1917
- "... habitando São Paulo, em contacto diário com jornais e revistas,
homens de letras e jornalistas, toma-se de atividade febril, escreve
muito, vive pensando no livro que publicará em breve (...) Colabora na
‘Vida Moderna’, nela publicando inúmeros ‘sueltos’ e alguns capítulos de
‘O Queijo de Minas ou a História de um Nó Cego’; escreve num jornalesco
chamado ‘O Queixoso’, n’ ‘A Cigarra’, de Gelásio Pimenta, no ‘Parafuso’,
de Benedito de Andrade, n’ ‘O Pirralho, de Oswald de Andrade.Quase
sempre, é bom frisar, sob pseudônimos. N’ "O Estado’ e na ‘Revista do
Brasil’, usa o próprio nome, e é para essas publicações que reserva
quase sempre o melhor, as coisas realmente perduráveis."
"O Estado de São Paulo"
(20/12/1917) publica um novo texto de Lobato, tão polêmico quanto o
"Velha Praga": uma crítica a exposição da pintora Anita Malfatti que,
entretanto, havia enormemente agradado Oswald de Andrade - "Ao que
parece, esse desencontro de opiniões explica o silêncio e as relações de
ignorância mútua que entre si mantiveram, de um lado os líderes do
modernismo paulista de 22; de outro Lobato".
"Além dos artigos e contos,
dá início, na edição vespertina do ‘Estado’, de nome ‘Estadinho’, a um
inquérito sôbre o ‘Saci Pererê’. O momento era de exaltado nacionalismo;
as coisas da terra vinham `a tona, e ninguém mais indicado do que ele
para vesti-las adequadamente."
Lobato "organiza para ‘O
Estado de São Paulo’, uma pesquisa sobre o saci-pererê. Empolga-se com o
assunto e transforma o resultado num livro de trezentas páginas, capa
vermelha, impresso `as suas custas e assinado com o pseudônimo de
Demonólogo Amador", sendo o livro um enorme sucesso.
"O livro que pode marcar o
máximo do denominador comum da literatura do gosto desse ano é o Saci
Pererê, volume, dizia a Revista do Brasil, em que Monteiro Lobato
reuniu os depoimentos que recolhera para a edição noturna do Estado
de São Paulo , ‘acolchetando-lhes alguns comentários deliciosos e
emparedando-os entre um prólogo e um epílogo refulgentes de graça’."
1918 - Em
Julho é publicado o livro "Urupês". Com o lançamento de "Urupês",
"sucedem-se outros lançamentos seus e de seus amigos, sempre com
sucesso", realçando Lajolo a "filosofia editorial" que "aponta os
impasses de um escritor travestido de editor e documenta a emersão de um
lobato-editor ainda embaraçado pelas roupagens de escritor." Para
Lajolo, "Lobato começa a conceber a literatura também como mercadoria,
incluindo e privilegiando no enfoque que dá aos livros a perspectiva
editorial", preocupando-se com a embalagem e o rótulo e com a
importância da sugestividade do título. "Já tinha, por exemplo,
substituído o planejado título Dez Mortes Trágicas de sua obra de
estréia por Urupês; e na substituição (...) não pesou pouco o
argumento de que este era o título de um artigo seu de grande
repercussão.
" ‘Urupês’ cai como um
bólido na pasmaceira em que vegetava a literatura brasileira, marca um
acontecimento sem precedentes nas letras nacionais. Oswald de Andrade
concorda ter sido ‘Urupês’ o autêntico ‘marco zero’ do movimento
modernista, que quatro anos mais tarde deflagaria tão ruidosamente em
São Paulo."
De acordo com Edgar
Cavalheiro o artigo sobre Jeca Tatu que encerrava as páginas de "Urupês"
provocou uma enorme polêmica na imprensa. "Ao sair o livro, o Jeca
transforma-se em ‘assunto’, em ‘tema’ de debate (...) O Sr. Leônidas
Loila, por exemplo, publicou um volumizinho indignado, no qual verberava
‘essa campanha sistemática de depreciação e ridículo do homem e das
coisas do Brasil’. Campanha, dizia ele, que está transformando em nossa
Pátria ‘uma geração de céticos e de pessimistas, por um lado,
concorrendo por outro lado para o nosso descrédito no estrangeiro’.
O caboclo era o ‘ai! -jesus
nacional’. O próprio Lobato escrevera pouco antes, como que numa
previsão do que ia acontecer: ‘Em havendo caboclo em cena, o público
lambe-se todo. O caboclo é um menino Jesus étnico que todos acham
engraçadinho, mas ninguêm estuda como realidade. O caipira estilizado
das palhaçadas teatrais fez que o Brasil nunca pusesse tento nos milhões
de pobres criaturas humanas, residuais e sub-raciais, que abarrotam o
interior. Todos as tem como enfeites da paisagem, como os anões de barro
nos jardins da Paulicéia.’
Daí a surpresa, o
desconcerto. Jeca caía no meio desse otimismo róseo como um impacto. O
mais fácil era nega-lo. ‘Jeca Tatu não existe, nunca existiu em nossas
brenhas numerosas. O Sr. Monteiro Lobato fantasiou parlamente a
existência, os hábitos, as energias, as atividades dos bravos, robustos,
intrépidos e varonis caborés brasileiros... E fe-lo únicamente para
servirmos de pasto `as zombarias, `as ironias, `as chacotas invejosas
dos nossos tremebundos inimigos do Prata. Quem o dirá, concluía o
zangado articulista, que o Sr. Monteiro Lobato não foi pago para nos
denigrir?’ ‘Jeca, acentuava o Sr. Cândido Mota Filho, é a ‘reclame do
nosso descrédito’. "
Tratando do reaparecimento
de Jeca Tatu, em vários outros autores, Lajolo traça um ligeiro panorama
das diferentes feições então assumidas pelo personagem lobatiano:
"Primeiro na voz possante de Rui Barbosa, que retoma a imagem do caipira
de cócoras e a amplifica do alto da tribuna eleitoral. Revive depois com
Miguel Pereira, que faz uso dela nas campnhas sanitaristas que lidera e
as quais Lobato secunda na imprensa. E revive 25 anos mais tarde, em
1945, quando Oswald de Andrade, no discurso de encerramento do 1
Congresso Brasileiro de Escritores, faz dele metáfora da nacionalidade.
Mas é no bojo da sua segunda ressurreição, por ocasião das campanhas de
saneamento, que o próprio Lobato retoma sua criatura, focalizando-a
diferentemente, compreendendo-a agora `a luz de um outro contexto: o da
saúde pública brasileira corroída pelas epidemias."
"<<O Jeca não é assim, está
assim>> é a forma lapidar que resume o reequacionamento lobatiano da
questão. Em uma série de artigos publicados em O Estado de São Paulo,
e em 1918 enfeixados no livro O Problema Vital (...) Lobato
denuncia a ancilostomose, a leishmaniose, a subnutrição e a tuberculose
como causas da miséria do caboclo."
"No conjunto esses artigos
verberam a precariedade da saúde pública brasileira (...). Suas
entrelinhas representam também uma autocrítica deste Lobato ao Lobato
anterior, que em 1914 não soubera compreender o caboclo incendiário de
Buquira. O Lobato de agora sabe que o seu injustiçado Jeca representa
‘... milhões de criaturas que no meio de uma natureza forte e rica
songamongam rotos, esquálidos, famintos, doridos, incapazes de trabalho
eficiente, servindo apenas de pedestal aos gozadores a vida que
literatejam e politicalham nas cidades bradando para o interior
inânime’."
1919 - Em
Março começa a funcionar a editora de Monteiro Lobato.
Publica "Cidades Mortas" e
"Idéias de Jeca Tatu".
1920 -
Publica o volume de contos "Negrinha" e a novela "Os Negros".
O artigo "A Luz Córnea" é
publicado no Correio da Manhã. Neste, Lobato revela que "o Brasil de
amanhã não se elabora aqui. Vem em películas de Los Angeles, enlatado
como goiabada. E a dominação ianque vai se operando de maneira
agradável, sem que o assimilado o perceba".
1921 -
Publicação na Argentina de "Urupês", com tradução realizada por Benjamim
de Garay. O jornal "La Nacion" e outras publicações como "Plus Ultra",
"Caras y Caretas" e "Nueva Era", realizaram reportagens e estamparam
fotos sobre Monteiro Lobato.
"entre a fundação e a
falência da Editora que levava seu nome, Monteiro Lobato engendrou a sua
mais bela invenção: o Sítio do Pica Pau Amarelo, cuja história começa a
circular em 1921, ano da publicação de A menina do narizinho
arrebitado, antecipada da divulgação de alguns fragmentos na Revista
do Brasil."
Para Lajolo, com o gênero
infantil que inaugura, Lobato transfere "o know-how adquirido com livros
não infantis". "Com esse sítio, Lobato em 1921 inaugurou nossa
literatura infantil, gênero marcadamente moderno. O surgimento de livros
para crianças pressupõe uma organização social moderna, por onde
circuleuma imagem especial de infância; uma imagem que encare as
crianças como consumidoras exigentes de uma literatura diferente da
destinada para os adultos. É pois, como iniciador do gênero no Brasil,
que Lobato acrescenta mais um ponto a seu currículo de modernidade."
"Das mais importantes é a
contribuição da editora de Monteiro Lobato para a renovação das nossas
obras didáticas e infantis. O livro escolar que atualmente conhecemos -
tão bom quanto o melhor de qualquer parte - surge das reedições da
‘Gramática Expositiva’, de Eduardo Carlos Pereira. E o livro infantil
brasileiro nasce, sem dúvida, de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’.
Também no setor gráfico não é pequeno o serviço que lhe devemos. Antes
dele, praticamente não existira entre nós a obra ilustrada. Atraindo
artistas como Voltolino, J. Wasth Rodrigues, Di Cavalcanti, Rui
Ferreira, Correia Dias, e tantos outros mais, valoriza os textos com
belíssimas ilustrações, e em lugar das habituais capas tipográficas,
vistosos desenhos dão colorido e graça `as brochuras."
Segundo Edgar Cavalheiro o
livro infantil "Narizinho Arrebitado" nascera de um jogo de xadrez com
Toledo Malta na Cia. Editora Nacional. Este lhe conta a história de um
peixinho que ao passar algum tempo fora d’água desaprendera a nadar, e
que ao voltar ao rio afogara-se. Logo após o jogo, Lobato escreveu
"História do Peixinho que morreu afogado". Resolve desenvolver melhor a
história, lembra de cenas da roça, onde passou a infância: as pescarias
no ribeirão, as entradas na floresta com o pai, as brincadeiras com as
irmãs. E começa a história com Dona Benta. Porquê velha e porquê Benta
assim explica Lobato: "Velha porque se iam entrar em cena crianças, era
preciso botar uma velha, uma vovó, pois só as vovós aturam crianças e
deixam-nas fazer o que querem. E um rapaz com quem estudara, Pedro de
Castro, contava histórias de sua avó Benta." Publicou na "Revista do
Brasil" fragmentos sob o título de "Lúcia, ou a Menina do Narizinho
Arrebitado", que permaneceu como "Narizinho Arrebitado".
Precede a publicação dos
fragmentos de "Lúcia, a Menina do Narizinho Arrebitado" com a seguinte
nota: "A nossa literatura infantil tem sido, como poucas exceções,
pobríssima de arte, e cheia de artifício, - fria, desengraçada,
pretenciosa. Ler algumas páginas de certos "livros de leitura",
equivale, para rapazinhos espertos, a uma vacina preventina contra os
livros futuros. Esvai-se o desejo de procurar emoções em letra de forma;
contrai-se o horror do impresso ... Felizmente, esboça-se uma reação
salutar. Puros homens de letras voltam-se para o gênero, tão nobre como
qualquer outro".
Segundo Cavalheiro, "a
literatura infantil praticamente não existia entre nós. Antes de Lobato
havia tão somente o conto com fundo folclórico. Nossos escritores
extraíam dos vetustos fabulários o tema e a moralidade das engenhosas
narrativas que deslumbraram e enterneceram as crianças das antigas
gerações, desprezando, frequentemente, as lendas e tradições aparecidas
aqui, para apanharem nas tradições européias o assunto de suas
historietas.(...) A reação se fez, e escritores de categoria, como Olavo
Bilac, Júlio Cesar da Silva, Francisca Júlia, Coelho Neto, João do Rio,
Arnaldo de Oliveira Barreto, Tales de Andrade, Viriato Correa e outros
surgiram com produções originais, traduções ou adaptações.(...) Era
ainda muito pequena a literatura que a meninada dispunha. Os grandes
mestres do gênero - Andersen, Perrault, Collodi, Grimm, Lewis Carrol,
Burger, Barrie - permaneciam inacessíveis à imaginação e à sensibilidade
da criança brasileira. Existiam algumas traduções - do Robinson, Júlio
Verne, Cônego Schmidt, Condessa de Ségur - mas tão mal feitas que nenhum
encanto exerciam sobre a criançada".
Sobre o primeiro livro
infantil de Monteiro Lobato, escreve Breno Ferraz: "Publicou-se um livro
absolutamente original, em completo, inteiro desacordo com todas as
nossas tradições "didáticas". Em vez de afugentar o leitor, prende-o. Em
vez de ser tarefa, que a criança decifra por necessidade, é a leitura
agradável, que lhes dá a mostra do que podem os livros. (...) Com o seu
aparecimento marca-se a época em que a educação passará a ser uma
realidade nas escolas paulistas. De fato, a historieta fantasiada por
Monteiro Lobato, falando à imaginação, interessando e comovendo o
pequeno leitor, faz o que não fazem as mais sábias lições morais e
instrutivas: desenvolve-lhe a personalidade, libertando-a e animando-a
para cabal eclosão, fim natural da escola. Nesses moldes há uma grande
biblioteca a construir".
A primeira edição de
"Narizinho Arrebitado" é uma imprudência editoral com 50 mil exemplares.
Mas a tiragem esgota-se em oito ou nove meses. A presidência de São
Paulo era ocupada por Washington Luís, que ao visitar os grupos
escolares com Alarico Silveira ( Secretário do Interior), percebeu a
existência de um livro de leitura extraprograma muito requisitado pelas
crianças mas muito "sujinho e surrado". Lobato, mandara como propaganda
a todos os Grupos e Escolas do Estado, um exemplar de "Narizinho
Arrebitado". Para Washington Luís, "se este livro anda assim tão
escangalhado pelas crianças em tantos Grupos, é sinal de que as crianças
gostam deles. Indague de quem é e faça uma compra, para uso em todas as
Escolas", ordenou à Alarico Silveira. Lobato ao ser perguntado pelo
Secretário de quantos exemplares este poderia dispor, revela que quantos
o governo precisar. Fronece ao governo 30 mil exemplares. Para
Cavalheiro, "uma doida aventura comercial, converteu-se em exelento
negócio."
A primeira edição de
"Narizinho Arrebitado" traz o subtítulo de "segundo livro de leitura
para uso das escolas primárias. "E o ter dado forma didática aos
primeiros livros, mostra que mais do que as crianças, visava os
"escolares". As duas histórias que o componhem terminam com exclamações:
"Que pena! Tuda aquilo não passara de um lindo sonho..."; "Que pena! Era
sonho outra vez...". "São frases que monstram, com nitidez, que o autor
não se dera ainda conta de que iniciara a criação de um mundo." ".
Publica "Onda Verde", "O
Saci" e "Fábulas de Narizinho".
1922 -
Publica "Fábulas" e "O Marquês de Rabicó".
Além das edições escolares,
Lobato aproveita para fazer das aventuras de "Narizinho" belos álbuns
coloridos de 30 a 40 páginas, "coisas inteiramente novas em matéria
editorial".
1923 -
Publica "O Macaco que se Fêz Homem" e "Mundo da Lua".
1924 -
Publicação do artigo "A Arte Americana", que apresenta considerações
sobre o cinema: a França não soube aproveitar a invenção (cinema) que
teve em mãos. Já os americanos apoiaram a nova arte em bases
industriais.
1925 -
"Apesar da má vontade com a imprensa, é nela que ao chegar ao Rio,
encontra consolo para as suas mágoas. Escreve para ‘O Jornal’ os
diálogos com Mr. Slang, e para ‘A Manhã’, então em grande fase, além de
um punhado de artigos, o romance em folhetins, - ‘O Choque das Raças ou
O Presidente Negro".
1926 -
Entre o fim desse ano e começo de 1927 Lobato escreve inúmeros artigos
que são reunidos em livro intitulado "Opiniões". Da mesma época são
alguns dos trabalhos reunidos em "Na Antevéspera".
1927 -
Publicação de "O Circo de Escavalinho", "O noivado de Narizinho" e a " A
Cara da Coruja".
As histórias criadas após
"O casamento de narizinho" são escritas em Nova York, "vivo contraste
com a pacatez e serenidade do "Sítio" que tira do passado para a
imortalidade".
1931 -
Publicação de "Reinações de Narizinho". Agora seus escritos não são
realizados "com a mesma despreocupada pureza. Agora escreve
profissionalmente".
1932 -
Escreve "Viagem ao Céu", publica "América", e traduz "Os Contos" de
Andersen.
1933 -
Edita "Na Antevéspera" e as "Novas Reinações de Narizinho". Redige a
"História do Mundo para as Crianças e "As Caçadas de Pedrinho". Traduz
"Mowgli, o Menino Lobo", de Kipling.
O livro "História do Mundo
para as Crianças" teve reações contrárias da chefia do "Serviço das
Instituições Auxiliares da Escola", do Departamento de Educação da
Secretaria dos Negócios da Educação e Saúde Pública, do Estado de São
Paulo. Apresentam inconveniências como as ironias em torno da queima de
café do Governo, as discussões sobre Santos Dumont, e principalemnte,
contestam o tom polêmico do autor na defesa da "formação cristã" da
família brasileira. As reações também surgiram do exterior. Portugal
proibiu a obra no país e em suas colônias.
1934 -
Getúlio Vargas, novamente por intermédio de Ronald de Carvalho, convida
Lobato a estudar a hipótese de dirigir os serviços de um "Ministério" ou
de um "Departamento de Propaganda", a ser criado no seu Governo.
1935 -
Publicação do livro "Geografia de Dona Benta". Foi denunciado como "obra
deletéria, separatista," com trechos insultantes para o Brasil. Lobato
defende-se dizendo que "Dona Benta disse aos seus netos a verdade pura,
e uma verdade de conhecimento do mundo inteiro. Não há nenhum insulto ao
Brasil no fato de uma avó contar aos netos o que é verdade e todos os
adultos sabem".
1937 -
Publicação de "O Poço do Visconde". A publicação sofreu críticas, visto
que o livro afirma que havia petróleo no Brasil enquanto que os técnicos
do governo diziam que o Brasil não tinha nem poderia ter petróleo. "As
afirmativas de Visconde não passavam de heresia. Ao fogo, portanto, com
o herege. Mas dosi anos depois, em Lobato, no Estado da Bahia,
justamente no local indicado pelo Visconde, o petróleo brotou da terra."
1939 -
Inicia a colaboração para o jornal argentino "La Prensa". O primeiro
trabalho é uma síntese do progresso e da cultura brasileira, texto
pedido por Ezequiel Paz. Começa a fazer artigos semanalmente para o
jornal. Escreve entre 1939 e 1940 os artigos: "La primeira novela
americana", "Heredero de si mismo", "Je prends le soleil", "Un recuerdo
sobre Rui Barbosa", "La remolacha de Maricota", "Sueño de una mañana
tropical", "Machado de Assis", "El Nandú e las Saúvas" , "El Brasil
visto verticalmente", e muitos outros.
1941 -
Traduções: "Kim" de Kipling, "O livro de Jangal"; e "rumina longamente
seus próprios pensamentos". Cavalheiro revela que estas duas traduções
não foram apenas traduções comerciais, "mas trabalho de artista, de
admirador incondicional do original" e julga-se pago por todas as outras
traduções que fora obrigado a traduzir e do tão ingrato ofício.
No final do ano trabalha na
tradução do livro "Engines of Democracy" de Roger Burlingame.
1942 -
Escreve o artigo "A Moeda Regressiva", teoria econômica apresentada como
sugestão. O "El Economista" do México transcreve o artigo e em suas
colunas surgem várias discussões sobre o assunto.
Concretização de um novo
livro infantil: "A Chave do Tamanho" que inicialmente iria chamá-lo de
"A Revolução de Emília".
1943 -
Traduções de livros que abordam o espiritismo: "Raymond" e "Rumo às
Estrelas". Em março, recebe a notícia da Cia. Editora Nacional que as
suas tiragens já ultrapassaram o milhão e quinhentos mil exemplares.
Mais de dois terços são de literatura infantil.
Autores que foram
traduzidos por Monteiro Lobato ao longo da vida: Kipling, Jack London,
Mark Twain, Lin Yutang, Herman Melville, Conan Doyle, Saint-Exupéry,
André Maurois, Ilya Erenbourgh, Richard Wright, Ernest Hemingway, Will
Durant, Bertrand Russel, Sholem Asch, Maurice Maeterlink, Thornton
Wilder, Wells, e dezenas de outros. "Pode-se ainda afirmar ter sido
Monterio Lobato o primeiro escritor brasileiro de nomeada a reabilitar
esse gênero de trabalho intelectual, até então acobertado pelo
anonimato, ou discretamente velado por pudicas iniciais". E "Monteiro
Lobato deu novo prestígio à tradução, erguendo-a, como atividade
intelectual, ao mesmo nível da produção original".
1944 - No
final deste ano se despede, com pesar, do oficio de tradutor. Escreve à
Rangel: "Volte à sua tradução. Goze dessa delícia de que
desassisadamente eu vou me privar. Foi a tradução que me salvou depois
do meu desastre no petróleo. Em vez de recorrer ao suicídio e ao álcool
ou a qualquer estupefaciente, recorri ao vício de traduzir, e traduzi
tão brutalmente, que me acusaram lá fora de apenas assinar as traduções.
Mas era o meio de me salvar. Hoje me sinto perfeitamente curado - e por
isso abandono o remédio".
Decide pela publicação da
sua correspondência com Godofredo Rangel.
Enquanto reve as provas de
"A Barca de Gleyre", tenta convencer o amigo de publicar as suas cartas
também, "atira-se com juvenil entusiasmo à fatura de "Os Doze Trabalhos
de Hércules". Segundo Cavalheiro, "Monteiro Lobato é assim mesmo: quando
se entusiasma por qualquer idéia, a ela se atira de corpo e alma, com
uma capacidade de produção realmente extraordinária(...). O enredo é
arquitetado em longas e solitárias caminhadas. Aos amigos mais chegados
reconstitui a história, andando de lá para cá, inventando novas cenas,
intercalando frases e tiradas de efeito." Segundo o próprio Lobato: "Não
arquiteto a frase: despejo-a sobre o papel no jeito, no tom, no
rebarbativo, no elance com que me acode à pena".
"A Barca de Gleyre" é o
último livro de Lobato publicado na Cia. Editora Nacional. Estivera
junto com Otales Marcondes Ferreira na Editora desde 1918. Mas abandona
a casa que passara boa parte de sua vida para, em companhia de Artur
Neves e Caio Prado Júnior, fundar a Brasiliense, que cuidará com
prioridade os seus livros. Como não tem coragem de falar pessoalmente
com seu amigo a sua decisão, escreve-lhe uma carta: " O desenvolvimento
da Editora e a expansão do lado didático faz naturalmente que ela vá
cada vez mais perdendo o interesse pelos livros de literatura geral,
cujas edições são muitíssimo menores que as dos livros escolares. Nada
mais lógico e natural; mas como isso me afeta os interesses, venho te
propor uma modificação na nossa entente de tantos anos: você escolhe os
livros que desejar e compromete-se a reeditá-los sempre, de modo que não
haja solução de continuidade na oferta ao público; os outros livros eu
os distribuo pela Globo, José Olímpio e Brasiliense, sob condições que
eu determinarei. Desse modo tudo fica bem resolvido, a contento das
partes." Lobato se entusiasma com as possibilidades financeiras que os
livros podem lhe dar neste momento.
1945 -
Finaliza a sua última tradução, o último volume (já tinha taduzido os
outros) da "História da Civilização"de Will Durant.
Com a publicação de "Os
Doze Trabalhos de Hércules"Lobato conclui a saga infantil iniciada com
"Narizinho Arrebitado". São 39 histórias, das quais 32 originais e 7
adaptações. São quase um milhão de exemplares e os planos editorais
ainda são grandiosos: aparecerão 37 livros no mercado de língua
espanhola; os 30 volumes de "Obras Completas" estão em preparo. Já foi
traduzido para o francês, espanhol, inglês, árabe, alemão, japonês,
ídiche, italiano . Para Cavalheiro "A literatura infantil nasce, cresce
e termina por absorver-lhe todas as atividades intelectuais, sem que
para tal se preparasse conscientemente."
1946 -
Continua revendo as provas de "Obras Completas".
É lançado "Obras Completas"
no Brasil e lançado na Argentina toda a série infantil de Lobato. Sua
situação econômica se consolida.
1947 -
Percebe que falta na Argentina um livro que explique o que está
acontecendo no País. Estuda a nação e escreve "La Nueva Argentina" para
crianças com o pseudônimo de Miguel P. Garcia, editado pela Editora
Acteon. Na Argentina todos falam da clareza com que Lobato expôs às
crianças o plano quinquenal do Presidente argentino o General Peron. A
imprensa brasileira divulga o caso apresentando a obra como uma
encomenda do Governo Peron. Conclui que "ao que parece, o Sr. Monteiro
Lobato andou comendo pratos condimentados pelo impetuosos esposo da Sra.
Evita". Lobato responde: "Não se trata de nenhum negócio escuso ou
inconfessável. Trata-se de um escritor livre, libérrimo mesmo, que só
diz o que pensa e escreve o que quer, onde quer que esteja, no Brasil,
na Argentina, nos Estados Unidos."
Escreve "Zé Brasil", que
cria grande rebuliço na imprensa, pois o momento é de reação que poderia
derrotar o Partido Comunista. O livro descreve o drama de um homem rural
que assina contratos com os donos das terras dando em troca a sua
produção. É mais um Jeca Tatu mas "o artista não está presente em "Zé
Brasil". Muitos disseram que Lobato estava tomando a posição contra os
proprietários de terra ao colocar em pauta o problema agrário. Com a
reação política "Zé Brasil" é apreendido e muitos escrevem ao autor
querendo um exemplar deste livrinho que todos falam mas ninguém tem.
1948 - 2
de julho: o repórter da Rádio Record Murilo Antunes Alves o procura para
uma entrevista. Opina sobre o petróleo, sobre a política nacional e
internacional, revela o amor que tem pelas crianças e se arrepende de
ter perdido tanto tempo escrevendo para os adultos. Acha que o mundo
está mesmo perdido e que só gostaria de voltar ao mundo novamente se
fosse para escrever mais histórias para as crianças.