própria trama de relações entre intelectuais, rede esta tecida como um bordado raro em que transparecem as continuidades e as descontinuidades deste período histórico, em que se sobrepõem na mesma personalidade modernas e tradicionais formas de sociabilidade, em que se confrontam distintas faces de um mesmo país. Referências
bibliográficas
ANDRADE, Mário de: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Rio de Janeiro/Belo Horizonte, Villa Rica, 1991. ARAÚJO, Humberto H. de: Modernismo. Anos 20 no Rio Grande do Norte. Natal, Editora Universitária, 1995. CÂMARA CASCUDO, Luís da: Série manuscrita de cartas de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade. Arquivo Mário de Andrade. Série Correspondência Passiva. São Paulo, IEB-USP. GALVÃO, Walnice Nogueira: Desconversa. Rio de Janeiro, UFRJ, 1998, p.155. GINSBURG, Carlo: “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”, Mitos, emblemas, sinais, São Paulo, Companhia das Letras, 1991. GOMES, Angela de Castro: “Nas malhas do feitiço”, Revista Estudos históricos. Rio de Janeiro, vol. 11, nº 21, 1998. MICELLI, Sérgio: Intelectuais e classe dirigente no Brasil. São Paulo/Rio de Janeiro, Difel,1979. MORAES, Eduardo Jardim de: A brasilidade modernista.. Rio de Janeiro, Graal, 1978. NEVES, Margarida de Souza e MATTOS, Ilmar Rohloff de: Projeto Integrado de Pesquisa “Modernos descobridores do Brasil”. Departamento de História da PUC_Rio, 1994. Mimeo. RAMA, Angel: A cidade das letras. São Paulo, Brasiliense, 1982. SANTIAGO, Silviano: Nas malhas da letra. São Paulo, Companhia das letras, 1989. [1]
Este artigo, com pequenas alterações, corresponde ao primeiro
capítulo de minha Dissertação de Mestrado intitulada Pentimentos
Modernistas. As cores do Brasil na correspondência entre Luís da
Câmara Cascudo e Mário de Andrade, defendida no Programa de
Pós-Graduação em História Social da Cultura do Departamento de
História da PUC-Rio, em 24/02/00. A dissertação foi orientada por
Margarida de Souza Neves.
[2] O artigo chama-se “O Senhor Mario de Andrade” e foi publicado no jornal natalense A Imprensa, de propriedade do pai de Câmara Cascudo, em 11 de junho de 1924. Câmara Cascudo era, além de colaborador, o diretor do diário, como indica o timbre no papel utilizado em algumas cartas para Mário. Este artigo, assim como alguns outros, está reproduzido em ARAÚJO, Humberto H. de: Modernismo. Anos 20 no Rio Grande do Norte. Natal, Editora Universitária, 1995, pp. 104-106. [3] ANDRADE, Mário de: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Rio de Janeiro/Belo Horizonte, Villa Rica, 1991,p. 31. A série de cartas de Mário foi transcrita e revista por Edna Maria de Sá Gomes, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação do Departamento de Letras da UFRN. Na revisão, foram constatadas inúmeras trocas e omissões de termos e sentenças na publicação citada acima. Por este motivo, aqui é utilizado o texto revisto e gentilmente cedido por ela. Nas notas seguintes deste texto, será informada a página onde se encontra a carta citada na publicação e, em seguida, a página da revisão, indicada com a sigla EG. Foi mantida a grafia original dos autores. [4] Idem, ib. p. 31. EG, p. 2. [5] Os dois livros, Joio (Natal, A Imprensa, 1924.176p.) e Histórias que o tempo leva...Da história do Rio Grande do Norte. (São Paulo, Monteiro Lobato, 1924. 236p.) constam da biblioteca de Mário de Andrade, acervo integrante do Arquivo Mário de Andrade, IEB-USP. [6] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 25 de agosto de 1924. Arquivo Mário de Andrade. Série Correspondência Passiva. Número de localização: MA-C-CPL-1768. IEB-USP. Daqui em diante a referência ao Arquivo Mário de Andrade será pela sigla acima utilizada. [7] RAMA, Angel: A cidade das letras. São Paulo, Brasiliense, 1982. [8] MORAES, Eduardo Jardim de: A brasilidade modernista.. Rio de Janeiro, Graal, 1978, p. 53. [9] CANDIDO, Antonio: Presença da literatura brasileira. Modernismo. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, V. 2, p. 11. [10] Idem, ib. p. 15. [11] Idem, ib. p. 15. [12] Idem, ib. p. 16. [13] MORAES, Eduardo Jardim: Op. Cit. p.49. [14] Idem, ibidem, p. 83. [15] ANDRADE, Oswald de: “Manifesto da poesia pau-brasil”. Apud MORAES, Eduardo Jardim: Op. Cit. p. 86. [16] MORAES, Eduardo Jardim: Op. Cit. p. 87. [17] Idem, ibidem, p. 97. [18] Mário de Andrade publicara Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia Desvairada (1921) e Losango cáqui (1924). [19] Primeiro dos periódicos modernistas, circulou entre maio e dezembro de 1922. Mário colaborou em todos os números como crítico de literatura, música e cinema. [20] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 25 de agosto de 1924. MA-C-CPL-1768. IEB-USP. Segundo Câmara Cascudo, o “livro escândalo, o livro que eu li furioso...por não ter me lembrado de fazê-lo.” [21] Ambas as expressões contidas na crítica de Mário de Andrade ao livro Casa do pavor, de M. Deabreu, editado por M. Lobato & editores. Revista Klaxon, nº 3, 15 de julho de 1922. APUD. DE LARA, Cecília: Klaxon e Terra Roxa e outras terras. São Paulo, IEB, 1972. [22] ANDRADE, Mário de: Op. cit., 1991, p. 49. EG, p. 20. [23] ANDRADE, Mário de: A escrava que não é Izaura. São Paulo Lealdade, 1925. APUD. CANDIDO, Antonio: Op. cit. p. 109. [24] ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de: Op. cit. p.49. [25] Cf. CÂMARA CASCUDO, Luís da: O tempo e eu. Natal, Imprensa Universitária, 1968, p. 72. [26] CÂMARA CASCUDO, Luís da: “Uma hora na americana” IN A Imprensa, 22 de dezembro de 1922. APUD ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de: Op. cit. p.102. [27] Um intelectual pernambucano com o qual Câmara Cascudo trava contatos em suas estadias na capital é Joaquim Inojosa, ativo divulgador do movimento modernista pelo nordeste e autor de uma carta dirigida a intelectuais paraibanos intitulada “Arte Moderna”, comentada com entusiasmo por Cascudo em “Registro bibliográfico – Arte Moderna”, A Imprensa, 22 de agosto de1924. Ainda nos artigos “De Recife”, enviados para o jornal natalense, Câmara Cascudo tece comentários positivos sobre vários intelectuais identificados com o regionalismo como Joaquim do Rego Monteiro, Gilberto Freyre – que neste momento estava nos EUA – Lucilo Varejão, Mário Sette e outros. APUD. ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de: Op. cit. p. 32. [28] ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de: Op. cit. p. 28. [29] CÂMARA CASCUDO, Luís da: “Breve resumo da literatura Norte-Rio-Grandense” IN A Imprensa,18 de junho de 1922. APUD. ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de: Op. cit. p. 99. [30] Idem: “O sr. Mario de Andrade.” IN A Imprensa, 11 de junho de 1924. APUD ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de: Op. cit. p. 104. [31] Chamam-se Na ilustre companhia... e O que eu diria ao sr. Graça Aranha., respectivamente de 11/06/24 e 24/08/24. APUD. ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de: op. Cit, pp.107, 109. [32] O acontecimento que tanto ajudou na divulgação das novas idéias pelos vários meios literários do país ocorreu no interior da instituição guardiã da tradição execrada pelos modernistas, numa sessão da Academia Brasileira de Letras em que Graça Aranha discursou a favor das novas manifestações e foi voto vencido pela maioria liderada por Coelho Neto. Graça Aranha retirou-se da Academia, o que provocou grande repercussão. Cf. CANDIDO, Antonio: Op. cit. p. 17. [33] CÂMARA CASCUDO, Luís da: “Registro bibliográfico – Arte Moderna” IN A Imprensa,22 de agosto de 1924.APUD ARAÚJO, Humberto H: Op. cit, p. 108. [34] CÂMARA CASCUDO, Luís da: “Na ilustre companhia...” IN A Imprensa, 11 de julho de 1924.APUD. ARAÚJO, Humberto H: Op. cit, p. 107. [35] Idem, ib, p.107. [36] CÂMARA CASCUDO, Luís da: “O que eu diria ao sr. Graça Aranha.” IN A Imprensa, 24 de agosto de 1924.APUD. ARAÚJO, Humberto H: Op. cit, p. 110. [37] Idem, ib, p.110. [38] Idem, ib. p. 107. [39] Idem, ib. p. 107. [40] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 12 de julho de 1925. MA-C-CPL-1774. IEB-USP. [41] Na acepção dada por Carlo Ginsburg, “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”, Mitos, emblemas, sinais, São Paulo, Companhia das Letras, 1991. [42] GOMES, Angela de Castro: “Nas malhas do feitiço” In Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 11, nº21, 1998, p. 124. [43] AMARAL, Aracy: Tarsila, sua obra e seu tempo. Apud. MORAES, Eduardo Jardim: Op. Cit. p. 90. [44] GALVÃO, Walnice Nogueira: Desconversa. Rio de Janeiro, UFRJ, 1998, p.155. [45] GOMES, Angela de Castro: Op. Cit, p. 125. [46] ANDRADE, Mário de: Op. Cit, 1991, p. 67. EG, p. 33. Datada de 22 de julho de 1926. [47] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 30 de dezembro de 1925. MA-C-CPL-1782. IEB-USP. [48] Título de um livro não publicado em que Câmara Cascudo trabalhou durante 1924 e 1925. [49] ANDRADE, Mário de: Op. cit, 1991, p. 47. EG, p. 16. [50] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 30 de dezembro de 1925. MA-C-CPL-1782. IEB-USP. [51] GALVÃO, Walnice Nogueira: Op. cit. p.156. [52] SANTIAGO, Silviano: Nas malhas da letra. São Paulo, Companhia das letras, 1989, p.182. [53] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 27 de abril de 1931.MA-C-CPL-1812. IEB-USP. [54] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 10 de abril de 1931. MA-C-CPL-1811. IEB-USP. [55] SANTIAGO,Silviano: Op. cit, p.182. [56] ANDRADE, Mário de: Op. Cit, 1991, p.49. EG, p. 20. [57] “...Não vê que me lembrei que lá no norte,/ meu Deus!,/ muito longe de mim,/ na escuridão ativa da noite que caiu/Um homem alado, negro de cabelo/ nos olhos./ Depois de fazer uma pele com a borracha do dia/ Faz pouco se deitou, está dormindo./ Este homem é brasileiro que nem eu. [58] Estética. Revista carioca que circulou nos anos de 1924 e 1925. Neste parágrafo, Mário de Andrade se refere ao nº. 3 da revista, onde publicou o poema e a carta referidos (cf. Ano II, vol. 1, n. 3, p. 233-247 e 332-339, respectivamente). O assunto sugerido é o “espírito brasileiro”, que Mário colocou em pauta, principalmente na segunda metade da década de 20, sempre que se questionavam “nacionalismo” e “regionalismo” na arte brasileira. [59] ANDRADE, Mário de: Op. cit, 1991, p. 37. EG, p. 8. [60] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 02 de agosto de 1925. MA-C-CPL-1775. IEB-USP. [61] Ambos os livros são exemplares pertencentes à biblioteca de Câmara Cascudo. Memorial de Câmara Cascudo, Natal, RN. As dedicatórias foram localizadas pela pesquisadora Margarida de Souza Neves, em estágio de pesquisa, durante o mês de janeiro de 2000. [62] Idem, datada de 19 de maio de1925, localização MA-C-CPL-1770. [63] ANDRADE, Mário de: Op. cit, 1991, p. 45. EG, p. 14. [64] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 09 de dezembro de 1925. MA-C-CPL-1781. IEB-USP. [65] ANDRADE, Mário de: Op. cit,, 1991, p. 71. EG, p.17. [66] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 09 de dezembro de 1925. MA-C-CPL-1781. IEB-USP. [67] ANDRADE, Mário de:Op. cit, 1991, p. 103, datada de 14 de agosto de 1931. EG, p.55. [68] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 09 de março de 1926. MA-C-CPL-1769. IEB-USP. [69] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 09 de março de 1926. Arquivo Mário de Andrade. Série Correspondência Passiva. Número de localização: MA-C-CPL-1769. IEB-USP. [70] ANDRADE, Mário de: Op. cit,, 1991, p. 113, datada de 14 de agosto de 1931. EG, p.62. [71] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 27 de abril de 1931. MA-C-CPL-1712. IEB-USP. [72] CÂMARA CASCUDO, Luís da: “O Senhor Mário de Andrade”. IN A Imprensa, Natal, 11 de junho de 1924. [73] CÂMARA CASCUDO, Luís da: “Mário de Andrade”. IN Boletim de Ariel. São Paulo, ano III, nº 9, junho de 1934. pp. 233-235. [74] Idem, ib. p. 233. [75] Idem, ib. p. 234. [76] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 14 de julho de 1934. MA-C-CPL-1831. IEB-USP. [77] ANDRADE, Mário de: Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Rio de Janeiro/Belo Horizonte, Villa Rica, 1991, p. 132, datada de 18 de junho de 1934. Na revisão feita por Edna de Sá Gomes, p.78. [78] Cf. QUEIROZ, Raquel de: Tantos anos. São Paulo, Siciliano, 1998, p. 112. [79] NEVES, Margarida de Souza e MATTOS, Ilmar Rohloff de: Projeto Integrado de Pesquisa “Modernos descobridores do Brasil”. Departamento de História da PUC_Rio, 1994, p. 1. Mimeo. [80] ANDRADE, Mário de: Op. cit, 1991, p. 99, datada de 2 de junho de 1930. EG, p.53. [81]Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 4 de maio de 1935. MA-C-CPL-1835. IEB-USP. [82] Idem, datada de 7 de janeiro de 1931. MA-C-CPL-1809. IEB-USP. [83]ANDRADE, Mário de: Op. cit, 1991, p. 120, datada de 26 de março de 1932. EG, p.68. [84] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de unho de 1937. MA-C-CPL-1843. IEB-USP. [85] Cf. MICELLI, Sérgio: Intelectuais e classe dirigente
no Brasil. São Paulo/Rio de Janeiro, Difel,1979.
[86] ANDRADE, Mário de: OP. cit,1991, p. 120, datada de 26 de
março de 1932. EG, p. 68.
[87] Idem, ib. p. 146, datada de 9 de junho de 1937. EG, p. 89. [88] ANDRADE, Mário de: Cartas a Murilo Miranda. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981, p. 31. [89] ANDRADE, Mário de: Op. cit, 1991, p. 146, datada de 9 de junho de 1937. EG, p.89. [90] Idem, ibidem. [91] Idem, ibidem. [92] Carta manuscrita de Luís da Câmara Cascudo a Mário de Andrade, datada de 18 de junho de 1937. MA-C-CPL-1843. IEB-USP.
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