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1887
- "Apesar do ar severo, imponente, o Visconde se desmanchava em agrados
aos netos, particularmente a Juca, o varão, que recebia sempre como
presente de festas aquelas idas `a chácara, e ao casarão da cidade, onde
havia a sala encantada - o escritório do avô. Estantes enormes, cheias
de grossos tomos. Ainda era cedo para entendê-los, mas o menino adorava
folhear a ‘Revista Ilustrada’, de Ângelo Agostini, ou a ‘Novo Mundo’ de
J. C. Rodrigues. Uma coleção do ‘Journal des Voyages’, foi, no entanto,
o seu maior encanto. ‘Cada vez, diz êle, que me pilhava na biblioteca do
meu avô, abria um daqueles volumes e me deslumbrava. Coisas horríveis,
mas muito bem desenhadas - do tempo da gravura em madeira. Cenas de
índios escapelando colonos. E negros de compridas lanças contra o
inimigo numa gritaria. Eu ouvia os gritos... E coisas horrorosas da
Índia. Viúvas na fogueira. Elefantes esmagando sob as patas as cabeças
dos condenados. E tigres agarrados `as trombas de elefantes. E índios da
Terra do Fogo, horríveis, a comerem lagartixas vivas. E eu via a
lagartixa bulir’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra
. Vol.1 p: 22-23) "A mais antiga lembrança de menino
está ligada `a natureza e remonta aos cinco anos de idade: da varanda da
casa grande, por cima do parapeito, êle descortinava, diáriamente, os
terreiros de café, cercados pelo muro de taipa que num quadrado fechava
o recinto daquele castelo. O portão abria-se para a estrada das Sete
Voltas, que demandava Taubaté. Depois da estrada, o terreno descia
íngreme até o ribeirão. Transposto este, começava outro morro. Um morro
coberto de escura mata virgem. Da varanda, o pequeno olhava a floresta
como um fantástico ninho de onças e de índios. Evaristo, seu pajem, lhe
contara que lá existiam selvagens, homens nus, de tanga, de penas,
armados de arco e flechas, que comiam gente. Juca [Monteiro Lobato]
olhava para o morro e sentia-se tomado de um pavor medonho, causador de
agitadas noites de insônia. Mas um dia, seu pai convidou-o para
acompahá-lo numa caçada de jacus. Lá seguiu, atrás dêle, feito uma
sombrinha, realizando, assim, a sua primeira grande aventura
romântica(...) O sombrio da mata, aquêle frescor úmido, os troncos
musguentos que lhe pareciam gigantescos, a cipoama enredada, o silêncio,
tudo isso foi deixando Juca naquele estado de espírito com que fixaria,
muitos anos depois, o Pedrinho, quando, `as escondidas de Dona Benta,
penetrou pela primeira vez no capão de mato do Tucano Amarelo, onde
havia até onças." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra
. Vol.1, pp: 18-19)
"Juca era menino quieto,
pouco arteiro. Ester e Judite, suas irmãs mais novas, eram as
companheiras de folguedos. Em que consistiam êles? Naqueles tempos, nas
fazendas, as crianças costumavam brincar com bonecos de sabugo. Tomavam
sabugos de milho e os vestiam como se fôssem bonecas. Ou então xuxus,
aos quais punham pernas de palitos, e assim êles ficavam sendo os
‘cavalos’, os ‘porquinhos’... As crianças, anotou o próprio Lobato,
‘desadoram os brinquedos que dizem tudo, preferindo os toscos onde a
imaginação colabore. Entre um polichinelo e um sabugo, acabam
conservando o sabugo. É que êste ora é um homem, ora uma mulher, ora é
carro, ora é boi - e o polichinelo é sempre um raio de polichinelo’."
(Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 19)
"Como todos os demais
fazendeiros seus pais possuíam residência na cidade, e ali permaneciam
boa parte do ano. A casa da cidade ocupava tôda uma quadra: separada de
um lado pelos trilhos da Central, dava frente para o Jardim Público, no
Largo da Estação, um dos poucos lugares que lhe permitiam ir sem
acompanhantes. E o largo era, algumas vêzes, escolhido para nêle armarem
os circos que, espaçadamente, chegavam a Taubaté (...)
Comovido, diante de um
circo, o adulto Lobato relembra com emoção a chegada e permanência dêle
na cidadezinha: ‘Lá estava ela, a clássica barraca, iluminada por dentro
e deixando ver desenhados no pano os vultos dos espectadores dos bancos
de cima. Em redor os tabuleiros enfeitados com lanterninhas dúbias e
mulheres acocoradas ao pé, vendendo baús de pastéis, cestas de amendoim
torrado, balaios de pinhão cozido, e a saparia que espia de fora porque
não tem o deztustão da entrada. Pelas ruas deslizavam famílias em
caminho do circo. Deslizavam umas sombras diáfanas, `a luz baça,
misturada de luar e gás. Bandos de pretas passavam tagarelando, ruflando
saias engomadas. Iam depressa, num açodamento ingênuo, sequiosas das
graças do palhaço’.
Recorda, então, os tempos
em que também sentia essa sofreguidão nas noites magníficas em que o pai
anunciava na mesa: ‘Hoje vamos aos cavalinhos’. Duas horas antes, já
estavam prontos; êle de fatiota preta, boné a marinheiro e bengalinha de
junco. Revê-se nítidamente, sentadinho na terceira tábua da
arquibancada, a lançar olhadelas gulosas para a última, rente ao pano,
lá onde se repimpavam os moleques, lá onde gostaria de ficar, se o pai
deixasse. Era sempre ali, tão baixo, tão perto do chão... Tocava a
sinêta. A molecada pedia o paiaço (...): ‘Eu não podia ver o palhaço que
não risse a pnto de incomodar os vizinhos. A cara pintada, os modos, a
roupa, tudo era imensamente engraçado’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro
Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 20-21) |
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1889
- É desse tempo a primeira resolução séria tomada por José Renato
Monteiro Lobato: seu pai possuía uma bengala que o encantava: um
unicórnio côr de âmbar, com castão de ouro granulado. Bem em cima, no
tôpo do castão, numa parte lisa do metal, estavam gravadas as seguintes
iniciais: J.B.M.L. Essas iniciais estragavam todos os seus planos.
Afinal, pensava o pequeno Juca, quando meu pai morrer não poderei usar
essa bengala ‘Eu me chamo José Renato; as iniciais são J. B.; êsse diabo
do B...’ E por causa da bengala do José Renato Monteiro Lobato resolveu
mudar o nome. Passou a chamar-se, para todos os efeitos, José Bento
Monteiro Lobato." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra.
Vol.1, p: 26) "Está com sete anos quando L. Kenedy abre em Taubaté
Novo Colégio. Juca foi um dos primeiros matriculados. Era um excelente
Colégio, mas por questões econômicas não se manteve, fechando poucos
meses depois. Keneddy foi em breve substituído por Miss Stafford,
senhora irlandesa, radicada na cidade. Fundou ela uma escola mista -
‘Colégio Americano’ - que também não durou muito tempo, apesar dos novos
métodos de ensino e do excelente corpo de professôres. Ao ‘Americano’,
sucedeu o ‘Colégio Paulista’, do positivista Josino Mostardeiro.
Fechando-se também êste, Lobato foi para o ‘São João Evangelista’
dirigido por Antônio Quirino de Souza e Castro. Nessas escolas fêz os
estudos primários e parte dos preparatórios, até a transferência para
São Paulo, onde, no ‘Instituto Ciências e Letras’, concluiu o estudo das
matérias indispensáveis `a matrícula no curso superior."
"Aliás, seus
divertimentos preferidos inclinavam-se, cada vez mais, para o garatujar
incessante e o incessante debruçar-se sôbre os poucos livros que lhe
caiam nas mãos. Não havia muitos volumes para crianças naquele tempo.
Êle conseguira reunir uns poucos, que lia e relia: três obras de
Laemmert, adatadas por Jansen Muller, e dois álbuns de cenas coloridas -
‘O Menino Verde’ e o ‘João Felpudo’. Havia ainda o ‘Róbinson’ resumido e
certo livro de narrativas ingênuas intitulado ‘Dez Contos’,
incansávelmente lidos e relidos. Êsse último, êle o perdeu no Jardim
Público, certa tarde." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e
Obra . Vol.1, p: 26)
"Um quadro que Monteiro
Lobato guardava nítida imagem era o dêle entre a criançada humilde,
crias da casa em geral, e as irmãs, todos a rodearem-no, enquanto
folheava as páginas dêsses livros, mostrando-lhes as figuras e
lendo-lhes os dizeres." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e
Obra . Vol.1, p: 26)
"Dos mestres, o que lhe
causou mais viva impressão foi o Dr. Quirino. Muitos anos depois,
recorda-o numa página de comovente tributo: ‘Eu era bem criança quando o
vi pela primeira vez: um homem alto, de cartola. A cartola
impressionou-me profundamente por ser novidade para mim. (...)
E eu corria de onde
estivesse, para ‘ver’ a singular estranheza daquele homem alto,
desempenado, sempre de preto e de cartola (...) Um dia fui parar em seu
Colégio, onde êle era o professor de gramática. O compêndio de Bento
José de Oliveira, encadernado em couro... O colégio ficava a uns três
quilômetros de minha casa, distância que eu vencia com o Bento José
diante dos olhos, procurando decorar a lição, mas sem entender coisa
nenhuma. O que mais tarde me fêz escrever ‘Emília no País da Gramática’,
talvez fôsse a lembrança do muito que naquele tempo me martirizou a tal
‘arte de falar e escrever corretamente’. Na aula tínhamos diante de nós
o homem misterioso em pessoa, sem cartola, mas sempre duma originalidade
tremenda em todos os seus atos. comecei a conhecer o Doutor Quirino,
embora na minha infantilidade, não pudesse analisá-lo nem defini-lo e
muito menos compreendê-lo’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida
e Obra
. Vol.1, p: 23) |
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1894
- Descobre Júlio Verne aos 12 anos de idade (Edgar Cavalheiro.
Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 42)
"Recordando a vida colegial, dizia que os mestres tinham contribuído
muito pouco para a formação de seu espírito. No entanto, acrescentava, a
Júlio Verne devia todo um mundo de coisas. Júlio Verne abrira-lhe as
portas da geografia e das ciências físicas e sociais, descerrando-lhe as
cortinas do mundo como coisa viva, pitoresca, composta de paisagens e
dramas. De posse dessa visão, e esporeada pela imaginativa, a
inteligência ‘compreendeu e quis saber’. ‘Que menino, perguntava êle,
mais tarde, após a leitura de ‘Keraban, o Cabeçudo’ não corre
espontâneamente a abrir um atlas para ver onde fica o Bósforo? A
inteligência só entra a funcionar com prazer, eficientemente, quando a
imaginação lhe segue de guia. A bagagem de Júlio Verne, amontada na
memória, faz nascer o desejo do estudo. Suportamos e compreendemos o
abstrato só quando existe material conmcreto na memória’." (Edgar
Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 42-43) |
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1895
- Sua mãe adoece gravemente e vai tentar cura em Santo Antônio do Pinhal
próximo a Campos do Jordão. Seu pai se vê obrigado a vender sua fazenda
- a Fazenda Santa Maria - comprando outra em sociedade, situada um pouco
além de Tremembé: Fazenda Paraíso. (Edgar Cavalheiro. Monteiro
Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 35) Monteiro Lobato dirige-se `a
Capital Paulista com o intuito de prestar exames para o Instituto de
Ciêcias e Letras. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra
. Vol.1, p: 35)
"O dinheiro que lhe deram
fôra pouco, e isso o obriga a economia medonhas: ‘Tenho só um vintém e o
dinheiro de Teca que ainda não buli nem bulo. Vou `a cidade a pé e por
um caminho muito longo que se sobe uma ladeira porque não tenho 3
vinténs para passar no viaduto; mas como é bom aprender a não ser
gastador, não pedi nenhum vintém para o Dr. Rodrigo. Tem estudantes aqui
que trazem 500$000 e gastam tudo num dia’." (Edgar Cavalheiro.
Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 35)
"Neste ano Monteiro
Lobato tem o primeiro grande choque de sua vida: é reprovado no exame de
Português. Lobato estava convicto de que saíra bem nas provas: "Mamãe,
ontem entrei na prova oral de Português e fiz uma boa prova. Todos que
viram disseram que eu tinha tirado plenamente, mas quando eu fui ver eu
estava inabilitado. Creio que é engano mas se não fôr eu vou
sexta-feira, dia 10. A minha prova escrita foi boa e a oral também. Eu
vi na prova escrita uns seis rapazes que não sabiam nada, que me
perguntavam tudo, que colavam e que faziam uma descrição de dez linhas,
serem aprovados. Na oral vi rapazes que diziam que ‘pouquíssimo’ era
advérbio: ‘fortes’ não sabiam o que era, saírem aprovados. E eu que
respondi tudo saí inabilitado. Me parece que o Freire viu tanta proteção
que disse: êste menino não sabe nada, porque se soubesse não precisava
empenho e por isso me bombeou injustamente. Tenho vergonha de tôda
gente, aqui que conheço poucas pessoas, quanto mais aí que todos sabem
que vim fazer exames. Todos dizem que há engano, mas isso não é certo.
Agora quando chegar aí vou estudar Francês, Português, Inglês,Geografia
para fazer em Junho ou faço em Março os dois. Parece que vou morrer,
principalmente vendo como a senhora, papai e seu Germino vão ficar
tristes. Só de me lembrar saem lágrimas dos olhos. Isso é uma loteria!
Se alguém perguntar de mim, diga que não sabe, que morri. Conte só para
seu Germano." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra .
Vol.1, p: 38) |
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1896
- Passa a maior parte de seu tempo disponível na chácara do avô e "é `a
sombra da jaqueira que se debruça sôbre os compêndios, ou sonha com as
primeiras glórias literárias". (p: 39)
Monteiro Lobato volta ao Colégio Paulista, `as aulas de seu Germano, do
Dr. Eliseu, `a convivência dos colegas e amigos. Passa o ano inteiro
grudado nos livros a fim de que vergonha tão grande como aquela não se
repita nunca mais. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra
. Vol.1, p: 39)
"Nessa época, no Colégio
Paulista, em Taubaté, os colegas resolveram fundar o clássico
jornalzinho estudantil. Este chamava-se ‘O Guarani’, e é nele que José
Bento Monteiro Lobato, aos 14 anos de idade, estreará nas letras: um
artiguete de poucas linhas, que modestamente intitula de
‘Rabiscando...’, e que mais modestamente ainda subscreve com o
pseudônimo de Josbem. Essa crônica e pequenas resenhas do movimento
colegial são as primeiras produções de Lobato que se conhecem: não tinha
lembrança de nada anterior. Eis a croniqueta:
‘Como sofria de insônia,
escrevi a um conhecido médico perguntando qual o melhor narcótico que
êle conhecia, ao que me respondeu: "Caro Josbem: Há trinta anos que sou
médico e sempre tenho empregado como narcótico o ópio, a codeína e
outros. Mas há poucos meses, lendo a Enciclopédia do Riso e da Galhofa,
encontrei lá a seguinte anedota: EMENDA PIOR QUE O SONETO - Um escritor
escreveu no primeiro capítulo dum seu livro - outras coisas ; na
impressão saiu oltras coisas ; e o editor pôs na Errata ostras coisas.
Isto é o que se chama emenda pior que o soneto. Ao acabar de ler essa
anedota, um irresistível sono apoderou-se de mim, e quando acordei vi
que estava ali um narcótico, mais poderoso que quantos conhece a
medicina. Tenho-o empregado com admiráveis resultados em quem sofre de
insônia, e é de fácil aplicação, porque basta ler duas ou três vêzes.
Vou mandar felecitar o Sr. Pafúncino Semicúpio Pechincha, autor de tão
maravilhosa descoberta. (assinado) Dr. Mesoj." Nunca empreguei êsse
narcótico como manda a fórmula desse médico, porque desde êsse dia basta
lembrar-me das anedotas do tal Pafúncio para que a insônia fuja
espavorida - Josbem’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e
Obra . Vol.1, p: 40)
"Em dezembro Lobato volta
a São Paulo para prestar os exames das matérias que estudara durante o
ano em Taubaté. A primeira notícia que manda a mãe é cheia de vivas e
pontos de exclamação: ‘Salve! Salve! Viva o meu plenão’. ‘Hoje, grande
dia, parece-me que já estou formado! Viva! Viva!!!’ E em letras bem
grandes: ‘O MEU PLENAMENTE!’". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato:
Vida e Obra . Vol.1, p: 43) |
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