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1937 - No "O Poço do Visconde" afirma que havia petróleo no Brasil

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. . 1937 - Publicação de "O Poço do Visconde". A publicação sofreu críticas, visto que o livro afirma que havia petróleo no Brasil enquanto que os técnicos do governo diziam que o Brasil não tinha nem poderia ter petróleo. "As afirmativas de Visconde não passavam de heresia. Ao fogo, portanto, com o herege. Mas dosi anos depois, em Lobato, no Estado da Bahia, justamente no local indicado pelo Visconde, o petróleo brotou da terra." . .
1938 - Manuel Lourenço Filho organiza o instituto Nacional de Estudos Pedagógicos.
1939 - Inicia a colaboração para o jornal argentino "La Prensa". O primeiro trabalho é uma síntese do progresso e da cultura brasileira, texto pedido por Ezequiel Paz. Começa a fazer artigos semanalmente para o jornal. Escreve entre 1939 e 1940 os artigos: "La primeira novela americana", "Heredero de si mismo", "Je prends le soleil", "Un recuerdo sobre Rui Barbosa", "La remolacha de Maricota", "Sueño de una mañana tropical", "Machado de Assis", "El Nandú e las Saúvas" , "El Brasil visto verticalmente", e muitos outros.
1940 - Escreve em maio carta à Getúlio Vargas sobre o petróleo no Brasil. Esta carta causará no ano de 1941 a prisão de Monteiro Lobato.
1941 - Seus bens resumem-se nos livros publicados a partir de 1918.

Sua saúde não anda muito bem após a prisão; e seu filho Edgard também não estava bem.

Monteiro Lobato é preso em 20 de março, por escrever para Getúlio Vargas uma carta sobre o petróleo no Brasil. As primeiras informações sobre o porquê da prisão declaravam que o autor fez um pedido de passaporte para a Argentina e a polícia de São Paulo percebeu nisto uma possibilidade de fuga do escritor, visto que havia um processo no Tribunal de Segurança contra Lobato.

É julgado em 8 de abril. Sua defesa é feita por Hilário Freire e Medrado Dias que apresenta o processo como algo simples: "Trata-se de uma carta particular, que o autor não divulgou, nem autorizou o destinatário (Getúlio Vargas) ou outrem a divulgar, e que portanto não produz injúria. Revela ainda notar que o convívio mental entre o autor da carta e o seu destinatário, vinha de longe: há mais de 10 anos que Monteiro Lobato dirige cartas ao Dr. Getúlio Vargas". Sobre o passaporte para a Argentina a defesa alega que Monteiro Lobato muito antes da denúncia requerera passaporte a fim de cumprir contrato comercial com uma Empresa editora argentina, com a qual convencionara a tradução e edição de suas obras infantis. O resultado foi favorável à defesa, alegando que o autor da carta não permitiu a divulgação; faltava nesta o material da injúria; o autor pensava agir na defesa do interesse público, o que o Instituto de Censura Pública aceita neste caso.

No primeiro julgamento do Tribunal de Segurança é absolvido. Mas no julgamento com o tribunal pleno é condenado a seis meses de prisão. Lobato contribuiu para tal sentença visto que logo ao receber a notícia do primeiro resultado, que provavelmente seria confirmada no segundo, prepara duas inoportunas e esperadas "bombas". Escreve a seguinte carta ao general Horta Barbosa, DD. Comandante do Conselho Nacional do Petróleo: "É profundamente reconhecido que venho agradecer a V. Excia. O grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de una tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão desta ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (A short introduction to the History of Human Stupidity). Lá fora, o tumulto humano e mil distrações sempre me iam protelando a realização desse sonho; e eu já não tinha esperança de nada, quando fui surpreendido pela denúncia do Conselho do petróleo ao Tribunal de Segurança e logo em seguida preso preventivamente (...)".

A segunda bomba foi enviada para Getúlio Vargas: "Atirei no petróleo e acertei na cadeia, o que prova bem má pontaria. Estou porém radiante visto que, a sentença do juiz Maynard fez com o general o que eu fiz ontem com uma pulga: enrolou-o bem enroladinho entre as pontas dos dedos. (...)". Escreve sobre os tribunais, política e petróleo e conclui: "o verdadeiro amigo dum chefe de Estado não e o que anda com retratinhos dele na lapela, mas sim o que desassombradamente o adverte dos crimes cometidos em seu nome.(...) Mais uma vez os meus agradecimentos, Sr. Dr. Getúlio, e sinceros votos para menos retratos nas paredes e mais coragem no coração dos que lhe escrevem". Assina como o "impenitentemente" Monteiro Lobato e pede: "Pelo amor de Deus, não mande esta carta ao Conselho do Petróleo".

Como é condenado a seis meses de prisão recebe a visita de vários amigos mas recebe também correspondência de estranhos, de admiradores anônimos, leitores e crentes no petróleo brasileiro.

O assunto religião o preocupa na prisão. Tinha como modelo Voltaire. Concordava com Spencer, que definira a lei da evolução como uma "complexidade", uma crescente heterogenização de estruturas e funcionamentos, tudo alheio, às idéias de Bem e Mal, que são relativas a despeito de todos os esforços escolásticos para que sejam absolutas. Para Lobato, "Há fenômenos, causas e efeitos, radículas condicionais e condicionadas; mas a finalidade, desígnio, é coisa que cai no "Incognoscível", de Spencer (...)". Faz a leitura do livro "Imitação de Cristo" e acha-o deprimente. Quando recebe uma carta que procura convertê-lo a doutrina de Mary Baker Eddy, responde utilizando-se das idéias de Lavoisier: "Se nada se cria, não houve criação, o Universo sempre existiu. E se não houve criação, não houve Criador com C maiúsculo - puro antropomorfismo."

Após noventa dias de prisão, o presidente assina a ordem de liberdade do autor e os jornais são proibidos de fazer referências ao caso. Ao sair "não tem ânimo para escrever novas histórias infantis, apesar das idéias magníficas que lhe ocorrem. Nem uma ligeira estadia em Taubaté- depois de 25 anos de ausência - lhe traz alegria. Continua a traduzir porque não tem outro remédio. E faz, com grande habilidade, pequenas historietas de propaganda comercial." Sobre a relação de Monteiro Lobato com propagandas e anúncios, Cavalheiro explica que este seu trabalho começou com "Jeca Tatuzinho" em propaganda de dois preparados farmacêuticos, o "Biotônico"e a "Ankilostomina Fontoura". Teve a tiragem de 22 milhões. E além disso, todos os catálogos, folhetos, prospectos e anúncios tanto da editora como das empresas de ferro e petróleo, são de sua autoria. Para a linha Fontoura, para a máquina de escrever Royal e para o Café Jardim, Lobato escreveu os slogans, revisou os textos e criou histórias. Para a casa Lotérica que possuiu "compôs deliciosos anúncios, que na época causaram grande sucesso".

Recebe a notícia da "Cia Editora Nacional" que suas tiragens já ultrapassaram o milhão de exemplares.

Dia a dia de Lobato: levanta cedo e traduz durante toda a manhã (oito horas sem interrupções). À tarde comparece na Civilização Brasileira onde atende os amigos, recebe as encomendas e cartas dos admiradores. Passa algumas horas na Cia. Editora Nacional e ao entardecer segue para uma das inúmeras salas de cinema do centro. À noite, faz visitas a qualquer dos inumeráveis amigos.

Escreve para sua mulher sobre o quanto ele a ama e sobre a prisão, após três dias de sofrimento por não saber o que acontece no mundo e principalmente por não ter como escrever. Ao receber roupas e um lápis, escreve para Dona Pureza: "Purezinha, só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com o pensamento e nunca o pensamento trabalha tanto. (...) Estou preso há quase três dias e já me parecem 3 séculos. As horas têm 60 minutos. As noites não têm fim. Sou obrigado a não fazer nada de nada. Não há o que ler - nem jornais. E a incomunicabilidade em que estou agrava tudo, porque me isola completamente do mundo exterior. Não posso falar com ninguém, nem comunicar-me com ninguém.(...) Incomunicável! Agora compreendo o horror desta palavra."

Lobato revela que com a censura nada que fale ou escreva sobre o petróleo na prisão para os inúmeros amigos que passam a visitá-lo, será publicado, "mas o essencial, raciocina, não é que o ponham em pedestais, e sim que agitem o problema, que o comentem." Escreve a Benjamim de Garay: "Estou muito bem, alegre e satisfeito, pois isto só serve para por em foco a causa do petróleo"; e ainda a Geraldo Serra: "Se alguém lamentar a minha sorte, diga-lhe que não seja besta. Estou como queria, colhendo o que plantei. A causa do petróleo ganha muito mais com a minha detenção do que com o comodismo palrador aí do escritório".

Quando recebe a notícia favorável sobre o seu primeiro julgamento (no Tribunal de Segurança os casos entravam em dois julgamentos: o primeiro por um juri singular e o segundo pelo tribunal em conjunto), está envolvido com as notícias da guerra sobre a vitória dos alemães sobre os ingleses. Quando sai o resultado do Tribunal Pleno, condenando-o, Lobato está tão feliz com a derrota dos alemães "que não deu tento na notícia da sentença do tribunal pleno".

No terceiro mês de prisão começa a se aborrecer. Continua bombardeando através dos amigos o Conselho de Petróleo e o Estado Novo. Mas se sente decepcionado pois percebe que a causa do petróleo não estava ganhando nada com a sua prisão, visto que a imprensa censurada e o DIP atuando com força, as suas idéias não tinham muita difusão. Mas não deixa transparecer aos amigos a sua angústia. A prisão o impede de "ser livre como um selvagem".

Após a carta à Getúlio Vargas que propõe a criação da Cia. Nacional do Petróleo, Lobato percebe com o silêncio do presidente que nada mudará e que a ele só resta voltar às atividade intelectuais, não pensar mais em petróleo, pátria, miséria, riqueza, "nada dessas coisas que lhe consumiram tantas energias inutilmente".

O desejo de ir à Argentina, com grandes possibilidades editoriais propostas por Benjamim de Garay, continua perseguindo Monteiro Lobato. Há pedidos para os livros infantis de Lobato que somente o autor poderá fazer as adaptações necessárias. Com a prisão, a ida para a Argentina é adiada.

No final deste ano, Lobato sente uma enorme satisfação com o filme de Walt Disney, "Fantasia": "Fantasia deixou-me estarrecido. É a expressão. Estarrecido. E embaraçado para definir. Tudo tão novo, tudo tão inédito, que o vocabulário crítico usual mostra-se impotente. Disney é um tipo novo de gênio e sua arte é uma arte total e absolutamente nova, jamais prevista nem pelas mais delirantes imaginações. Até o aparecimento de Disney, o cinema não passava duma conjugação do teatro com a fotografia. Era uma representação teatral fotografada em todos os seus movimentos, cores e sons. Disney criou a grande coisa nova: a conjugação da fotografia com a imaginação. O desejo genial de Disney permite que todas as criações da imaginação possam ser fotografadas e projetadas com a riqueza dos sonhos". Sempre suspirou por um Disney "que fixasse os personagens do Sítio do Picapau Amarelo".

1941 - Traduções: "Kim" de Kipling, "O livro de Jangal"; e "rumina longamente seus próprios pensamentos". Cavalheiro revela que estas duas traduções não foram apenas traduções comerciais, "mas trabalho de artista, de admirador incondicional do original" e julga-se pago por todas as outras traduções que fora obrigado a traduzir e do tão ingrato ofício.

No final do ano trabalha na tradução do livro "Engines of Democracy" de Roger Burlingame.

1941 - Novamente Godofredo Rangel insiste com Lobato a publicação da correspondência entre os dois. Lobato concorda que "a nossa troca de cartas foi uma coisa linda".

Antes de ser preso, Monteiro Lobato aceitara um pedido da rádio B.B.C. da Inglaterra, para fazer alguns comentários (a entrevista está transcrita no volume "Prefácios e Entrevistas" sob o título de "Inglaterra e Brasil"). A entrevista foi irradiada em português, italiano, francês, inglês, alemão e outros idiomas. Começa com o poema "If" de Kipling, que descreve a fibra do povo inglês. "Em seguida Lobato demonstra a grande simpatia do povo brasileiro pela Inglaterra, único país que sempre confiou em nosso futuro, emprestando-nos capitais, ou invertendo-os no Brasil sob diversas formas. Depois fala do nosso regime político imperial, quando fizeram época estadistas de pulso, regime esse que era uma cópia do inglês. Descreve a seguir a curva clássica do despotismo sul-americano, o advento da República, a progressiva restrição da liberdade individual, fazendo ver que, se tudo havíamos perdido, restava-nos a admiração pela Inglaterra. Concluía descrevendo o regime totalitário que não passava, para ele, da ressurreição do despotismo vestido à moderna". Muitos confirmavam que o processo contra Lobato não tinha origem na carta sobre o petróleo para o Presidente mas sim nesta entrevista para a B.B.C. "Desejavam castigar, isto sim, o democrata, o inimigo do regime, o homem que falara na B.B.C.

Monteiro Lobato é preso em 20 de março. É preso pois escreve para Getúlio Vargas uma carta sobre o petróleo no Brasil. As primeiras informações sobre o porquê da prisão declaravam que o autor fez um pedido de passaporte para a Argentina e a polícia de São Paulo percebeu nisto uma possibilidade de fuga do escritor, visto que havia um processo no Tribunal de Segurança contra Lobato.

Perto do aniversário de Getúlio Vargas, apenas cinco dias após a primeira carta, escreve novamente ao presidente, pois quer oferecer um presente que nada mais é que uma idéia: a criação por parte do governo de uma Cia. Nacional de Petróleo.

Revolta-se com a Academia Brasileira de Letras pois esta elege em agosto Getúlio Vargas como membro, na vaga de Alcântara Machado. "Lobato desabafa-se em explosões impublicáveis". E "sempre considerou essa eleição uma vergonha que atingia em cheio todos os intelectuais brasileiros".

1941 - Liberdade de imprensa cassada, garantias individuais abolidas.

- As notícias sobre o petróleo eram proibidas pelo DIP e dele só eram possíveis informações através dos comunicados oficiais do "Conselho Nacional do Petróleo".

- Notícias da guerra: os alemães explodiram Hood, o maior couraçado inglês, e fere o orgulho inglês que depois luta contra Bismark e sai vitorioso.

- Governo com relações estreitas com o eixo. Segundo Cavalheiro, "vivíamos o tempo do "Bagé", do "Siqueira Campos", da passeata triunfal de um general alemão pelos nossos quartéis, da condecoração do Ministro da Guerra e altos oficiais pela Alemanha de Hitler. Estávamos, afinal, num regime fascista.".

- 6 de dezembro: os japoneses atacam Pearl Harbour, e os Estados Unidos entram em guerra com o Japão, a Alemanha e a Itália. No Brasil, a reação fascista se torna cada dia mais violenta.

- Fernando de Azevedo assume o cargo de diretor da Faculdade de Filosofia, ciência e Letras da USP até o ano de 1942.

1942 - Se diverte contando aos amigos o enredo e as principais peraltagens de Emília em seu novo livro infantil "A Chave do Tamanho". 1942 - Escreve o artigo "A Moeda Regressiva", teoria econômica apresentada como sugestão. O "El Economista" do México transcreve o artigo e em suas colunas surgem várias discussões sobre o assunto.

Concretização de um novo livro infantil: "A Chave do Tamanho" que inicialmente iria chamá-lo de "A Revolução de Emília".

1943 - Morre seu filho Edgard no dia 13 de fevereiro.

Sobre a morte do seu filho Edgard escreve que não teve sorte com seus filhos varões, visto que ambos se foram muito cedo. Para Godofredo Rangel escreve: "Impossível filhos melhores que os meus, e talvez por isso foram chamados tão cedo".

Recomeça a analisar o Espiritismo. Porém, pela saudade dos filhos ou por não esperar mais nada do mundo começa a freqüentar sessões. Suas conversas, segundo Cavalheiro sempre falavam sobre a morte ou em coisas do Além.

Lamenta ter vendido a fazenda, porque lá não havia rádio e repórteres querendo saber o que ele pensa sobre determinado assunto.

1943 - Traduções de livros que abordam o espiritismo: "Raymond" e "Rumo às Estrelas". Em março, recebe a notícia da Cia. Editora Nacional que as suas tiragens já ultrapassaram o milhão e quinhentos mil exemplares. Mais de dois terços são de literatura infantil.

Autores que foram traduzidos por Monteiro Lobato ao longo da vida: Kipling, Jack London, Mark Twain, Lin Yutang, Herman Melville, Conan Doyle, Saint-Exupéry, André Maurois, Ilya Erenbourgh, Richard Wright, Ernest Hemingway, Will Durant, Bertrand Russel, Sholem Asch, Maurice Maeterlink, Thornton Wilder, Wells, e dezenas de outros. "Pode-se ainda afirmar ter sido Monterio Lobato o primeiro escritor brasileiro de nomeada a reabilitar esse gênero de trabalho intelectual, até então acobertado pelo anonimato, ou discretamente velado por pudicas iniciais". E "Monteiro Lobato deu novo prestígio à tradução, erguendo-a, como atividade intelectual, ao mesmo nível da produção original".

1943 - Godofredo Rangel sugere novamente à Monteiro Lobato a publicação da correspondência ininterrupta de quase 40 anos entre os dois. Lobato percebe na leitura que existe uma unidade, e que "constituem o autêntico romance mental de duas formações literárias (...)"; um retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo - e o panorama de toda uma época". 1943 - As vitórias das forças democráticas começam a alterar a situação na guerra.

Situação da imprensa brasileira na época, segundo E. Cavalheiro: "Nada mais triste e melancólico do que a imprensa brasileira daquela época. A guerra ia sendo vencida dia-a-dia, mas de tal coisa somente os ouvintes da BBC estavam a par, pois no Rio, no quartel-general do DIP, as aguerridas tropas do capitão Amílcar Dutra de Meneses enfrentavam e barravam, intrépida e heróicamente, as tropas do Marechal Timoschenko".

1944 - No final deste ano se despede, com pesar, do oficio de tradutor. Escreve à Rangel: "Volte à sua tradução. Goze dessa delícia de que desassisadamente eu vou me privar. Foi a tradução que me salvou depois do meu desastre no petróleo. Em vez de recorrer ao suicídio e ao álcool ou a qualquer estupefaciente, recorri ao vício de traduzir, e traduzi tão brutalmente, que me acusaram lá fora de apenas assinar as traduções. Mas era o meio de me salvar. Hoje me sinto perfeitamente curado - e por isso abandono o remédio".

Decide pela publicação da sua correspondência com Godofredo Rangel.

Enquanto reve as provas de "A Barca de Gleyre", tenta convencer o amigo de publicar as suas cartas também, "atira-se com juvenil entusiasmo à fatura de "Os Doze Trabalhos de Hércules". Segundo Cavalheiro, "Monteiro Lobato é assim mesmo: quando se entusiasma por qualquer idéia, a ela se atira de corpo e alma, com uma capacidade de produção realmente extraordinária(...). O enredo é arquitetado em longas e solitárias caminhadas. Aos amigos mais chegados reconstitui a história, andando de lá para cá, inventando novas cenas, intercalando frases e tiradas de efeito." Segundo o próprio Lobato: "Não arquiteto a frase: despejo-a sobre o papel no jeito, no tom, no rebarbativo, no elance com que me acode à pena".

"A Barca de Gleyre" é o último livro de Lobato publicado na Cia. Editora Nacional. Estivera junto com Otales Marcondes Ferreira na Editora desde 1918. Mas abandona a casa que passara boa parte de sua vida para, em companhia de Artur Neves e Caio Prado Júnior, fundar a Brasiliense, que cuidará com prioridade os seus livros. Como não tem coragem de falar pessoalmente com seu amigo a sua decisão, escreve-lhe uma carta: " O desenvolvimento da Editora e a expansão do lado didático faz naturalmente que ela vá cada vez mais perdendo o interesse pelos livros de literatura geral, cujas edições são muitíssimo menores que as dos livros escolares. Nada mais lógico e natural; mas como isso me afeta os interesses, venho te propor uma modificação na nossa entente de tantos anos: você escolhe os livros que desejar e compromete-se a reeditá-los sempre, de modo que não haja solução de continuidade na oferta ao público; os outros livros eu os distribuo pela Globo, José Olímpio e Brasiliense, sob condições que eu determinarei. Desse modo tudo fica bem resolvido, a contento das partes." Lobato se entusiasma com as possibilidades financeiras que os livros podem lhe dar neste momento.

1944 - No final deste ano se despede, com pesar, do oficio de tradutor. Escreve à Rangel: "Volte à sua tradução. Goze dessa delícia de que desassisadamente eu vou me privar. Foi a tradução que me salvou depois do meu desastre no petróleo. Em vez de recorrer ao suicídio e ao álcool ou a qualquer estupefaciente, recorri ao vício de traduzir, e traduzi tão brutalmente, que me acusaram lá fora de apenas assinar as traduções. Mas era o meio de me salvar. Hoje me sinto perfeitamente curado - e por isso abandono o remédio".

Decide pela publicação da sua correspondência com Godofredo Rangel.

Sobre a publicação em vida da correspondência: "Há que essas cartas tinham que vir a público um dia, e sairiam cheias de coisas que lá no meu estado gasoso eu havia de arrenegar; achei, pois, que o melhor era infringir as regras e desses modo preparar para a paz minha vida no Além."

Para Cavalheiro esta correspondência "constitui caso único na história literária do Brasil, e talvez do mundo. (...) Uma correspondência entre dois amigos, praticamente em torno de um mesmo e único assunto, que tenha durado, ininterruptamente, quarenta e tantos anos, parece-nos coisa inédita. E se o fato em si é original, as consequências são originalíssimas. Pois aqui estão as "memórias" de um homem, escritas sem ele saber, compostas sem planos prévios, realizadas com um máximo de fidelidade e isenção de ânimo.(...) É de Emília, a grande personagem dos livros infantis, estes conceitos: "Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e seu também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta idéia do escrevedor." E memórias para Lobato, não significam a vida de um sujeito como ele a teve, mas como a queira ter. E apresenta a correspondência como "espelho fiel de uma amizade rara, original e comovente, reflete a formação do espírito lobateano, suas inquietações espirituais, sua preocupações artísticas e financeiras, suas descobertas nos campos da estilística ou da filosofia, sua posição, em suma, diante da arte e da vida".

Cavalheiro questiona como dois homens tão diferentes, com personalidades distintas se corresponderam por tanto tempo. A resposta é que "ambos eram visceralmente literatos". Na "Barca de Gleyre" encontramos um diálogo literário, impressões de leituras, discussões em torno de obras, estilos, tendências as mais variadas. E "o que se conclui de " A Barca de Gleyre" é que não houve entre nós ninguém mais empreendedor, mais cheio de iniciativas e idealizações".

Lobato sobre a sua recusa de ser membro da Academia Brasileira de Letras: "Cansei-me de declarar o meu desprezo pela Academia Brasileira de Letras, em entrevistas, artigos e cartas. Não me acreditaram. Pensaram que era despeito e que, em havendo possibilidades de entrar lá, eu engoliria o que disse e me atiraria ao bofe..."(carta à Jaime Adour da Câmara); "Minha idéia é que todas as distinções honoríficas neste mundo são latas vazias. A láurea acadêmica é também uma lata com que os homens se enfeitam para ficarem diferentes dos outros - dos tristes mortais que passam a vida inteira sem nem sequer uma latinha de massa de tomate no pescoço! Lata, tudo é lata nesta vida. Tudo é lata vazia, umas maiores e outras menores, como as de querosene, outras humildes, como as de sardinhas" ; "É apenas coerência, lealdade para comigo mesmo e para os próprios signatários; reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer. Pouco social que sou, a simples idéia de me ter feito acadêmico por agência minha me desassossegaria, me pertubaria o doce nirvanismo ledo e cego em que caí e me é o clima favorável à idade".

1944 - A frente alemã é interrompida na Polônia, os russos invadem a Prússia. Os aliados começam a reconquistam a Europa. Vitória dos pracinhas brasileiros na Itália. "É verdade que a imprensa continua ainda sob a rigorosa censura, mas aqui e ali o movimento de recuperação democrática começa a se fazer sentir cada dia com mais intensidade".
1945 - A saúde de Lobato piora levando-o ao hospital. É operado para retirar um quisto no pulmão. Segundo os médicos a prisão causou este mal à Lobato. 1945 - Finaliza a sua última tradução, o último volume (já tinha taduzido os outros) da "História da Civilização"de Will Durant.

Com a publicação de "Os Doze Trabalhos de Hércules"Lobato conclui a saga infantil iniciada com "Narizinho Arrebitado". São 39 histórias, das quais 32 originais e 7 adaptações. São quase um milhão de exemplares e os planos editorais ainda são grandiosos: aparecerão 37 livros no mercado de língua espanhola; os 30 volumes de "Obras Completas" estão em preparo. Já foi traduzido para o francês, espanhol, inglês, árabe, alemão, japonês, ídiche, italiano . Para Cavalheiro "A literatura infantil nasce, cresce e termina por absorver-lhe todas as atividades intelectuais, sem que para tal se preparasse conscientemente."

1945 - Lobato participa do Congresso realizado em São Paulo que reuniu escritores de todos os Estados que declararam as insatisfações com o governo. Lobato é muito requisitado mas suas palavras não são publicadas devido à censura.

Com o fim do Estado Novo, Lobato faz uma entrevista ao jornalista Tulman Neto com declarações sobre a liberdade de expressão, elogios a ordem socialista e à Luís Carlos Prestes, trata da inflação monetária, da mentira estado-novista, fala com simpatia da experiência soviética. A entrevista é publicada pelo "Diário de São Paulo", que a reproduziu à pedidos e foi publicada em seguida em outros jornais.

Frequentemente os jornalistas procuram-no para falar sobre tudo. Segundo Cavalheiro "todos queriam ler o que Lobato dizia. A explicação não tem mistérios: ninguém, tanto quanto ele, sabia ser tão franco e pessoal no zurzir vícios e mazelas(...)". Quando não está com os repórteres, está em comissões de estudantes, comitês de operários, políticos, ou gente do povo, amigos e admiradores. Às vezes se desespera com os compromissos pois os pequenos leitores querem mais livros. Monteiro Lobato não gosta mesmo é de realizar discursos ou conferências. As entrevistas que espalhou pela imprensa foram reunidas por Lobato no volume "Prefácios e Entrevistas", "dando preferência às mais substanciosas, aquelas nas quais expôs idéias próprias sobre os grandes problemas do momento, ou então as puramente biográficas". As suas entrevistas não se restringem a um ou dois temas, "pelo espiríto inquieto do entrevistado".

É sempre muito requisitado para entrevistas e também para prefácios. "A todos ia atendendo pacientemente".

Revela em carta à Godofredo Rangel que pretende levar "Dona Benta e seu pessoalzinho para Roma".

Considera os "grandes prêmios" da vida as cartas que recebe diariamente de crianças de todos os pontos do Brasil e da América Latina. As cartas revelam o entusiasmo das crianças com as suas histórias; pedidos de autógrafos e fotos do autor; são inúmeros os pedidos para conhecer o "Sítio" ou para participar de uma aventura com os personagens. O autor sempre atendia aos pedidos das crianças. Há também os criadores de histórias que lhe sugerem assuntos, novas viagens, indicam livros a serem traduzidos. Outro setor curioso nas cartas, são os convites e oferecimentos: convites para os personagens comparecerem à festas de aniversário; comunicações de que o autor é o patrono de uma Biblioteca Infantil, Grêmio Escolar, Clube de Leitura. As mães também escreviam para Lobato, as antigas leitoras, que precisam revela-lo o sentimento que possuem, de amizade e gratidão.

1945 - Fim do Estado Novo.
1946 - Lobato já se recuperou da operação.

Lobato "sem mais esperanças no Brasil, achando que por aqui tudo andava podre, e que seriam necessárias inúmeras gerações para reparar o mal feito ao país, com a ditadura do Estado Novo e a ditadura disfarçada que se iniciava, o escritor só pensa em exilar-se. A Argentina agora é uma idéia fixa."

Quer realizar o seu grande sonho: viajar pelo Pacífico, Andes até o México, sem pressa.

1946 - Continua revendo as provas de "Obras Completas".

É lançado "Obras Completas" no Brasil e lançado na Argentina toda a série infantil de Lobato. Sua situação econômica se consolida.

1946 - Admira literatos como os cronistas Rubem Braga e Raquel de Queiroz, os romancistas Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, os ensaístas Gilberto Freire e Lúcia Miguel Pereira. 1946 - A presidência é ocupada por Eurico Gaspar Dutra.
1947 - Retorna ao Brasil dia 8 de junho. Comove-se com a recepção e diz que voltara "forçado pelas saudades da língua, dos bate-papos intermináveis, das conversas para boi dormir, e outros "caldos de goiaba". Caio Prado lhe proporciona um apartamento no mesmo prédio da Editora.

Para realizar sua viagem pelo Peru, lê Prescott e Garcilaso para ambientar-se. Porém, com o crescente interesses pelos acontecimentos no Brasil e sua saúde obrigam-no a ir adiando a sua tão sonhada viagem. No final de fevereiro decide voltar à sua terra.

1947 - Percebe que falta na Argentina um livro que explique o que está acontecendo no País. Estuda a nação e escreve "La Nueva Argentina" para crianças com o pseudônimo de Miguel P. Garcia, editado pela Editora Acteon. Na Argentina todos falam da clareza com que Lobato expôs às crianças o plano quinquenal do Presidente argentino o General Peron. A imprensa brasileira divulga o caso apresentando a obra como uma encomenda do Governo Peron. Conclui que "ao que parece, o Sr. Monteiro Lobato andou comendo pratos condimentados pelo impetuosos esposo da Sra. Evita". Lobato responde: "Não se trata de nenhum negócio escuso ou inconfessável. Trata-se de um escritor livre, libérrimo mesmo, que só diz o que pensa e escreve o que quer, onde quer que esteja, no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos."

Escreve "Zé Brasil", que cria grande rebuliço na imprensa, pois o momento é de reação que poderia derrotar o Partido Comunista. O livro descreve o drama de um homem rural que assina contratos com os donos das terras dando em troca a sua produção. É mais um Jeca Tatu mas "o artista não está presente em "Zé Brasil". Muitos disseram que Lobato estava tomando a posição contra os proprietários de terra ao colocar em pauta o problema agrário. Com a reação política "Zé Brasil" é apreendido e muitos escrevem ao autor querendo um exemplar deste livrinho que todos falam mas ninguém tem.

1947 - Escreve uma carta para Luís Carlos Prestes a propósito das eleições realizadas em São Paulo que elegeram Ademar de Barros, do Partido Comunista, para a presidência do Estado. Na carta, Lobato recoloca o líder em seu lugar de destaque pois as suas ações após o ato errôneo de aceitar Getúlio Vargas foram muito bem vistas pelo escritor. Carta de 2 de fevereiro de 1947.

Um de seus últimos atos políticos é a carta que escreve a Caio Prado Júnior, quando este se encontrava na prisão por ter assinado um manifesto em defesa da autonomia de São Paulo.

A morte é o seu tema mais recorrente. A correspondência com Rangel a partir deste ano " deixa-nos a impressão de que o escritor nõa fazia outra coisa senão preparar-se para a morte: "Daqui por diante, diz ele, o que tenho a fazer é arrumar a quitanda para a grande viagem, coisa que para mim perdeu a importância depois que aceitei a sobrevivência. Estou com uma curiosidade imensa de mergulhar no Além!"

1948 - Sofre de um espasmo vascular. O ataque não lhe traz paralisia ou distúrbios, porém deixa no escritor uma alexia. "Lobato enxergava perfeitamente, podia acompanhar com o dedo o contorno das letras impressas na capa de um dos seus livros. Não era capaz, no entanto, de relacionar os símbolos gráficos com o seu significado". O começo é bem difícil para o autor que se considera no grupo escolar. Mas com algumas semanas começa a melhorar.

3 de julho: almoça com amigos revela que no dia seguinte não poderiam se encontrar pois caso o procurassem só encontrariam um cadáver. E repete o que disse a um jornalista anteriormente: "Meu cavalo está cansado, querendo cova, e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final". À noite é visto na Livraria Brasiliense cercado de admiradores. Morre às quatro da manhã de um espasmo vascular que o atacou enquanto dormia.

1948 - 2 de julho: o repórter da Rádio Record Murilo Antunes Alves o procura para uma entrevista. Opina sobre o petróleo, sobre a política nacional e internacional, revela o amor que tem pelas crianças e se arrepende de ter perdido tanto tempo escrevendo para os adultos. Acha que o mundo está mesmo perdido e que só gostaria de voltar ao mundo novamente se fosse para escrever mais histórias para as crianças. 1948 - Última carta que escreve é à seu neto Rodrigo, revelando que já está muito cansado e que em breve mudará para o outro mundo.

2 de julho: o repórter da Rádio Record Murilo Antunes Alves o procura para uma entrevista. Opina sobre o petróleo, sobre a política nacional e internacional, revela o amor que tem pelas crianças e se arrepende de ter perdido tanto tempo escrevendo para os adultos. Acha que o mundo está mesmo perdido e que só gostaria de voltar ao mundo novamente se fosse para escrever mais histórias para as crianças.



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