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1897 - Mudança para São Paulo
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| 1897 -
Passa a viver na capital paulista internado no Instituto de Ciências e
Letras. Sua mãe permanece doente. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato:
Vida e Obra . Vol.1, p:) "Que o seu pensamento está quase sempre junto ao da mãe, não padece dúvidas: ‘A senhora não teve nenhum acesso de tosse ou outra coisa no dia 18, `as 8 e meia mais ou menos? Tive um pressentimento e para ver se deu certo mando-lhe perguntar’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 48-49) "No internato a vida era divertida. ‘O Colégio, escreve êle, é bom tanto no corpo docente composto na quase totalidade de lentes, como também a respeito de disciplina, ordem, comida e o mais; a casa é um monumento de grande, porém velha e feia’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 50) |
1897 - "Lobato que já em Taubaté revelera veleidades pictórias e literárias, encontra, agora [no Instituto de Ciências e Letras], terreno mais propício para o desabrochar da vocação nascente. Surgem os jornaizinhos colegiais e as sociedades literárias. Sua presença se faz sentir desde logo: pertence ao Grêmio Literário Álvares de Azevedo, e na publicação dêste, o bimensal ‘O Patriota’, dirigido por Laudelino Barbosa, divulga pequenas composições. Colabora também n’ ‘A Pátria’, de Albino Camargo, publicando, entre outras coisas pequenos contos e crônicas." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p:50) | 1897 - "... José de Alencar, Coelho Neto, Herculano, Catulle Mendés e Daudet, uma mistura de nomes e estilos, a cuja influência não pode fugir. Joaquim Manuel de Macedo, particularmente, entusiasmou-o, e bem mais tarde lembraria a emoção do primeiro encontro: ‘Ah! A Moreninha! Li êsse romance no Colégio, escondido - e achei-o a coisa mais linda do mundo. Meu entusiasmo foi tanto que fiz todos os meus companheiros o lerem. Tivemos a nossa ‘Semana da Moreninha’, no Instituto de Ciências e Letras, com sêo Bernades como vigilante, no grande salão de estudos’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 52) | |||||||
1898 - Falece o pai de Monteiro Lobato vítima de uma congestão pulmonar. |
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| 1899 -
Falece a mãe de Monteiro Lobato. "Está então com 16 anos de idade, em plena
e impaciente adolescência. As irmãs são logo enviadas para o Colégio; êle
volta para o Internato. Não mais os dias alegres da ‘Paraíso’. Não mais o
ribeirão das animadas pescarias. Não mais, nunca mais, o doce colo materno.
Êle e as irmãzinhas são agora órfãos, que o avô recolhe e orienta, e que a
avó Anacleta já não poderá visitar como antes. O ‘mundo tinha virado’, e ao
tomar o trem de volta para a Capital, José Bento Monteiro Lobato não ignora
que a infância já se tornara uma saudade." (Edgar Cavalheiro. Monteiro
Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 56) Sentimentos: "Embora não expandisse facilmente os sentimentos que o dominavam, Juca andou por algum tempo sem ânimo para nada. Agora, nas férias, ia para a ‘Buquira’. Mas a solidão da Fazenda sóservia para aumentar a angústia e o desespero de não mais contar com a mãezinha para sover-lhes as dúvidas e aninhá-lo em seu colo. Preferia a cidade; o casarão do avô ficava a poucos quarteirões do Largo da Estação." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 56) "Tenta fixar os seus pensamentos em tumulto numa espécie de diário: ‘Solidão mental... Sinto-a completamente aqui. O cérebro embolora.’ Só resta a natureza. Abre a janela. ‘Que paisagem! Céu, serra e vale. Céu - gaze de puríssimo azul translúcido. Serra - a Mantiqueira, rude muralha de safira. Vale - o do Paraíba, tapête sem ondulações que lhe enruguem o plaino. Ao longo do vale singra uma pinta branca, vôo de giz e vôo da garça em manhã assim! Neve sôbre azul!... Súbito... - o bando. Vinham em bando alongado, ora a erguer-se uma, ora a baixar-se outras, estas ganhando a dianteira, aquelas atrasando-se. Passam a quilómetro da minha janela, tão nítidas que lhe percebo o aflar das asas. Mas... Outro bando! E outro, atrás! E outro bem longe!... Jamais vi tantas, e em tão formoso quadro. Subiam rio acima. Emigravam. Passavam. Passaram. E deixaram-me com a alma tonta de beleza, e a sonhar mil coisas...’" (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p:57) "Com o que sonha Monteiro Lobato aos dezesseis anos? Êle teve sempre a mania do diário, embora jamais tenha conseguido levar adiante, por muito tempo, os inúmeros cadernos iniciados (...) Numa dessas páginas, que intitula ‘Júlio’, traça uma espécie de auto-retrato: ‘16 anos. Belo, simpático, inteligente. Inebria-o a glória literária. Só pensa num futuro brilhante de poeta e escritor emérito. Mergulhado no pélago das idéias, ei-lo debruçado sôbre a mesa de estudos. Júlio pensa. Em quê? Júlio sonha. Com quê? Pensa naquela menina que o põe tonto e que traz cativo o seu coração de ouro. Sonha em ser poeta; em gravar em páginas imorredouras as façanhas dos heróis do tempo; sonha em legar `a Pátria um monumento que para sempre ofusque seus congêneres: um poema. Toma uma folha de papel, lança um título pomposo, delineia um conjunto, redige o sumário, dá nome aos personagens e... Lança-o na pasta para mais tarde começa-lo... Agora... Ei-lo mudado. Ei-lo entusiasmado por Carlos Magno, seu guerreiro favorito! Idealizando a conquista do mundo, Júlio traça planos de guerra, e crê ver seu nome ofuscando o dos Alexandres, Napoleões, dos Moltkes!" (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 57-58) |
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| 1901 -
Entra no comêço do século para a Faculdade de São Francisco, onde estudará
Direito. Está então com 18 anos de idade. "Reside por algum tempo numa
república da Rua Conselheiro Furtado, passa depois para a Ladeira do
Riachuelo, desta para a Alamêda dos Andradas, nº 76, pensão de uma família
taubateana; mais tarde está na Rua José Bonifácio ou no Largo do Palácio,
num velho sobradão, indo finalmente para o Cambuci, mas mudando-se logo em
seguida para a Rua Araújo até descobrir o ‘Minarete’." (Edgar Cavalheiro.
Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 61) Vida Intelectual: "O primeiro conflito sério com o avô não tarda a surgir. Os preparatórios estão no fim, e é chegado o dia da escolha da carreira a seguir. Para o Visconde não havia alternativa possível: o neto seria bacharel. Lobato insiste, pleitando a Escola de Belas Artes - quer ser pintor. Nada conseguindo por êsse lado escolhe a Escola de Engenharia. Mas naqueles tempos, para uma família tradicional, o caminho mais nobre, mais digno, mais de acôrdo com tôdas as aspirações, era o de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. E José Bento Monteiro Lobato não teve outro remédio senão capitular. Será, em tôda a sua longa vida, a única vez em que, embora contrariado, faz uma concessão."( Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 61) "O quarto do largo do palácio era dos melhores, mas o cômodo do ‘Cambuci’ proporcionou-lhe aventuras mais estranhas. Êsse cômodo passou logo a ser conhecido como ‘L’Hermitage’, pois andava lendo ‘Robert Helmont’. `A tarde Lobato costumava sair a passeio pelo bairro(...) Na volta de um dêsses passeios, introduziui-se numa rodinha de italianos, onde se falou de tudo, do papa, da língua italiana, dos dialetos, e até mesmo de literatura. ‘Sim, de literatura e eu, sequioso como estava por uma palestra, exultei de encontrar o Aurélio, um belo tipo de toscano, um anarquista, um leitor assíduo de Zola e de Kropotkine. Levei-o ao meu quarto, confessei-me também anarquista, falei da solidariedade humana, da segurança social e por fim despedimo-nos amigos’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 61-62) |
1901 -
"A passagem de Monteiro Lobato pela Academia de Direito será marcada por
poucos acontecimentos: uma conferência, um discurso, meia duzia de artigos
nos órgãos estudantis, e nada mais. Como estudante, não foi bom nem mau; o
Direito pouco lhe interessava. Estudava o necessário para passar nos exames.
‘Fiz, diria mais tarde, ato de presença na Academia, no ‘quantum satis’ para
obter diploma - mas está claro que em vez de aproveitar o miolo dos meus
lentes, aproveitei-lhes as caras, como modelos vivos das minhas
caricaturas’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra .
Vol.1, p: 62) "Inteiramente voltado para as coisas literárias, só Pedro Lessa (que lecionou ‘Filosofia do Direito’ no primeiro ano) e Almeida Nogueira (‘Economia e Finanças’, no quarto ano) falavam a linguagem que queria ouvir. Os demais (Frederico Abranches, Reynaldo Porchat, José Mariano de Camargo Aranha, José Ulpiano, Brasílio Machado, Dino Bueno, Frederico Vergueiro Steidel, Manuel Vilaboim, Amâncio de Carvalho, Ernesto Moura ou João Mendes de Almeida Júnior) não passavam de uns ‘perobas’, ou, como se diria hoje, uns chatos. Além do mais, Monteiro Lobato não tencionava usar o diploma para nada. No quartinho do Largo do Palácio, desenhava e Lê Gustave Le Bon. No Cambuci, discute anarquismo e se enfronha nos filósofos revolucionários. No ‘Minarete’, sonha obras que irão arrasar os literatos do Brás. Nas torrinhas dos ‘teatros’, solta suspiros apaixonados por Lucila Simões e ataca impiedosamente a Darclée. Nas rodinhas do "Café Guarani", ironisa superiormente, desancando reputações, ou todo enlêvo e admiração, ouve Ricardo Gonçalves declamar seus poemas." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 63) |
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| 1902 -
Um grupo de colegas decide fundar uma associação destinada a promover
sessões literárias a "Arcádia Acadêmica". Lobato logo adere `a idéia e é
eleito presidente. Lobato sobe `a "tribuna, no primeiro Onze de Agôsto, para
uma dissertação. ‘Outrora e Hoje’ é o tema escolhido. Começa fazendo um apanhando do que fôra a Academia de antigamente. Fala dos grandes vultos que nela agitaram altas idéias. Sua conclusão é a de que os meios acadêmicos se atrofiaram ‘ em contato com o vil mercantilismo que neste século invade tôdas as esferas sociais’. O Ideal, com maiúscula, desapareceu com a realização de dois grandes ideais de outrora - o 13 de Maio e o 15 de Novembro. ‘E vós, exclama o jovem calouro, bem sabeis que sem um ideal, sem um fito, sem um destino, uma geração não pode progredir. Os vultos que surgiram - mediocridades sobressaídas pela fôrça das circunstâncias - são raros, espaçados, espúrios -, lampejos de fogo fátuo. Não apareceu uma cabeça de chefe bem intencionada, bem orientada, que conduzisse a mocidade transviada do caminho perlustrado durante largos anos com tão notável brilhantismo. A sociedade acadêmica desuniu-se e perdeu a força. Desprestigiou-se e não mais foi considerada em vista da desunião e desprestígio, os dois mais terríveis cancros que podem ferir uma agremiação’ E o orador prossegue mostrando a madorra lamentável em que caíra a Academia de tantas tradições e tantas lutas. Com excessão do ligeiro estremecimento tido por ocasião da Revolta da Armada, quando se criou o Batalhão Acadêmico, o corpo discente parecia estar alheio ao debate de idéias que agitava o País. É certo, reconhece êle, que bruxoleiam atualmente os primeiros sintomas de uma nova fase regeneradora, mas as suas linhas estão ainda muito indecisas para que se possa formar um juízo seguro do que será ela, ‘se um dêsses clarões efêmeros que de quando em quando lançam as lampadas, ou um real e duradouro rejuvenescimento. Fala-se continua Lobato, na fundação de um grêmio, jornal ou revista, mas a mocidade de hoje indaga: para quê? Para que nos embrenharmos pelo mundo literário, artístico, científico, se a literatura, a arte, a ciência, possuem tão grande número de cultores?(...) E é apelando para a Arcádia recém-fundada, e que já em si é uma formal contradição dos tempos que correm, não seja nunca perturbada pela discórdia que tudo deturpa e corrói, que êle encerra a sua oração, lembrando as palavras ‘do sublime Herculano’: ‘Há nesta época dois caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem peripécias, mas que conduz `a prostituição da inteligência; outro, vereda estreita, tortuosa mal gradada, mas que dirige ao aplauso da própria consciência. Aquêles cujas esperanças não valem além das sombras do cemitério e aí vêem, não o tempo de sua peregrinação na terra, mas o remate da existência, que sigam a estrada fácil. Nós, porém, que guardamos para além da vida as nossas melhores esperanças, tomaremos o bordão do romeiro e iremos rasgar os pés pela vereda de espinhos’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 64-65) "Embora sem nenhuma vocação para as tricas políticas dos grêmios e associações; apesar de ser, por temperamento, avesso `as atitudes salientes, de chefe de fila, Monteiro Lobato, no entanto, logo no primeiro ano do curso, vinha ocupar a tribuna mais importante das Arcadas para, em nome dos companheiros, alertar o corpo acadêmico, conclamá-lo a prestar atenção aos bruxoleios que denunciavam os primeiros sintomas de uma nova e regeneradora fase nos costumes políticos, literários e sociais da Nação. Que se preparava entre êles? A resposta é fácil, e é o próprio Lobato quem a dá, dias depois, num artigo para o primeiro número de ‘Onze de Agôsto’. Intitulando-o ‘A Fuga dos Ideais’, começa por acentuar que ‘somente um ideal social como o foco convergente dos ideais particulares consegue manter coesiva e harmônicamente um núcleo de vontades voltadas para um mesmo ‘desideratum’. Sem um liame como êle, torna-se inviável qualquer tentativa de associação, e é essa ‘causa única da aridez dos gremios que todos notam na Academia desde o estabelecimento da República’. A verdade é que não existia, entre os estudantes, um ideal congraçador, bastante elevado, que enfeixasse as unidades esparsas, sufocanso as mil e uma dificuldades surgidas pelo atrito incessante das vaidadezinhas humanas. Quando havia escravos a libertar, o estandarte da abolição servia de sólido elo para as agremiações generosas. Logo depois foi esfraldada a bandeira da república, formaram-se partidos, dividiram-se os campos, houve forte polêmica, e o entusiasmo floresceu com exuberância. Mas tanto o 13 de Maio como o 15 de Novembro eram águas passadas. A mocidade completamente desnorteada, ‘perdera o fanal, a estrela guiadora’, ficara sem um núcleo de convergência de tôdas as aspirações, perdera, enfim, ‘o que a fazia dar as mãos e generosamente caminhar e lutar’. Desapareceram os clubes, as associações, os órgãos combativos e valentes. Daquele heróico espírito do passado são poucos os vestígios que restaram: ‘alguns corajosos abencerragens rígidos das tradições do mosteiro, que tentam assoprar as cinzas do fogo quase extinto’ (....) No entanto (...) havia um ideal capaz de a todos congregar. Que ideal seria êsse? É o próprio Lobato quem apregoa: ‘Atualmente só vemos um ideal bastante generoso, bastante amplo para acolher em seu seio tudo quanto a mocidade tiver de mais superiormente generoso, de mais finamente intelectual, de mais grandiosamente altruísta - o socialismo’. E conclui, dizendo que a ‘regeneração da humanidade pelo advento definitivo da justiça, pelo império da verdade, pela extinção da miséria, pela destruição das classes, pela moralização da moral, pela reivindicação enfim de todos os direitos postergados, é modernamente a única cousa capaz de reacender nos corações a chama vivificante da fé idealista, dessa que abala montanhas e torna possível um grêmio de estudantes’. Lobato descobrira nessa ocasião o livro de gustave Le Bon - L’Homme et les Societés’."( Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 66-68) |
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| 1903 -
"Curioso acentuar que nenhum colega da turma de Monteiro Lobato fêz parte de
suas rodas fora da Academia. Os amigos com os quais se reúne no Café
Guarani, ou nos quartos das pensões em que reside, são também, quase todos,
estudantes de Direito. Mas, com exceção de Edgar Jordão, não pertencem `a
sua turma. Ou estão mais adiantados no curso, ou mais atrasados." (Edgar
Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 73) É nesta época que Monteiro Lobato descobre o "Minarete", um chalé onde residiam Godfredo Rangel, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Artur Ramos, indo ali residir. E depois de Lobato vieram ainda outros: Tito Lívio Brasil, Albino de Camargo, Lino Moreira, Cândido Negreiros e José Antonio Nogueira. "A vida ali decorria entre piadas e risos, e altos sonhos de glórias literárias. Liam muito, discutiam muito." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 80-81) |
1903 -
"As tentativas da ‘Arcádia Acadêmica’, ou do ‘Onze de Agôsto’ não
conseguiram realizar o milagre de unir temperamentos tão díspares." Desta
forma surgiam na época grupinhos aparte. Um desses grupos se chamou o
‘Cenáculo’, do qual Lobato participou. " Relembrando alguns anos depois,
Lobato procura contar a história de seu nascimento, história bem simples,
sem lances ou imprevistos extraordinários. Havia um poeta, um filósofo, um
crítico, um orador, um jornalista, um diletante, uma alma e um talento. Uma
unica idéia imperava em cada cabeça: um vago socialismo. Em cada coração um
mesmosentimento: o amor `a arte. Essa idéia e êsse sentimento foram aos
poucos agrupando os vários temperamentos. A palavra ‘Cenáculo’ servia de
rótulo, ao grupo. O poeta chama-se Ricardo Gonçalves; o filósofo, Albino
Camargo; o diletante, Cândido Negreiros; a alma, Raul de Freitas; o talento,
Godofredo Rangel; o jornalista, Tito Lívio Brasil; o orador, Lino Moreira, e
o crítico, o próprio Lobato. Mais tarde o grupo seria acrescido de um
mítico, José Antonio Nogueira." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida
e Obra . Vol.1, pp: 73-74) "Se os estudos de Direito pouco interessam a Monteiro Lobato, a literatura, ao contrário, acaba por dominá-lo inteiramente. O encontro com o grupo do ‘Cenáculo’ deu-lhe o auditório e o ambiente necessário ao pleno desenvolvimento da inocultável vocação." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 78) "Os originais de ‘Os Lambe-Feras’ e inúmeros outros originais dos componentes do ‘Cenáculo’ andavam de mão em mão no ‘Minarete’ lidos e aplaudidos ou vaiados com barulho ensurdecedor pelo grupo, todos ‘gênios’ ainda inéditos, `a procura de uma válvula de escape para as suas expansões literárias (...) Um amigo de Lobato, Benjamim Pinheiro, iria proporcionar a todos êles aquilo que viviam sonhando. Não a revita acalentada, mas páginas impressas nas quais, com absoluta liberdade, pudessem dizer o que bem desejassem. Benjamim formara-se em Direito e fôra residir em Pindamonhangaba. Pretendia derrubar a situação dominante e eleger-se Prefeito, e, para começo de conversa, necessitava urgentemente de um órgão combativo, sem papas na língua. Lobato, que residira com Benjamim numa república, estava nêsse tempo no ‘Minarete’. ‘Pois dê ao jornal o nome de ‘Minarete’ (...) Benjamim aprovou a idéia (...) O jornal era todo ele redigido em São Paulo pelos componentes do ‘Cenáculo’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 85-86) Em 2 de Julho de 1903 é publicado o primeiro número do "Minarete". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 92) "Nas férias seguia para Taubaté. "Não fazia então outra coisa senão ler, ler, ler. ‘Leio tanto que quando vou para cama, meu cérebro continua a ler maquinalmente’. É Larmatine, Zola, Renan, Balzac, Michelet, Shakespeare, Tolstoi, Maquiavel, Oliveira Lima, Eça e tantos outros mais(...) Começa a sonhar com uma viagem ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que pensa traduzir ‘O Príncipe’, de Maquiavel, justificando assim a idéia: ‘Nossos tempos são corruptos, sem estilo e sem filosofia. Com Maquiavel bem difundido, teríamos um tratado de xadrez para uso dêstes reles amadores." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p:111) "Do Mês de Agosto até Outubro escreve na "Crônica Teatral" do jornal acadêmico "Onze de Agosto". Em uma de suas crônicas Lobato "dá o seu conceito de arte, dizendo que ‘arte é vida’, e só será artista aquêle que reproduz a sensação da vida em tôda a sua intensidade, com tudo o que ela tem de bom e de mau, de coerente e de absurdo, de feio e de formoso, de estúpido e de belo. Para êle a ‘arte é uma objetivação do subjetivo’."( Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 72) "Conta Continho Filho que nessa época a paixão pelo teatro dominava Monteiro Lobato, e que êle chegara mesmo a gravar a canivete, no poleiro do sant’Ana, o lugar que habitualmente ocupava."( Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 72) Entra num concurso de contos entre os alunos da faculdade obtendo o primeiro lugar com o trabalho "Gens Ennuyeux". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 69) "Nesta época Lobato "acomodara-se na arquitetura de Herbert Spencer, mas sem adesão incondicional. Era melhor do que Comte, mas ainda não era bem, bem, bem o que queria. Enveredou por outros filósofos... Começou a bracejar na cência, embebendo-se de positivismo, de evolucionismo, de materialismo, de darwinismo, de monismo, heterogêneamente, precipitada e loucamente, com a ânsia de um espírito que quebrou algemas e partiu em liberdade. Não sabia com certeza absoluta o que estava procurando, mas a curiosidade levava-o a devorar páginas sôbre páginas. Mas em todos só via sistemas, e no íntimo, por uma intuição cuja causa não saberia explicar, o que andava procurando era o anseio por um certo tipo de liberdade, que não havia em nenhum." (Edgar Cavalheiro, Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 78) Sentimentos: "Assim foi, conta Lobato, a primeira noite do ‘Cenáculo’: ‘As idéias borbulham no cérebro em catadupas, se entrechocam com rubro fragor. As identidades de natureza insuflaram em cada um a alma dos outros e um poderoso fluido de sugestão fazia brotar um número fabuloso de idéias. Adormecidas sob a falta de oportunidade, elas viviam em estado latente em cada cabecinha. A discussão, a excitação do momento, o entusiasmo, a corrente elétrica que fazia delirar o grupo ganha a própria impassibilidade de Albino, e tão desastrosamente, que êle quebra com o cotovelo o espelho do Cândido...’" (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 75) |
1903 - "Nas férias de Junho dá início `a troca de cartas com Godofredo Rangel, numa correspondência que vai durar quarenta anos sem interrupção." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p:111) | |||||||
| 1904 -
Monteiro Lobato "começa a jogar futebol, apaixonando-se pelo esporte (...)
‘O futebol empolgou-me de corpo e alma; escrevo crônicas de futebol e jogo.
O futebol apaixona e contunde’, comunica a Rangel." (Edgar Cavalheiro. Edgar
Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 114) Em Dezembro deste ano Monteiro Lobato recebe o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, " completando o lustro acadêmico com o mesmo desinterêsse inicial pelos estudos. ‘De Direito, depõe Augusto Sílvio, nunca falamos nas conversações, e se classficávamos os lentes era pela qualidade de sais das pilhérias, sal ático, ou sulfato de magnésia’." (Edgar Cavalheiro. Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 111) "Enquanto não chega o fim do ano, desimpedindo-o de uma vez, Monteiro Lobato afunda-se em leituras e procura uma filosofia. O destino levara-o a ler, casualmente, certa frase de Nietzsche, numa brochura que um colega trazia debaixo do braço. (...) Fôra ao livreiro em procura daquele e de outros volumes do mesmo autor (...) ‘Foi, confessaria depois, a maior bebedeira da minha vida. Aquêle pensamento terrívelmente libertador intoxicou-me. Um dos seus aforismos penetrou em meu ser como a grande coisa que eu procurava. ‘Vade Mecum? Vade Tecum.’ ‘Queres seguir-me? Segue-te.’" (Edgar Cavalheiro. Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 112) "Lobato concluiu os exames a 7 de dezembro. Resta, agora, a última formalidade: a entrega de diplomas. Imagina que a sensação - vestir a beca, encaminhar-se `a tribuna, etc. - deve ser a mesma que lhe causou a primeira calça comprida. Uma vergonha de todo mundo. Duas coisas sempre o constrangeram: as solenidades oficiais, com todos os chavões e protocolos, e a perspectiva de tornar-se alvo dos olhares curiosos e penetrantes. O rubor subia-lhe logo `as faces. Apaquenava-se ainda mais, constrangidíssimo." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 114-115) |
1904 - "Escrevendo a Rangel, não é menor o entusiasmo, ‘Considero Nietzsche o maior gênio da filosofia moderna. É o homem ‘objetivo’. Dum banho de Nietzsche saímos lavados de tôdas as cracas vindas do mundo exterior e que nos desnaturam a individualidade. Da obra de spencer saímos spencerianos; da de Kant saímos Kantistas; da de Comte, saímos comtistas - da de Nietzsche saímos tremendamente nós mesmos. Nietzsche é potassa cáustica. Tira todas as gafeiras." (Edgar Cavalheiro. Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 113) | ||||||||
| 1905 -
Monteiro Lobato volta para Taubaté. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato:
Vida e Obra . Vol.1, p: 119) "Mas Monteiro Lobato sente-se como exilado. Acabara de sair da libérrima vida estudantina de São Paulo e aquilo parecia-lhe sonolenta aldeia. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 120) "As cartas a Godofredo Rangel são fartas nesse período, e quando não está preocupado com a leitura de algum novo autor, enche-as de comentários ferinos a propósito da vidinha bêsta que está sendo forçado a levar. Seu estado de espírito oscila entre a euforia e o desalento. Eufórico quando as belas do lugar lançam-lhes olhares apaixonados. Desalentado quando, quase `a força, é metido no corpo de jurados (...) Nessas idas e vindas, é assaltado, `as vezes, pôr incontrolável desespêro. Sente que está se ‘burrificando’ com o ar dessa coisa chamada ‘interior’, capaz de arrasar qualquer criatura em poucos meses. As idéias chegam-lhe lorpas, e já não são mais aquelas idéias brilhantes e audaciosas dos tempos do ‘Cenáculo’, das tardes do ‘Minarete’, das noitadas no ‘Café Guarani’. São idéias que trazem carimbo local, idéias de boticário de roça, e que só servem para enferrujar-lhe o cérebro." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 122) |
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| 1906 -
O "ano novo lhe traz, a princípio, os mesmos disabores, o mesmo desânimo. O
diagnóstico é fácil - instabilidade, vida no ar. Saudades do ‘Cenáculo’,
sequioso como diz em carta a Tito, ‘pelo recomeçar daquelas intermináveis
palestras ao ar livre, das mútuas confidências deambulatórias pelo
viaduto’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1,
p: 123) Em março chega à cidade a jovem Maria Pureza Natividade, que viera da capital passar uma temporada em casa do avô, o velho Dr. Quirino. Lobato apaixona-se e começa a namorar a jovem. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 124) |
1906 -
Monteiro Lobato "cai na poesia, e entre março, abril e maio publica no
"Jornal de Taubaté" uma série de poemas, tendo como tema e assunto a beldade
que o coração, sobrepondo-se `a fria lógica dos raciocínios, escolhera."
(Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 124) Tradução dos livros "O Anti-Cristo" e "O Crepúsculo dos Ídolos" de Nietzsche. Estas traduções estão no arquivo da família e Lobato não as publicou pois considerava feito "só para o meu prazer" (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.2, pp: 533 e 729) |
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| 1907 -
Em Maio Monteiro Lobato chega a Areias, a fim de assumir o cargo de Promotor
Público da Comarca, e em Abril fica noivo `a revelia do avô. (Edgar
Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 128) "Lobato tem de contentar-se com a sua nomeação para Areias (...), onde escorre uma vida morna de cidadezinha qualquer", servindo-lhe como modelo para Oblivium, Itaoca e "todas as cidades mortas cuja imagem percorre os contos do escritor". (Marisa Lajolo. A Modernidade do Contra. São paulo, Brasiliense, 1985. p: 22) No "ócio de um promotor público solteiro em Areias", Lobato dedica-se `a pintura de aquarelas e em escrever "muitos dos contos posteriormente publicados em revistas e mais tarde enfeixados em Urupês". (Marisa Lajolo. A Modernidade do Contra. São paulo, Brasiliense, 1985. p: 23) Procura distrações nos arredores. "Não havia muito o que escolher, mas uma caçada na Serra da Bocaina, ou uma pescaria acompanhado de Fídias, o Delegado, tem os seus encantos, ajuda a matar o tempo." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 137) Vida Intelectual: "O serviço era pouco, práticamente nenhum. Como encher as longas horas do dia e da noite? Só havia uma saída - a leitura. ‘Encho os dias lendo, leio para me embriagar, como o bêbado bebe para esquecer. Desde que cheguei já devorei perto de 1500 páginas in 8º. E se não fizesse isso morreria de desespêro’. Ou então: ‘Estou a ler Homero na Odisséia. Vingo-me da chateza da vida areense passando o dia em plena Hélade, com Ulisses e Penélope. Que grande coisa a literatura! Sem ela a minha vida aqui conduziria irremediavelmente ao suicídio’. Nesse lugar, continua nas longas, apaixonadas e pitorescas cartas `a noiva, ‘só casado’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 133-134) "Não se entrega, no entanto, passivamente, `a opressão do ambiente, e procura distrações, inclusive tentando advogar. Consegue uma causa, a primeira e única que se tem notícia de suas atividades como bacharel em Ciências Jurídicas. Nada sensacional; em Areias já não sucediam coisas extraordinárias." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 135) "Descobre, nessa época, Kipling, e têm dêle brutal inveja: ‘Que felizes os homens que podem escrever uma novela européia, outra americana, outra indiana, outra esquimó - haurindo as tintas em observações de primeira mão, feitas nesses meios tão variados’. O contraste, para êle, é bem chocante: e é pensando em Kipling e nas suas longas andanças pelos quatro cantos do mundo, que comenta para Rangel, também vegetando num lugarejo sem importância, do interior de Minas: ‘Nós somos os inversos. Nossas capacidades embotam na mesquinhez da introspecção e na sordidez tacanha de meiozinhos roceiros e pífios onde não há caracteres fortes e sintéticos que o romance requer para não degenerar em teatrinho de Jõao Minhoca’. Ali, daquela Areias onde a meses apodrece, está convencido de que nem Shakespeare tiraria sequer um título de drama. Para Lobato, é errado supor que um artista possa criar independentemente do meio. Para êle, ‘meio pífio - obra de arte pífia’. O romance que sonhara escrever nos ócios areenses gorou, não tem ânimo sequer para tentá-lo. Em compensação encontra Dostoiewsky, e ‘Crime e Castigo’ o deslumbra." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 138-139) Lobato começa a aprofundar-se no inglês e "dá início, também, `as anotações sôbre a vidinha de Areias, a princípio pensando num romance simples e emotivo. Mas não consegue concretizá-lo." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 140) Sentimento: "Estropiado e empoeirado, o jovem Promotor aportou em Areias, e logo ao primeiro contato com a cidade teve um choque, misto de perplexidade e de assombro: ‘Areias, Rangel! Isto dá um livro `a Euclides. Areias tipo de ex-cidade, de majestade decaída. A população de Areias de hoje, vive do que Areias foi. Fogem da anemia do presente por meio duma eterna imersão no passado’. O desalento é maior nas cartas que escreve `a noiva. O lugar é muito pior do que pensara; felizmente ali estava por pouquíssimo tempo." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 131) "Anda muito inquieto, sentindo que lhe falta alguma coisa. Sabe que para combater tal inquietação, instabilidade e desassossêgo só há uma solução: o casamento. ‘Nunca senti tão imperiosa a necessidade de já estar casado, como neste últimos dias...’." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 140) |
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| 1908 -
"A 28 de Março de 1908, contando 26 anos de idade, ligou-se Monteiro Lobato
a Maria Pureza de Natividade. Embora anticatólico, casou no civil e no
religioso (...) O Casal foi ‘luademelar’ em Santos. Um belo dia, quando tomavam banho e bricavam nas ondas ‘como dois peixes nupciais’, pisaram num molusco venenosíssimo, sentiram logo uma moleza, e em seguida sobreveio uma quentura nas solas dos pés tanto do marido quanto da mulher. Depois um comichão contínuo, uma infecção, e ei-los recolhidos ao leito, pés em posição horizontal, incapazes de locomoção por todo um longo mês. Só em Junho aportam em Areias, para ali permanecerem por mais dois anos, um casal solitário, que não frequenta as famílias locais nem é por elas visitado." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 141-142) Lobato "para encher os dias de ócio, trabalha em carpinteiragem, fazendo móveis, coisas da casa, toscas, mas bonitas. Os dedos andam calejados e por longas temporadas perde o gôsto pela leitura e pela escrita." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 142) |
1908 - "No fim de 1908 descobre pequena fonte de renda: assinara o ‘Weekley Times’, e quando encontrava nêle alguma coisa interessante, traduzia e enviava para o ‘Estado de São Paulo’, que lhe pagava 10 mil-réis por colaboração. Em dezembro ganha 80 mil-réis com essa dissertação." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 143) | ||||||||
| 1909 -
Em Março nasce sua primeira filha. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato:
Vida e Obra . Vol.1, p: 143) Na vida monótona de Areias, Lobato continua escrevendo para a imprenssa, "enviando de Areias matérias e charges para diferentes jornais e revistas". Para Lajolo, uma carta ao cunhado de 1909 já expressa "indícios de uma consciência profissional incipiente", onde Lobato parece "admitir que o texto escrito é também mercadoria", aceitando "escrever por encomenda". Para Lajolo, "trata-se de uma manifestação de pragmatismo" ainda tênue que, todavia, se fortalecerá no futuro. (Marisa Lajolo. p: 24) "É deste período a paciente leitura de Aulete, do contato mais íntimo com Machado de assis, e das leituras de Camilo Castelo Branco." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 144) |
1909 - Colabora para o jornal santista, como também para a "Gazeta de Notícias" do Rio; e remete desenhos e caricaturas que o "Fon-Fon" do Rio publica. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 144) | 1909 - "Anda preocupado em ganhar dinheiro, economizar dinheiro, juntar dinheiro. O ordenado em areias é de 300 mil-réis, dá para viver com decência, mas não para enriquecer. (...) Tem muitos planos: ir para Oeste, fundar uma revista, espécie de ‘Le Rire’, escrever um livro coletando mentiras de caçadores. Idéias não faltam, não lhe faltarão jamais, mas enquanto não se fixa em nenhuma é tomado de inquietação, e agora que a filha nascera, sente que precisa tomar outro rumo. Sabe que a literatura pouco deverá esperar; só uns minguados e esporádicos níqueis. Mas a vocação é muito forte, e em Maio (...) anda `as voltas com o ‘Bocatorta’, que passa a considerar o seu conto número um. Cogita de repassar as narrativas do ‘Minarete’, práticamente inéditas. Ao enviar o ‘Bocatorta’ para Rangel opinar sôbre êle, está entusiasmado, julga ter enfim realizado um bom trabalho. Mas ao recebê-lo de volta, que decepção! ‘O meu conta agora... Que tristeza Rangel! Reli-o depois que chegou e achei-o tão seco, tão magro..." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 143) | 1909 - Lima Barreto publica "Isaías Caminha". | ||||||
| 1910 -
Em Maio nasce seu segundo filho: Edgar. (Edgar Cavalheiro. Monteiro
Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 145) O "ano finda com êle ainda Promotor Público, pai de dois filhos, e com uma sensação de frustração impossível de sopitar. Chega mesmo a escrever: ‘Hoje, que positivamente já falhei, nem mais me acodem os sonhos de outrora’. Os sonhos a que se refere são os de ordem literária, tanto assim que pensa em desistir da literatura para cuidar de algo científico - uma gramática, histórica e filosófica, ou então um vocabulário brasileiro. Mas tudo muito vago, muito sem consistência; Monteiro Lobato quer ganhar dinheiro, quer sair de Areias, a Promotoria causa-lhe engulhos. Ainda inquieto, desalentado. Dêsse estado de espírito vem tirá-lo trágica e inesperada notícia: seu avô, o Visconde de Tremembé, vítima de uma ruptura do aneurisma, acaba de falecer em Taubaté." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 146) |
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| 1911 -
"A morte do Visconde de tremembé ocasiona profundas transformações na vida
do neto, o Promotor Público de Areias, José Bento Monteiro Lobato. Agora êle
é proprietário de coisas - terras, casas, fazendas... A literatura ficará
para depois. É pelo menos o que pensa, enquanto como inventariamente cuida
do espólio." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1,
p: 149) "... a Monteiro Lobato cabe, como herança, a Fazenda Buquira, uma enorme propriedade, abrangendo 1515 alqueires de terras, que acrescidas de outras de espólio paterno, perfazem cêrca de dois mil alqueires, um fazendão mesmo naqueles tempos." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 150) "Monteiro Lobato toma a sério as novas funções, procurando conciliar duas personalidades distintas e, num certo sentido, antagônicas: o lavrador e o literato." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 151) "Instalado a partir de 1911 na sua fazenda, o proprietário Lobato empenha-se em torná-la rendosa, através de projetos que incluem a modernização da agricultura, a importação de cabras, galinhas e porcos, o recurso a especialistas, o cruzamento para melhoria da criação. Abre, além disso, novas frentes na lavoura, planta café, milho e feijão." (Marisa Lajolo. Monteiro Lobato: a Modernidade do Contra. São Paulo, Brasiliense, 1985. p: 27) |
1911- Monteiro Lobato continua a ler e escrever mas não pensa "em leitores, público, livros ou cartaz, mas mantem com Godofredo Rangel uma correspondência que gira, toda ela, em torno de obras, autores, estilos". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 154) | ||||||||
| 1912 -
Insatisfeito com a política econômica, que "ao menos na ótica dos
fazendeiros paulistas" não favorecia a lavoura, Lobato "lidera a oposição
municipal na vila Buquira." (Marisa Lajolo. Monteiro Lobato: a
Modernidade do Contra. São Paulo, Brasiliense, 1985. p: 27) Segundo Edgar Cavalheiro a política municipal da vila Buquira logo enoja Lobato: "Não nascera para suportar a caceteação dos correligionários. Quando mais o julgavam metido na luta, escrevia `a irmã: "Já ontem aturei uma visita de três horas dum eleitor. Enquanto ele comentava a minha entrada na política, eu cá comigo ia estudando meios de sair dela, e ver-me livre de visitas semelhantes." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 156) "... ele sente-se frustrado, inquieto, nem fazendeiro, nem escritor, nenhum dos sonhos realizados". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 173) |
1912 - "Só ano e pouco depois de se tornar fazendeiro é que passa a atentar para os homens que o rodeiam. Até então se preocupara mais com a natureza e os animais. Vítima no entanto, como tantos outros lavradores, do instinto depredador do colono ou agregado, medita sôbre o assunto, e de passagem anota a possibilidade de uma obra de caráter profundamente nacional tendo como centro, ou personagem principal, o caboclo, espécie de piolho da terra. Por algum tempo rumina a teoria, e em cartas e anotações o escritor que há nêle sente que algo está ‘gestando’, coisa ainda informe, inconsistente, de linhas não muito nítidas. Em fevereiro de 1912 fala do assunto como de tema já abordado anteriormente. "Já te expus, pergunta a Rangel, a minha teoria do caboclo como piolho da terra, ‘porrigo decalvans’ das terras virgens?" A idéia inicial ameaça, meses depois transformar-se numa série de contos. Mas tudo ainda muito vago muito nebuloso: "Vou ver se consigo escrever um conto, ‘o porrigo decalvans’, em que considerarei o caboclo um piolho da terra, uma praga da terra. Mas não garanto coisa nenhuma". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 172-173) | 1912 - Oswalde de Andrade regressa de Paris trazendo o Manifesto Futurista de Manetti; Lasar Segall faz sua primeira exposição em São Paulo. | |||||||
| 1913 - É publicado no Correio Paulistano o primeiro artigo que Monteiro Lobato assina com o próprio nome, intitulado "Uma Visita a Guiomar Novais". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 161) | |||||||||
| 1914 -
"A Grande Guerra tornava a vida muito difícil, não só pels restrições de
crédito, como pela irregularidade das exportações". (Edgar Cavalheiro.
Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 157) "Afunda-se em Balzac, que o assombra, e lê inúmeros autores das mais diversas tendências. E quando Rangel insinua ter ele fracassado para as letras, responde: "julgas-me então um raté pelo simples fato de não havera nas livrarias uma brochura amarela com meu nome na capa? Um rebelde nunca é raté." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 158). "Na Fazenda do Paraíso, um dia, conheci nhá Gertrude Reboque, uma velhinha que morava num rancho a beira da estrada. Pois a nhá Gertrude vivia falando num neto que significava parar ela o maior homem do mundo. Votava-me admiração incondicional. O Jeca - assim se chamava o menino portento - era um colosso aos seus olhos de avó. E de tanto falar no Jeca nós quisemos conhecê-lo. Devia ser alguma coisa de estraordinário, o tal neto de nhá Gertrude. E pedimos-lhe que aparecesse com o Jeca na casa da fazenda. Um dia o Jeca apareceu. Que decepão! Um bichinho feio, magruço, barrigudo, arisco, desconfiado, sem jeito de gente. Algo horrível. Por isso mesmo seu nome ficou na minha cabeça. Anos mais tarde, precisando dar nome a um personagem caboclo, logo me veio a tona a figura desajeitada do Jeca - o mais jeca de todos os jecas que tenho visto. Quanto ao sobrenome, o Tatu me ocorreu mais tarde. Há princípio chamei-lhe Jeca Peroba. Não soou bem. Mas lembrei-me de que poucos minutos antes um capataz da fazenda - o Chico - me falara nuns Tatus que andavam estragando uma roça de milho. Adotei-lhe o Tatu. Curioso: o Jeca, eu o conhecera de vinte anos; dos tatus só meia hora antes o capataz me havia falado. Dessa mistura, através dos anos, foi que surgiu o Jeca Tatu." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol. 2, p: 706) "Depois de tantos anos estaria mais ou menos habituado aos altos e baixos do negócio. O que, realmente, o mantém em permanente desassossêgo, é a incoercível vocação literária impossível de frutificar nos grotões de Buquira." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 158) |
1914 -
"Em Novembro de 1914 Monteiro Lobato era escritor feito, embora práticamente
inédito, pois quase tudo quanto tinha produzido até então fora divulgado com
pseudônimos". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra .
Vol.1, p: 161) Monteiro Lobato possui projetos literários que giram em torno do símbolo do "piolho da terra": " ‘Não sei como vai ser essa obra. Talvez romance. Talvez uma série de contos com uma idéia central’. A imagem do piolho torna-se obsecante: ‘Nessa obra aparecerá o caboclo com piolho da serra, tão espontâneo, tão bem adaptado como nas galinhas o piolho-de-galinha, ou como no pombo o piolho-de-pombo, ou mesmo no besouro o piolho-de-besouro - espécies incapazes de viver em outros meios. O caboclo piolho-da-serra também é incapaz de outras piolhagens que não a da serra’. Quando escreverá a obra não sabe e nem poderá prever. ‘Já te escrevi sobre isto; e se a idéia volta e insiste, é que de fato está se gestando, bem vivinha e será parida no tempo próprio." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 174) Monteiro Lobato escreve um artigo intitulado "Velha Praga" para a seção de "Queixas e Reclamações" do Jornal O Estado de São Paulo. "A direção achou-a tão bem feita, que deu-lhe inesperado destaque no corpo da folha, então a mais importante do Estado". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, pp: 161-162) |
1914 -
Neste ano Lobato escrevia a Rangel: " ‘Um feto que já me dá pontapés no
útero é a simbiose do caboclo e da terra, o caboclo considerado o mata-pau
da terra, constritor parasitário, aliado do sapé e da samambaia, um homem
baldio, inadaptável `a civilização...’ É o Jeca que começa a ganhar
contornos, ele já o tem delineado, quase pronto: ‘Começo a acompanhar o
piolho desde o estado de lêndea, noútero de uma cabocla suja fora e inçada
de superstições por dentro. Nasce por mãos de uma negra parteira, senhora de
rezas mágicas de macumba. Cresce no chão batido das choças e do terreiro,
entre galinhas, leitões e cachorros, com uma eterna lombriga de ranho
pendurada pelo nariz. Vê-lo virar menino, tomar o pito e a faca de ponta,
impregnar-se do vocabulário e da "sabedoria" paterna, provar a primeira
pinga, queimar o primeiro mato, matar com a pica-pau a primeira rolinha,
casar e passar a piolhar a serra nas redondezas do sítio onde nasceu até que
a morte o recolha’. A idéia esta cristalizada, nada mais lhe resta senão passá-la para o papel, dar-lhe formas e contornos definidos, e com um título bem sugestivo enviá-la para o jornal. Urupês é o que, com rara felicidade, lhe ocorre. O caboclo é o urupê de pau podre que vegeta no sombrio da mata." No final do ano tem o projeto de escrever um livro tendo o Jeca como tema. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 177) Segundo Edgar Cavalheiro para Monteiro Lobato o "Jeca Tatu era a mais pura expressão de todas as qualidades negativas do ser humano. Dele nada se salvava. Nem o corpo, nem o espírito." (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.1, p: 181) Quando Godofredo Rangel parece cansar-se da correspondência, Lobato se desespera pois sem as cartas sua vida se tornaria sem sentido: "Sigamos os dois, como até aqui, peripateticamente, a debater frivolidades e a repastar as misteriosas exigências mentais dos nosso eus, apesar das centenas de quilômetros que nos separam". (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra . Vol.2, p: 545) |
1914 - Início da Primeira Guerra Mundial. Anita Malfatti faz sua primeira exposição. |